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AMOR FOTOGRAFADO E REVELADO
Criadora da Estação das Letras e do projeto Rodas de Leitura,
Suzana Vargas reúne poesia e fotos em O Amor é Vermelho



Suzana Vargas: “O vermelho encerra e simboliza dois estados antagônicos e complementares do amor: a paixão e a morte”.

Márcio Vassallo


Como nasceu a idéia de ilustrar com fotos O AMOR É VERMELHO, seu novo livro de poesia, publicado pela Garamond?
Suzana Vargas - Sempre tive vontade de publicar um livro com imagens. Mas primeiro reuni poemas Suzana - já publicados e acrescentei outros inéditos. Depois pensei em ilustrar com desenhos, aquarelas. Mais adiante tive a idéia de publicar com fotos quando conheci o trabalho de Antonio Lacerda, que é um fotógrafo jornalista com olhar poético. A começar pelo enquadramento, o foco no detalhe surpreendente. Ele tinha algumas fotos geniais sobre reportagens que haviam sido até capa de alguns jornais. Outras fotos foram feitas especialmente para o livro. A uma certa altura tive medo de que as fotografias ficassem óbvias demais, mas Daniela Kfuri, coordenadora editorial do projeto, fez casamentos belíssimos e me apaixonei pelo projeto.

Será que o amor é sempre vermelho, ou muda de cor, de acordo com as pessoas, os tormentos, as circunstâncias, o tempo, as fases da vida?
Suzana - Essa é uma pergunta difícil porque não consigo imaginar o amor cor de rosa, por exemplo. Acho que o vermelho encerra e simboliza dois estados antagônicos e complementares do amor: a paixão e a morte. O vermelho é a cor do sangue, daquilo que impulsiona a vida e que deixa de circular na morte. Quando a fonte seca costuma-se dizer que morremos de amor. Na sua plenitude, no seu auge, com certeza é vermelho o amor.

Que tipo de amor mais dá vermelho na sua vida, Suzana?
Suzana - Os amores que nascem das grandes paixões. Já tive alguns. É terrível e belo ao mesmo tempo. Falo um pouco disso no poema que dá título ao livro (Quase decálogo do amor).

Você nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, cidade onde também nasceu o Mario Quintana. Em 2006 vamos comemorar centenário do Quintana. De que forma você e ele se conheceram?
Suzana - Conheci o Mario Quintana muito cedo, porque ele era amigo de um tio muito querido. Estou no Rio há 34 anos, mas na época, ia passar férias em Porto Alegre e aproveitava para visitar o Mario lá no hotel onde ele morava. Conhecer o Mario foi fundamental para minha vida literária. Ele era o oposto daquilo que chamamos homem de letras, embora não pudesse existir representante melhor da classe. Pela paixão, pela generosidade, pela humildade, por aquele constante não levar-se a sério, típicos da sua personalidade. Convivi com sua poesia terna, simples sem simplismos e jamais esqueço alguns conselhos que eu retirava sempre a fórceps dele. Como este aqui: ‘trabalha, trabalha, trabalha, para que o teu trabalho não apareça”. Ou ainda “um poema tanto mais belo é quanto mais se parecer com um cavalo: por não ter nada de mais nem nada de menos, o cavalo é o mais belo ser da criação”.

Você criou e coordena a Estação das Letras (sempre recheada de cursos de literatura) e o projeto Rodas de Leitura, que já reuniu milhares de pessoas em torno de livros e autores. Como você acha que a literatura é mais capaz de aproximar as pessoas?
Suzana - A literatura aproxima mais as pessoas por desenvolver sua sensibilidade , sua criatividade, sua inteligência objetiva e subjetiva. Diante de um texto literário, os fatos da vida deixam de ser números de estatística. A literatura trabalha com uma linguagem que desenvolve a individualidade de cada um, tornando as pessoas mais aptas a enfrentar o mundo com suas marchas e contramarchas. Através do texto literário você se encontra nos dramas e nas alegrias dos outros, se descobre pelo outro. Nas Rodas e nas oficinas de leitura e de criação literária, tenho certeza de que já propiciei a formação de grupos de amigos que até hoje se encontram e se ajudam. Pessoas que encontraram um sentido outro e maior nas suas vidas através da literatura. No próprio CBBB, onde o projeto Rodas de Leitura começou, posso garantir que toda a platéia para o setor de Idéias do Centro Cultural foi formada pelas Rodas. Sem falar que depois outros espaços passaram a adotar eventos semelhantes.

Na Estação das Letras, você tem reunidos autores e professores altamente gabaritados, para dar aulas, dentre outros temas, sobre criação literária. É possível transformar alguém num escritor, ou será que o escritor já existe, o que é possível mesmo é lapidá-lo, provocá-lo, seduzi-lo a encontrar o seu próprio caminho?
Suzana - É possível, sim, lapidar, provocar, seduzir. Mas o talento, a força de vontade e a paixão você não pode dar. São inatos. Numa oficina de criação literária o professor tem o dever de não iludir ninguém. Sem trabalho e leitura de nada vale o talento também. Na Estação, todos os professores procuram agir com bom senso e honestidade. E trabalham para que o aluno também se liberte deles e encontre seu próprio caminho. Se não fizessem isso, os professores se transformariam em algo parecido com o terapeuta que não deseja a cura do paciente para não perder o salário.









       
 
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