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COM DOÇURA DE MEL NO CHÁ
Lygia Fagundes Telles fala sobre os seus contos preferidos,
transforma esquecimentos em livro
e diz que a fantasia precisa ficar embrulhada para existir



Lygia Fagundes Telles: “O ser humano é indefinível, inacessível e incontrolável”.


Márcio Vassallo


Na apresentação de MEUS CONTOS PREFERIDOS (publicado pela Rocco), você diz que quando organizou essa antologia, queria a liberdade de se enganar. O que mais te puxou para essa vontade de liberdade?
Lygia Fagundes Telles - Tem riscos que são tentadores. E eu realmente queria correr o risco de me enganar, o risco de não escolher os contos certos, se é que existem os contos certos. Mas eu tomei tanto pito dos leitores por causa desse meu livro... Foi um tal de gente me ligar, de gente me escrever, de gente me parar na rua, para me cobrar que eu deveria ter incluído um ou outro conto na coletânea. Numa feira, por exemplo, enquanto eu escolhia umas frutas, uma moça puxou conversa e depois me disse assim: “Ah, mas você não botou nesse livro o seu melhor conto de todos.” E eu perguntei a ela: “Qual é o meu melhor conto?” Então, a moça me respondeu: “Herbarium”. Outro dia sonhei com um grande amigo meu, o Ricardo Ramos, que já morreu. No sonho, ele só olhava para mim e não me dizia nada, só ficava me olhando e sorrindo, calado. Eu pedia para ele me dizer alguma coisa, mas ele continuava mudo. Aí, quando acordei, me lembrei na mesma hora que o Ricardo adorava o meu conto “Eu era mudo e só”. Ah, pensei, meu Deus, será que até os mortos estão me cobrando para incluir outros contos na coletânea. Com os vivos até que eu tento lidar, com eles eu me viro, mas com os mortos achei que seria difícil.

Esse conto vai entrar na nova coletânea que você está preparando?
Lygia - Vai, vai entrar sim. Depois que sonhei com o Ricardo Ramos, eu liguei para o meu editor, o Paulo Rocco, e disse a ele: “Eu quero fazer outro livro!” Ele, muito bem-humorado, concordou. E assim, vou lançar os MEUS CONTOS ESQUECIDOS. Mas nem sei se vou escolher os contos certos dessa vez, ou se vou levar pito de novo dos leitores.

Em MEUS CONTOS PREFERIDOS, você disse que selecionar esses textos foi uma tarefa difícil e fácil ao mesmo tempo, por que as escolhas do coração são difíceis e fáceis. Em que aspectos você acha que as escolhas do coração são mais fáceis e mais difíceis, Lygia?
Lygia - São fáceis por que elas obedecem a um impulso. Seguir um impulso é muito fácil. Ao mesmo tempo é difícil, por que toda escolha do coração é um risco, é uma aposta, é um jogo. Quando faz uma escolha, a gente está jogando no vermelho, está jogando no preto...

Está jogando numa cor que a gente nem sabe qual é?
Lygia - Sim, é verdade, às vezes a gente nem sabe em que cor está jogando. A bolinha está correndo na roleta. E a gente está ali, olhando para ela, esperando a bolinha parar...

Ou esperando que ela não pare de rolar?
Lygia - Pode ser... Depois de seguir o impulso do coração, depois de seguir o impulso da razão, depois de seguir um impulso, não importa de onde ele venha...

Nem para onde ele leve a gente?
Lygia - Sim, depois desse impulso, a gente sempre espera por alguma coisa que nem sempre acontece.

E muitas vezes a coisa acontece, mas não do jeito que a gente sonhava...
Lygia - E a gente só vai saber se a coisa deu certo ou não, depois de jogar, depois de obedecer o impulso, depois de apostar no desejo.

Às vezes também a gente só vai saber disso muito tempo depois...
Lygia - É, geralmente a gente só sabe das coisas muito tempo depois.

Você não sabe se vai levar pito de novo, como você já disse?
Lygia - Exatamente, não sei se vou levar pito de novo... Pito é uma palavra que ainda está no dicionário?

Está sim... Eu gosto dessa palavra, você gosta?
Lygia - É boa, né? Pito, pito... É, eu também gosto dela.

Por falar em gosto pelas palavras, você participou do belo evento Sempre um Papo, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio, e disse para o público que se acha muito confusa no dia-a-dia, e que só é nítida quando escreve. O que leva você até essa nitidez, para onde essa nitidez te leva?
Lygia - Aí é que está, na realidade, eu sou nítida em parte. Também quando escrevo, as minhas personagens nem sempre são nítidas, porque às vezes não é para elas serem mesmo... Mas, Márcio, deixa eu interromper um pouco o nosso papo, só pra botar mel aqui nesse chá... Espalhar mel é muito bom, você não acha? Mas toma cuidado porque é aquela velha história, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.

Estamos tomando café da manhã no Hotel Glória, no Rio. Lygia pede para o garçom Félix trazer uns mamões. O Félix já conhece o gosto da Lygia. Ele sorri para ela. Nos quintais onde morou, quando menina, Lygia gostava de cortar as hastes mais delicadas dos mamoeiros e usá-las de canudos, para soprar bolhas de sabão.
Lygia - Esse mamão está uma delícia. Você não vai comer mamão?

