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Para a gente ler e não parar de suspirar Em seu primeiro romance, num texto de dar insônia, o jornalista e escritor Arthur Dapieve conta a história de uma paixão cheia de abismos sedutores, desejos desembestados, vidas atropeladas no espelho
Arthur Dapieve: “Escrever ficção vicia.”
Márcio Vassallo
Você acaba de lançar o seu primeiro romance, DE CADA AMOR TU HERDARÁS SÓ O CINISMO (Objetiva), título que você tirou de um lindo poema do Cartola. Para você, de cada amor a gente só herda mesmo o cinismo, ou o amor deixa heranças diferentes para cada pessoa? Arthur Dapieve - Acho que ele deixa heranças diferentes. A amizade, por exemplo, é uma dessas heranças que às vezes fica nas pessoas. A compreensão de si próprio, ou do outro, também pode ser uma herança. Mas, se você está herdando um amor, significa que esse sentimento acabou. Então, de certa forma, todo amor deixa sempre uma pequena parcela de cinismo. Porque o cinismo é um fator de autodefesa. Se você não tiver uma dose de cinismo para lidar com o final de um relacionamento, na realidade, você se transforma na própria sobra do amor. E quando você descobre, principalmente no primeiro amor, ah, quando você descobre que esse amor não é para sempre, é mais traumático que quando a criança descobre que Papai Noel não existe.
Você também já disse que se inspirou no romance Um amor, do italiano Dino Buzatti, para escrever DE CADA AMOR... Declaração sua: “O livro do Buzatti me impressionou, porque parecia que falava comigo, quando o li, há cerca de 20 anos.” Na época, o que esse livro mais disse para você? E hoje, o que esse livro continua te dizendo, o que ele te diz de forma diferente? Arthur - Quando eu li esse livro do Dino Buzatti, ele me disse coisas avassaladoras sobre o ciúme, a desconfiança, a possessividade. Aliás, no livro do Buzatti a gente se vê espelhado nesse jogo de loucura, nesse jogo de posses. Depois, quando estava escrevendo o meu livro, reli Um amor no mesmo ritmo que o meu protagonista também o lê, e aí a história já não me pareceu tão terrível, provavelmente por que, ao longo da vida, mudei a minha maneira de ver as coisas. Na segunda vez, a leitura me chamou mais atenção pela forma do que pelo conteúdo: como o autor criou as situações, como ele sugeria que determinadas possibilidades só aconteciam na cabeça do Antonio, que é o protagonista dele. Por outro lado, na primeira vez que li esse livro, o conteúdo foi o que mais me impactou.
Será que tem livros que falam com a gente, mas que a gente não escuta, e tem livros que escutam a gente, mas que não dizem nada? Arthur - Sabe, eu acho que os bons livros sempre nos dizem alguma coisa. Se não os escutamos, não é demérito deles. De repente estamos lendo esses livros no momento errado, pode ser. Por isso, de certa forma, todo livro é um livro de auto-ajuda. Para mim, falar em livro de auto-ajuda é quase uma redundância. O livro do Buzatti é de auto-ajuda. Moby Dick é um livro de auto-ajuda.
Auto-ajuda é o que fazemos com o que fica do livro em nós? Arthur - Exatamente. Você pode ler, num livro todo, uma frase que ilumina um canto da sua vida que era meio sombrio...
Ou então essa frase dá sombra num canto que era claro demais? Arthur - Sim, eu acho que sim. E essa sombra pode fazer você se entender melhor.
O protagonista do seu romance, Bernardino, é um redator publicitário decadente, de 47 anos, que vive um casamento cheio de bocejo, e se apaixona pela Adelaide, a estagiária da agência onde ele trabalha. Adelaide tem 19 anos, é ruiva de doer no olho, é uma belezura de parar idéia, é um suspiro que atropela a vida dele. No fundo, o Dino sabe que está vivendo um clichê, ele sabe que aquele relacionamento tem tudo para dar errado, mas não consegue resistir. O que a Adelaide tem de mais irresistível para o Dino? Arthur - O que ela tem de mais irresistível para ele é a juventude. Porque a Adelaide não é particularmente única. É uma menina bonita que a gente encontra em tudo quanto é lugar. Mas no momento em que o Dino achava que já tinha pendurado as chuteiras, ele sente renascer na sua cabeça muitas possibilidades atraentes. A diferença, nesse caso, é muito atraente.
