MARQUERIDA PELO MUNDO
Com mais de 600 mil exemplares vendidos em Portugal,
publicada na Espanha, na Holanda, na Alemanha e na Bélgica,
a escritora portuguesa Margarida Rebelo Pinto
também conquista cada vez mais leitores no Brasil

Margarida Rebelo Pinto: “O amor é uma realidade incontornável.”
Márcio Vassallo
Pensamento seu: “Cada romance é o resultado de uma idéia, um conceito que vai me perseguindo ao longo do tempo, de tal forma que um dia eu digo: tenho que escrever sobre isto. De fato, eu penso que os meus livros se assentam em conceitos que vou desenvolvendo, e isso é uma herança direta da escola publicitária. E a linguagem enxuta e fluente que uso na minha escrita é herança do jornalismo.” Então, as suas idéias nascem antes dos personagens, tudo bem. Mas uma das coisas mais bonitas dos seus livros é que os personagens não estão a serviço dos conceitos da autora. Nesse sentido, de que forma a fantasia desobedece o briefing?
Na realidade, quando escrevo, a fantasia dá outro enfoque na história. Depois que começo a escrever, as personagens crescem e dominam totalmente a minha escrita. Aí elas passam a ser ainda mais importantes do que o conceito, e me fazem ir por caminhos que eu não tinha imaginado. Porque eu sou totalmente apaixonada pela condição humana. Então, a história em si não é tão importante para mim quanto a respiração das personagens. Sabe, as minhas personagens têm que respirar, elas têm que ter cheiro, elas têm que ter temperatura, entendes? Elas têm que ser como nós. Por isso, gosto de partir de estereótipos, para que todos os leitores se identifiquem. Esse é um processo inconsciente. Depois, eu as vejo, eu as sinto, e fico muito contente quando um leitor me diz que elas são que nem pessoas, que elas são muito vivas, muito reais, muito autênticas. Mas, de fato, sempre começo com um conceito. E esse conceito fica me perseguindo até eu escrever o livro. Sou como o pequeno príncipe, que diz: “Adoro resolver enigmas.” É, eu sou igual a ele. Tenho que resolver enigmas.
Você acha que sempre resolve os seus enigmas?
Eu chego perto. É assim: eu armo uma história para mostrar uma realidade e para dissertar sobre algum aspecto da condição humana.
Mas nem todos os enigmas dos seus livros precisam ser resolvidos, você concorda?
Concordo totalmente. Tem livros que deixo mais em aberto, tem livros que fecho mais. Quando fecho, é puramente intencional. SEI LÁ (Record), por exemplo, foi o meu primeiro romance e fez muitas pessoas que não liam nenhum livro passarem a ler. E eu decidi que esse livro teria um final feliz. Na época, disse ao meu editor que estava fazendo uma literatura pop. Achei que a protagonista, uma mulher com cerca de 30 anos de idade, precisava encontrar o seu caminho, ficar mais ou menos equilibrada, achar o seu porto, o seu abrigo. Porque ela é desamparada. E acho que uma mulher sozinha, em geral, é uma mulher desamparada. Sem uma família, sem uma condição estável, é muito difícil que uma mulher alcance a sua plenitude. Claro que há mulheres muito espiritualizadas que conseguem isso por diferentes caminhos. Mas a mulher é um bicho família. De um modo ou de outro, ela tem que cuidar de um companheiro, de uma companheira, de uma criança, de um cachorro, não importa quem, a mulher tem que cuidar de alguém. E também precisa ser cuidada, óbvio.
Como é que você mais entra nas mulheres dos seus livros, como é que elas mais entram em você?
As mulheres dos meus livros são muito inspiradas nas mulheres que eu conheço, ou uma parte de quem eu já fui um dia. Todo escritor é um striper. Há uns que disfarçam mais, outros disfarçam menos. Pego histórias que já vivi, questões que já me confrontei, realidades que me fizeram pensar, sofrer, ou ser feliz, e aí trabalho tudo isso no texto.
Com os seus personagens homens também é assim?
