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BONS MOTIVOS PARA SUSPIRAR
Única herdeira e titular da obra de Augusto Frederico Schmidt,
a francesa Eliane Peyrot comemora o centenário do poeta,
relembra sua convivência com ele e aponta em que aspectos,
hoje em dia, as pessoas mais carecem de poesia


da esquerda para a direita: Euda Alvim, Eliane Peyrot, Letícia Mey e Lucia Riff

Eliane Peyrot: “A poesia se renova por meio da juventude”.

Márcio Vassallo

 

Que homenagens, no centenário do poeta Augusto Frederico Schmidt, tem te deixado mais feliz?
Fico muito feliz de constatar que as pessoas estão voltando a se interessar por poesia. A poesia está ressuscitando.

 De que forma a poesia está ressuscitando?
Acho que a poesia ressuscita e se renova por meio da juventude.

 E a juventude se renova por meio da poesia?
Sem dúvida alguma, essa é uma belíssima renovação, de lado a lado.

 O que você acha que a poesia é mais capaz de mudar numa pessoa?
Muita coisa, muita coisa mesmo. Ninguém pode viver sem poesia. Será que pode? Acho que não... E mesmo que não pensem nisso, as pessoas estão precisando cada vez mais de poesia.

 Em que aspectos as pessoas mais carecem de poesia?
No aspecto do sonho, no aspecto da beleza... A poesia é fundamental para todo mundo nessa vida tão agitada e tão cheia de competição. Acho que a poesia é imprescindível para o ser humano. Afinal, realmente não somos máquinas.

De volta para o centenário do Schmidt, do que você sente falta nessa comemoração, Eliane?
Ah, mais do que falta, eu sinto falta do próprio Schmidt.

E do que você mais sente falta na sua convivência com o Schmidt?
Sinto falta da doçura, da bondade, da generosidade dele. Conheci o Schmidt e a Yedda em Paris, através de amigos e da minha mãe. Acabamos construindo uma amizade, uma relação de afeto realmente inesquecível. O fato é que a Yedda e ele queriam ter tido muitos filhos, mas infelizmente não conseguiram. Então, de certa forma, eu fui adotada por eles, não oficialmente, mas com o coração.

Você diz que sente falta da bondade do Schmidt. Outro dia, eu estava conversando com a Marina Colasanti sobre essa palavra, “bondade”, e dizíamos o quanto ela está fora de moda, o quanto praticamente ninguém fala nela...
É isso mesmo, você e a Marina tem razão, quase ninguém mais fala em bondade. É como se essa palavra e o próprio ato de ser bom, em si, houvessem se transformado em coisas ultrapassadas. O Schmidt gostava muito de dar conselhos e de ajudar as pessoas. Ele tinha essa disponibilidade, realmente gostava de ajudar.

Num texto sobre Augusto Frederico Schmidt, para o Jornal do Brasil, em 1965, Carlos Drummond de Andrade escreveu: "Outros poetas são vigilantes, contidos, econômicos até esqueléticos. A natureza assim os determinou. Ele, ao inverso talvez se constrangesse até ao esgotamento e a esterilidade, se tentasse comprimir o fluxo vocabular. E perderíamos, com essa imagem deformada, a intensidade do seu ser lírico, o que nele era tão típico e insuscetível de regulamentação teórica e formal - o melhor e mais caloroso Schmidt." Na sua opinião, Eliane, o que no Schmidt era mais típico e insuscetível de regulamentação teórica?
A sua alma, o seu pensamento, o seu lirismo, os seus sentimentos, o seu modo expansivo de ser, nada disso pode ser enquadrado em qualquer tipo de regulamentação teórica. Ele era muito exagerado em tudo o que fazia. Mas não era um exagero qualquer esse do Schmidt...

 Ele tinha um exagero na medida certa?
Exatamente, exatamente.

