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ENTRE OS BARULHOS DO SILÊNCIO
E A POESIA ESPALHADA NA CIDADE

O mineiro Carlos Herculano Lopes escreve novos livros
de puxar leitor para dentro,
cata belezas em cenas de rua e fala sobre o cheiro da sua infância



Carlos Herculano Lopes: " A leitura de um bom livro renova minha vida.”

Márcio Vassallo
Numa das mais belas crônicas do recém-lançado ENTRE BH E TEXAS (Record), você narra a viagem de ônibus de um homem e um menino. Na estrada, o filho enche o pai de perguntas, de exclamações, de espantos. E o homem responde tudo ao garoto, sempre com o mesmo sorriso e muita paciência. Para você, o que é mais espantoso no coração de um menino?
Sabe, a coisa mais espantosa no coração de um menino é essa própria descoberta do mundo, que pode acontecer de vários modos. Na crônica que você cita, essa descoberta acontece de uma forma lírica, bonita, com o menino tendo a sorte de ter um pai tranqüilo e carinhoso com ele. Mas nem sempre é assim. Para mim, pessoalmente, essa descoberta se deu de duas maneiras: uma lírica, bonita, e em contato direto com a natureza... Foi na pequena fazenda onde nasci, na cidade de Coluna, no Vale do Rio Doce, em Minas. Por outro lado, na farmácia do meu pai (na cidade não havia hospital), vi um outro lado do mundo, violento, cruel e vermelho de sangue. E eu vi esse sangue escorrer dos corpos de muitas pessoas, que chegavam lá baleadas, ou furadas de faca. Também vi o meu pai fazendo o que estivesse ao seu alcance para salvá-las. Por isso, perdi muitas noites de sono. Mas, felizmente, a literatura foi a minha grande aliada para me liberar de todos esses fantasmas.


Por falar em fantasmas, a crônica ainda é considerada como um gênero literário menor por muita gente. Em que aspectos, acima de tudo, esse é um pensamento menor?
Prefiro fazer minhas as palavras de João Paulo, meu editor aqui no caderno EM Cultura, do jornal Estado de Minas. No prefácio que fez para ENTRE BH E TEXAS, ele afirmou que a crônica é o mais brasileiro dos gêneros. Há uns três anos, comecei a escrever semanalmente uma crônica aqui no Estado de Minas, onde divido espaço com Frei Betto, Alcione Araújo, Affonso Romano de Sant´Anna, Ziraldo, Fernando Brant, e Cyro Siqueira. E olha, tenho tido uma resposta incrível dos leitores, por meio de cartas, telefonemas, e principalmente de e-mails. Eles se interagem comigo, dão palpites, dão parabéns, quando acham que fui bem, e também se zangam, quando não concordam. Em termos literários, para mim, tem sido uma resposta ímpar, que tive poucas vezes na minha carreira de escritor.

De que forma a crônica mais puxa você para dentro dela, de que modo você mais puxa uma crônica para dentro do seu olho?
A crônica é, ao mesmo tempo um desafio e uma grande viagem. Ela nasce de várias formas, e, às vezes de uma maneira menos esperada. Brincos de coco e ouro, por exemplo, que foi uma das minhas crônicas mais lidas desde que comecei a escrevê-las, surgiu por acaso, quando eu estava numa joalheria no bairro da Savassi, aqui em Belo Horizonte. Era de manhã. De repente, entrou uma mulher nessa loja, procurando por esses brincos, que são antigas jóias de Minas, da região de Diamantina. Como eu estava sem tema, e tinha de entregar a crônica na parte da tarde, resolvi escrever sobre o assunto. E estourou, com centenas de e-mails, sobretudo de mulheres. São elas, aliás, que mais têm se manifestado sobre os meus textos. Então a crônica é assim: não temos domínio sobre ela, e é bom que seja dessa maneira. Isso permite que o texto saia de uma forma espontânea, como deve ser em tal gênero.