Ah, com os homens eu me arrisco e imagino muito mais. Além disso, sempre convivi com turmas de rapazes, eu converso muito com homens. Gosto de sentar numa rodinha e conversar com cinco ou seis homens. Adoro conversa de homem, cabeça de homem, mundo de homem. Porque, por mais que eu queira, eu nunca vou entender como é a cabeça de um cara.
Você já disse que o mais divertido nesse romance foi vestir a pele dos homens: pensar, falar e sentir como eles. Outro pensamento seu: “Se eu acreditasse em reecarnações, diria que esta é a minha primeira como mulher, porque toda a linguagem e o mundo masculino exercem sobre mim um grande fascínio, ao mesmo tempo em que sinto muita familiaridade com a forma como os homens pensam e agem.” O que mais te fascina, o que mais te atrai, o que mais te puxa para a linguagem, para o pensamento, para as atitudes dos homens?
É a diferença mesmo, é a estranheza. Este é um dos enigmas que mais me instigam: o que é que passa pela cabeça dos caras? O que faz um ser assim e outro ser assado, ou cozido ou grelhado, como dizemos em Portugal? Mas também me fascino muito com as mulheres, com todo mundo, com as pessoas em geral. E fico pensando: afinal, o que mais nos move?
E o que mais nos paralisa?
Sim, o que mais nos paralisa? O que nos dá medo, o que nos apaixona, o que nos perturba... Sabe, minha mãe é psicóloga e o meu pai é biólogo. Então, cada vez que acontece alguma coisa, ela dá uma explicação cognitiva e ele dá uma explicação instintiva.
E você espalha essas duas maneiras de ver o mundo pela vida dos seus personagens?
É verdade, essas duas maneiras de ver o mundo estão nas minhas personagens. Se vou escrever sobre pessoas que atacam, por exemplo, penso logo no fato de que os animais só atacam quando estão feridos, quando estão com fome, ou para defender suas crias...
Eles também atacam para defender o seu território...
Tem razão, eles também atacam para defender o seu território. E aí eu aplico tudo isso aos homens. Um dia vou escrever um ensaio sobre os animais e as pessoas. Eu acho que nós sempre podemos encontrar equiparações entre o comportamento dos bichos e o nosso comportamento.
É o que você fez no seu romance ALMA DE PÁSSARO (inédito no Brasil, publicado em Portugal pela editora Oficina do Livro), quando você entra nos processos migratórios das pessoas?
Sim, em ALMA DE PÁSSARO, eu abordo a nossa incapacidade de criar laços e relações estáveis. E também falo sobre a incapacidade de lidar com a ausência das pessoas que amamos. Acho que realmente só vale a pena falar sobre o amor e a morte, nos seus mais diversos aspectos. O resto a gente vai aprendendo. Mas o amor e a morte, de fato, são as realidades incontornáveis da vida.
O amor é uma realidade incontornável?
Incontornável, incontornável. O amor é uma coisa estranhíssima e interessantíssima. E a morte a gente não entende. Ninguém entende por que morremos.
Na orelha de NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS, Nelson Motta escreve: “A experiência de Margarida na crônica, na reportagem, no comentário, na publicidade e na universidade somada a seu sentido crítico e seu romantismo apaixonado deram-lhe uma linguagem ágil e ligeira, leve e fluente, cheia de gírias e palavrões, a serviço de histórias e personagens que levam as mulheres à imediata identificação e, ao mesmo tempo, e por isso mesmo, servem aos homens para aprender alguma coisa sobre o universo feminino em permanente transformação.” O que é mais permanente e que é que muda sem parar no universo feminino?
Gostei dessa pergunta, ela é muito boa e me faz pensar. Bem, o que é mais permanente no universo feminino é querer proteger e querer ser protegida. O que muda sem parar é a participação na sociedade, que aumenta cada vez mais. A mulher está cada vez mais independente financeiramente, ela constrói a sua própria vida. Isso é ótimo. Mas acho que acaba quase sempre se chocando com o lado afetivo.
Por quê?
