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UM OLHAR APURADO
SOBRE O MUNDO EDITORIAL
Editor da Carrenho Editorial e do PublishNews, Carlo Carrenho avalia
a importância de ações para a formação de leitores e compradores de livros no Brasil


Carlo Carrenho: "Deveríamos pensar em idéias para criar pais leitores, e aí sim chegarmos ao país de leitores que tanto queremos”.
Márcio Vassallo

 

Como nasceu a idéia de fazer o PublishNews, este seu belíssimo e tão precioso clipping diário de notícias do mercado editorial nacional e internacional?
O PublishNews surgiu ao acaso, meio de brincadeira. Na época eu estava começando a estruturar a Carrenho Editorial e arranjei um bico em uma empresa de clipping inteligente que desenvolvia produtos diários nas mais diversas áreas. Eram produtos eletrônicos com uma proposta parecida com a do PublishNews, mas eram feitos sob medida para empresas dos mais diversos setores. Fiquei quase um ano clippando a área de saúde e da indústria farmacêutica, por exemplo. Um belo dia, resolvi fazer um clipping de livros, usando um blog. Decidi pelo nome PublishNews na hora de criar o blog -- o processo de escolha do nome demorou 10 segundos. No mesmo dia, comecei a usar o Yahoogroups para enviar as mensagens. E, assim, no dia 20 de julho de 2001, nascia a primeira edição do PublishNews.

Quais os grandes desafios de editar o seu clipping? Há quanto tempo ele existe, quantos assinantes já tem? De que forma você o viabiliza? Tem colaboradores e redação própria? Pode responder tudo numa só questão, se quiser, rapaz.
O maior desafio foi ficar dois anos e meio fazendo o PublishNews por puro diletantismo - não havia nenhuma receita - e com uma certa dose de obsessão. Hoje, quando olho para trás, não consigo entender onde eu consegui disposição para acordar cedo e fazer todo o informativo sozinho. Com o tempo, surgiram parcerias que viabilizaram o projeto. A principal delas foi um acordo com a distribuidora Superpedido (na época era uma empresa de B2B) que permitiu a construção do sistema de cadastro de notícias e controle de banco de dados. O apoio da Câmara Brasileira do Livro, nos últimos meses da gestão Raul Wassermann, também foi fundamental para dar um folêgo para o PublishNews. Atualmente, a clippagem é feita pelo Rodrigo Diogo e pela Luciana Melo, mas a edição das notas próprias e o clipping é feito por mim. Hoje o PublishNews é enviado diariamente para 5.500 assinantes.

Bem, além de estar à frente do PublisNews, você edita a Carrenho Editorial, edita um site de teologia (www.teologiabrasileira.com.br), edita o Boletim Fome de Livro, integra a equipe de comunicação do VivaLeitura, e é consultor da distribuidora Superpedido. Como é que você faz para não dormir, Carlo?
Alguém já me disse que a vantagem de fazer coisas demais é que você sempre pode fazer só o que é mais divertido e dizer que não fez o que era chato porque não teve tempo. Mas, brincadeiras à parte, a verdade é que o PublishNews trouxe contatos e convites para outros trabalhos que também me agradam e me interessam muito. Editar o site de teologia é uma forma de me manter ligado à edição de livros protestantes que foi minha porta de entrada no mercado editoral. Participar do VivaLeitura é uma forma de pensar o livro dentro de uma esfera governamental e de longo prazo, além de ser uma oportunidade para trabalhar pelo hábito da leitura. E a distribuidora Superpedido me obriga a pensar no grande desafio da distribuição de livros no Brasil diariamente. O resultado é que sou obrigado a ver o mundo editorial sob diversas óticas. E, no final, está tudo ligado ao livro. Para não dormir, basta ter um laptop. "Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo", já disse Arquimedes. "Dê-me um laptop e um ponto de conexão (wireless, de preferência) e eu moverei o PublishNews", digo eu.

Acima de tudo, o que um livro precisa para te tirar o sono?
Precisa me dar prazer, senão é melhor dormir. Borges já disse isso: "Só leio por prazer". E aí tanto faz se é poesia (adoro Fabricio Carpinejar e Sophia de Mello Andresen), policiais (Arthur Conan Doyle e seu Sherlock Holmes são imbatíveis), romances (Equador, de Miguel Souza Tavares tirou-me o sono por várias noites) ou livros de não-ficção (Estou lendo Philobiblon agora). É importante que não só o texto dê prazer, mas o próprio livro, como objeto, também. Nisto sou chato, e não consigo ler um livro mal diagramado. Agora para tirar o sono mesmo, o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, é o ideal. Nesta obra, composta de fragmentos de prosa poética, o poeta português deixou como legado justamente as questões que lhe tiravam o próprio sono.

