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VASTAS EMOÇÕES DE UMA AUTORA INSPIRADORA Maria Valéria Rezende fala sobre o seu primeiro romance e revela o lado mais apaixonante das suas andanças de educadora popular pelo mundo
 Maria Valéria Rezende: "As palavras nos constroem como seres humanos".
Márcio Vassallo
Como é que o seu primeiro romance, O VÔO DA GUARÁ VERMELHA (lançado pela Objetiva), começou a decolar dentro do seu pensamento, Maria Valéria? Para essa história nascer, que fios você puxou, que fios puxaram você? Maria Valéria Rezende - É difícil lhe dizer como foi que esta história começou a germinar dentro do meu juízo, porque quando eu me dei conta, já estava bem taludinha. Acho que há dois, três ou mais fios que foram se trançando para acabar dando nesse livro. Um dos fios, com certeza, é muito antigo: mais de trinta anos lidando diretamente com a dor do analfabetismo, o desejo de ler, e com alfabetização e educação de jovens e adultos. Como acumulei muita experiência nesse campo, muita gente me cobrava que eu escrevesse um livro sobre isso. Mas como essa minha experiência sempre foi muito mais da ordem da paixão e da arte do que da razão e da ciência, eu pensava que só se fosse um romance ou poesia. Não tinha vontade de escrever um livro explicativo e nem do tipo memórias, para não ter de me prender muito ao chão factual, botar notinha em pé de página, conferir bibliografia, contar só a verdade. Creio que foi daí que nasceu o mote para essa história, o fio condutor, a paixão de uma das minhas personagens por aprender a ler e a descoberta de outra personagem de um sentido para a sua vida quando se vê ensinando ao outro. Engraçado é que enquanto eu escrevia O VÔO DA GUARÁ VERMELHA, acabei escrevendo também um outro livro, semi-acadêmico, digamos, sobre educação de jovens e adultos... Outro fio, que é talvez o mais profundo, são todos os Rosálios e Irenes que fui encontrando na vida, com quem convivi, criei amizade, ficaram dentro de mim e se sintetizaram nessas personagens. Um terceiro fio é minha fascinação por histórias que saem de dentro de outras histórias, e que saem de dentro de mais outras histórias, desde Homero, as Mil e uma noites - sobre as quais vinha pensando muito desde que li um ensaio da Adelia Bezerra de Menezes, chamado A força da palavra.
Sobre o que fala esse ensaio? Maria Valéria - Esse ensaio comenta justamente Sherazade e as mil e uma noites - passando pelo modo peculiar de minha mãe contar casos, até o Mia Couto e outros autores que contam assim. E tem ainda o desafio de escrever um romance, não permanecer apenas contista, porque parece que a gente só passa a ser escritor se escrever um romance, não é? Meu medo de não ser capaz de escrever uma só história bem comprida e daí criar coragem pensando que podia fazer um romance cheio de contos... Claro que esses fios estou desenleando agora, para responder a você, porque enquanto escrevia, na cabeça e no computador, a trança já vinha pronta e deve ter muito mais fios do que esses que identifico agora.
Vamos puxar uma trança para outra história... Você já disse que a sua mãe, Maria Cecy, sempre te contou casos e que essa contação foi decisiva para você se tornar escritora. O que mais te seduzia nessa forma de contar? Maria Valéria - Minha mãe é mineira. Por isso, a contação de caso está no sangue. Eu fui criada sem televisão, sou mais velha do que a televisão brasileira, mas mesmo depois que apareceu televisão, lá em casa continuamos durante anos sem ela. Nossa televisão era dentro da nossa cabeça, a gente imaginando as coisas que minha mãe ia contando. Ela tem a arte de contar os mesmos casos sempre de nova maneira, puxando desvios e atalhos que emendam novas histórias, inventando um bocado, e depois consegue voltar para a história inicial exatamente no ponto em que tinha tomado o desvio, e assim por diante, até o próximo atalho. Mesmo as histórias infantis clássicas, uma Gata Borralheira ou um Chapeuzinho Vermelho, ela contava assim cheias de alças, zigzags, digressões, de maneira que a gente tinha a impressão de que a história podia durar pra sempre e a gente não ia ter que ir dormir.
