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LEMBRANÇAS INSPIRADORAS
Irmã e herdeira de Rachel de Queiroz, Maria Luíza Queiroz comemora a volta da autora para a José Olympio e recorda a sua convivência tão próxima
com uma das escritoras mais talentosas e queridas do Brasil


Maria Luíza Queiroz: “Rachel só me bordou coisas boas por dentro.”


Márcio Vassallo


Em que aspectos a volta da obra de sua irmã para a José Olympio te deixa mais feliz?
Acho essa volta muito importante. A José Olympio foi a editora da Rachel desde o começo, foi onde ela se lançou. A JO era uma família para a Rachel. José Olympio era uma pessoa maravilhosa, era muito inteligente. E o Daniel Olympio, irmão dele, era o faz tudo da editora. E olha, acho que foi uma grande iniciativa do editor Sérgio Machado manter o selo e o nome da José Olympio, quando ela foi comprada pela Record. A Rachel ia ficar muito feliz de saber que os seus livros voltaram para a JO.

Como você começou a se aproximar dos livros da Rachel e como você começou a cuidar dos trabalhos dela?
A Rachel era mais velha do que eu 17 anos. Quando lançou O QUINZE, ela tinha 19 anos. Eu era muito menina. Depois me aproximei naturalmente dos seus livros e dos textos que ela escreveu durante 30 anos para a revista O Cruzeiro. Mas nós sempre fomos irmãs muito próximas. Ela me chamou durante muito tempo de “minha irmãzinha.” Uma coisa interessante, e que nos aproximou, foi que eu sempre discutia os seus livros com ela. No MEMORIAL DE MARIA MOURA, por exemplo, a Rachel pensou em terminar o romance com a Moura velha, poderosa, contando a sua própria história em flash back. Então eu sugeri a ela que a protagonista devia morrer jovem, no auge...

Para ela se eternizar?
Pois é, e aí cada leitor poderia dar o final que quisesse.

Será que a escrita da Rachel, de alguma forma, se modificou depois da morte do marido dela, o Oyama?
Acho que sim, acho que ficou mais enxuta, mais seca. Não só por causa da morte dele, mas também por causa do amadurecimento, da evolução da Rachel como escritora.

O que mais te seduz nos textos da Rachel?
A linguagem... Poucos autores no Brasil atingiram o nível da linguagem dela. Não tem uma palavra fora do lugar, não tem uma palavra desnecessária. A linguagem da Rachel é cheia de beleza, é cantante. A literatura da Rachel tem muita sonoridade, ela pode ser lida alta, a literatura dela também canta...

A literatura dela canta e toca as pessoas...
Sim, ela continua tocando cada vez mais as pessoas.

Outro pensamento da Rachel: “Percebo quando um romance está pronto no momento em que fico enjoada do livro. Mas na realidade nunca acho que ele está pronto. Quem acha isso são os meus editores. Eles sempre me arrebataram os romances. Eles se juntam a Maria Luíza e me tomam o livro. Só com O QUINZE não aconteceu isso.” Era difícil tomar um livro da sua irmã?
Olha, no início, ela mandava os originais para o José Olympio e ele não mandava tantas provas de volta, porque dizia que ela mexia muito nos textos. Mas depois de um certo tempo, eu via a Rachel escrever os seus artigos em 20 minutos. E os artigos saíam perfeitos, saíam muito lindos. A Rachel era muito rápida. Quantas vezes, lá no sertão, eu a via escrever assim tão rápido. E naquele tempo não havia fax, não havia Internet, não havia nada disso. Ela tinha de mandar os textos, que não eram nada pequenos, pelo correio.

Rachel sempre escrevia as suas crônicas na última hora, em cima do prazo para entregá-las aos jornais. “Eu sempre tenho uma desculpa para escrever minhas crônicas só na última hora.” Em geral, que outras coisas a sua irmã gostava de deixar para fazer aos 45 minutos do segundo tempo?
Rachel realmente gostava de escrever as suas crônicas e os seus artigos em cima da hora. Mas não tinha nenhuma outra coisa que ela gostasse de deixar para os 45 do segundo tempo não. Minha irmã era de uma pontualidade inglesa para tudo. No dia seguinte ao que o meu pai morreu, por exemplo, a Rachel escreveu um artigo para o jornal. E a Rachel simplesmente adorava o meu pai.

