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BELEZA ENGARRAFADA Adriana Falcão reúne crônicas entupidas de boniteza em O DOIDO DA GARRAFA e escreve um dicionário de frases poéticas
Márcio Vassallo
Adriana Falcão: “Todo tipo de indelicadeza dispara alarme no meu peito.”
Como você começou tirar o seu novo livro da garrafa? Adriana Falcão - O primeiro passo foi o MANIA DE EXPLICAÇÃO, que nasceu como uma crônica, publicada na Veja-Rio, e depois virou livro. Na época, você teve a idéia do livro e conversou com o Pascoal Soto, que era editor da Salamandra. Aí o Pascoal publicou o MANIA, e ficou ligado nas minhas crônicas. E a Lucia Riff (da BMSR) começou a me dizer: “Um dia vamos reunir as suas crônicas num livro.” Assim, o Pascoal me convidou para fazer um livro com novas crônicas que escrevi na revista. E desse modo nasceu O DOIDO DA GARRAFA, publicado pela editora Planeta. Mas, na realidade, sempre acho que as coisas acontecem comigo mais por uma deficiência do que por uma qualidade minha. Quando a Veja-Rio me convidou para escrever essas crônicas foi um desafio, e eu pensei assim: não sou o tipo de pessoa, feito o Verissimo ou o Zuenir, que sabe comentar com talento política, economia, futebol, comportamento, fatos, atualidades. Então, a minha saída foi a ficção. Tudo o que eu queria era ser o Paulo Mendes Campos.
Um trecho da crônica Inverno, que integra O DOIDO NA GARRAFA: “Dizem que depois da paixão fica o amor (Às vezes). É quando a doidice sossega, a agonia desaperta, o pensamento serena, a vida acena com outras possibilidades, a sanidade retorna, a realidade se reapresenta: lua é lua, noite é noite, palavras são só palavras e nem todas elas são boas.” Mas depois a narradora diz que, de repente, se deu conta de que já está com 40 anos e continua louca, e que ela e o marido continuam apaixonados, em estado de encantamento. Tem segredo pra botar doidice no amor e sanidade na paixão? Adriana - O amor e a paixão são muito recorrentes no meu trabalho. É uma coisa que está sempre na minha cabeça. Qual é o segredo disso, como é que isso funciona? Não sei. Estou casada com o João há 15 anos. E é um casamento muito feliz. Mas como todo casamento, ele tem fases diferentes, boas e ruins. Tem momentos em que você acha que não vai ter mais nenhuma novidade a partir dali. E de repente surge uma novidade que melhora a relação, sem ninguém fazer nada, sem nenhum planejamento, sem precisar daquelas conversas do tipo, olha, a gente está transando pouco, a gente precisa transar mais...
Sem agendar vontades? Adriana - Isso mesmo. Tem que ser uma coisa natural. E, acima de tudo, o que mata o amor são as mágoas. A mágoa esfria o encantamento.
E o que é que esquenta? Adriana - Não sei, não sei... Acho que Deus ajuda, o destino leva, acontece alguma coisa de repente boa no meio de uma crise, tudo se renova do nada. Eu tenho essa impressão. O desejo, o amor e o encantamento são coisas do destino.
Por falar em destino, na crônica Noite de Verão, uma moça e um rapaz se conhecem na Lagoa e o papo dos dois abre logo vontade de beijo: “Começaram a se emaranhar ali mesmo, a moça e o rapaz, com tanta pressa, que olhando assim qualquer um apostaria que iam ser felizes.” A cena lembra um dos seus versos no livro MANIA DE EXPLICAÇÃO: “Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.” Que tipo de sentimento mais dá pressa na pele? Adriana - A ansiedade. Tenho muito ansiedade. É a ansiedade que me faz fumar, que me faz nadar, que me faz escrever. Acho que a minha ansiedade é acima do normal. Às vezes eu nem consigo existir de tão ansiosa que fico, sabia? Aí eu não consigo ficar sentada, não consigo ficar em pé, não consigo deitar, não consigo ficar parada, não consigo ir para lá, não consigo voltar para cá, não consigo escrever, não consigo ver televisão, não consigo nada. Nesse momento, fico num grau tão grande de ansiedade que realmente eu me sinto sem saída. Tenho muito essa sensação. E aí, no meu caso, tento homeopatia, tento nadar, tento correr, tento andar na esteira, vou tentando aliviar a ansiedade de todas as maneiras.