Você diz que tem fascinação por histórias que saem de dentro de outras histórias, e o seu romance é cheio delas. Em que sentido essas histórias mais te alargam por dentro? Maria Valéria - Desde pequena eu sempre tive dificuldade quando tinha que escolher ir para cá ou para lá, brincar disto ou daquilo, porque eu queria fazer tudo e estar em todo lugar, tinha e tenho uma curiosidade enorme. Acho que todos nós nascemos com a possibilidade e a capacidade de viver mil vidas diferentes, muito mais vidas do que o que de fato vamos ter tempo de atualizar. À medida que a gente vai vivendo, as circunstâncias vão nos limitando, temos que ir tomando caminhos, há uma sucessão de bifurcações, muitas delas irreversíveis, e muito do que ainda era possibilidade aberta nos primeiros anos da nossa vida vai desaparecendo do horizonte. Mas a capacidade virtual, digamos, de ser outra, experimentar outros modos de viver, fica lá, incomodando, deixando a gente sempre com uma inquietação, uma insatisfação. Acho que a ficção (as narrativas, sob qualquer forma que se apresentem), foi a melhor solução que a humanidade inventou para esse desassossego, esse desencontro entre o infinito das possibilidades e as margens estreitas da vida real. Por isso, pra mim, quanto mais história melhor, e se forem sem fim, infinitas, melhor ainda. Quando eu aprendi a ler, descobri que os livros permitiam pular para outras vidas na hora em que eu quisesse. Como o Rosálio do meu livro descobriu isso antes de saber ler. Nunca mais parei de ler. Me lembro muito bem da estranhíssima sensação de ser um cachorro, durante os três dias que levei lendo pela primeira vez O chamado da floresta, do Jack London, quando eu tinha uns 11 ou 12 anos. Escrever é melhor ainda, para experimentar ser outra pessoa. Acho que foi por isso que, afinal, fui capaz de fazer muitas escolhas na minha vida, sem me arrepender delas e sem voltar atrás, porque tinha montes de histórias a ler e a escrever para recuperar alguma coisa dos caminhos que não segui.
Você dedica O VÔO DA GUARÁ VERMELHA aos editores Marlene Maciel Barbosa, e Paulo Anthero Barbosa, que lançaram o seu primeiro livro, o primoroso VASTO MUNDO, pela editora Beca, e se tornaram seus amigos. Qual a grande importância da Marlene e do Paulo na sua vida? Maria Valéria - Vamos recolocar a ordem dos fatores porque isso é parte importante da história: primeiro a Marlene e o Paulo se tornaram meus amigos, e só depois meus editores. Aliás, na primeira vez em que encontrei a Marlene e o Paulo, percebi na hora que eles já eram meus velhos amigos, pessoas de quem eu devia ter sido amiga há décadas, se nos tivéssemos encontrado. Mas nosso encontro foi mesmo por causa do VASTO MUNDO. Eu tinha mandado meus originais meio ao léu, sem recomendações, pelo correio, para várias editoras. Até que no dia 31 de janeiro de 2000, recebi de uma vez duas propostas. Primeiro foi de outra editora, também muito bacana e respeitada e mais antiga do que a Beca e, poucas horas depois, recebi um telefonema da Marlene. Corri para a Lucia Riff me aconselhar, claro, e a Lucia achou mais prudente escolher a editora mais antiga e mais conhecida. Mas a Marlene não desistiu: toda semana ela me telefonava, continuava querendo o livro, e a gente acabava em longos papos. E a Lucia tratando do contrato com a outra editora, que ia lentamente, o prazo que eles propunham para publicar o VASTO MUNDO era longo. Então eu fui a São Paulo e tive vontade de conhecer pessoalmente a Marlene, pela simpatia telefônica. Cheguei lá na Beca num fim de tarde, encontrei aquele casal fantástico, com uma experiência de vida, uma abertura de visão enormes, senso de humor, bom gosto, entusiasmo pelo que fazia, uma cultura vastíssima, que parecia não ter nada mais importante a fazer do que conversar comigo, que tomava muito naturalmente o fato de eu ter escolhido outro editor mas ir lá visitá-los e daí foi amor à primeira vista, pelo menos da minha parte. Pouco depois a Lucia foi a São Paulo e teve a mesma idéia, foi lá conhecer pessoalmente a Beca e também gostou. Afinal, o VASTO MUNDO foi para a Beca que o tratou com um imenso carinho e o publicou em dois tempos. Foi com eles que eu aprendi muita coisa sobre o mundo dos livros, descobri que editor não é um simples fabricante de livros, e continuo aprendendo, além do enorme prazer que é tê-los como amigos, para quem mando tudo que escrevo e cuja opinião se tornou para mim indispensável, pro resto da vida. Só fico bem tranqüila quando a Marlene e o Paulo me dizem que o que eu escrevi está bom, está bonito.
