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UM CORAÇÃO ÚNICO,
MAS POVOADO DE PERSONAGENS

Maria Adelaide Amaral fala sobre a sua nova minissérie,
revela como entra na alma de tantas criaturas
e diz que a paixão é uma escolha ditada pelo inacessível




Maria Adelaide Amaral: “As pessoas são minha paisagem favorita.”

Márcio Vassallo


Você tem escrito algumas das minisséries de maior sucesso da televisão brasileira, incluindo OS MAIAS, A MURALHA e A CASA DAS SETE MULHERES, essa última inspirada no romance da Leticia Wierzchowski. Como é que UM SÓ CORAÇÃO começou a bater em você?
Depois que terminei A CASA DAS SETE MULHERES, fui ao Rio de Janeiro e entrei na sala do Mário Lucio Vaz (diretor artístico da TV Globo). Ele me perguntou se eu não teria uma idéia de minissérie sobre São Paulo, para comemorar os 450 anos da cidade. Pedi ao Mário um tempinho para pensar. E então a minha proposta foi contar a história cultural de São Paulo, por meio dos seus grandes personagens, incluindo Yolanda Penteado como protagonista. Depois que a idéia foi aceita, convidei o Alcides Nogueira para trabalhar comigo nesse projeto, e ele topou. Afinal, o Alcides é um autor que conhece profundamente esse universo, e é um profissional que eu respeito muito.

Por que você resolveu contar a história de São Paulo dessa forma?
Fiz essa proposta para o Mário Lucio porque tinha escrito uma peça chamada Tarsila, que sairá em livro este ano pela editora Globo. Dediquei oito meses de pesquisa para fazer essa peça, e estava altamente familiarizada com a história de São Paulo a partir dos anos 20.

Mas nem sempre basta um autor estar familiarizado com determinada história para acreditar que ela renda uma minissérie, certo?
Sim, sim, mas além de estar familiarizada com a história, eu sabia que havia caldo, havia elementos folhetinescos para fazer uma minissérie e provocar interesse no público. Se uma história não tem esses elementos, pode ser a história mais linda do mundo que não vai conquistar o público. É preciso que haja uma trama amorosa, é preciso que a história tenha molho, é preciso que haja realmente elementos folhetinescos, para alimentar a dramaturgia. Pensamos na Yolanda Penteado, porque a vida dela reúne esses elementos. Yolanda foi amiga e uma das grandes mecenas dos modernistas. Foi casada com Ciccilo Matarazzo, criou com ele o Museu de Arte Moderna de São Paulo e a Bienal. Foi uma dificuldade enorme criar a primeira Bienal. Mas essa iniciativa pôs o Brasil no mapa mundi das artes plásticas. Além disso, Yolanda foi a princesinha do café, teve a sua fase Scarlet O´Hara, foi uma mulher cheia de projetos, cheia de paixões, cheia de vida. A Yolanda tinha tudo para ser a heroína, a mocinha da história.

Além da Yolanda Penteado, a minissérie traz Tarsila Amaral, Assis Chateaubriand, Ciccillo Matarazzo, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Oswaldo de Andrade, Santos Dummont, e vários outros nomes importantes da história cultural brasileira. Qual o grande desafio de entrar na alma dessa gente?
O grande desafio é reduzir essas criaturas à sua humana condição. O trabalho deles é excepcional, mas como pessoas eles são iguais a todo mundo. Eles são capazes das mesmas paixões, dos mesmos conflitos, dos mesmos sentimentos. Não me interesso pela liturgia dessas pessoas, me interesso realmente pelo seu lado humano.

Em uma entrevista, você já disse que UM SÓ CORAÇÃO tem personagens muito interessantes como pessoas. O que torna um personagem mais interessante para você?
O personagem é interessante para mim quando ele é cheio de conflitos, cheio de paradoxos, cheio de incoerências, cheio de indecisões, cheio de fragilidades. Isso tudo é muito interessante.

Pensamento da escritora Lya Luft: “Todos os textos de Maria Adelaide Amaral apontam para o conflito humano, sobretudo entre homens e mulheres, entre pais e filhos, entre mãe e filha, delicada obscura e escura trama difícil, de fios enredados cujas pontas muitas vezes jamais se identificam.” O que mais te puxa para esses fios?
Acho que essa é uma pergunta para o Freud...

