Beijos que dão vontade de pensar,
pensamentos que dão vontade de beijar
Em co-autoria com Adriana Falcão, Mariana Verissimo
escreve uma história de prender leitor e abrir desejo

Mariana Verissimo: “Uma das coisas que mais me dão prazer no trabalho
é conviver com pessoas interessantes para trocar idéias.”
Márcio Vassallo
Em PS BEIJEI (Salamandra), você e Adriana Falcão contam a história de duas meninas que ficam aperreadas por que vão passar um mês sem se falar, durante as férias. Assim, uma delas vai passar um tempo na casa da avó, que mora em outra cidade. Só que essa avó comprou um computador. E as garotas encontram nos e-mails um modo de conversar sobre as suas vontades, os seus conflitos, as suas dúvidas, os seus tormentos, as suas ansiedades, os seus medos, as suas expectativas. Assim, afastadas, Bia e Lili se aproximam ainda mais uma da outra. E a avó, que aparentemente vive sem desejos de disparar o coração, numa realidade tão distante das adolescentes, também acaba entrando na história. Será que tem lonjura que aproxima as pessoas, e tem proximidade que afasta?
Mariana Verissimo - Acho que sim, principalmente nos tempos da internet. Algumas pessoas dizem coisas pela internet que não diriam se estivessem frente a frente com o outro. E eu realmente não sei se isso é bom ou ruim. O importante, eu acho, é manter a proximidade da melhor maneira possível. As meninas conseguem fazer isso por e-mail.
Como é que nasceu a idéia do livro? Foi por e-mail, foi por voz, foi de que forma?
Mariana - A idéia partiu da Lenice Bueno, editora da Salamandra, e foi muito bem recebida por nós duas. Escrever um livro a quatro mãos (duas em São Paulo e duas no Rio), com a correspondência de duas amigas que também estariam em cidades separadas, pareceu um desafio muito divertido. E foi. Aí, nos encontramos poucas vezes para definir como seria a estrutura do livro e depois continuamos por e-mail. E os comentários das autoras velhas sobre o comportamento das meninas que acompanhavam os textos em anexo se transformou num divertido making off do livro.
Quais foram os grandes desafios desse trabalho que marca a sua estréia na literatura?
Mariana - Acho que o grande desafio foi estruturar o livro para que a correspondência entre as meninas se transformasse numa história interessante, com conflitos e viradas. A partir desse roteiro, feito em conjunto, cada uma foi para a sua cidade e assumiu responsabilidade por sua personagem e assim começaram os e-mails. O desafio foi este, o resto foi divertimento.
O desejo de dar beijo é um dos fios principais do livro. A história veio no rastro desse desejo, ou o desejo é que foi no rastro da história?
Mariana - Quando nós começamos a pensar nas meninas, tentamos imaginar qual seria o grande conflito que poderia unir ou separar as duas. Chegamos à conclusão de que nessa idade o que interessa mesmo são os meninos, por mais insuportáveis que eles possam ser. O desejo de beijar, ou o desespero por nunca ter beijado, acaba levando as meninas, e avó também, a conversar sobre as expectativas, os medos, as dúvidas e principalmente sobre a amizade.
Tem pensamento que faz a gente ter vontade de beijar, tem beijo que faz a gente ter vontade de pensar?
Mariana - Sabe que eu nunca parei para pensar nisso? Eu acho que o caso do primeiro beijo é um caso muito especial: o primeiro beijo, vem com o pensamento formado e pós-graduado na universidade da imaginação que desaparece assim que o beijo começa. O pensamento e o beijo quando se juntam é uma loucura, por isso, na hora de beijar é melhor não pensar em nada.
Junto com Luiz Villaça, você escreveu o roteiro do filme Cristina quer Casar e a adaptação para o teatro do livro infantil A Guerra dos Mutans, de Fabio Bibancos, em cartaz há três anos em São Paulo. Atualmente, você está escrevendo um novo roteiro de longa e colabora com um quadro do Fantástico, estrelado pela Denise Fraga. O que mais te apaixona, o que mais te seduz, o que mais te inquieta no seu trabalho de criação?
Mariana - No Fantástico, onde eu estou há mais de cinco anos, tive a sorte de trabalhar com pessoas talentosas e principalmente com bons colegas. A Adriana não escreve mais para o quadro, mas foi através dele que nos conhecemos e ficamos amigas. Com os outros autores também foi assim e é isso uma das coisas que mais me dão prazer no trabalho: conviver com pessoas interessantes para trocar idéias. Em poucos anos eu tive a oportunidade de experimentar várias linguagens diferentes: cinema, teatro infantil, televisão e agora livro. Estou feliz fazendo o que eu faço, acho que é isso o que importa.
