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UMA LINGUAGEM MUNICIPAL
COM ALMA MUNDIAL
Filha de José Cândido de Carvalho, Laura Carvalho entrega para a Rocco
um livro de contos inéditos do autor e fala sobre o que mais a
seduz no maravilhoso clássico O CORONEL E O LOBISOMEM



Lucia Riff com Laura Carvalho e suas filhas na festa dos 12 anos da BMSR.


Márcio Vassallo

José Cândido de Carvalho escreveu um clássico mais sedutor do que pescoço para vampiro e lua para lobisomem. Aliás, quando O CORONEL E O LOBISOMEM foi publicado, em 1964, já seduziu leitores em todo o Brasil. Atualmente o livro está na 46ª edição e foi apontado em várias pesquisas como um dos melhores livros de ficção em língua portuguesa do Século XX. Érico Veríssimo, por exemplo, o definiu como um dos melhores romances da literatura brasileira de todos os tempos. Para você, o que é mais para sempre nesse livro, o que faz de O CORONEL E O LOBISOMEM um clássico para ser lido e relido por tanta gente, por toda a vida?
No meu olhar, o que torna o livro um romance definitivo na literatura brasileira é a linguagem inovadora que muito contribuiu para a renovação do romance regional, e a força do personagem Ponciano de Azeredo Furtado.Fico com a impressão, aliás, de que Ponciano é hoje mais conhecido e citado que meu pai, no quadro de um processo, não raro em literatura e arte, pelo qual a criação por ter adquirido vida própria termina por sobrepujar em importância o criador. Penso que ele teria prazer em conviver com o êxito crescente de seu personagem e amigo dileto de tantos anos de intimidade no complexo e misterioso processo de criação.

Laura, além desse personagem inesquecível, o que mais te seduz nas histórias, nos livros, na obra do seu pai?
O que mais me seduz é a sua maneira criativa e bem humorada de relatar os fatos do cotidiano. Suas frases tem sempre sabor de novidade. Cito uma:" Tenho uma linguagem Municipal que nem chega a Estadual."

E como é que você começou a ler essa deliciosa linguagem municipal, estadual, mundial do seu pai?
Não me lembro exatamente a época. Acho que quando foram lançados. Meu interesse maior veio mais tarde, quando tive maior compreenção da obra

Obras à parte, o que mais te aproximava do seu pai?
A lembrança da pessoa simples e generosa que ele era.

E até que ponto o fato de você ser filha do José Cândido influencia na sua própria leitura dos livros dele?
Acho que sendo filha observo muitos aspectos dele nos seus personagens. Mas independente de ser filha, sou fã de carteirinha de tudo que ele escreveu.

Seus pais, seus avós, quem é que mais contava histórias para você?
Meus avós maternos foram os grandes contadores de histórias da minha vida.


Seus avós te abriram para as histórias... E de que forma você se apaixonou pelos livros, pela literatura em geral?
Foi sempre através do meu pai que esse interesse aconteceu. Tinha acesso ao melhor da literatura e sem dúvida isso teve grande peso em minha formação. Tenho ainda em minha casa uma grande biblioteca deixada por ele.

Acima de tudo, quais os grandes desafios de representar uma obra tão preciosa, tão importante, tão para sempre?
O grande desafio é manter viva sua memória, estar sempre presente quando solicitada a falar sobre ele e continuar organizando seu acervo. Acho que você já sabe que tenho um único irmão muito querido, Ricardo Carvalho, diplomata que vive no exterior, atualmente Cônsul em Chicago, que apesar da distância, está sempre presente nas decisões a serem tomadas a respeito da obra do nosso pai.

Como nasceu o seu contato com a Lucia Riff, como você começou a trabalhar com a equipe da BMSR?
Quando meu pai faleceu, resolvemos eu e meu irmão arranjar um agente literário. O nome de Lucia Riff foi citado por dois amigos,e entramos em contato com ela. Hoje considero Lucia uma amiga e sua equipe uma grande família.