Antes de lançar o VASTO MUNDO, mesmo quando nem tinha certeza se realmente seria publicada, o que mais te movia para continuar a escrever? Ou será que você sempre teve certeza de que seria publicada um dia? Maria Valéria - Acho que desde que eu me alfabetizei nunca parei de escrever. Nasci numa família em que se escreviam e publicavam livros, e isso para mim parecia uma coisa comum, quase banal. Minha avó paterna era sobrinha do poeta Vicente de Carvalho, entre os muitos filhos dele, alguns também escreviam e eu convivi muito com eles na minha infância. Minha tia paterna, Maria José Rezende era poeta e cronista muito querida em Santos, com vários livros publicados, a casa de minha avó vivia cheia de amigos poetas, escritores. Eu ainda nem sabia ler e já ganhava no aniversário livros autografados pelos parentes e amigos autores. Meu número nas festinhas da família era recitar de cor poemas do tio Vicente que eu às vezes ainda nem entendia bem. No lado mineiro da família de minha mãe também havia tios que escreviam e publicavam. Acho que, como qualquer criança brinca imitando os adultos, eu logo comecei a produzir meus livrinhos, fabricava histórias, provavelmente pastiches com pedaços das muitas histórias que eu lia ou ouvia. Eu escrevia, desenhava, montava as páginas direitinho e depois pedia pra minha avó ou minha mãe passarem uma costura à máquina no meio pra ficar como um livro de verdade, exemplar único, e esses eram meus presentes de aniversário para a família. Valorizavam muito aquilo, meus livrinhos corriam de mão em mão e eu achava que era o maior sucesso, uma escritora como os outros! De maneira que o primeiro gosto de ver minhas obras publicadas eu tive naquele tempo. Eu cresci e nunca mais pensei em publicar ficção. Fui procurar caminhos novos para a minha vida. Acabei escrevendo e publicando muita coisa de não-ficção, sempre em função do meu trabalho de educação popular. Mas quando me via sem dinheiro pra comprar presentes nos aniversários de amigos, eu às vezes escrevia uma história, fazia de novo meu livrinho exemplar único e isso era meu presente. Às vezes também escrevia contos como simples lazer, ou como uma forma de reflexão, necessidade de registrar aquilo que, nesse contato com a vida e a luta cotidiana principalmente do povo pobre, tocava também minha sensibilidade estética ou me desafiava a buscar uma compreensão mais fina e cordial. Criar personagens, tentar meter-me na pele deles e sentir como se sentem acho que foi uma maneira de buscar essa maior compreensão da complexidade do humano, do traço de originalidade absoluta de cada pessoa. A maioria das histórias do VASTO MUNDO, e outras que ainda não foram publicadas, foram escritas assim, ao longo de anos, às vezes ficando inacabadas realmente por anos até que eu as encontrava e lhes dava um desfecho, sem a menor idéia de que estivesse escrevendo um livro nem de que seriam publicáveis. O conto com o titulo Vasto Mundo, por exemplo, escrevi primeiro até colocar o menino no alto da torre da igreja, sem saber como fazê-lo descer, e o esqueci lá por vários anos até que, de repente, me lembrei dele e finalmente soube o que ia acontecer. Foi esse conto que dei de presente de aniversário a um amigo que foi parar na mão de um editor que não o publicou, mas acabou gerando o livro VASTO MUNDO. Eu gostaria de continuar escrevendo assim, espontaneamente, mas não sei se consigo agora que começo de novo a achar que sou uma escritora, mas sem aquela inocência dos meus sete anos.