A Moça que Corre é uma das crônicas mais apaixonantes do seu livro. Entre o deslumbramento que provoca a curiosidade e a curiosidade que provoca o deslumbramento, você acompanha os passos da sua personagem e dispara junto dela: "(...) Mas poderá sofrer a moça que corre? Ela que é tão bonita e talvez more em um daqueles apartamentos de mil metros quadrados que existem no bairro de Lourdes, tenha quatro, cinco carros na garagem, elevador privativo, e não precise se preocupar com nada, a não ser renovar o seu guarda-roupas?" Moças à parte, que personagens são mais atraentes para você?
Todos os personagens são atraentes e dão boas crônicas. É engraçado, mas depois que comecei a escrevê-las, passei também a me interessar mais pelas pessoas.

De que forma você começou a se interessar mais pelas pessoas?
Passei a ouvi-las mais, passei a observá-las mais... Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, diz que qualquer pessoa, em alguma coisa, é superior a gente, sabe mais do que a gente. E é verdade. Também Belo Horizonte, cidade onde moro desde a adolescência, passou a ter mais vida, passou a pulsar mais para mim, depois que passei a escrever minhas crônicas aqui no Estado de Minas, onde também já trabalho há tantos anos. Quando deixo a redação, na qual passo sete horas por dia, e saio de novo para as ruas, vou olhando tudo, prestando atenção em tudo, sempre com o pensamento de que uma cena ali e outra lá podem dar uma crônica. No caso de A moça que corre foi assim. Eu sempre a observava, linda, orgulhosa e sem olhar para ninguém, a correr na Praça da Assembléia, onde também faço as minhas caminhadas. Até que resolvi escrever sobre ela, a partir da minha imaginação.


Palavras suas: "Quando publiquei o meu primeiro livro, O SOL NAS PAREDES, e Roberto Drummond não só foi ao lançamento como também escreveu, para a Segunda Seção, hoje EM Cultura, um generoso texto, cuja cópia guardo como uma relíquia. Em toda a minha modesta carreira de escritor, aquele foi um momento de maior glória." O que foi mais glorioso naquele reconhecimento?
Conheci Roberto Drummond muito novo (tem uma crônica, Adeus Roberto, em ENTRE BH E TEXAS, que publiquei no Estado de Minas no dia seguinte à sua morte, em 21 de junho de 2002). Fomos grandes amigos. E como ele era muito mais velho do que eu (embora detestasse falar sua idade), aprendi muito com ele sobre livros e à própria vida. Andamos muito pelas ruas de Belo Horizonte. Tomamos muitos chopes juntos, sempre apreciando a beleza das mulheres mineiras, e também falando de futebol (do nosso Atlético Mineiro querido), e de literatura. Ele me deu dicas de leitura de grandes livros. Nunca vi, como ele, uma pessoa que acreditasse tanto na sua literatura, nos seus próprios escritos. Sua perda nos abalou muito. Mas dele fica a lembrança de um amigo querido, assim como Oswaldo França, Murilo Rubião, João Batista Jorge e Elza Beatriz, outros escritores tão queridos que também já nos deixaram.

Aliás, por falar em Roberto Drummond, no livro você lembra que ele gostava do cheiro e das mulheres de Belo Horizonte. O que as mineiras têm de mais original, mais charmoso, mais encantador?
As mulheres mineiras, sem bairrismo, são das mais belas do Brasil. Elas são muito elegantes. Uma mulher mineira, nunca sai à noite, sem antes ir em casa, tomar um bom banho, trocar de roupa, passar perfume. A mulher mineira também sabe ser discreta, mas sedutora. Mas não é fácil conquistá-la não. Como conquistar o seu coração? Eu não sei, não tenho a resposta, e creio que ninguém sabe. O único jeito é tentar. Quem sabe dá certo?

