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VIDAS SEM MEDIDA Em um romance de abrir riso e espalhar pensamento, a gaúcha Claudia Tajes cria personagens ordinários, poéticos, frustrados, sedutores, doídos, apaixonantes
 Claudia Tajes: "A felicidade é uma coisa que está sempre rondando.”
Márcio Vassallo
No seu novo romance, VIDA DURA, Leonel de Moura Brizola Coelho vê tudo dar errado no amor e no trabalho, até se tornar doador de sêmen profissional. Como é que o Leonel começou a ganhar vida dentro de você? Eu li um conto do Pedro Juan Gutierrez onde ele era obrigado a fazer um espermograma, pressionado pela mulher que não conseguia engravidar. Eram apenas algumas linhas onde ele se via diante da solidão e da obrigação de realizar o exame em uma cabine impessoal de laboratório. Li o conto e passei dias pensando na incrível, desumana dificuldade que um homem teria para fazer da coleta de sêmen sua profissão. E assim foi se desenhando o Leonel.
Os nomes dos seus personagens casam muito bem com a pele de cada um deles. Leonel carrega o peso de um nome tão marcante, dado pelo pai - que o ignora cada vez mais; Dienifer é uma mocinha reprimida e cheia de vontades secretas; Black Barbie é a desejada recepcionista de uma loja de brinquedos. Você cria o nome antes do personagem, cria o personagem antes do nome, ou os dois costumam nascer juntos? O nome Leonel de Moura Brizola Coelho nasceu junto com o personagem. E só depois do livro terminado é que me dei conta do duplo sentido do nome Coelho, com seu significado de reprodutor mais famoso do reino animal. Foi um ato falho praticamente fálico! Mas quase sempre os personagens vêm antes e costumo rebatizá-los muitas vezes, até encontrar o nome que combine com eles.
O que é a felicidade para você? Um encontro, uma surpresa, um sono, uma rua, um desvio, uma quentura, uma pausa, um pavio? A felicidade é uma coisa que está sempre rondando. Difícil é ver.
Em geral, o que você mais precisa fazer para ganhar um personagem, e o que um personagem mais precisa fazer para ganhar você? Um personagem me ganha quando tem conflitos e tormentos, mesmo que estes não sejam exatamente nobres. Já para eu ganhar um personagem, eu tenho que apostar nele e não posso condená-lo a uma vida burocrática, só para preencher páginas e encher lingüiça, como se diz no sul!
Sem nenhuma encheção de lingüiça, VIDA DURA é uma história cheia de buscas, cheia de frustrações, cheia de vazios. Acima de tudo, o que você busca quando escreve? Ou será que, na realidade, você é buscada, Claudia? Eu busco uma vida menos ordinária. E cada vez que for buscada, é isso também que vou estar tentando.
O que realmente torna uma vida menos ordinária? Não viver só o que vem de graça, um dia atrás do outro, apenas por obrigação. É como escrever: não pode ser só uma linha depois da outra, sem mais que letras nela.
De volta para o VIDA DURA. O livro também provoca na gente um riso de olhar para dentro, um riso doído, um riso que mexe nas nossas sombras. Para você, o humor é uma bóia, é uma ponte, é uma asa, é o quê? O humor é uma bóia daquelas coloridas, com cabeça de pato, para a gente não afundar nas nossas pequenas misérias. É o único antídoto contra o eterno perigo de alguém se levar a sério demais.
No seu livro DEZ QUASE AMORES (L&PM), você revela uma teoria, na qual as mulheres só se apaixonam por homens que as fazem rir, misturando besteiras com coisas inteligentes. O que será que o riso tem de mais sensual? Rir é prazer sem culpa, eu acho. Muito provavelmente, o único entre todos os que existem.
Fazer rir é um passo para seduzir? Certamente!
Que outras coisas são bem sedutoras para você? Escrever bem. Ficar bem e deixar os outros bem, seja do jeito que for.
Os hindus dizem que saber parar de pensar é uma benção. E eles afirmam que nós só paramos de pensar durante o riso, durante o orgasmo e durante a meditação. Bem, segundo eles, é nesses instantes que a gente se esvazia dos pensamentos e transcende. A grande arte, nesse sentido, seria manter a transcendência depois do prazer. Também de acordo com eles, por isso é tão ruim chorar. Porque o choro é provocado pelos pensamentos que povoam a nossa cabeça. Você concorda, ou será que os hindus é que pensam demais? Os hindus devem estar certos sobre tudo, eles que há tantos milênios dominam a arte e a sabedoria do pensar. Ou, no caso, do não-pensar. Mas não podemos esquecer que os cariocas são grandes filósofos também e é a linha de pensamento deles, mais desencanada e simplificada, que uma nativa do sul do Brasil gostaria de seguir sempre, na sua vida e nos seus livros.