Na sua nova fase, com a Objetiva, com a editora Isa Pessôa, o que mais tem te deixado feliz, o que você mais espera desse relacionamento? Maria Valéria - Foi a Lucia que iniciou a minha relação com a Objetiva, e só depois de contrato já assinado é que eu fui me comunicar diretamente com a Isa. Para mim, até agora, a Objetiva não é uma empresa ou uma entidade abstrata, é a Isa Pessôa, em pessoa (desculpe, não deu pra evitar o trocadilho...). Ainda conheço pouco a Isa, encontrei-a pessoalmente apenas uma vez, e temos trocado e-mails. Mas esse pouco já estou achando muito bom, ela me fez críticas e sugestões que acatei sem dificuldade porque reconheci que eram justas e me ajudavam a melhorar meu livro. Começamos assim uma relação que eu sinto que vai construindo amizade e parceria, o que para mim é imprescindível, porque fiquei muito mal, ou melhor, muito bem acostumada com a Marlene e o Paulo. Muitos anos atrás, mais de vinte, eu tive experiências nada agradáveis com uma editora, em que o relacionamento era inteiramente burocrático e pouco transparente. Fiquei com desgosto daquilo e acho que isso deve ter contribuído para afastar da minha cabeça, por muito tempo, a idéia de publicação. Só comecei a descobrir que podia ser diferente com o Pascoal Soto, quando ele estava na Moderna e me achou, embora isso não tenha resultado em publicação, e depois com a Beca e tudo indica que também vai ser ótimo com a Isa.
Por sua vez, você e a Lucia Riff, você e a equipe da BMSR, estão juntos há quanto tempo, você lembra? Qual a grande importância do trabalho de um agente para você, Maria Valéria? Maria Valéria - Acho que foi em 1999 que a Lucia passou a me representar, por insistente intervenção da Rosa Amanda Strausz e de você mesmo, Márcio, eu sei, porque não era o caminho natural que a Lucia, a mais importante agente literária do país, que representa muitos dos maiores nomes da literatura brasileira, que já tinha trabalho demais, fosse se ocupar de uma pré-escritora sem livro, que eu era naquele tempo. Mais uma vez, foi a amizade e a generosidade dos outros, vocês, que me levaram pra frente nesse caminho. Ouço falar de competição, de vaidades em conflito no mundo literário, e até já presenciei um ou outro fato desse tipo, mas eu tive a sorte de cair logo na tribo do bem e minha experiência tem sido inteiramente outra. Você, o Frei Betto e a Rosa Amanda me inventaram como escritora, como eu disse na dedicatória do VASTO MUNDO. A Rosa Amanda pra mim já se tornou uma amiga de infância - apesar das décadas que separam a minha infância da dela - uma comadre preferida, além de minha mestra, a quem vivo pedindo conselho. A Lucia, além de ser, pessoalmente, um encanto, é um privilégio poder contar com ela para zelar pelos meus livros, poder confiar inteiramente em alguém que vai cuidar daquilo que eu não sei fazer e ficar preocupada apenas em escrever direitinho. Um bocado de gente me inveja por ter a Lucia como agente. É provável que se eu não tivesse a Lucia, depois daquele primeiro ensaio que não deu em publicação, eu teria simplesmente