José Cândido dedica O CORONEL E O LOBISOMEM, dentre outras pessoas, ao vendedor de açúcar Bonifácio de Carvalho, pai dele. Você chegou a conhecer esse seu avô? Que lembrança você mais guarda do Bonifácio de Carvalho?
Poucas lembranças.Tinha cinco anos quando ele morreu. Meu irmão nem chegou a conhecer.Sei que era um homem inteligente, carinhoso e acolhedor,como minha avó a doce Maria Candida. Ela viveu em minha casa os dois ultimos anos de sua vida.

Hoje em dia, o que a neta de um vendedor de açúcar mais costuma fazer para adoçar a própria vida?
A vida nos últimos três anos tem sido menos doce comigo.Meu marido Renato, companheiro de uma vida, faleceu. Portanto tento adoçar atualmente a vida com a família e com coisas que gosto de fazer: como pintar, trabalhar com cerâmica, viajar com meus netos e cuidar das coisas ligadas a meu pai.


Na sua opinião, qual a grande serventia da literatura na vida das pessoas?
Acho que a literatura nos remete a um mundo mágico onde somos espectadores ativos. Um bom livro nos alivia das angústias e tristezas do dia a dia.

Em determinado trecho do livro, o Coronel Ponciano de Azevedo Furtado diz que aprimorou inclinações de nascença. De que forma você também aprimora as suas inclinações de nascença, Laura?
Aprimoro tentando resgastar dons artísticos antigos, fazendo cursos que me interessam.

Qual a sua formação, o que você já fez e não faz mais, o que você ainda não fez e tem muita vontade de fazer?
Sou Pedagoga e sempre trabalhei com Educação. O que não fiz foi terminar de organizar melhor todo o acervo deixado por meu pai. É meu desejo terminar em 2006. Tomara que eu consiga.

Você vai conseguir, você vai conseguir... Mas olha, além das atividades de titular da obra do José Cândido, o que mais te puxa, o que mais te ocupa no seu dia?
Tenho as obrigações normais do dia-a-dia que me ocupam bastante junto com a minha mãe, de 89 anos, que mora comigo e requer atenção. Além disso, caminho, faço análise e cursos.

O que você achou da adaptação de O CORONEL E O LOBISOMEM para o cinema, com direção de Mauricio Farias e produção do Guel Arraes e da Paula Lavigne? À medida do possível, a linguagem maravilhosa do texto foi bem preservada, você concorda?
Concordo com você. A linguagem foi bem preservada em detrimento de um sucesso fácil. Por ser uma adaptação, é preciso levar em conta as mudanças no roteiro. Em 1978, na primeira filmagem do Coronel, dirigida por Alcino Diniz, que concorreu em Cannes, meu pai fala em uma entrevista, ao Jornal do Brasil, que quando cedia os direitos ele respeitava o processo de criação do cineasta, pois cinema e literatura são veículos diferentes. Nesta mesma reportagem, ele diz que o diretor Nelson Pereira dos Santos considerava o Coronel "incinematografável", por ser muito difícil. Imagine só quanta responsabilidade para qualquer diretor. A propósito, recebi esta semana um carinhoso e-mail do diretor Maurício Farias, em resposta ao que enviei na época do filme. Ele fala da grande alegria de dirigir o Coronel, pois desde criança ouvia falar do livro em sua família. Seu o pai; Roberto Farias, era amigo de meu pai da época da revista O Cruzeiro. Roberto Faria e seus irmãos tiveram interesse em filmar o Coronel, mas na época já havia um contrato com o Alcino Diniz.