Freud e fios à parte, o que mais te puxa para as suas histórias?
Olha, é um movimento interior que me impulsiona para a criação. Mas não tenho a menor idéia de como isso funciona. É realmente um mistério.

Por outro lado, na novela ESTRELA NUA (Record), você escreve sobre uma história de amor cheia de contrastes, entre um pianista amador e uma cantora lírica consagrada; um rapaz e uma mulher mais velha, um jovem travado, cheio de sonhos, e uma dona transgressora, transbordada de vontades; um homem cercado de gente, mas de alma suspensa e uma senhora despida de medos, mas povoada de solidão; os dois seduzidos pelas próprias diferenças. Para você, Maria Adelaide, o que realmente alimenta e o que definha uma paixão?
São os subterrâneos das criaturas. Não acredito em escolhas racionais na paixão. A paixão não é racional, ela não é ditada pela consciência. Principalmente aquelas paixões extremas, quando a gente olha para o casal e diz: “Meu Deus, o que é que a fulana viu no beltrano?” Acho que ela viu coisas sim, mas viu pelos olhos da alma. E muitas vezes a nossa alma está doente, está bastante combalida. E a pessoa vê o outro através da sua própria doença interior. Acredito que a paixão é uma escolha ditada pelo inacessível, pelo insondável, pelos nossos mais profundos terrenos, pelas camadas onde realmente não conseguimos entrar. Acho que duas pessoas sentem atração uma pela outra por causa dos seus respectivos substratos, impulsionadas pelas suas próprias zonas inacessíveis. Mas acho também que a paixão sempre serviu para alimentar a minha literatura, os meus atos de criação. A paixão me destruía psiquicamente, mas teve um papel fundamental na minha arte. Devo muito aos meus namorados filhos da puta, que alimentaram a minha criação. Tem um em especial que já me disse assim: “Puxa, você bem que podia dividir o seu copyright comigo.”

Criar também é transformar coisas ruins em boas histórias?
Sim, eu acho que sim. Essa é a grande mágica do processo de criação. Essa é a grande alquimia. Transformar chumbo em ouro foi uma meta perseguida pelos alquimistas durante séculos. O ato de criação transforma a miséria pessoal em ouro, em obra de arte. E ainda tem o mérito de ser compartilhada. A vida você compartilha com as pessoas que lhe são próximas. A arte é um enorme banquete, aberto a quem quiser, a quem puder.

Publicado pela editora Globo, seu romance de estréia, LUÍSA (QUASE UMA HISTÓRIA DE AMOR), ganhou o Prêmio Jabuti em 1986. Em uma resenha no Jornal do Brasil, Maria Isabel Borja escreve: “(...) Luísa converte-se num pretexto para que as personagens examinem suas próprias vidas, expectativas e fracassos. E é aí, possivelmente, que a habilidade de Maria Adelaide mais se destaca, pois é na estruturação do discurso das personagens, muito mais do que naquilo que narram, que a autora nos dá conhecê-las. É a partir do modo como descrevem Luísa, do ângulo pelo qual escolhem vê-la, dos argumentos de que se utilizam para defender hipóteses a seu respeito, do vocabulário e do tom que emprestam a seu discurso que o leitor desvendará a intimidade de cada uma.” Acima de tudo, o que você faz ganhar intimidade com os seus personagens?
Cada personagem tem a sua própria voz. O público precisa identificar cada personagem de acordo com o modo que se expressa, de acordo com a sua linguagem. E o autor que não consegue escutar a voz de cada um dos seus personagens, na realidade, não é um autor, principalmente quando escreve para teatro. O dramaturgo escreve com os ouvidos. Cada personagem realmente precisa ter uma voz diferente, num tom diferente.

O autor precisa dar impressão digital para a voz de cada personagem?
Exatamente. Por meio da linguagem é que o personagem expressa as suas alegrias, a sua personalidade, o seu temperamento, as suas angústias. O autor que trabalha bem com diálogos geralmente tem facilidade de imitar as pessoas, tem facilidade de reproduzir o jeito do outro...

Tem facilidade de incorporar o outro?
É isso aí, você definiu certo... Quem escreve precisa incorporar o outro.