Aliás, tem um verso do MANIA DE EXPLICAÇÃO em que você diz que ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja. Existe ansiedades que nos estimulam e ansiedades que nos atrapalham? Adriana - Sim, tem ansiedade que me estimula, que me faz criar, que me faz ter vontade de ficar acordada e tem ansiedade que me atrapalha. É por causa dela que brigo, que perco a paciência, que perco a generosidade.
Quando escreve, você tem uma ansiedade aperreada de terminar as suas histórias, ou é uma ansiedade amansada? Adriana - Tenho uma ansiedade bem maluca. Sempre estou fazendo as coisas logo, enquanto há tempo, porque acho que vou ficar doida e aí não vou conseguir fazer mais nada. Então, tenho que limpar esse cinzeiro agora, antes que eu fique louca. Tenho que escrever esse texto hoje, porque amanhã eu posso ter enlouquecido. E eu tenho pavor de deixar as coisas pendentes.
Então você faz preparativos para a loucura? Adriana - É, eu sempre penso assim. Tenho que terminar isto daqui a três dias, mas e se eu ficar doida amanhã? Ah, então, preciso acabar isso logo hoje. Fico antecipando a minha vida, por conta da minha ansiedade. O meu sonho era ficar igual ao Dorival Caymmi, numa rede, vendo o mar. Mas isso seria impossível para mim. O meu estado natural é de doida engarrafada. Sou feito uma garrafa de champanhe, que as pessoas agitam e ela transborda...
Você é uma garrafa de champanhe, cheia de gás? Adriana - É exatamente isso, mas acho que eu tenho gás de sobra, queria ter menos.
No meio de tanta ansiedade, onde é que você costuma achar a felicidade, ou será que é ela que acha você? Adriana - Eu acho muita felicidade nas minhas filhas, em fazer coisas para elas. Em fazer o natal, fazer o domingo, fazer alguma coisa especial para elas. Isso realmente me deixa muito feliz. Quando somos jovens, temos dificuldade de enxergar a felicidade fora da paixão. Mas a paixão também traz muito sofrimento, muito medo, muita angústia.
Também na crônica Noite de Verão, o sol resolve acordar mais tarde para manter a paixão acesa. Mas você provoca o leitor: “Não está provado que o desempenho da noite tenha influência direta na paixão dos homens.” Será que a paixão dos homens tem influência direta na noite? Adriana - Tenho estudado filosofia oriental. Não acredito veementemente numa só coisa. Mas acredito que existem coisas no ar, não sei se é Deus, se são os santos, se é a física, se é a lua...
Se é tudo isso ao mesmo tempo? Adriana - Exatamente. Quando a Lady Di morreu achei que foi por minha culpa. Fiquei muito agoniada, porque quando eu fui tomar banho, fiquei pensando numa outra coisa, me distraí, e ela morreu. Eu não estava lá tomando conta dela. Às vezes, a gente fica achando que tem esse poder de influência nas coisas. Mas quando fazemos ficção, é muito atraente imaginarmos que realmente temos esse poder.
O seu LUNA CLARA & APOLO ONZE acaba de ser selecionado para o catálogo White Ravens, da Biblioteca Internacional da Juventude de Berlim. Foi escolhido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) para integrar o catálogo da Feira do Livro de Bolonha. E também acaba de ganhar da FNLIJ o selo de Altamente Recomendável. O que é preciso para fazer as crianças se apaixonarem pela literatura? Adriana - A minha experiência com roteiro de televisão mostra que a gente tem que prender a atenção do telespectador. Acho que com a literatura acontece uma coisa parecida. O autor precisa prender a atenção do leitor, com magia, com técnica, com encanto. Se o livro não te chama, não tem jeito. O livro tem que puxar a criança, tem que puxar o leitor, de todas as idades, tem que fazer as pessoas entrarem na história, sem ter vontade de sair dela. Nesse sentido, o LUNA CLARA foi o meu livro mais elaborado. Foi o livro em que mais tentei usar técnicas e ganchos para puxar o leitor para dentro da história. A MÁQUINA foi uma tentativa minha de fazer um texto de teatro, mas acabou virando livro. Depois é que o João adaptou para o palco. O MANIA DE EXPLICAÇÃO, como a gente já conversou, foi uma crônica que eu nunca imaginava que fosse virar livro. Então, o LUNA CLARA foi o meu primeiro livro de caso pensado. Foi o primeiro livro que eu pensei assim, ah eu vou escrever um livro.