Ela dizia que era muito preguiçosa para escrever, mas era uma mulher super ativa. Será que essa história da preguiça, na realidade, era uma forma de se proteger de chatos e todo tipo de pressão?
Não, não, ela tinha preguiça mesmo. A Rachel podia ter escrito muito mais, ela podia ter escrito outros romances. Mas o que a minha irmã gostava mesmo era de escrever crônicas políticas. Tanto que a minha sugestão para a Maria Amélia Mello (editora da José Olympio) e para a Lucia Riff (que agencia a obra da Rachel) é fazer uma seleção dessas crônicas e publicá-las em livro. A idéia é contar a História do Brasil, da década de 30 para cá, vista pelos olhos da Rachel. E a Rachel não só viu, mas também participou da História do Brasil, desde a Revolução de 30. Rachel sempre teve uma vida muito ativa. Mas sabe, eu prefiro não falar da vida política dela, porque as pessoas costumam dizer que eu sou parcial. Não sou parcial nada. Realmente eu prefiro não falar nesse assunto.

Então vamos da política para o nascimento do MEMORIAL DE MARIA MOURA. Sobre a criação desse livro, Rachel já contou: “Eu estava fazendo um trabalho com minha irmã Maria Luíza sobre a seca do Nordeste. Fomos procurar livros antigos e descobrimos que a primeira grande seca registrada oficialmente aconteceu em Pernambuco em 1602. Nessa seca, uma mulher chamada Maria de Oliveira tornou-se conhecida, porque, juntamente com os filhos e uns cabras, saiu assaltando fazendas. Pois eu fiquei com essa mulher na cabeça. Uma mulher que saía com os filhos e um bando de homens assaltando fazendas era a Lampiona da época, pensei. Ao mesmo tempo, eu sempre admirei muito a Rainha Elisabeth I da Inglaterra, que morreu no início do século XVII. Li várias biografias dela, a ponto de me sentir uma espécie de amiga íntima, dessas que conhecem todos os pensamentos e sofrimentos. A certa altura, pensei: ‘Essas mulheres se parecem de algum modo’. E comecei a misturar as duas. Estava pronto o esqueleto do romance. A partir daí fui desenvolvendo os episódios.” É verdade que a Rachel se identificava muito com a Maria Moura?
Eu dizia para a Rachel que ela era a própria Maria Moura. E ela reagia: “Mas eu nunca mandei matar ninguém.” Aí eu brincava com ela: “Ah, você nunca mandou matar ninguém só porque não precisou. Mas se fosse naquela época, e naquelas circunstâncias, eu não tenho dúvida de que você mandaria matar sim.” De fato, a Maria Moura tem muito da minha irmã.

O que a Maria Moura mais tem da Rachel?
A determinação, a fortaleza interior. Minha admiração pela Rachel era muito grande. Podem dizer que estou sendo parcial, claro, mas a realidade é que eu nunca conheci ninguém tão inteligente quanto a Rachel. Ela tinha muitos dons.

Os personagens tomavam a Rachel da vida dela, a Rachel tomava os personagens da vida deles. Acima de tudo, o que te impressionava nesse processo?
De fato, o que mais me impressionava era a determinação dela para buscar os seus personagens.

Palavras da Rachel: “Quem é Rachel de Queiroz? É uma senhora muito consciente de sua velhice e achando quase tudo inútil. Eu não dou importância a esse negócio de ‘minha obra’. Acho que da minha boca nunca saiu essa expressão: ‘minha obra.’” Que coisas a Rachel realmente considerava inúteis na vida, que coisas tinham uma grande serventia para ela?
Levei uns oito anos para convencê-la e para fazer o TANTOS ANOS, a autobiografia da minha irmã. E, por vontade da Rachel, acabei fazendo esse livro junto, mostrando a minha visão da vida dela também. Depois, quando viu o livro pronto, ela ficou feliz. Rachel dava uma grande importância à família. E a verdade é que a Rachel não se envaidecia com homenagens e prêmios... As placas de prata que ganhava, ela dava para os netos brincarem. Ela era assim mesmo. Os caboclos lá no sertão, na nossa fazenda, adoravam a Rachel. Todo mundo lá gostava muito dela. Ela protegia todo mundo. Chegava um caboclo e dizia para ela: “Dona Rachel, eu vim aqui para a senhora me aposentar.” Eles achavam que a minha irmã tinha o poder de aposentar as pessoas. E ela escrevia para as autoridades, pedindo para facilitar a aposentadoria daquelas pessoas, caso fosse possível. Então, quando ela chegava lá, era uma verdadeira romaria. O marido dela era médico, e também era adorado lá. Eles marcavam um dia da semana para receber as pessoas em casa, e dar receitas, encontrar soluções para problemas, conversar com as pessoas. Toda aquela gente lá, esperando por eles, esperando por uma palavra, era uma cena maravilhosa. Oyama e ela formavam um casal adorável. Nunca vi a Rachel de mau-humor, em nenhum dia da vida, você acredita? Já vi a Rachel zangada, triste, brava, chateada, indignada, mas nunca mal-humorada, nem na fase mais difícil da sua doença, quando ela teve uma isquemia.