Você nasceu no Porto, em Portugal, e veio para o Brasil aos 12 anos de idade. Que autores portugueses contemporâneos você mais gosta?
Acompanho menos do que eu deveria. Mas tem muita gente que eu gosto muito. Além do José Saramago, é claro, gosto muitíssimo do Antonio Lobo Antunes. Tem a Margarida Rebelo Pinto, que é uma autora muito interessante, que faz uma literatura muito saborosa e muito inteligente. Também tem a Fernanda Botelho, que eu adoro e pouca gente conhece.

Existe uma diferença marcante entre a literatura brasileira e a portuguesa?
Sim, existe uma diferença muito marcante entre as duas literaturas, entre as duas culturas, entre os dois idiomas. As pessoas se expressam com lógicas diferentes, com outras prioridades, com outra relação com a vida. Certa vez, uma jornalista portuguesa me disse que eu ainda tinha muito de português na minha alma. Não sei se tenho realmente, porque eu me acho tão absolutamente e tão culturalmente ligada ao Brasil, mais particularmente a São Paulo. Afinal, todos os meus trabalhos remetem a São Paulo, com exceção da CASA DAS SETE MULHERES. Mas o fato é que os portugueses são muito diferentes dos brasileiros. Eles têm outra lógica.

Em que aspectos essa lógica é mais diferente?
Ah, os portugueses têm outro modo de perguntar. Vou dar um exemplo bem primário. Estamos aqui no Brasil e, para pedir uma informação, perguntamos assim: “Por favor, esta estrada vai para o Rio de Janeiro?” E o cara nos responde se vai ou não. Mas se fizermos essa pergunta em Portugal, como o Sérgio Viotti certa vez perguntou, a resposta tende a ser diferente. Viotti perguntou: “Por favor, esta estrada vai para a Espanha?” E o português respondeu: “Pois se for vai nos fazer imensa falta.” Em outra ocasião, uma amiga minha entrou numa loja em Portugal e pediu uma lata de 1 litro de tinta de determinada marca. Então, o homem respondeu: “Não temos.” E ela retrucou: “Como você não tem, se acabei de ver as latas na vitrine?” Finalmente, o vendedor explicou: “As latas que temos são de meio litro. Você pediu 1 litro.” E ela insistiu: “Pode me dar duas latas de meio litro, é a mesma coisa.” Mas o sujeito reagiu: “Não, não é a mesma coisa, é diferente.” Outra cena comum: você entra num armarinho e pergunta: “Tem zíper?” E a pessoa responde: “Tem... mas acabou.” Significa que normalmente eles trabalham com a mercadoria, mas que naquele momento ela está em falta. Se não formulamos a pergunta da maneira que eles consideram certa, não obteremos uma resposta clara. É muito curioso. Isso também acontece muito nos Estados Unidos, na Inglaterra, e em outros países. Aqui no Brasil as pessoas estão mais acostumadas a entender as informações subentendidas nas perguntas.

Na peça Ó ABRE ALAS (Civilização Brasileira), você conta a história de Chiquinha Gonzaga. E na apresentação desse livro, Alcione Araújo escreve: “Afora outras qualidades, a mais nítida característica da dramaturgia de Maria Adelaide Amaral – e que é a pedra de toque de todo grande dramaturgo – é o incansável empenho em compreender profundamente o ser humano, o que a leva a tratá-los com ternura e compaixão – suas dores, suas frustrações, suas paixões, suas alegrias, seus sonhos, suas vitórias, suas derrotas, seus silêncios, seus suspiros.” O que é mais fundamental para um escritor chegar mais perto das pessoas, chegar mais perto do ser humano?
Bem, essa é uma questão de caráter intuitivo. Claro que depois o autor precisa trabalhar muito o texto, a linguagem, os personagens, tem que se envolver num jogo com as palavras. Mas o fundamental mesmo é o modo como você é, o modo como você olha as pessoas, a forma como você se comporta, como você vive, como você interage consigo mesmo e com o mundo. Concordo com o Alcione. Acho que ele tem razão. Tenho realmente uma grande compaixão pelos meus personagens. Gosto de mostrar como somos frágeis dentro das nossas próprias fortalezas. A realidade é que eu gosto muito do gênero humano. As pessoas são minha paisagem favorita. Não viajo para ver lugares, eu viajo para ver pessoas. Gosto de ver, rever e conhecer lugares bonitos, claro. Mas o que eu gosto mesmo é de olhar as pessoas. Sou completamente fascinada por isso.









       
 
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