Que tipo de filosofia carioca você mais tem vontade de seguir? A de não esquentar, ou não muito, pelo menos. E não aumentar os problemas, o que já deixa tudo melhor.
Filosofias à parte, Leonel de Moura Brizola Coelho fica imaginando tudo o que pode acontecer em um mesmo instante. E ele faz um monte de indagações, o tempo todo, feito uma danação que ilumina a história. Logo no início do livro, por exemplo, Leonel indaga: "Imagine quanta gente está morrendo neste exato instante. Quantos terão levado um tiro ou uma facada ou sofrido um acidente? Quantos pularam da janela ou apenas deitaram para não acordar mais? Ou então imagine quanta gente está vivendo todo tipo de coisa neste mesmo instante. Quantos homens broxaram, quantas pessoas gozaram, quantas crianças nasceram? Quantos levaram um chute na bunda, quantos acenderam um cigarro, quantos compraram algo de que nunca vão precisar, quantos estão chorando, quantos desapareceram de casa?" Que tipo de pensamento mais te perturba, que tipo de perturbação mais te faz pensar? Imaginar tudo o que eu já devia ter feito e não fiz, e que nunca vou saber se teria feito certo ou não.
Dentre outras coisas, VIDA DURA percorre os terrenos do sexo, das fantasias, das vontades que afastam e aproximam as pessoas. O escritor italiano Alberto Moravia tem uma frase que diz assim: "Antigamente as pessoas se comunicavam para fazer sexo, hoje as pessoas fazem sexo para se comunicar." Você concorda com ele? E quem sou eu para discordar do Alberto Moravia? E ele está coberto de razão, ou a gente precisa de outra forte explicação sociológica para ver tanta gente passar do desconhecimento ao sexo, depois de uma cerveja.
Qual costuma ser a reação das pessoas que já conheciam você, depois que lêem os seus livros, e qual é a reação dos leitores, depois que lhe conhecem pessoalmente? Muitos dos que não me conhecem ficam decepcionados: “Mas você é assim, tão quietinha, e escreve essas barbaridades todas? Eu te imaginava diferente!”. Quem já me conhecia, não se surpreende muito, não. Eles já estão acostumados! E a quem pergunta se as coisas que eu escrevo aconteceram comigo, sempre respondo: se tivessem acontecido, eu teria me divertido muito mais nessa vida.
Você escreve descalça, sem pudores, sem medo de meter a mão nas palavras, nos desejos, nos sentimentos, nos desatinos dos seus personagens. Tem segredo para tirar os sapatos na hora de escrever um romance? Tem que esquecer quem se é, que se tem uma mãe que vai ler tudo e um filho que não deverá ler tão cedo. Tem que perder a vergonha, mas só momentaneamente. Depois do livro publicado, é certo que ela volta.
É difícil, pelo menos para mim, pegar um livro e ficar rindo, rindo, rindo feliz. Não aquele riso de piada, com truque no final. O riso que o seu livro provoca é um riso de espelho, daqueles que a gente se reconhece, ou reconhece alguém muito próximo, ou reconhece tudo o que está na cara, tudo o que a gente pensa, mas não consegue transformar em palavras. Quando é que você percebe que conseguiu achar as palavras certas para dar vida a uma idéia, a uma imagem, a uma cena? Eu até hoje só tinha a esperança de conseguir isso. Mas agora vou começar a pensar que consegui de fato, e isso por causa da sua generosa reflexão-pergunta.
É, você conseguiu muito mesmo. Mas, afinal, quando é que você percebe que achou as palavras certas numa história? Quando eu não consigo mais reescrever e refazer, ou até consigo, mas daí nunca vou sair da mesma linha.
Até que ponto um autor precisa errar para passar verdade ao leitor? Tem textos muito certinhos, muito redondinhos, mas que não passam verdade nenhuma, você concorda? Sim, sim, sim. É difícil acreditar em histórias e personagens certinhos, onde ninguém vacila e o autor fica isento de questionar. A vida cem por cento correta só deve render biografia de político e, ainda assim, editada.
Se fosse editar a sua própria vida, o que você mais enxugaria, o que mais você esticaria, em que partes você mais botaria molho? Eu enxugaria o tempo que passei sem escrever, que foi longo demais. Eu esticaria as minhas certezas, que não passam de breves capítulos. Eu botaria mais molho em mim, como um todo.

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