O que você mais gosta de trabalhar quando escreve? Adriana - Na realidade, o que eu mais gosto é de pensar em frases. Não gosto de pensar em idéias, em argumentos. No programa A Grande Família (da TV Globo), é muito confortável para mim, porque eles me dão o que na televisão a gente chama de escaleta, que já traz o começo, o meio e o fim de cada episódio. E eu vou preenchendo, vou escrevendo. Gosto tanto dessa brincadeira de mexer com as frases, de mexer com as palavras, que eu sou capaz de fumar 20 cigarros só para achar uma frase. E provavelmente essa frase vai passar batida pelo leitor, ou não. O fato é que eu adoro mexer com as frases, as palavras. Outro dia, fiquei pensando, como é bom o verbo “espiar”.
O que você mais gosta de espiar nas palavras? Adriana - O que eu mais gosto é quando as palavras surpreendem a gente, quando elas ganham identidade. Gosto de surpreender com a palavra, surpreender com a frase, surpreender com uma idéia, surpreender com o sentido.
Na orelha de LUNA CLARA, Ziraldo escreve: “(...) Adriana aqui reinventa não só a narrativa como a linguagem. Ela reinventa a maneira de contar uma história. E faz isto com mão de mestre, com um nível de invenção que não conheço em outros autores brasileiros (...).” Tem segredo para destrambelhar a linguagem? Adriana - Se existe algum segredo é a leitura e a prática, a busca, o aprimoramento, o suor. Mas acho que destrambelhar a linguagem só por destrambelhar não tem sentido, não tem graça nenhuma. O mais importante de tudo é ter amor pelas palavras. Nem toda surpresa tem graça numa frase. Tem surpresas que não dizem nada. São poucas as pessoas que gostam – e sabem – brincar com as palavras. Na literatura, ninguém faz isso como o Manoel de Barros. Na música, tem o Chico Buarque, o Caetano, o Gil, o Antonio Cícero, o Arnaldo Antunes. Então, essas pessoas que adoram a palavra acabam indo para a poesia. Não faço poesia, porque eu tenho medo. Acho a poesia uma coisa realmente sublime. Não me acho capaz de fazer poesia...
Mas você faz poesia, Adriana. Os seus textos podem não usar roupa de poema, mas são poesia. Adriana - Pode ser, pode ser... Mas acho que eu escondo a poesia, para ninguém nunca dizer: “Ah, olha só, ela está querendo ser poeta.”
É, mas os verdadeiros poetas geralmente não se apresentam como poetas. O poeta de verdade dificilmente se apresenta assim, num evento: “Boa noite, eu sou poeta...” Mario Quintana, por exemplo, dizia que não era poeta, ele dizia que era jornalista. Adriana - Sabe o que é, eu acho que poeta é um adjetivo positivo. É o mesmo que eu chegar para você e dizer: “Boa noite, Márcio, eu sou bonita, eu sou gostosa, eu sou inteligentíssima, eu sou especial...” É esquisito mesmo quando a pessoa tenta se adjetivar.
Você já disse que o livro que mudou a sua vida foi O Estrangeiro, de Albert Camus.” O que esse livro mais mudou em você? Adriana - Machado de Assis e Gabriel García Márquez foram descobertas maravilhosas. Fernando Pessoa me puxou claramente para a poesia. Mas realmente O Estrangeiro, do Camus, foi um livro que me marcou demais. Eu li aquele livro e pensei assim: “Caramba!” E pensei também: “Meu Deus, o que eu vou fazer com isso que eu li?” E fiquei com aquela sensação de caramba na cabeça. Mais tarde, passei um tempo encantada com a poesia, com o Pessoa, o Carlos Drummond de Andrade, o João Cabral de Melo Neto, o Manuel Bandeira, e mais tarde a Adélia Prado, que eu amo tanto. O meu encanto pela poesia veio bem naquela fase de 16 anos, na fase mais romântica, que nem toda mocinha apaixonada...
Você nunca mais voltou para O Estrangeiro? Adriana - Não, até hoje não. Acho que fiquei com medo de mexer naquele caramba. Foi a coisa mais existencialista que eu li, ficou muito em mim... E aí eu comecei a ler Borges, comecei a ler Cortazar.
Das sensações para os encontros. João e você se conheceram na fila de inscrições da faculdade de arquitetura, mas só se casaram muitos anos depois. Será que o amor sempre entra na fila? Adriana - Acho que não. Mas no meu caso a espera talvez tenha dado o que nós temos de melhor, que foi ter vivido outras coisas, principalmente para não dizer um dia: “Puxa, e se eu tivesse feito isso, e se eu tivesse vivido não sei o quê, e se eu tivesse beijado fulano...” Esses todos “ah, se eu tivesse” são muito característicos das pessoas. João e eu já tínhamos vivido com outras pessoas. Ele já tinha vivido com uma namorada e eu já tinha me casado. Se bem que me casei com 17 anos. Depois me separei, e me casei com o João. Mas antes do João, o meu casamento durou oito anos, e foi muito bom, foi tão bonito, foi intenso. A realidade é que tratar o amor feito uma coisa única é muito raro. O amor precisa ter uma história. Acho que o ego, atualmente, é uma das coisas que não permitem que as pessoas dividam com alguém a sua importância, a sua sensação de ser alguém.