Acho que eu vou ficar nos pãezinhos... E você, Lygia, onde é que você mais gosta de ficar?
Lygia - Eu gosto de ficar aqui nessa sua cidade. O Rio é uma cidade encantadora, principalmente por causa desse mar, ai, esse é um mar que eu não me canso de olhar. Por isso, quando abro a janela do meu quarto, aqui no hotel, eu fico muito mais feliz só de olhar o mar. Aliás, eu tenho um mini-conto, vou escrever pra você agora. Você tem um papel aí?

Tenho, aqui.
Então lá vai:
Confissão
Lygia Fagundes Telles
- Fui me confessar ao mar.
- E o que ele disse?
- Nada.

Puxa, agora me deu vontade de ouvir outras confissões suas. Uma delas você faz em MEUS CONTOS PREFERIDOS. É quando você diz que às vezes se sente tão embrulhada quanto às suas personagens, que muitas vezes lhe escapam...
Lygia - É isso mesmo, elas me escapam, da mesma forma que eu também me escapo.

Tem personagem que precisa escapar de você justamente para decolar na história? Todo escape é uma fuga, ou tem escape que é um encontro?
Lygia - Tem coisas que a gente não consegue penetrar, que a gente não consegue entender, e não é bom tentar entender essas coisas, eu não gosto de tentar entender tudo. Tem coisas que ficam encerradas no mistério, como uma concha. A fantasia, por exemplo, precisa ficar encerrada, precisa ficar embrulhada, para existir.

De que forma a fantasia mais embrulha você, e de que forma você mais gosta de desembrulhar a fantasia?
Lygia - Ah, eu acho que a gente está sempre se embrulhando e se desembrulhando o tempo todo. Eu gosto de dizer o seguinte: o ser humano é indefinível, inacessível e incontrolável. Não temos como saber o que se passa dentro das pessoas. Estamos agora, aqui, tomando o nosso café da manhã, olhando aquele homem ali, todo gentil, puxando a cadeira para a moça sentar, olha lá, você está vendo aquele homem ali?

Estou... E o que você imagina que se passa nele?
Lygia - Esse homem pode se transformar quando chega em casa. Ele pode se transformar num chato, num monstro, num louco...

Ele pode se transformar em alguém mais gentil ainda?
Lygia - Sim, ele pode ser mais gentil ainda... Ele é o que ninguém pode imaginar. Esse homem é como as personagens de um conto, de um romance. Por isso é que às vezes eu tenho que ir desembrulhando as minhas personagens, para ver o que existe por dentro delas.

Por dentro das pessoas, você diz que o ser humano é indefinível, inacessível e incontrolável. Mas essas três características também podem ser boas?
Lygia - Ah, sim, podem ser boas, claro. O encanto do ser humano também está nessas três características.

No seu conto Pomba Enamorada, você escreve sobre uma ajudante de cabeleireiro que, quando encontra o homem dos seus sonhos, pensa: “Vou te amar pra sempre”. Você acha que a sensação de vou te amar pra sempre é mais comum que a sensação de vou te odiar pra sempre? O que costuma durar mais no coração das pessoas, o ódio, ou o amor?
Lygia - O ódio e o amor são terríveis, profundos, devastadores. Ambos podem durar para sempre. Não dá para medir o sentimento de cada pessoa.

Em outro lindo conto, você escreve sobre um jovem que resolve se hospedar num hotel habitado só por velhos. E tem uma frase do narrador que diz assim: “Mas o fato é que se ele não se importasse com a presença dos velhos, é bem provável que os velhos se importassem – e quanto – com a sua presença”. O que torna uma presença realmente incômoda para alguém?
Lygia - A comparação. Quando uma pessoa se compara à outra, geralmente fica incomodada.

Também no Sempre um Papo, na Casa de Cultura Laura Alvim, em determinado momento, você não estava achando os seus óculos, para ler em público um trecho do seu livro AS MENINAS. E você disse que, vira e mexe, os seus óculos costumam desaparecer do seu horizonte. Para que horizonte você mais gosta de mirar, quando você acha os seus óculos?
Lygia - Ah, os horizontes para onde eu mais gosto de olhar são a palavra escrita e o mar.

Você podia incluir aquele seu mini-conto sobre o mar no seu livro MEUS CONTOS ESQUECIDOS, que tal?
Lygia - É isso, boa idéia, vou abrir os MEUS CONTOS ESQUECIDOS com esse texto!

Aí o leitor vai abrir o seu livro feito quem abre o mar.
Lygia - E o meu horizonte vai ficar ainda mais bonito.

A Estrutura da Bolha de Sabão é um dos seus contos mais bonitos. Você já disse que a bolha de sabão não é líquida nem sólida, não é realidade nem sonho, que é uma estrutura imprecisa. O que a beleza tem de mais imprecisa para você?
Lygia - Exatamente a forma, que é mutável.

A beleza muda de olho para olho?
Lygia - É isso mesmo. A visão da beleza muda através do tempo. Talvez só algumas não mudem nunca. As formas de Michelangelo, por exemplo, são eternas. Acho que o Michelangelo apertou o botão da eternidade.

No seu romance CIRANDA DE PEDRA, você escreve: “É preciso amar o inútil, porque é no inútil que está a beleza”. Qual é a grande serventia da beleza para você?
Lygia - A beleza me consola, me socorre, me acolhe, me move de todas as maneiras.









       
 
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