Rachel dizia que não acreditava em Deus: “Eu acho que ter fé é a base de tudo, mas eu não consigo. Se eu fosse religiosa, seria um refúgio, agora que estou velha e já passei por golpes tão duros. Não sou nada ligada nessa história de transcendência.” Sua irmã não acreditava em transcendência, mas os livros dela vão continuar transcendendo gerações. Para você, em que sentido as histórias da Rachel de Queiroz são mais transcendentes?
Pois é, e a Rachel estudou em colégio religioso. E eu acho que a grande transcendência dos livros dela são realmente a linguagem. Também acho que as crônicas da Rachel têm momentos maiores que os seus romances. Rachel tem grandes crônicas, ela tem crônicas muito lindas, muito engraçadas, muito profundas, muito leves, muito transcendentes, como você mesmo disse.

Sua irmã também dizia que memórias é um gênero muito pouco sincero. “Você apresenta ao público a pessoa que você gostaria de ser.” O que a Rachel gostaria de ter sido e não foi, o que ela foi e não gostaria de ter sido?
Ela vivia dizendo que gostaria muito de ter sido atriz. Essa foi uma frustração da Rachel. E eu acho que ela seria uma grande atriz. Mas os caminhos da vida a levaram para a literatura. Ela também dizia que invejava quem cantava bem. Por outro lado, ela não se queixava de nada do que fazia. Ela não era uma mulher de arrependimentos.

Ela de novo: “Se o artista se inspira num determinado assunto, então ele fará arte. Se por acaso se impuser um tema, nunca dará certo. Sua obra vai sair como aquelas estátuas em série que a gente vê por aí: todas com a mãozinha na mesma posição.” Você pressentia o momento em que a Rachel estava se inspirando?
Não, a Rachel não me dava esses sinais não. Ela sempre escrevia de manhã, e à tarde lia. Só O QUINZE ela escreveu à noite, quando era mocinha, nos seus cadernos, iluminados por farol de querosene.

A Rachel tinha mesmo uma escrita amanhecida...
É, ela gostava de acordar bem cedo para escrever.

Você também se inspirou recentemente e escreveu MAGNO, uma história surrealista, que será lançada pela José Olympio. De onde veio o desejo de escrever essa história?
Quando a Rachel estava doente, e eu estava muito abalada com isso, fiquei num estado de tristeza e inquietação que acabou me levando a escrever. Também nessa época, passei a contar histórias para a minha neta Ana, em etapas, feito uma avó Sherazade. E depois, para expressar a minha inquietação, resolvi escrever o MAGNO, contando histórias fantásticas, incluindo no livro o Abominável Homem das Neves, e vários personagens das Mil e uma Noites.

Editora da José Olympio, Maria Amélia Mello me disse que ficou absolutamente surpreendida com a sua estréia na literatura. “É uma história juvenil, mas que pode ser lida por pessoas de todas as idades. E mesmo tendo coisas muito doidas, como por exemplo, um homem com braço de tigre, a gente acredita que tudo está acontecendo de verdade. A Maria Luíza cria frases e situações muito interessantes, com muito humor e criatividade. E faz tudo isso num estilo completamente diferente da Rachel”, constata. Será que você também se surpreendeu com a sua própria história?
Não, essa história cumpriu a sua missão, que foi me acalmar no meio daquele desassossego, no meio daquela inquietação da doença da Rachel. Mas, no final, fiquei contente com esse exercício de afastamento. MAGNO foi mesmo um exercício de afastamento.

E agora o seu afastamento vai te aproximar dos leitores.
Puxa, tomara, tomara.

O QUINZE foi impresso pela primeira vez em agosto de 1930, no Ceará, pelo Estabelecimento Graphico Urânia, numa edição paga pelo pai de vocês, que na época tinha 19 anos. O livro teve uma enorme repercussão no Brasil, foi super elogiado e considerado um fenômeno por Alceu Amoroso Lima, Augusto Frederico Schmidt e outros grandes escritores. E depois se tornou um clássico da nossa literatura. Você imagina um outro autor talentoso seguindo um caminho parecido, hoje em dia?
É possível, claro, mas acho difícil. Hoje as coisas estão bem diferentes. Tem muito mais gente escrevendo, e tem muito mais gente achando que escreve, a competição é bem maior.