MANIA DE EXPLICAÇÃO virou uma febre entre leitores. Vamos pegar alguns versos do seu livro, para umas provocações. A história começa assim: “Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa. Explicação é uma frase que se acha mais importante que a palavra.” Tem palavras que se acham mais importantes que as idéias? Adriana - Existem umas palavras que têm cara de importante e aí quando você vai ver o que é, elas não são tão importantes quanto pareciam. Há um movimento português do início do século passado, por exemplo, que é o sensacionismo. Já tentei entender o que é esse sensacionismo e nunca consegui saber o que é. Mas há outras palavras que não fazem muita vista e são tão ricas. Olha um exemplo: “ajuda”. Acho linda essa palavra, ela é tão rica, abarca tanta coisa, mas não faz vista. Encontrei outro dia, lendo um texto, uma palavra chamada “madrigal.” Achei linda essa palavra e fui ver o que significava. Madrigal era um tipo de canção usada por galanteadores, não me lembro em que século... Mas veja que sorte a dessa palavra, que sorte ela tem de se chamar madrigal.
Outro pensamento do MANIA: “Existem vários jeitos de entender o mundo. Ela tentava explicar de um jeito que ele ficasse mais bonito.” O que dá mais trabalho, entender, ou embelezar o mundo? Adriana - Ambas as coisas dão muito trabalho. Mas entender é quase uma obrigação das pessoas. Entender é obrigatório, para a gente sobreviver.
Embelezar não é obrigatório? Adriana - Acho que não. Embelezar há quem goste. Há quem goste de embelezar a vida fazendo literatura, fazendo arranjos de flores, fazendo pintura, fazendo uma comida gostosa, dando carinho para uma criança, dando uma aula, curando, ajudando, fazendo um monte de coisas. A Janete, minha cozinheira, por exemplo, acorda às quatro da manhã para chegar aqui em casa às seis e quinze, na hora em que as crianças saem para o colégio. E ela faz tudo sempre com o maior carinho, com a maior beleza. Hoje ela fez um almoço tão cheio de detalhes, tão bonito...
Ela botou madrigais no almoço? Adriana - Exatamente, ela botou madrigais no almoço. Mas tem gente que não tem capacidade para isso, por mil motivos.
Que tipo de boniteza mais alarga você? Adriana - É a boniteza das palavras e da música. E quando elas estão juntas, então, isso me dá uma avenida.
De novo a menina do MANIA: “Irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito.” O que é pior, o alarme disparar, ou ninguém aparecer para desligá-lo? Adriana - O que dá mais raiva é ninguém aparecer para desligar, porque essa ausência personifica a situação. Aí você pergunta: “Puxa, não é possível, ninguém vai lá para desligar?” A gente tem uma ligação muito forte com o que é humano.
Quais são as coisas que mais disparam alarme no seu peito? Adriana - Grosseria dispara muito alarme no meu peito. Todo tipo de aspereza, todo tipo de indelicadeza dispara alarme no meu peito.
De novo embarcamos no MANIA DE EXPLICAÇÃO: “Solidão é uma ilha com saudade de barco.” Toda ilha sempre quer os seus barcos de volta? Adriana - Acho que em algum momento ela vai querer. Eu mesma vivo dizendo: “Ah, tudo o que eu queria era ir para uma praia bem longe e ficar lá numa rede.” Mas, na realidade, eu não ia agüentar ficar três dias nessa praia.
Será que toda ilha tem barco? Adriana - Não, acho que não, tem ilha que não consegue ver os seus próprios barcos. E nem todo barco tem ilha. Minha mãe, por exemplo, não conseguia ver os barcos que chegavam a ela, nem conseguia ver as suas ilhas. Ela era uma pessoa muito ansiosa, porque não conseguia ancorar nem zarpar. Herdei muito isso dela, mas eu consigo ser muito feliz com o meu trabalho, com as minhas filhas, com o meu marido, com os meus amores.
Você tem mais desejo de ilha, ou vontade de barco? Adriana - O meu sonho de consumo é uma ilha, só que tenho mais vontade de barco, por causa realmente da minha ansiedade. Não é nem vontade de barco, eu tenho vontade de lancha, que vai muito mais rápido. Veleiro nem pensar, porque eu não controlo, depende do vento, fico completamente enlouquecida. Tenho muito desejo de controlar tudo. Acho que isso também me dá muita ansiedade.