Porque todo mundo espera que a mulher seja boa em tudo. Ela tem que ser boa mãe, tem que fazer ginástica, tem que se manter jovem, tem que ser equilibrada, tem que ser boa profissional, tem que ser boa na cama, tem que fazer tudo bem feito. E como as mulheres estão ganhando cada vez mais espaço no mundo, os homens têm cada vez mais medo delas. Como diz o Nelson Motta, numa frase que eu amo, “nunca se sabe o que é uma mulher.” Acho mesmo que homem tem muito medo de mulher. A mulher é um bicho estranho, é um bicho desconhecido para o homem...
Puxa, mas também é tão bom não saber, não conhecer, estranhar...
Claro, mas eu acho que esse é um pensamento dos homens bacanas, dos homens inteligentes. Eles pensam assim: “Eu já desisti de entender, mas sei que eu preciso muito e que eu gosto muito.” Aceitar o que não se entende é um grande dom.
O verbo aceitar te ensina coisas bonitas?
Olha, os verbos mais ricos, que mais me ensinam coisas, são: sonhar, dar e aceitar. Então, quando as pessoas aceitam essa diferença entre a mulher e o homem, aceitam que o entendimento não precisa ser total, e percebem que o amor, o respeito, a confiança, o carinho e outras coisas compensam essa falta de entendimento cognitivo.
Tentar entender de forma extrema é botar um ponto final no sentimento?
Sim, tentar entender demais acaba com o sentimento, transforma o amor numa coisa analítica. Acho que amar alguém é você ter mil e uma razões que justifiquem esse amor e um conjunto de coisas das quais você não faz a menor idéia, que você não tem que entender nem justificar. Quando não tem que justificar o seu amor é porque você está amando. As pessoas pensam demais. Eu mesma sou assim. Mas nas questões amorosas, nas questões do coração, não temos que pensar muito não. Temos que pensar só se somos ou não somos felizes.
Sobre essa idéia de não buscar justificativas para o amor, muitas pessoas acham que têm que ser amadas por que merecem, por que trataram muito bem alguém, e por aí vai. Não é só isso, você concorda?
Claro, não é assim, não é assim. O amor é uma coisa muito misteriosa. Como é que bandido tem namorada? Ela sabe que aquele homem é um assassino, mas ama ele. O amor tem a ver com a grande carência de partilha do ser humano. Mesmo que você siga o seu percurso sozinho, sempre vai encontrar outras pessoas que serão marcantes, que vão ser enriquecedoras, que vão lhe ensinar coisas. Homens e mulheres, em geral, são educados com o espírito de que são iguais. Mas eles não são iguais. Só são iguais em direitos. Eles são muito diferentes. Às vezes o que eu estou falando não é o que você está ouvindo. E muitas vezes o que eu estou falando não é aquilo que estou pensando, porque não formulo igual ao que eu consigo falar, e quando eu falo não consigo transmitir tudo aquilo que eu penso, e quando falei também muitas vezes aquilo já não tem mais nada a ver com o que eu pensei e não consegui transmitir, você me entende?
Claro que não, mas sei que eu gosto e que preciso muito...
Ah, que bom, que bom.
Como tem sido o seu contato com os leitores?
Tem sido maravilhoso. Recebo pelo menos dez mensagens de leitores diferentes, todos os dias, há quatro anos. Outro dia recebi uma que dizia assim: “O meu inverno ficou menos frio por causa do seu livro.” Os portugueses são loucos por hipermercado. Então, hoje em dia, fazemos uma coisa maravilhosa lá em Portugal. Nós botamos no mesmo carrinho a batata, o arroz, a fralda, o shampoo e o livro. Vai tudo no mesmo carrinho. O livro em Portugal virou um bem de primeira necessidade. E eu fico bem feliz de participar desse processo de popularização da leitura no meu país. Ai, me dá uma alegria enorme quando vejo um livro meu, num carrinho de hipermercado, misturado com o azeite e a cenoura. É tão bom...
O livro vira um alimento mesmo...
Pois é, o meu livro vira um alimento, dá para acreditar? Olha, eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer na minha vida.
Então deve ter sido melhor ainda. Se você tivesse imaginado, não teria a mesma graça, concorda?