me encolhido e guardado de novo minhas histórias nas gavetas, minhas e dos amigos. Acho que, principalmente para autores que vivem fora do eixo onde estão as grandes editoras com capacidade de distribuição nacional, agente literário é fundamental e ainda há muito poucos agentes literários experimentados e de qualidade no Brasil. Só aqui em João Pessoa há dezenas de excelentes poetas, ficcionistas, ensaístas, enfim, toda semana tem lançamento de livro, esta semana mesmo, só dos que eu sei, são três lançamentos. Mas são edições pequenas, distribuídas quase que só localmente, o que é uma pena, não tanto pelos escritores, porque eles sabem o valor que têm, mas pelos outros leitores do Brasil todo que poderiam estar desfrutando dessa riqueza. Acho que coisa semelhante acontece em todos os estados do Brasil, apesar de eu ter a certeza de que se o IBGE medisse a taxa de talento per capita, a Paraíba ia lá pras cabeças! A literatura é fator fundamental, acho, na constituição da nossa auto-imagem de brasileiros e me parece um desastre se essa auto-imagem, nossa identidade, for depender só, ou principalmente, do ponto de vista de quem vive no eixão da Via Dutra, no meio pra-lá-de-urbano. Acho que agências literárias e editores que garimpassem sistematicamente e nacionalizassem bons escritores de todos os rincões do país, promoveriam um avanço impressionante para a cultura brasileira.
Por falar em relacionamento, estava aqui me lembrando que já nos conhecemos há mais de seis anos, e nunca nos vimos. Como você lembrou agora, a gente se conheceu por conta do seu VASTO MUNDO, que eu tive a delícia de ler antes de ser publicado, junto com a Rosa Amanda Strausz e o Frei Betto. De lá para cá, a gente não parou mais de se falar, principalmente por e-mail. E uma das minhas grandes frustrações foi ter ido dar um curso em João Pessoa, sua terra adotiva, e me esquecido completamente de te avisar. Só me lembrei quando já estava embarcado no avião, voltando para o Rio, no momento em que uma professora me pediu dicas de leitura. Essa professora queria saber que autores, que novidades da literatura eu mais recomendava a ela, coisa e tal. Então, o primeiro nome que me veio na cabeça foi o seu. E eu disse para a moça: "Ah, olha, não deixa de ler a Maria Valéria Rezende. Ela tem um livro belíssimo chamado VASTO MUNDO. A Maria Valéria é de Santos, mas mora em João Pessoa há um bocado de tempo..." E quando eu mal tinha terminado a frase, fiquei com cara de lesado, de asa baixa, lembrando que tinha passado três dias tão perto de você, sem me tocar disso. Será que a gente vai se ver este ano? Maria Valéria - Olha, meu querido, essa mancada sua você ainda vai me pagar e eu só aceito como pagamento uma visita especial aqui em João Pessoa. Mas acho que a gente provavelmente vai se encontrar sim, este ano, porque a Isa está me intimando a comparecer por aí, para lançar O VÔO DA GUARÁ VERMELHA. Não é possível que dessa vez a gente não se veja! E vamos precisar de tempo pra pôr a conversa em dia, porque nós também já estamos virando amigos de infância, não é?