Qual é o cheiro mais sedutor de Belo Horizonte?
Para mim é aquele que às vezes ainda me vem, quando acontece de eu entrar em algum lugar, em um restaurante, por exemplo, ou mesmo andando pelas ruas, e de repente o sinto outra vez. Não sei definir qual é. Mas sei que é o cheiro da minha infância, quando eu vinha passear aqui com o meu pai, com a minha mãe, e ele vinha inteiro, fazendo-me sentir a criança mais feliz do mundo. Outro dia, encantado, senti esse cheiro de novo, ao entrar no elevador do meu prédio. Comentei com a minha mulher, e ela me disse: "Às vezes também tenho uma sensação parecida".

No livro, você cita Jorge Luís Borges: "Não é o tempo que passa, mas nós que passamos por ele." De que forma você tem passado pelo seu próprio tempo?
Cheguei a Belo Horizonte muito novo, com apenas 12 anos, e hoje já tenho 47. Portanto já sou cidadão desta cidade, que amo muito, e também estou cada vez mais ligado à minha pequena Coluna, onde volto uma vez por mês, porque ajudo à minha mãe a administrar uma pequena fazenda que temos por lá. A viagem é demorada, oito horas de ônibus. Mas o fato é que eu vejo o passar do tempo com uma certa perplexidade, e às vezes, quando penso que já vivi mais da metade da minha vida, costumo me assustar. É, mas depois eu percebo que só agora, na maturidade, estou conseguindo ser mais sereno, administrar melhor os conflitos e compreender melhor as pessoas. Então percebo que realmente tudo vale a pena.

Você costuma participar de debates, mesas-redondas, palestras e outros eventos literários abertos ao público. Do que você mais gosta nesse contato com os leitores?
Sempre vou a colégios, onde meus livros são muito adotados. Gosto muito dos adolescentes, da maneira como eles enxergam o mundo, das perguntas que fazem. Aprendo muito com eles, que já começam a me chamar de senhor. E percebo que, quando são bem orientados pelos professores, viajam fundo nos livros, e fazem trabalhos excelentes, além de perguntas que nos dão trabalho para responder, de tão espontâneas e maduras.

Tem alguma coisa que te incomoda nesses encontros?
De maneira geral eu gosto desses encontros. Falar de literatura sempre me agrada. As perguntas de sempre, tipo "onde o senhor nasceu", "quantos anos tem", "se é casado", ou coisas assim, fazem parte. E não me chateia respondê-las; até gosto. Em cada resposta é como se estivesse fazendo um treinamento. Tento ser diferente, não ficar na mesmice, e às vezes até me arrisco em contar alguma história, algum fato que me aconteceu, só para ilustrar.

Convidado pelo cineasta Paulo Thiago, você fez o argumento do filme O VESTIDO, baseado no poema O Caso do Vestido, de Carlos Drummond de Andrade. O filme foi rodado entre Minas, Rio de Janeiro e em alguns garimpos do Mato Grosso. Dentre as atrizes estão Gabriela Duarte e Ana Beatriz Nogueira. O que foi mais tentador nesse convite do Paulo Thiago?
O filme estréia em maio, quando também vamos lançar o livro, com o mesmo nome, que está saindo pela Geração Editorial. O que mais me fascinou no convite do Paulo Thiago e da Glaucia Camargos foi a oportunidade de, por meio de um texto de Drummond, no caso o belo poema Caso do Vestido, do livro A ROSA DO POVO, poder criar uma história minha (sem trair o poema), e a partir da qual a história do filme seria contada. Foi um grande desafio, mas que valeu muito a pena. Antes, o Marco Altberg já havia filmado um livro meu, SOMBRAS DE JULHO, e agora, com O VESTIDO, tenho novamente essa experiência, que é ímpar, pois a literatura e o cinema formam um par perfeito. É uma ótima parceria. Tomara que surjam outras.

Você disse que pôde criar uma história sem trair o poema do Drummond. Às vezes, para ser fiel ao texto original, de alguma forma, é preciso traí-lo?
Eu não diria traí-lo. Mas acrescentar novos elementos. Criar novos personagens, novas paisagens. Afinal, o cineasta, no caso o Paulo Thiago, precisa de um argumento que, em últimas instâncias, lhe dê muitas possibilidades para, a partir dele, fazer o roteiro do filme.