Outro belo pensamento da sua irmã: “O bom dá tanto trabalho a fazer quanto o ruim. Mais ainda: pela quantidade do esforço despendido não se pode aquilatar nunca a qualidade do resultado obtido. Tanto luta e pena o bom escritor quanto o péssimo, quanto o medíocre. Quer dizer, o artista inferior dá à sua obra as mesmas horas de trabalho, o mesmo idealismo, os mesmos sacrifícios, os mesmos sonhos que dá à sua o bom artista, o grande artista (...). O fato é que se impõe a analogia com a natureza: no trabalho do artista há muita semelhança com a criação da vida – e um parto não tem nada de bonito. Mas o pior é que tanto custa pôr no mundo um Einstein quanto um idiota.” Você concorda com ela?
Concordo com ela sim. A gente comentava muito isso. Mas olha que coisa interessante, esse é um pensamento profundo da Rachel, é um pensamento paradoxal, mas que ela expressa de uma maneira tão simples e tão leve que conquista tudo quanto é leitor.

Numa crônica, Rachel responde à carta de uma moça de 25 anos, Aspásia, que estava desesperada, à beira da morte. “(...) Não reclame nada da vida, porque a vida não é uma promessa. Nós é que lhe atribuímos como compromissos todos os nossos desejos. E quando eles não são cumpridos, culpamos a vida.” Muita gente passa o tempo todo culpando a vida pelo fracasso dos seus próprios desejos?
Acho que sim. Ninguém pode culpar a vida de coisa nenhuma. E acredito que há um limite para tentarmos nos modificar. Aceitar as nossas limitações, sem deixar de buscar os próprios sonhos, é um dos grandes desafios do destino.

Nessa mesma carta, Rachel sugere à moça que olhe os outros, as coisas e o mundo, com olhos desprevenidos. Tem segredo para tirar a prevenção do olho?
Bem, não sei o que pode tirar a nossa prevenção do olho. Mas me lembrei agora de uma história que me impressionou muito quando era mocinha, que tinha um espelho. Esse espelho só refletia o mal das pessoas. Ele refletia tudo o que havia de ruim no mundo. Então, um dia, esse espelho se estilhaçou, os seus estilhaços caíram nos olhos das pessoas, e as pessoas passaram a ver só as coisas ruins da vida. Não sou uma otimista, mas acho que a gente tem que ver as coisas da melhor forma possível, mesmo diante de circunstâncias difíceis.

Outro pensamento da Rachel: “Amar é uma aventura heróica e insuperável (...). Não é a todos que se encontra oportunidade de amar, nem se encontra capacidade de amar em todos a quem a oportunidade se apresenta.” Na sua opinião, oportunidade de amar é uma coisa que aparece, ou que a gente faz aparecer?
A gente não faz aparecer nada. A oportunidade de amar é realmente uma coisa que aparece. E essa oportunidade a Rachel teve, com o Oyama. Eles foram muito felizes, muito felizes mesmo.

Por outro lado, será que a capacidade de amar é uma vocação, é um dom, é uma arte, é um destino, é uma benção, é uma semente que alguém bota, ou não bota, na gente?
Acho que a capacidade de amar está muito ligada à fé das pessoas. Mas, acima de tudo, eu acho que essa capacidade é um dom sim.

Na crônica Um Alpendre, uma rede, um açude, Rachel escreve: “Claro que esses três são apenas os termos essenciais: o alpendre é o abrigo, a rede o repouso, o açude a garantia de água e vida.” Qual foi o alpendre mais acolhedor, a rede mais aconchegante, o açude mais vital na vida da Rachel?
A fazenda Não me Deixes, onde a Rachel passou grande parte da sua vida, era tudo isso para ela.

Rachel traduziu mais de 100 livros. Sobre essa atividade de tradutora, ela disse: “Eu me lembro que na época em que traduzia, me sentia como se estivesse desmanchando a costura, desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles.” Quando relê a Rachel, de certa maneira, você desmancha o crochê da sua irmã?
Conheço todos os pontos, todos os bordados, todas as manhas dela para escrever. Mas ainda hoje me surpreendo com as coisas que ela escreveu, principalmente com os seus textos mais enxutos.

Que pontos a Rachel bordou por dentro de você?
Difícil dizer... Ela não me influenciou, na forma de escrever e nem na forma de viver, mas só me bordou coisas boas por dentro. Acho que éramos vasos comunicantes, apesar de sermos bem diferentes. Tenho muito orgulho dela. Rachel era um charme, era muito admirada, era muito espontânea, era muito querida.









       
 
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