Você cursou arquitetura, trabalhou com programação visual e computação gráfica. Até 1998, quando trocou Porto Alegre por São Paulo, nunca havia pensado em escrever profissionalmente. O que te puxou para as palavras?
Mariana - Por favor, não diga que troquei Porto Alegre por São Paulo, senão o meu pai me mata! Então vamos dizer que eu estou temporariamente ausente por um longo prazo. Fica melhor.
OK, OK... Então, acima de tudo, o que tem contribuído para essa sua longa ausência temporária?
Mariana - Eu não me lembro de ter um bom motivo para vir morar em São Paulo, muito menos para sair de Porto Alegre, mas o fato é que isso aconteceu e está sendo muito bom. Pouco depois de chegar aqui como arquiteta, acabei desviando do meu caminho e comecei a escrever roteiros para um programa infantil com o Flávio de Souza (autor de Castelo Rá Tim Bum) e acho que me saí bem. Pelo menos foi o que o Flávio, que se tornou meu amigo, me disse. Depois, entrei na equipe do Retrato Falado, onde continuo até hoje. E muitos outros trabalhos foram aparecendo. Acho que eu posso dizer que tive mais sorte do que juízo. Afinal, só um louco para sair de Porto Alegre (né, pai?)
Por falar no seu pai (o Luis Fernando Verissimo), de que forma ele mais te inspira?
Mariana - Sou realmente fã dele. Independente de ser meu pai, eu gosto muito das coisas que ele escreve. E o pai também me inspira muito como exemplo. A forma como ele se comporta na profissão, o temperamento dele, a tranqüilidade que ele tem em relação à fama e ao sucesso me inspiram muito.
O que você mais puxou do Luis Fernando, o que o Luis Fernando mais puxa de você?
Mariana - O pai é muito difícil, porque tudo o que os filhos fazem ele acha ótimo. Ele é um péssimo crítico para a gente. E nós temos uma admiração mútua.
De volta para o PS BEIJEI, em um dos e-mails da história, a Beatriz sugere à amiga que elas façam um pacto de felicidade. Na sua opinião, o que é essencial para um pacto assim dar certo?
Mariana - Acho que fazemos vários pactos, mesmo que silenciosos, ao longo da vida. O essencial é acreditar que pode dar certo.
Frase de uma das personagens: “Pergunta pra sua avó o segredo da felicidade. Pergunta pra ela como a gente sabe que fez a escolha certa (...).” É preciso errar para fazer as escolhas certas, ou tem escolha que a gente acerta de primeira?
Mariana - Seria mais fácil e menos cansativo acertar de primeira, certo? Eu acho que as pessoas dizem que é preciso errar para depois acertar para justificar algumas bobagens que fizeram. Eu, por exemplo, demorei anos para terminar a faculdade de arquitetura, para depois acabar escrevendo. Precisava passar tantas noites em claro, para depois não servir para nada? Espera aí, acho que isso dá uma boa história...
Você costuma pressentir quando uma história vai ser boa?
Mariana - Tem histórias que nem são tão boas, mas que são bem contadas pela pessoa. Aí a história passa a ser boa, por causa da forma como é contada. No Retrato Falado, por exemplo, isso às vezes acontece. A gente recebe cartas das pessoas contando histórias simples, mas o modo como elas contam é tão encantador que acaba nos conquistando. E aí fazemos o roteiro.
Para você, qual a principal diferença entre escrever um roteiro e escrever um livro?
Mariana - Essas duas formas de escrita são muito boas. Às vezes é até mais fácil escrever um roteiro, porque já tenho na cabeça a cara do ator ou da atriz que vai representar o personagem. Mas, ao mesmo tempo, isso me tira a possibilidade de voar muito. O roteiro me amarra mais. Agora estou fazendo um roteiro com o Luiz Villaça e o Maurício Arruda, baseado numa história real. Vai ser um longa.
Outra frase do PS BEIJEI: “Antes que a vida passe, ainda que tudo mude, logo, enquanto é tempo, que tal tomar um sorvete?” Muitas pessoas, que vivem sem tempo para um sorvete, acabam congelando os seus próprios desejos, você concorda?
Mariana - Essa pausa para o sorvete é essencial, pelo menos para mim. É a hora de parar para pensar na vida, nos acertos, nos erros. É a hora para descobrir se, pelo menos até aquele momento, fizemos as escolhas certas, principalmente do sabor do sorvete.
Mais um pensamento do seu livro: “Já que o tempo vai passar invertendo as importâncias na cabeça da gente, para que tanta pressa?” Do que você mais tem pressa? Do que você não tem pressa nenhuma?
Mariana - Ah, confesso que sou uma pessoa muito preguiçosa e não tenho pressa para nada. Bom, pensando bem, talvez eu tenha pressa de terminar essa entrevista para entrar logo no site da Lucia!