Concordo completamente. Oscar Wilde conseguiu o sucesso muito cedo. O Retrato de Dorian Gray fez um sucesso tão estrondoso. E depois ele não conseguiu escrever nada com tanto impacto. Se um dia eu não tiver mais nada para dizer (e eu desejo muito que isso não me aconteça), não vou passar mal. Porque nada é permanente, senão a mudança, como dizia o Camões. Vou te falar, eu tenho mais umas quatro ou cinco peças de teatro para escrever, tenho um ou dois roteiros (porque também escrevo para o cinema), uns sete ou oito romances na cabeça, e depois eu não sei se continuo, apesar de ser nova, apesar de estar com 38 anos.
Margarida, você está com tantas possibilidades criativas na cabeça e ainda acha que um dia pode parar?
É, você está certo, acho que eu não vou parar nunca, tomara, tomara. Realmente estou sempre com alguma coisa na cabeça. Imagino que nos próximos dez anos eu não vou parar. Depois será o que Deus quiser para mim.
Mais uma declaração sua: “Gosto de fazer com que meus livros sejam fáceis de ler. É claro que, para facilitar isso, tenho que descomplicar o meu texto. A simplicidade dá trabalho, mas compensa.” O que é mais trabalhoso para chegar à simplicidade?
O que me dá mais trabalho é formular com clareza. Tem um livro maravilhoso do Calvino, chamado Seis Propostas para o Próximo Milênio (Companhia das Letras). Já tinha escrito o SEI LÁ, e fiquei louca por esse livro. Quando o li, pensei: meu Deus, como eu me identifico com as coisas que esse Calvino diz. Ele fala muito sobre a importância da clareza na literatura. E a clareza é fundamental para um escritor. Pelo menos é o que eu acho. Nos meus textos, há sempre duas leituras: o que está acontecendo e o que as personagens estão sentindo, vivendo ou pensando sobre o que está acontecendo. Tudo acontece em dois níveis. Sei onde cada personagem tem que chegar. Sei qual é o problema, qual é o sonho de cada personagem e qual caminho ela pode ou não seguir. Isso eu sinto e estruturo na minha cabeça. O trabalho do escritor começa muito antes de ele sentar e escrever. A cabeça de um escritor nunca pára. Antes de dormir, posso ficar pensando, ficar imaginando, ficar trabalhando uma história na cabeça. Então, como penso muito, quando vou escrever, acabo escrevendo bem rápido. Porque aí eu já trabalhei muito o texto na minha cabeça. Em SEI LÁ, quis mostrar que há realidades que podem estar bem debaixo do nosso teto e nós não as vemos. No caso de NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS (Record), quis mostrar que a realidade é sempre diferente para cada pessoa. Como diz a Marguerite Yourcenar: “A realidade nunca é exata, pois sobre ela sempre paira o véu do desejo.” Por isso, a realidade é uma mistura daquilo que é com aquilo que nós desejamos que seja.
Essa percepção da realidade está muito presente nas suas histórias.
De fato, está sim. Sabe de uma coisa, não sou eu quem apanho as minhas histórias. São as histórias que me apanham. São elas que me puxam, que me agarram. E é muito difícil acabar um livro. Porque a vida não acaba nunca. A realidade continua sempre. Tudo se transforma, tudo se renova. Nada tem exatamente um começo nem exatamente um fim. Vocês aqui no Brasil usam o gerúndio, que nós quase não usamos mais em Portugal. Isso me dá uma tristeza...
Por que você mais gosta dos gerúndios?
Eu amo os gerúndios: começando, terminando... Nada começa nem termina de um dia para o outro. O gerúndio é uma flor que está sempre desabrochando.
De que forma você colhe gerúndios na sua vida?
