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UM ESPETÁCULO DE LIVRO
Revelação da literatura portuguesa contemporânea,
o jornalista e escritor português Hugo Gonçalves fala sobre
o que há de mais frívolo e encantador nas pessoas



Hugo Gonçalves: "O pior hábito de todos é a acomodação”.


Márcio Vassallo

Na orelha do seu título de estréia na literatura, O MAIOR ESPETÁCULO DO MUNDO (publicado em Portugal pela Oficina do Livro), a editora da revista portuguesa Egoísta, Patrícia Reis, escreve assim: “Este livro reflete um trabalho árduo, minucioso, pensado sobre a escrita, a narrativa, a forma de contar a história e de construir personagens. É um primeiro livro, mas é também, já, um livro velho. Porque fala do que está no nosso imaginário, porque nos compele para a dureza da realidade: o sexo, a droga, as armas, a conspiração, a ilusão, a política, a demência, a fuga, a solidão, o make believe, a fachada que todos nós encontramos para enfrentar a vida”. Será que todos os seus personagens nascem de uma fachada, será que todas as suas fachadas nascem dos seus personagens?
Esse é um livro, mais do que tudo, sobre a dormência que temos em relação ao sofrimento dos outros, é um livro um apocalíptico, sobre o apocalipse interior de cada um de nós. Nesse livro, a idéia surgiu antes das personagens. E a idéia que eu trabalho é de que vivemos num mundo de ilusões, no Rio, em Nova York, em Lisboa, em tudo quanto é lugar. A imagem tem um poder cada vez maior sobre as pessoas. Desse modo, nós somos o maior espetáculo do mundo, no que temos de mais justo e mais abominável, mais superficial, mais profundo, mais espetacular. Começo o livro com a frase “acendam-se as luzes para o mundo começar”. E é isso mesmo. Precisamos abrir os olhos e escolher o nosso lugar no mundo. Esse livro foi todo construído justamente sobre as nossas opções diárias pela imagem, desde o momento em que acordamos, da roupa que escolhemos para sair, dos cigarros que escolhemos para fumar... Essa temática marcou o livro e acabou influenciando as personagens. Mas tive muito cuidado para não cair na caricatura. Seria bem fácil fazer caricaturas, em vez de personagens. Meu desafio foi tornar reais essas personagens, convencer o leitor de que elas existem de fato.

Você convenceu, você convenceu...
Puxa, que bom que você acha, fico muito feliz... Acho que uma das coisas que todo autor de ficção mais busca é realmente convencer o leitor de que suas personagens existem. E eu coloquei as minhas personagens no limite daquilo que elas poderiam ser. Quando colocamos uma personagem numa situação limite (numa situação de guerra, numa situação de doença, numa situação de traição), acaba mostrando muito mais a essência dessa personagem. É no limite que mais nos mostramos, mais nos revelamos... Ou então, pode ser o contrário. No limite também nos escondemos, nos ocultamos, nos disfarçamos muito. De todo modo, se escondendo ou se mostrando, a essência daquela personagem transborda.

Na sua opinião, as pessoas também transbordam dessa forma?
Na minha experiência de vida (não que eu tenha tanta experiência de vida assim, só tenho 29 anos) acho que, ao longo do tempo, as pessoas começam a ficar mais frágeis, também no bom sentido. Ou seja, acredito que, em situações-limite, na dor e no sofrimento, as pessoas ficam mais próximas daquilo que é realmente importante para elas, como as amizades e o amor. Mas é claro que há gente que, nessas situações difíceis, em vez de suavizarem, endurecem. E o endurecimento é um dos grandes problemas que enfrentamos. Uma das personagens do meu livro, Joseph, começa com uma frieza brutal e depois se transforma numa pessoa mais suave, mais aberta, mais cheia de redenção.

Você falou de sua personagem Joseph. E há uma frase bonita do livro, na qual o narrador fala justamente dessa personagem. A frase diz assim: “Para alguns, a vida acaba assim: uma doença, um cérebro que se apaga, o princípio de um hábito”. Que tipos de hábito você acha que começam a acabar com a vida da gente?
Sou muito inquieto, tenho muito desassossego, como dizia o Fernando Pessoa. E outra frase que me vem à cabeça (veja que curioso essa associação de idéias) é de um pensamento do Paul Auster, na autobiografia dele, que fala sobre essa questão do hábito: “Tendo em conta o tamanho do mundo, seria estúpido ficar sempre no mesmo lugar”.