 Também sobre o Schmidt, escreveu o Manuel Bandeira: “Fui dos primeiros a pressentir no balbuciar do adolescente Augusto Frederico a força de sua futura poesia. O poeta pagou pontualmente e com enormes juros a nossa letra de crédito quando publicou o Canto do Brasileiro, o Navio Perdido e o Pássaro Cego. A respeito deste último livro escrevi algumas linhas em que procurei definir o que havia de novo, de pessoal e definitivo em seu estro: saudei-o como a voz necessária que vinha quebrar os clichês gastos do Modernismo da primeira hora; que, aproveitando-lhe as lições, sabia superá-lo”. Que outros clichês e barreiras você acha que o Augusto quebrou?
Uma das coisas que o Schmidt mais gostava era incentivar as pessoas a quebrar barreiras, a conquistar a sua própria independência. Ele foi um dos primeiros, por exemplo, a incentivar as mulheres a buscarem o seu espaço, a fazerem as suas escolhas, e tudo mais.

Na sua opinião, quais os principais desafios de ser a única herdeira e titular da obra do Schmidt?
Quero muito passar, do papel para a realidade, a Fundação Augusto Frederico Schmidt, para que as pessoas conheçam ainda mais o Schmidt, para que o Brasil todo possa ter acesso ao seu pensamento.

Além de ser um dos poetas mais respeitados da literatura brasileira, Augusto Frederico Schmidt fundou a editora Schmidt, e publicou obras importantes, dentre elas, Caetés, de Graciliano Ramos, e Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Em que aspectos a literatura era mais sedutora para o Schmidt?
A literatura era tudo para ele. Era simplesmente a sua razão de viver. Ele lia muito todos os dias. Para o Schmidt, a literatura era um alimento essencial, era necessário como comer, dormir...

Era a forma que ele tinha de respirar?
Sim, estava me faltando essa imagem. A literatura era a forma de respirar do Schmidt.

E de que forma os livros dele mais te seduzem, mais te encantam, mais te conquistam?
Os livros dele mostram a vida e a morte, misturadas no nosso dia-a-dia, de uma forma irresistível. Isso é uma das coisas que mais me encantam na obra do Schmidt.

Recentemente, o Schmidt foi retratado na minissérie do JK, da Maria Adelaide Amaral, e também na biografia romanceada Quem contará as pequenas histórias, de Leticia Mey e Euda Alvim, publicada pela editora Globo. Como você analisa esses dois trabalhos?
Gostei muito da minissérie e do livro da Letícia e da Euda. Aliás, as informações sobre o Schmidt e a Yedda (interpretados na televisão, respectivamente pelo Antonio Calloni e pela Alessandra Negrini), na minissérie, foram inspiradas nessa biografia. E elas não escreveram uma biografia acadêmica, foi mesmo uma história romanceada, e o resultado foi muito bom, maravilhoso mesmo. Além disso, as interpretações do Calloni e da Negrini foram fantásticas, realmente brilhantes. E a Maria Adelaide ressuscitou com muito talento e muita sensibilidade a obra do Augusto Frederico Schmidt. Muita gente, inclusive intelectuais, não conheciam o Schmidt. Você, por exemplo, já conhecia bem os livros dele?

Já, eu sempre ouvi a minha avó Rubenita falar do Schmidt. Ele foi muito amigo do meu avô, Manoel Vassallo, que trabalhou na Rádio Nacional. Numa determinada época, o meu avô vendeu a parte dele no Clube do Livro para o Schmidt.
Olha que história interessante, que bom saber disso, que bom mesmo. Puxa, seu avô foi amigo do Schmidt, e nós estamos agora, aqui, conversando, veja só.

É, os livros aproximam as pessoas...
Isso mesmo.

Um pensamento do Schmidt: “Voltei-me para as letras, porque nelas eu me sentia na plenitude dos meus mais caros desejos”. Quais foram os desejos mais caros do poeta?
Um dos seus mais caros desejos era levar a sua palavra aos jovens, e ouvir o que eles tinha a dizer. Ele tinha um grande amor pela juventude. O Schmidt dava muitas palestras para jovens, em todo o país. Para o Schmidt, esses encontros com os jovens também eram uma das formas que ele mais encontrava de respirar.

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