É sim, minha amiga... Mas da nossa amizade vamos voltar pro seu livro. Logo no início do romance, você escreve: "Como custa esforço não pensar em nada". Em que aspectos tirar pensamento da cabeça é mais difícil? Maria Valéria - Eu passei anos tentando não pensar em nada, esvaziar completamente a cabeça de todo pensamento, por influência da Emília do Monteiro Lobato, que foi quem me apresentou esse desafio. Ela não conseguiu nem eu... mas afastar alguns pensamentos que não quero manter, pensamentos ruins, angustiantes, pra isso eu tenho vários meios e não acho muito difícil não, dá pra enfrentar rezando e pondo as coisas nas mãos de Deus, ou pondo ferramentas nas minhas mãos e tentando produzir alguma coisa palpável, bonita ou útil, que é uma ótima maneira de fazer uma limpeza na cabeça, ou também transformando aquilo em ficção. O mais difícil pra mim é quando alguém começa com uma conversa comprida, até uma confidência e, de repente, uma palavra ou frase que ela diz desperta minha imaginação e eu boto pra inventar alguma história e não consigo mais prestar atenção à conversa do outro, entrando às vezes em situações bem constrangedoras, como ficar repetindo maquinalmente "ah, que bom"... pra descobrir mais adiante que a pessoa já tinha passado a contar alguma tragédia e eu não tinha percebido, pensando em outra coisa.
Você de novo, também no começo do livro: "Das fomes e vontades do corpo há muitos jeitos de se cuidar porque, desde sempre, quase todo o viver é isso, mas agora, crescentemente, é uma fome da alma que aperreia Rosálio, lá dentro, fome de palavras, de sentimentos e de gentes, fome que é assim uma sozinhez inteira, um escuro no oco do peito, uma cegueira de olhos abertos e vendo tudo o que há para ver aqui (...)". Maria Valéria, o que mais alimenta a sua alma? Maria Valéria - É gente, sem nenhuma dúvida. Pra mim, o mundo é feito de gente, o resto é cenário. Livro me interessa quando fala de gente, tem gente dentro. As coisas que eu faço são sempre para alguém, para mediar uma relação pessoal. Mesmo Deus, acho que Ele escolheu falar comigo só mesmo através de gente, através da palavra dos outros. Às vezes eu estou esmorecida, com gripe, dengue, essas viroses, pressão alta, dor de dente o seja lá o que for, me chamam pra um debate com algum grupo, uma reunião pra desenvolver ou avaliar um projeto popular, eu vou me arrastando, suspirando, mas quando chego lá e vejo as caras das pessoas, seus olhares interessados, ouço as vozes, eu ressuscito na hora, fico a mil! É por isso que na vida já me meti a fazer também muitas outras coisas, que eu sou muito curiosa, mas a educação popular eu não deixo nunca, não posso, é ali que eu me realimento de sentido pra todo o resto. Mesmo continuar a escrever ficção agora com mais freqüência e aplicação foi uma decisão que só se firmou no dia em que o pessoal do Projeto Zé Peão - um trabalho maravilhoso de escolas nos canteiros de obras, que o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil daqui de João Pessoa mantém há mais de 15 anos - resolveu adotar o VASTO MUNDO como livro de leitura para os trabalhadores já alfabetizados do projeto, naquele ano, e me chamaram para um encontro com os alunos em que eu autografei 250 livros, para cada um deles. Quando eu vi aquela fila de rapazes e homens, com o meu livro na mão grossa, esperando pacientemente sua vez, e depois indo se sentar no auditório e abrindo imediatamente o livro, começando a ler, alguns acompanhando as linhas com a ponta do dedo, meu Deus! da metade pro fim as minhas dedicatórias ficaram todas meio borradas porque pingava lágrima nos livros.O que me faz inventar histórias e escrevê-las também é sempre gente viva, alguma palavra dita, algum gesto, uma cara, um caso, é o que desperta minha imaginação.