Será que esse lugar tem que ser geográfico?
Não, acho que não. Ficar sempre no mesmo lugar, na realidade, é acomodar-se. O pior hábito de todos é a acomodação. Na literatura, por exemplo, não quero encontrar uma fórmula de escrever e me acomodar nessa fórmula. Também é assim na vida, quando a pessoa perde a capacidade de lutar pelos seus sonhos, pelos seus desejos, pela sua própria felicidade. Acho que quem abandona essas lutas vive numa espécie de morte antecipada. Claro que é muito difícil ser feliz. Às vezes é muito mais fácil optar pelo conformismo, em todos os sentidos, principalmente se você tiver uma vida minimamente confortável, uma vida cômoda. Nesse sentido, eu acho que não devemos correr o risco de ficar aquém do passo que poderíamos dar.

Que passos você mais tem vontade de dar como escritor?
É claro que eu quero cada vez mais reconhecimento e, se possível, ganhar um bom dinheiro com meus livros. Seria idiota se eu disse que não. Mas esses não são os meus objetivos principais. O meu primeiro objetivo é chegar o mais próximo possível do que eu me proponho quando estou escrevendo, quando estou pensando na minha história. Aliás, um escritor nunca consegue escrever o que imaginou, o que sentiu, o que experimentou. Acho que o escritor sempre fica aquém do que gostaria de ter escrito. E é justamente essa insatisfação constante do autor que o motiva a escrever mais e mais, outros livros, outras histórias, para continuar tentando se expressar de modo perfeito. No fundo, ele sabe que não vai conseguir, mas continua tentando.

Nesse sentido, a frustração alimenta a criação?
Com certeza, é isso mesmo.

De volta ao poder dos hábitos, ao perigo das acomodações, sobre o que você estava falando antes. Será que o hábito é capaz de acabar com a vida de uma pessoa, ou o que acaba com a vida de alguém é o que a pessoa faz com o hábito?
Há uma frase no livro que diz qualquer coisa como: “As pessoas acabam sendo aquilo que deixam que as outras façam delas”. Então, acho mesmo que a responsabilidade é sempre nossa, seja por que nos entregamos às iniciativas dos outros, seja por que nos entregamos a hábitos e a pessoas que nos fazem bem, ou mal. Vou lançar um livro que vai sair agora, em março, em Portugal, que fala um pouco disso. Falo, por exemplo, no fato de que algumas pessoas não são destruídas ao longo da vida, mesmo que passem por catástrofes de todo tipo...

E há pessoas que são destruídas por pequenas mazelas?
Sim, exatamente. Cada pessoa age e reage de forma diferente diante de circunstâncias adversas, incluindo aí as adversidades mais simples e mais cotidianas.

Como O MAIOR ESPETÁCULO DO MUNDO nasceu na sua idéia, Hugo?
Comecei a ter a idéia de escrever esse livro em Portugal, depois fui morar nos Estados Unidos, e continuei pensando na história. Não sei dizer como a idéia surgiu, mas eu queria escrever sobre essa questão das frivolidades e das superficialidades humanas. A experiência em Nova York também me ajudou muito a construir essa história. Convivi com muitas pessoas que me inspiraram personagens, que alimentaram a minha temática. Trabalhei de barman, por exemplo, e conheci gente de todo tipo. Na época eu já era jornalista também. Era editor de uma revista em Portugal, mas saí de lá em busca de outros caminhos. Um desses caminhos era a literatura, claro. Continuei colaborando com matérias para algumas publicações portuguesas. Mas isso estava me impedindo de escrever o meu livro lá em Nova York. Então, consegui o emprego de barman, que me sustentava, e me permitia escrever, sem ter nenhuma forma de desgaste intelectual paralelo.