De volta para ENTRE BH E TEXAS, você conta que, durante a visita de uma turma de estudantes à redação do Estado de Minas, uma menina de uns oito anos lhe perguntou: "O senhor já escreveu algum livro sobre a sua primeira paixão?" No texto, você diz que ficou surpreso e atrapalhado, mas que mesmo assim respondeu a ela que ainda não tinha escrito, mas que aquela era uma boa idéia." Você teve, ou ainda tem, muitas primeiras paixões? Pode ser paixão de moleque descalço, paixão de escritor, paixão de moço, paixão de um bocado de coisas, de tudo o que você quiser.
Nunca tive muitas paixões. Só algumas, mas elas valeram a pena.

O que a paixão tem de mais poderosa?
O poder de renovar a vida.

Paixões à parte, de que outros modos você renova a sua própria vida?
Vou te dizer uma coisa, a leitura de um bom livro renova minha vida. Ajuda a mudá-la para melhor. Também fazer uma viagem, de preferência para longe, tem esse poder. Mas infelizmente, nos últimos tempos, isso não tem acontecido comigo. Por outro lado, às vezes surge um final de semana de folga, e eu vou para uma pequena terra que tenho em Coluna, a cidade onde nasci, no Vale do Rio Doce, aqui em Minas, onde crio umas cabeças de gado e alguns cavalos. Aí a minha vida também se renova. Nada melhor que montar num cavalo, entrar mato adentro e, aos poucos, começar a sentir aquele silêncio que, sem que a gente perceba, vai tomando conta de tudo, inclusive da alma. Sentir aquele vento puro, ouvir a passarinhada cantando, ver tantas árvores, tudo isso tem um poder renovador infinito. A rotina diária, essa sim, é terrível.

Estamos aqui falando de renovações, mas nem toda renovação é sinônimo de felicidade para todo mundo, você concorda?
Perfeitamente. Conheço pessoas que, quando acontece alguma coisa nova em suas vidas, seja em qualquer campo, elas entram em pânico. Para ser feliz, pelo menos eu penso assim, é preciso ter coragem. "Carece de ter muita coragem", como dizia Diadorim, no estupendo Grande Sertão:Veredas. Se eu sou feliz? Não sei. Mas que tenho todas as condições para isso, disso não tenho dúvida nenhuma. Se não a tenho, a culpa é minha, só minha. Mas uma coisa eu digo: luto com todas as armas para isso, empenhando o meu coração.

Em outra crônica belíssima de ENTRE BH E TEXAS você se inquieta com o barulho da máquina de escrever de um vizinho, e fala sobre uma saudade datilografada no tempo, quando a redação do Estado de Minas era povoada pela barulheira das máquinas, sobretudo lá pelas cinco, seis horas da tarde, na hora do fechamento do jornal. De que outros barulhos você sente falta na sua vida, Herculano?
Sinto falta do barulho do silêncio.

Tem silêncio que faz barulho?
Tem sim. Era o que eu sentia quando estava na fazenda, por exemplo e, no meio daquela quietude, ouvia o cantar de um pássaro, o berro de um boi, ou até o barulho de algum carro, que passa de repente. Desses sons eu sinto saudades, e às vezes procuro ouvi-los, no meio do caos em que, de uns tempos para cá, se transformou Belo Horizonte.

Por outro lado, além das donas bonitas e do cheiro da Savassi, o que esse caos tem de mais tentador, rapaz?
Belo Horizonte, como de resto todas as grandes capitais do país, infelizmente também já não é a mesma. A cidade está violentíssima, e não existe mais tranqüilidade. Já não podemos andar despreocupados pelas ruas. De fato, a violência está em todas as partes. Por outro lado, esse ar interiorano, e ao mesmo tempo universal que a cidade tem, ah, esse ar é uma coisa realmente fascinante.









       
 
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