Olha o MANIA novamente: “Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.” Tem gente que deseja tudo, o tempo todo, e acaba morando na própria vontade? Adriana - Acho que sim. Tem pessoas muito ávidas que querem coisas o tempo todo. É uma sensação aflitiva. A pessoa sofre com isso. Também tem gente que acha mais graça na própria vontade do que na concretização das coisas.
Outros versos do livro:“Apesar é uma dificuldade que não é grande o suficiente./Dificuldade é a parte que vem antes do sucesso./Sucesso é quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe.” O que é mais difícil de perceber no sucesso? Adriana - É quando ele não tem visibilidade. O sucesso invisível é difícil de perceber. Quando vemos a Gisele Bündchen na televisão, ou num outdoor, sabemos que ela está fazendo sucesso, com o trabalho dela, com a beleza dela, enfim, a Gisele está fazendo sucesso. Por outro lado, tenho sucesso quando consigo mexer numa frase depois de duas horas e deixo essa frase do jeito que eu queria. A realidade é que se eu tivesse deixado a frase como estava antes, provavelmente 99% das pessoas nem perceberiam a diferença. Mas quando consigo mexer numa frase, e consigo deixá-la de um jeito que eu gosto, sinto que obtive sucesso, sinto que consegui. Isso é sucesso.
As pessoas confundem muito o sucesso com a fama? Adriana - Sim, se a gente pensar, hoje de madrugada tem um enfermeiro na emergência de um hospital que vai salvar uma vida, e ninguém vai ficar sabendo isso. Ele vai ter muito sucesso no seu trabalho, ele vai ser bem-sucedido, mas não vai ter fama. Mas participar de um programa na televisão, participar do Big Brother dá fama para a pessoa, e faz muita gente achar que aquela pessoa está fazendo sucesso. Acho que fazer sucesso é se contentar as próprias conquistas, é um não querer mais. Não é ficar querendo uma conquista nova o tempo todo: Não é ficar toda hora, numa espécie de “tem que ser agora” interminável. Não é ficar numa aflição atrás da outra.
Mais uma frase do livro: “Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que devia querer outra coisa.” Você é mais indecisa para as grandes, ou para as pequenas coisas? Adriana - Sou indecisa para tudo. Acho que sou indecisa até para o imponderável. Se o João me pergunta: “Vamos sair hoje à noite?”, é possível que eu responda: “Não, não vamos sair não, porque pode acontecer alguma coisa na rua.” Às vezes, fico mudando de vôo, porque acho que um avião vai cair e outro não. Essas decisões para o imponderável são as que mais me piram.
Para terminarmos: “Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.” Quais as grandes pretensões de um beijo? Adriana - O beijo tem duas conotações, uma erótica e outra afetiva, carinhosa. Mas nessa minha frase, a conotação é mesmo de carinho. Talvez a pretensão mais nobre do beijo seja realmente trocar carinho. Na realidade, você não dá um beijo numa pessoa, você recebe a benção de beijar. Eu uso muito a palavra “beijo”. Gosto muito da idéia do beijo. O beijo me deixa acolhida.
Você está escrevendo um dicionário de frases, no estilo do MANIA DE EXPLICAÇÃO, que vai sair pela Planeta até o final do ano. Vamos pegar só uma frase do livro, para abrir o apetite do leitor: “Abandono: uma jangada que sai sem você dentro dela.” Que tipo de abandono lhe dá mais jangada vazia? Adriana - Tem muitos tipos de abandono que deixam a gente assim. Mas abandono de amor é o que me dá mais jangada vazia.
No romance A MÁQUINA, você conta o amor de Karina e Antonio. E escreve que Karina complicava a vida de Antonio, porque nunca fez sequer um pedido fácil: “Bem que Karina podia querer o sol, a lua, as estrelas e o Pólo Norte, como todas as mulheres. Mas não. Ela achava de querer justo o que era mais difícil de proporcionar. Tirar o escuro da noite, Karina, só isso apenas? Só isso sim, mas sem fazer a noite virar dia porque senão não tem graça, ela respondia sem pensar, pois seu pensar já estava procurando por outro querer nessa hora.” Escrever é tirar o escuro da noite? Adriana - Ah, sim, literalmente. Passo muitas noites com a minha ansiedade, com as minhas escuridões, buscando uma luz para escrever. Eu escrevo para encontrar afago, para encontrar brisa na vida, para tirar o escuro da noite de outras pessoas.

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