Dapieve, você também é autor de O ROCK BRASILEIRO DOS ANOS 80, e RENATO RUSSO – O TROVADOR SOLITÁRIO, dentre outros livros. De onde vem e para onde tem te levado essa sua paixão pela música? Arthur - Não sou de uma família musical. Meus pais não são músicos, ninguém nunca me incentivou tanto a música em casa. Eles me incentivaram muito a leitura. Acho que a música, desde o início, era um fator de identidade, junto aos colegas de colégio. Tirando a praia, a primeira vez que tive a sensação de pertencer a um grupo foi com outros garotos, em volta de um LP. A música pode ser muito profunda e reflete muito os nossos sentimentos. Em cada disco que escuto eu tento encontrar o sentido da vida. Não vou encontrar nunca, mas essa procura é o que tem graça.
Por falar em música, em uma entrevista, você contou como escolheu o repertório de cabeceira do Dino. “Tentei selecionar aquilo que imaginava que seria do gosto do personagem. Não o que eu gosto.” De que forma você entrou no ouvido do personagem, de que forma o personagem entrou no seu ouvido? Arthur - Fiquei pensando no que o personagem escutaria. O gosto dele não é o gosto da minha faixa etária, ele tem 47 anos. É um gosto diferente da faixa em torno de 40, 41 anos. Eu gosto mais de rock inglês. Ele gosta mais de Beatles e de rock americano. A Adelaide, por sua vez, prefere música brasileira, entende só de música brasileira, e quanto mais antiga melhor. Então, o gosto musical dos dois marca um abismo no relacionamento.
Você buscou o distanciamento com os seus personagens dando a eles características diferentes das suas, certo? Assim como o Bernardino tem um gosto diferente do seu, os outros também torcem por todos os clubes, menos pelo Botafogo, que é o time do coração do autor. Esse foi um processo consciente? Arthur - Foi, foi. Olha, eu não escrevi a palavra Botafogo no livro, nem para falar do time, nem para falar do bairro. Acho que essa foi uma maneira que eu encontrei de sinalizar para os leitores que o protagonista não tinha nada a ver comigo. Não queria fazer um livro autobiográfico. Aliás, o livro não é autobiográfico. Nunca peguei nenhuma estagiária, por exemplo. E foi o que eu pensei: se aquele cara é tricolor, ele pensa de um modo diferente do meu. Se ele é flamenguista, também vai pensar de modo diferente.
Você acha que há uma relação entre o time e a forma de pensar do seu torcedor? Arthur - Tem, eu acho que tem sim. Geralmente, os tricolores e os flamenguistas, por exemplo, não são tristonhos, melancólicos. Eles estão mais acostumados a ganhar. São os times que têm mais títulos no estado do Rio... Por sua vez, o botafoguense geralmente é mais assim, porque está mais acostumado a perder.
Será que a pessoa escolhe o time do coração por causa do temperamento, ou passa a ter determinado temperamento depois que escolhe o time? Arthur - Essa é uma questão que até hoje eu não consegui resolver. Mas é uma questão muito interessante. Acho que eu não poderia ter eleito um outro time para torcer, a não ser mesmo o Botafogo.
Acima de tudo, como é que achar o tom e o som dessa narrativa foi um desafio para você? Arthur - Uma das minhas principais preocupações era não fazer um livro jornalístico. O livro tem cacoetes jornalísticos, mas procurei usar esses cacoetes a meu favor. As ruas e os botequins do livro existem, os jogos de futebol existiram, os shows também. Tudo isso aumenta a idéia de realidade. Assim, tudo em volta dos personagens existe, menos o essencial. Também busquei o verossímel nas falas dos meus personagens. Acho horrível quando vou ao cinema e ao teatro e não acredito no que os personagens estão dizendo, quando as falas e os diálogos não me convencem. Por isso fiquei muito preocupado de achar essa dicção verdadeira, de convencer os leitores de que aquelas pessoas do livro realmente existem. Nesse sentido, gostei muito dos comentários que fizeram sobre o meu livro, dentre eles a Carla Rodrigues, no site No mínimo e o Álvaro Costa e Silva, na Gazeta Mercantil. Mas a frase que eu mais me gabo de ter visto publicada sobre o DE CADA AMOR foi na Playboy, e diz assim: “Seus personagens são tão reais que até incomodam.” Achei ótimo, porque a frase foi escrita por alguém que eu não conheço. Não é ninguém que me conhece, que conhece os meus amigos, e que poderia pensar: “Ah, esse personagem é ele, aquele ali é o beltrano, e essa é a fulana.” Outro dia, o Marcelo Madureira me disse que precisou forçar a barra para ler o último capítulo do livro, de tão incomodado que estava. E eu sempre fico muito feliz quando alguém me conta que ficou incomodado, quando ficou perturbado, quando ficou incomodado com a história.
Afinal, nem todo incômodo é ruim... Arthur - Sim, é isso mesmo. Aliás, na literatura, num romance, eu acho que todo incômodo é positivo.