Seu pai contava onde é que ele mais buscou inspiração para escrever O CORONEL?
Márcio, transcrevo um trecho de uma entrevista à revista Manchete, em1984, na qual o meu pai responde a sua pergunta: "O Coronel é pura invenção; é o resultado de uma série de Coronéis e homens da roça que conhecí resumidos num só personagem. Um coronel daquele jeito não existe na vida real. Há no entanto, alguns fatos da vida real que incorporei ao universo do coronel Ponciano. Quando menino, viajando de Campos para Santo Amaro, vi um sujeito meio aloprado pagar passagem para um sabiá de estimação e não deixou ninguém sentar no lugar do pássaro. O coronel Ponciano, na sua decadência, quando retorna ao Sobradinho também leva um passarinho e não deixa ninguém sentar no lugar. Mas acho que as coincidências param por aí"

Na maioria das vezes, era ele que buscava a inspiração, ou era a inspiração que buscava por ele?
Segundo J.C.C. "a criação é um mistério, é uma alquimia(...) Ele dizia que escrever para ele era uma danação e que romance era mato bravo de entrar".

Desse belo mato bravo a gente volta um pouco para o filme... Em que aspectos você acha que as atuações de Diogo Vilella, Ana Paula Arósio, Selton Mello e Pedro Paulo Rangel foram mais fiéis aos personagens do José Cândido?
Os mais fieis, a meu ver, são os personagens de Diogo Villela e do Pedro Paulo Rangel. Por outro lado, tenho certeza que os outros atores fizeram o melhor possível dentro do roteiro adaptado.

A editora Rocco, que publica toda a obra do seu pai, também lançou recentemente dois outros livros irresistíveis do José Cândido: PORQUE LULU BERGANTIM NÃO ATRAVESSOU O RUBICON, e UM NINHO DE MAFAGAFES CHEIO DE MAFAGAFINHOS. Para quem ainda não conhece esses e outros livros do autor, quais os melhores motivos procurá-los hoje mesmo?
Meu pai não foi apenas romancista. Ele foi jornalista, cronista, contista. Ele mesmo declarava: "Sou um jornalista que vez por outra vai para ficção. Estes livros vão ajudar ao leitor a conhecer as outras facetas do escritor. Além disso, os contos são de muito boa qualidade.

Laura você acabou de achar uma série de contos inéditos do seu pai. Quando é que eles vão ser lançados? O que esses textos têm de mais apaixonantes?
São pequenos contos, alguns com três linhas. Esta é uma características de seus contos que geralmente são bem pequenos. Encontrei o material e pensei que eram histórias já publicadas. Depois de ler uma entrevista sobre ele, onde estava escrito que havia deixado dois livros inéditos: O REI BALTAZAR, e OS MAIS CURTOS CONTOS DO PAÍS, entendi que se tratava de textos novos. Os manuscritos estão com a Rocco e devem sair em 2006. O REI BALTAZAR levei uns quatro anos organizando o que foi deixado.

Pensamento da escritora Rachel de Queiroz: "No léxico de Zé Cândido não aparece nenhuma palavra que não seja possível, se ela não havia até aqui, estava fazendo falta." O seu pai era um inventor de palavras, um inventor de uma linguagem realmente mágica e única. Será que o José Cândido construía os personagens e depois a linguagem deles, ou na realidade ele construía a linguagem e depois é que nasciam os personagens?
Não tenho idéia desta hierarquia personagem/linguagem na criação de JCC que você sugere, mas, para responder sua pergunta, pensaria em processos simultaneos. Em O CORONEL E O LOBISOMEM, por exemplo, JCC tinha uma história na cabeça e à medida que foi elaborando um estilo e linguagem peculiares para contá-la este desenvolvimento não pode deixar de ter influencia decisiva sobre o protagonista e narrador, ou seja, o Ponciano de Azeredo Furtado. Por outro lado, retirada a linguagem de Ponciano, o personagem definharia e a história em si seria talvez banal. Um homem do interior herda terras, fica rico,vai para a cidade, perde a fortuna e regressa desiludido ao ponto de partida. Acho que a própria Raquel de Queiroz, que você menciona, em artigo entitulado "O gênio da língua baixou.....", reproduzido em várias edições do Coronel, capta bem este aspecto da obra. A força e apelo do romance não estão na história em si e sim na forma ou na linguagem "mágica e única", conforme você diz, em que é contada.









       
 
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