Outro trecho do seu novo livro, para despertar a imaginação da gente: "Para onde fugiu a humanidade? sumiu toda?, virou lobisomem, boitatá, alma penada, mula-sem-cabeça? Rosálio vai deixando um rastro de pedrinhas para marcar o caminho do regresso porque ainda não está pronto para soltar-se outra vez pelo mundo sem conhecer a volta e ainda está devendo o feijão que comeu". Você já teve vontade de deixar rastro de pedrinhas para marcar algum caminho? Maria Valéria - Eu não sou muito de voltar pra trás pelo caminho que já percorri, de usar as estradas já bem traçadas. Muitas vezes prefiro dar uma volta mais longa, sem saber muito bem onde vai dar, tentando descobrir coisas novas, do que pegar o velho caminho já conhecido e seguro. Sempre fui aventureira e acho que é uma das razões pelas quais eu fui ser freira. Isso é verdade tanto quando eu ando concretamente por uma cidade ou pelo campo - andei muito pelo campo nos muitos anos em que vivia no interior do Nordeste - quanto no meu modo de agir, em geral. Tenho a mania de experimentar outro jeito... na cozinha - eu gosto muito de cozinhar - nunca quero seguir as receitas, e isso às vezes acaba em desastres intragáveis, mas a minha comunidade é santa, engole tudo e não reprime meus experimentos. Só nas grandes cidades da China, quando eu fui lá, antes da aceleração dessas reformas ocidentalizantes que espalharam placas em inglês por todo lado, é que eu precisei, quase literalmente, deixar rastro de pedrinhas: escapava do hotel bem cedinho e levava um bloquinho, desenhando o mapa do caminho que eu ia fazendo, pra poder achar o caminho e voltar pra trás a tempo de chegar ao hotel antes que nossos anfitriões e guias viessem nos buscar.
Que rastros você mais gosta de deixar, que rastros você mais gosta de seguir? Maria Valéria - Eu gosto quando percebo um rastro meu cuja autoria os outros já não reconhecem mais. Isso quer dizer que o que fiz ou propus foi assimilado, foi útil, foi bom para as pessoas de maneira que elas já o consideram seu e não ficam se perguntando quem criou aquilo. Há algumas coisas que eu iniciei e que estão por aí até hoje, são de todo o mundo. Às vezes acho algum texto num boletim qualquer, começo a ler e achar interessante, para poucas linhas depois reconhecer que fui eu mesma que escrevi, há muito tempo, e já virou absoluto domínio público. Devo ter escrito milhares de páginas que foram partes de produtos de responsabilidade coletiva, sem nomes dos autores. Muitas ainda estão fazendo seu caminho em algum lugar. Agora, publicando contos e romances só mesmo sendo um grande gênio é que se pode deixar esse tipo de rastro, como o Cervantes: quase todo mundo reconhece o Dom Quixote, embora só os estudados saibam quem foi Cervantes. Então, nesse campo vou ter de me contentar com meus rastros assinados.
Você era amiga da irmã Dorothy, assassinada há pouco tempo no Pará. E você também dedica o seu romance a ela. De que forma esse assassinato mais mexeu com você, Maria Valéria? O que ficou de mais inesquecível da sua convivência com ela? Maria Valéria - Eu conheci, sim, a Dorothy, encontrei-a mais de uma vez, mas não posso dizer que convivi muito com ela e nem que fôssemos muito amigas no sentido que a expressão tem geralmente. O que aconteceu é que, principalmente nos anos 70 e 80, houve um enorme movimento das freiras, brasileiras, latino-americanas, européias e norte-americanas, de um grande número de congregações diferentes, de sair de dentro dos conventos, sair de suas terras e buscar os lugares onde vivem os mais pobres, os mais oprimidos, ir viver no meio deles, onde cremos que Jesus também prefere estar, compartilhar na medida do possível das mesmas condições de vida e junto com eles procurar caminhos para melhorar a vida. E aí, no meio dos pobres e de seus movimentos, nos encontrávamos todas, e isso de viver com os pobres era uma experiência tão forte, que remodelava a vida da gente de maneira que as diferenças de congregações, instituições se tornavam muito pálidas diante da identidade da escolha