Será que um bom romance, feito uma boa conversa, também precisa dos silêncios certos? Arthur - Um romance precisa falar muito, mas também tem que deixar coisas subentendidas para o leitor.
Um texto literário precisa deixar frestas para o leitor entrar, precisa abrir vazios para o leitor preencher? Arthur - Acho que sim. No romance, eu induzo o leitor a pensar determinadas coisas, que depois não se cumprem. Gosto de frustrar as expectativas do leitor. É assim que cada um vai imaginar os personagens do seu próprio modo.
Olha aí um trecho do seu livro: “Adelaide trocara os beijinhos protocolares por um beijo nos lábios do Bernardino, que já descera do Gol. Nada de mais. Um selinho. De leve, meio sonolento, talvez até inconsciente de si mesmo, sem língua ou calor. Mas nos lábios. Se alguém já disse que Deus está nos detalhes, o Diabo também haverá de estar.” Em que detalhes você acha que o Diabo mais gosta de morar? Arthur - Ah, eu acho que a casa dele é a ambigüidade. A Adelaide, por exemplo, é ambígua. O meu maior modelo de personagem (que eu estou longe de conseguir, claro) é a Capitu, do Machado de Assis. A Capitu é super ambígua, ela é totalmente escorregadia. A ambigüidade é quando você pensa assim: “Ela tá me olhando desse jeito, será que ela tá me dando mole? Ela botou a mão no meu braço desse jeito, será que ela tá me querendo?” E a leitura disso varia de pessoa para pessoa, de nacionalidade para nacionalidade, de geração para geração. Assim, diante de tantas possibilidades diferentes de interpretação, a ambigüidade se infiltra. O tempo todo a gente sabe, ou imagina, o que a Adelaide queria com o Bernardino...
E de repente a própria Adelaide não sabe o que ela quer com aquele homem... Arthur - Exatamente, provavelmente nem ela mesma sabe o que quer com ele...Talvez não seja o que a gente acha que ela quer.
Sobre a Adelaide: “O cabelo solto e escovado fazia toda diferença. Como tantas e tantas meninas de sua idade, Adelaide parecia nutrir um certo desprezo pelos próprios cabelos, sempre desgrenhados, sempre presos de qualquer jeito, dando a impressão de sujeira. Ali não. No ato de escovar havia uma intencionalidade – não se podia precisar qual – que a transformara numa mulher. Numa mulher ainda mais desejável do que a menina. Bernardino quase engasgou.” Tem intenções que dão impressão digital nas mulheres, tem mulher que dá impressão digital nas intenções? Arthur - A intencionalidade aparece quando a pessoa faz alguma coisa que não é usual. Quando a Adelaide penteia o cabelo, ela está querendo dizer alguma coisa para alguém. Pode não ser para o Bernardino, mas é para alguém. No entanto, essa intencionalidade pode não ser consciente. Ela não precisa pensar desta forma: “Ai, vou pentear o cabelo assim, para ficar mais bonita para fulano ou beltrano.” Mas ela sabe que determinadas atitudes seduzem as pessoas.
Arthur, você está escrevendo uma coluna para O Globo há 11 anos. O que mais te move, o que mais te paralisa, o que mais te desafia nesse trabalho de cronista? Arthur - Apesar da agonia do prazo, é uma vantagem você ser obrigado a pensar. E, ao contrário do que possa parecer, para escrever, a gente é obrigado a pensar. E, sem querer fazer referência ao slogan recente do Globo, o cronista precisa fazer diferença. O leitor tem que pensar: “Puxa, isso aqui realmente ninguém tinha dito antes.” E é muito difícil não ficar no lugar comum, não encontrar opiniões e formas de se expressar espelhadas. Mas também é bem difícil você sair do lugar comum sem forçar muito a mão, sem ficar artificial. O meu desafio semanal no Globo e no site No Mínimo (onde escrevo sobre música) é apresentar um ponto de vista diferente, possivelmente sobre alguma coisa que já foi falada em outros veículos.
Você está escrevendo um novo romance, certo? Arthur - Sim, vai ser um romance vagamente assemelhado ao anterior, mas também vai ser bem diferente. Já tenho uma sinopse contando tudo o que vai acontecer na história, mas falta desenvolver o texto. Estou louco para começar a escrever de fato. Antes desse romance, eu já tinha escrito cinco livros de não-ficção. E é claro que quero escrever outros. Mas não tinha uma coisa visceral de precisar escrever. No primeiro romance, eu queria parar tudo para ficar escrevendo, queria parar de dar aula, queria cancelar tudo quanto era compromisso, para escrever.
Sei, você queria ficar possuído pelo livro? Arthur - É, eu queria ficar possuído mesmo. E agora eu já estou começando a ficar possuído de novo. Acho que escrever ficção vicia.

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