Que tal nós falarmos de coisas que não nos desgastam? Uma linda dona soltando o coque do cabelo, uma criança dizendo as primeiras palavras, um abraço de gente muito amiga que não se vê há muito tempo... Quais são os espetáculos do dia-a-dia que mais te seduzem?
O maior espetáculo do mundo, para mim, é a natureza humana, no que há de mais bonito e mais feio também. Estive doente, aqui no Rio, e precisei ficar no hotel, sem poder passear tanto pela cidade. Depois, quando fiquei bom, fui dar um pequeno passeio pelo calçadão, à noite. Então, vi uma mãe com o seu filho, num carrinho de bebê. A criança estava fazendo uma birra, e quando ela beijou o filho ele sorriu. Foi uma cena normal, mas que me comoveu. Não sei se pelo fato de que tinha estado doente fiquei mais sensível. Aí eu me lembrei do Stephen King. Ele conta que, quando ficou de cama por conta de um atropelamento, chegou a chorar assistindo ao Titanic. Mas, falando sério, as pequenas coisas realmente são capazes de nos comover, estejamos ou não fragilizados. Você falou de uma linda dona soltando o coque do cabelo... Eu penso em outra cena, penso agora numa mulher com uma saia charmosa e um top curto, andando pela rua, por exemplo. Muitas dessas pequenas coisas não se transformam em literatura. Há coisas que são puramente para o seu próprio proveito humano. Uma das maiores tentações, para quem está começando, é escrever sobre experiências próprias. Conheci uma garota, tive um final de semana fantástico, pronto, vou escrever sobre esse final de semana. Nem sempre uma vivência inesquecível vai se transformar em literatura. O escritor, muitas vezes, precisa deixar passar o tempo, para cristalizar o que realmente vai se transformar em literatura, ou não.

Nem tudo o que é bonito é espetacular, e nem tudo o que é espetacular é bonito. Para você, o que é mais belo num espetáculo, o que é mais espetacular na beleza?
Eu me considero um hedonista. Gosto do prazer, mesmo que às vezes ele seja inconseqüente. E sou deslumbrado, sou fanático pela beleza feminina. Uma mulher bonita me deixa mesmo de queixo caído. Mas muitas vezes não há como manter esse deslumbramento, depois que converso cinco minutos com ela. Se a beleza não for mais do que plástica ou física, fica complicado. Isso é um clichê, mas é verdade. Acho que eu me apaixono todos os dias. Na rua, numa festa, no metrô, vejo um tornozelo, um sorriso, um joelho, e em poucos segundos estou apaixonado.

Aqui na Visconde de Pirajá, em Ipanema, você se apaixonou quantas vezes?
Ah, muitas vezes, muitas vezes... Mesmo quando estive doente e saí para comprar suéter, fiquei ali na Poli Sucos, olhando garotas lindíssimas. Então, tenho esse assombro inicial, que pode ser momentâneo, ou não... É muito mais difícil você conseguir uma cumplicidade que não se desgaste rapidamente...

Uma cumplicidade que renove a beleza?
Sim, o problema da beleza é que geralmente ela é efêmera, feito um fogo de artifício, que explode na nossa frente, como num espetáculo mesmo, mas que acaba, depois que nos aproximamos muito dela. O desafio é fazer com que a beleza se torne um espetáculo diário.

Você já escreveu o seu próximo romance, certo? Pode falar um pouco dessa história?
Esse romance chama-se O AMOR DOS ANIMAIS, também vai sair pela Oficina do Livro, e parte de uma premissa simples que é a seguinte: e se houvesse uma cidade onde não houvesse mulheres. Mas ao longo da história as mulheres aparecem, por que escrever um livro só com personagens homens seria profundamente chato.

Quem são os animais do seu livro?
São os homens, no que eles têm de mais instintivo, mais impulsivo, mais biológico, que pode ser traduzido por meio da violência, ou do sexo, com várias manifestações de emoções e sentimentos. Para os homens, ter que lidar com as suas próprias emoções e sentimentos é um sinal de fragilidade. E a maioria de nós ainda não sabe lidar com a nossa própria fragilidade.