feita e dessa vivência. Entre as Irmãs da congregação da Dorothy e da minha, no Nordeste, houve uma aproximação especial, porque até tivemos comunidades em que vivíamos juntas, irmãs das duas congregações, nos encontrávamos, nos hospedávamos mutuamente, participávamos juntas de encontros e retiros, e ainda somos amigas, embora atualmente vivamos mais longe e nos vejamos menos. E foi assim que me encontrei pessoalmente algumas vezes com a Dorothy. Mas, por outro lado, por saber e sentir muito bem que opções e valores eram os dela, sua prática evangélica e social, por ter tentado eu também ser fiel a essa mesma prática, por ter convivido muito e ser muito amiga de outras irmãs da congregação dela, posso dizer que ela era até mais do que minha amiga, era minha irmã, como o são todas as milhares de freiras que se espalharam e se tornaram invisíveis no meio dos pobres das periferias das grandes cidades, nos lugarejos do interior, no meio rural, especialmente do Norte e Nordeste, como a Dorothy. Foi a morte trágica que lhe deu visibilidade, mas a santidade dela foi construída ao longo de sua vida escondida no mato. Creio também que ela estava de algum modo preparada para a morte que teve, conseqüência do modo como ela escolheu viver. Tenho certeza de que a morte dela pode desencadear algumas mudanças mais profundas em nossa terra. Quem ler meu romance vai achar natural que eu o tenha dedicado à memória dela, e também de minha amiga Margarida Maria Alves, líder sindical com quem, sim, convivi muito e trabalhei junto por vários anos, e cujo bárbaro assassinato, há mais de 20 anos, está até hoje impune, embora a Paraíba inteira saiba muito bem quem mandou matá-la.
Uma das personagens principais do seu romance é Irene, uma prostituta cheia de buscas, expectativas, aperreios. Você convive, ou já conviveu muito com prostitutas, no seu trabalho de missionária, pelo Brasil e pelo mundo? Maria Valéria - Convivi e conheço sim, muitas prostitutas pobres e sei que é uma vida de muita dor que nenhuma delas escolheu livremente. É por isso que Jesus disse que elas vão entrar no céu antes de todos nós. A minha personagem Irene tinha sobretudo dor, antes de encontrar o Rosálio. Perto da minha casa, em Guarabira, tinha um larguinho onde ficavam os cabarés pobres da cidade. E eu, de manhã, quando saia de casa, muitas vezes escolhia passar por lá e conversar um pouco com as mulheres que estavam sentadas à porta, tomando sol, secando os cabelos, que a manhã era a hora de folga delas. Ouvi nem sei quantas histórias de vida dessas mulheres. Também nos povoados pequenos em que morei sempre havia pelo menos uma, pobre, isolada, desprezada, embora considerada como uma espécie de serviço público, de mal necessário. Eu só visitava, conversava, tentava romper o isolamento, coisa que outras mulheres não ousariam fazer, mas freira pode. É uma vida de dor. E ainda por cima têm de fingir que estão felizes, gostando de tudo aquilo, de qualquer um, pra agradar e não perder freguês. Uma vez tive que levar o recém-nascido filho de uma delas que estava muito doente, para entregar aos pais dela, moradores de uma fazenda num município distante, também paupérrimos, com o recado de que registrassem o menino como filho deles e nunca lhe dissessem que ele de fato era filho de uma puta. Depois me dei conta de que eu tinha feito uma coisa ilegal, mas não me arrependo, era o mínimo que a caridade exigia que eu fizesse para aliviar a dor daquela mulher. Fico indignada quando vejo ficcionistas, quase sempre homens, inventarem bordéis todos charmosos, com prostitutas felizes e contentes, cafetãs que são melhores que mães... Daí todo mundo acha que está tudo bem, ser prostituta é uma boa, é uma vocação, desresponsabiliza a sociedade e quem se serve delas e as explora. Só se for em bordel de luxo, que eu não conheço.
Para você, o que uma prostituta mais espera? Maria Valéria - Como a Irene, ela espera sempre que alguém a ouça e fale com ela, mas quase ninguém faz isso.

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