Ah, eu gosto da continuidade em tudo. Não gosto de cortes radicais nem de mudanças súbitas em nada. Sou muito estável. Minhas colaborações fixas na imprensa, neste momento, têm quase quatro anos. Em Portugal, sou a única mulher que escrevo todo mês numa revista para homens. Tenho uma seção que se chama O que diz ela. Também escrevo toda semana, há mais de três anos, para o jornal Notícias. Então eu te digo uma coisa: se eu puder colaborar com essa revista e com esse jornal até o fim da minha vida, eu vou gostar muito. Gosto de imaginar que aqueles leitores esperam por mim num domingo, que eles vão me ver lá onde estão acostumados a me encontrar. A escrita é uma coisa para dar, para dar ao mundo. É feito o amor... Gosto de escrever sobre a importância das pessoas se doarem no amor. Para mim amar é dar e proteger. Em ALMA DE PÁSSARO, escrevo que, no amor, é preciso proteger quando se é pequenino e deixar voar quando se é grande. E se o coração está bom, a vida está maravilhosa. Por isso é que eu gosto de ser latina e de me relacionar afetivamente com o mundo. Nesse sentido, a forma que eu tenho de me relacionar afetivamente com o mundo é a escrita. Mas eu adoraria ter sido médica...
Adoraria mesmo?
Adoraria, adoraria. Eu gosto muito de tudo quanto é trabalho que ajuda o próximo. Acredito profundamente que estou fazendo alguma coisa útil. Sinto muita frustração por não poder ajudar muito mais as pessoas. Porque as desigualdades são muito, muito, muito gritantes. O mundo está de costas viradas. Os ricos estão de costas viradas para os pobres. O ocidente está de costas viradas para o oriente. Acho que, com o tempo, eu vou naturalmente escrever mais sobre o mundo e menos sobre o meu mundo. Seria algo diferente para mim, seria algo novo. Mas eu gosto de novidades, gosto de desafios. Gosto de objetivos difíceis. Agora, por exemplo, estou escrevendo para o teatro. O título do meu texto é UM CASAMENTO PERFEITO, uma comédia de costumes que vai para os palcos de Lisboa. E espero que um dia essa peça role no Brasil. Além disso, atualmente, tenho três histórias para livros na cabeça.
E elas ficam se apertando e brigando por espaço na sua cabeça?
Ficam, elas ficam sim. Um dia eu penso: vou fazer aquela história. No outro dia, penso: não, vou fazer aquela outra. E as histórias ficam gritando para chamar a minha atenção.
NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS tem nove narradores diferentes. Como é que essa gente toda ficou chamando a sua atenção?
Ah, foi uma gritaria danada...
Mais difícil do que usar nove vozes narrativas é costurá-las à história, como você faz tão bem. Qual foi o grande desafio de incorporar essas vozes, cada uma com a sua própria impressão digital, sem dar ruídos no texto?
Tentei sempre articular a ação, de forma que essa ação fosse paralela e avançasse gradualmente. Conforme a ação avançava, cada personagem que aparecia dava uma nova visão do que estava acontecendo. Por isso, a ação é tão lenta, tão detalhada, tão esticada. Para mim o grande desafio foi mesmo encarnar e vestir a pele de pessoas absolutamente diferentes. As pessoas querem coisas diferentes ao longo da vida e vão mudando com o tempo. Há pessoas que, quando ficam mais velhas, por exemplo, se tornam mais exigentes, outras se tornam mais essenciais. Houve uma crítica literária muito boa publicada no jornal Expresso, de Portugal. Sobre o SEI LÁ, essa crítica dizia que eu fazia muito bem o jogo de espelhos. Dizia que a protagonista era capaz de se olhar no espelho, de se distanciar e de ver o que estava acontecendo com ela e com os outros. Assim, em NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS, montei uma sala de espelhos. Essa crítica foi muito construtiva, ela me inspirou muito. Foi por causa dela que montei esse jogo de espelhos com nove vozes narrativas.
Você escreveu um livro de espelho, onde os leitores também se vêem...
Eu fico muito feliz quando isso acontece. Acho que acabo virando um pouco amiga do leitor. Mas não tem nada a ver com auto-ajuda. De fato, acho que posso ser muito útil, mas não tenho a pretensão de melhorar a vida de ninguém.
Vera é a protagonista de NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS. “Ela é muito da mulher que fui antes dos 30 anos de idade. Namorei bastante nessa fase, era uma sedutora aparentemente desprendida, mas claro que como todas as mulheres, procurava o meu príncipe encantado.” Em SEI LÁ, as suas personagens também estão em busca de um príncipe encantado, ou será que elas estão mais esperando do que buscando? Essa história do príncipe ainda causa muitas expectativas na cabeça de meninas crescidas?