O MAIOR ESPETÁCULO DO MUNDO já recebeu algumas propostas, mas ainda não foi publicado no Brasil. Acima de tudo, o que mais te atrai na idéia de ser publicado aqui?
Minha primeira experiência de pessoas não portuguesas que leram o livro foi fantástica, por que percebi que a história dizia a elas alguma coisa, mesmo sem elas terem nascido no meu país. E há claramente um lado emocional e sentimental dos portugueses com o Brasil, e vice-versa. Então, a BMSR está me representando muito bem aqui no Brasil, e vou ficar bem feliz, se a minha primeira publicação no exterior for por uma editora brasileira.

Do mercado editorial, voltamos para o seu livro. Na história, o narrador diz que “os beijos são o único exercício capaz de revelar o que nunca se diz em voz alta”. De que forma você acha que uma mulher é mais capaz de se revelar num beijo?
Depende do beijo...

Depende da mulher também?
É, depende muito da mulher... Também depende de quem recebe o beijo, depende de tantas coisas. Só escrevi essa frase por que não fui capaz de descrever o prazer do beijo. É aquela história que já conversamos sobre a frustração que alimenta a criação literária. E um beijo é isso... Às vezes, o beijo é por causa de um tesão, às vezes é um pedido de perdão, tem vezes que é um carinho puro, sem outras intenções, enfim, o beijo é uma das coisas mais sublimes do mundo. Quem inventou o beijo na boca merecia um prêmio.

Em determinado trecho do livro, um personagem diz: “Deus é o único equilibrista com talento para nos transportar no arame”. Numa entrevista que fiz com a Lygia Fagundes Telles, ela me disse que, quando escreve, se transforma numa trapezista que se equilibra sem rede de segurança. Para a Lygia o escritor não pode escrever com medo de cair, com medo de qualquer coisa. De que forma você acha que um escritor mais anda no arame?
Concordo com a Lygia, sim. E é curioso você ter falado nisso, porque essa é uma questão sobre a qual eu penso muito. Penso num ensaio do escritor Norman Mailer, para a revista New Yorker, na qual ele diz: “Se você quer ser escritor, não pode ficar preocupado se vai magoar os seus amigos, a sua família, as pessoas que você gosta”. Acho que o escritor tem que correr esse risco mesmo, não pode ficar preocupado em ter redes de segurança, não pode ter medo de se espatifar. Gosto de escrever como quem salta de pára-quedas.

Você morou em Nova York, mas antes da entrevista me disse que está de malas prontas para Madri. Em que aspectos você mais gosta de viver saltando pelo mundo?
Acima de tudo, mais uma vez é o meu desassossego que me move. Atualmente moro em Lisboa, mas realmente já estou me mudando para Madri. Estou indo para a Espanha por razões pessoais e profissionais. Gosto realmente dessa mobilidade geográfica, gosto de conhecer novas pessoas, novos horizontes, novas possibilidades. E eu sempre quis viver em Madri. Para mim, Madri é uma das capitais mais charmosas e mais interessantes do mundo. Além disso, o mercado editorial espanhol é muito forte... Quem sabe ficando por lá posso abrir outros caminhos bacanas...

Mercados editoriais à parte, acho que você está indo lá mesmo é por causa das madrilenhas... Diga lá, rapaz, o que elas têm de mais belo?
Ah, as madrilenhas são maravilhosas, são as mulheres mais bem-produzidas que já vi na vida. Para ir à esquina, elas se vestem como na festa do Oscar. E são, de fato, belas, muito belas mesmo. As mulheres cariocas também são muito, muito bonitas, as cariocas são lindíssimas... Elas usam pouca maquiagem, se produzem menos, são bem mais despojadas. Acho que são parecidas com a cidade onde vivem... O Rio é mais assim, uma cidade mais despojada...

É uma cidade mais despida...
Sim, ela é quase selvagem, e é linda por isso. Enfim, as madrilenhas e as cariocas têm belezas distintas...

Elas te fazem ver a vida de ângulos diferentes...
Sim, por isso estou com o coração dividido entre Madri e o Rio de Janeiro. No próximo inverno, já estou pensando em passar uns dois meses aqui no Rio, quem sabe?

Para apurar o olhar?
Exatamente, nada como apurar o olhar dessa forma.









       
 
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