Do que você mais sente falta no mercado editorial brasileiro?
Compradores de livro. Parece gozação, mas não é. Estou cansado de discutir o problema do livro no Brasil do lado da oferta (desculpe o economês, mas sou economista, sabe). Editores inventam pontos alternativos, autores criam novas temáticas, livrarias promovem eventos e promoções, o governo abre bibliotecas, entidades exigem financiamento a baixo custo para abrir livrarias nos rincões do Brasil... As discussões sobre as baixas vendas de livros no Brasil sempre se limitam à oferta, como se houvesse um exército de leitores e compradores ávidos para adquirir livros que são impedidos pela falta de livrarias ou pela precária distribuição dos livros. Enquanto isso, ninguém pensa na demanda de livros, em como aumentar o consumo. E assim, coloca-se o carro na frente dos bois, ou melhor, o miolo por fora da capa. Acredito que antes de mais nada, temos de pensar como podemos aumentar os índices de leitura e o consumo de livros no Brasil. Acho até que a má distribuição de livros no país esconde um problema muito maior que é a falta de leitores e consumidores de livros.

Por sua vez, em que aspectos você acha que o nosso mercado está mais profissional, mais moderno, mais produtivo?
O mercado tem se modernizado com o aparecimento de empresas multinacionais, outras controladas por sociedades e até mesmo algumas de capital aberto que tendem a substituir as empresas familiares. Infelizmente, junto com esta modernização, o livro perde valor como objeto cultural e seu aspecto comercial começa a ser supervalorizado. O ideal seria alcançar uma modernização do mercado que conseguisse uma boa equação entre o "lado produto" e o "lado cultura" do livro. Enquanto isto não acontece, são as editoras pequenas e médias, menos profissionais, que mantêm a tradição do livro bem feito, como objeto artístico e cultural.

Você esteve recentemente no Salão do Livro de Paris, certo?
Sim, fui para lá representando a Liga Brasileira das Editoras (LIBRE) e cuidei do estande da entidade no Salão. Foi uma experiência interessante. O mais prazeroso era ver o metrô lotado (mesmo!) de leitores e compradores de livros indo para a Porte de Versailles visitar o Salão. Também foi divertido ver o que as pessoas liam no metrô parisiense. Havia sim os best-sellers como O Código Da Vinci, mas também muita gente lendo filosofia e livros afins. É esta cultura de valorização do livro e da leitura que precisamos inocular no Brasil.

Um dos objetivos do VivaLeitura 2005, como é conhecido o Ano Ibero-americano da Leitura no Brasil, é criar um grande cadastro de todas as ações de incentivo à leitura e apoio ao livro que estão sendo realizados no Brasil este ano. Para isso, basta inscrever o programa, projeto ou evento no site www.vivaleitura.com.br. Para você, o que é mais sedutor nesse projeto, o que é mais sedutor no Viva Leitura?
O que é mais sedutor no VivaLeitura é justamente acompanhar e incentivar ações de incentivo ao livro e à leitura no Brasil afora. São estas ações que criarão o povo leitor e o mercado consumidor de livros que escritores, editores e livreiros tanto precisam. Também é fascinante descobrir projetos como o Arca das Letras, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que implanta bibliotecas em assentamentos da reforma agrária, ou pequenas ações, como saraus de poesia que acontecem até em residências de pessoas apaixonadas por literatura.

No embalo dessas e de outras ações, o que é fundamental para formarmos leitores no Brasil?
Você conhece alguma criança que não goste de livro? E quantos adolescentes você conhece que gostam de livros? O que acontece com as crianças para perderem o gosto pela leitura tão drasticamente? Em minha opinião, a família e a escola não têm sido capazes de desenvolver o hábito da leitura e manter o gosto pelos livros das crianças. Acho fundamental que pais e professores assumam seu papel de agentes de leitura junto aos filhos e alunos. Só assim teremos um público leitor no futuro. A tarefa maior, de divulgar o hábito da leitura, cabe ao governo e à sociedade como um todo, mas a tarefa menor, no cotidiano, cabe aos pais e professores. Neste sentido, a escola já passou da hora de repensar suas aulas de literatura. Em minha opinião, com honrosas exceções, as aulas de literatura prestam um desserviço ao hábito da leitura obrigando os estudantes a ler obras que não gostam e que muitas vezes são inadequadas para sua idade e sua bagagem literária. Tenho certeza de que O Menino do Engenho, de José LIns do Rego, é um ótimo livro. Mas tive de lê-lo obrigado e hoje não quero nem passar perto de outro livro do mesmo autor ou mesmo de outras obras regionalistas. Conheço gente que picou livros de José de Alencar depois de lê-los para escola, apesar de gostarem muito de ler. Enfim, é urgente repensar os cursos de literatura. No mínimo, deveria haver uma inversão para que os cursos de literatura começassem com textos e obras contemporâneas -- mais próximas à realidade dos estudantes -- para só depois abordarem obras do Romantismo ou Trovadorismo. Quanto ao papel da família, deveríamos pensar em idéias para criar "pais leitores" para, aí sim, chegarmos ao país de leitores que tanto queremos. Isto é fundamental.









       
 
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