Causa muitas expectativas sim. A expectativa do príncipe encantado está no DNA das mulheres. Mas acho que, hoje em dia, elas estão mais buscando do que esperando. O que nem sempre agrada aos homens, porque eles preferem caçar. Se bem que, sendo um pouco pragmática, talvez me critiquem pelo que eu vou dizer, mas acho que é a mulher quem escolhe o homem. É a mulher que decide se quer ou não um homem. Ele pensa que escolhe, mas é ela quem decide se quer ou não. O mito do príncipe encantado é um mito infantil muito bonito que é importante preservar na cabeça, no sentido de todo um sonho. E esse sonho tem a ver com buscar uma relação harmoniosa, que traga felicidade. Os portugueses, por exemplo, sempre foram muito sonhadores. Eles sempre tiveram o sonho de conquistar o seu território e mandar os árabes embora, o sonho de conquistar novos mundos, quando eles vieram para o Brasil, o sonho da colonização e de construir um novo mundo com a mestiçagem. Os portugueses e os espanhóis (os espanhóis menos) foram os únicos que acreditavam na mistura das raças. Holandeses e ingleses só transavam, mas não casavam com as mulheres colonizadas. Os portugueses transavam muito e casavam muito. O sonho é muito importante no imaginário latino. Por isso o sonho é tão forte na literatura latina. Tem sonho no García Márquez...
No Cortazar...
Tem muito sonho no Cortazar. Está também no Carlos Fuentes, que veio antes desses dois. O sonho está no sangue dos latinos. Eles nem sempre são bons de realizar. Mas estamos sempre com um punhado de sonhos. Isso é muito bonito.
Em uma entrevista, você revelou: “O último capítulo de NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS já foi utilizado muitas vezes para terminar relações. É até meio estranho, mas já recebi vários e-mails me contando isso, o que dá para pensar na função que um livro pode ter na vida de uma pessoa.” Qual as grande função da literatura?
Enriquecer o ser humano. Um livro é bom para cada pessoa pela quantidade de coisas que cada uma absorve dele.
Esse capítulo traz uma carta da Vera para o Manel, cheia de tristeza, mágoa, vazio e beleza. Vou pegar alguns trechos dessa carta e fazer algumas provocações para você. No início do texto, Vera escreve: “Ensinaste-me que a verdade nunca é exata, que cada realidade encerra em si mesma tantas verdades quantas as pessoas nela envolvidas. Por isso sempre preferiste a dúvida ao conflito. Detestas o conflito e nisso és parecido comigo.” Acima de tudo, o que faz tantas mulheres e tantos homens detestarem o conflito?
É o medo da guerra. As pessoas, em geral, acabam guerreando na rua, com um estranho, não em casa com alguém que tu amas. Acho que a violência doméstica, em todos os aspectos, é horrível, é uma das piores coisas da vida.
Mas evitar certos conflitos provoca outros?
Sim, o conflito faz parte da realidade humana. Uma criança nascer é um conflito. Precisamos de certos conflitos para nascer, para crescer, para amadurecer, para sobreviver. Mas eu acho realmente que se você briga em casa, depois briga na rua, depois a pessoa com quem você brigou acaba brigando com outra, e por aí o mundo vai. Há uma teoria científica, desenvolvida na década de 70, que diz que todas as transformações, por menores que sejam, vão influenciar o universo. Tudo é uma ação e reação que vai se encadeando. Tudo faz parte de uma cadeia. Não sou pacifista, nem mística, mas se o ser humano não se esforçar para fazer o bem, fica difícil.
Outro trecho da carta: “Toda a nossa existência tem por condição a infidelidade a nós próprios. Fui muitas vezes na minha vida infiel aos outros, mas sobretudo a mim própria, quando me recusava a escutar o meu próprio coração.” A gente sempre diz que é importante escutar o coração, mas ninguém fala sobre a importância de também dizermos coisas para ele. Será que o coração diz muitas coisas, mas não escuta?