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UMA CASA COM VISTA PARA O LEITOR
Editores da Casa da Palavra, Martha Ribas e Julio Silveira falam
sobre os seus desafios e as suas conquistas no mercado editorial  


Julio Silveira, Laura Riff, Martha Ribas, João Paulo Riff e Lucia Riff 

Márcio Vassallo


Criada em 1996, a Casa da Palavra está comemorando dez anos de vida, agora, em julho. Acima de tudo, o que mais te emociona nesse aniversário, Martha?
Martha Ribas
- A persistência, quando olho para trás e penso em todos os percalços me parece quase um milagre estarmos aqui do jeito que estamos. Sinto uma alegria com a editora e com os livros que publicamos, e estamos tão felizes com os projetos em andamento.

E você, Julio, o que mais te emociona nesse aniversário?
Julio Silveira - A resistência, que mais me espanta do que emociona. Não foram poucos os momentos em que achávamos que não daria mais. E deu. E estamos pronto para os próximos.

No dia-a-dia do mercado editorial, que presentes vocês têm mais prazer de desembrulhar?
Julio - Além dos livros enviados pelos bons agentes, os comentários dos leitores, por email ou carta. Podem ser elogios ou reclamações (raras, felizmente). O importante é ter retorno, para que nosso trabalho tenha sentido.
Martha  – Os presentes que mais gosto de desembrulhar são novos projetos, boas idéias que conseguimos transformar em belos livros.  

E, no bom sentido, qual é o presente que mais desembrulha um editor?
Martha - Descobrir que existem várias pessoas que não nos conhecem e amam a editora e nossos livros.
Julio - No bom sentido? É descobrir que aquele livro, que você tinha certeza que só iria agradar a você mesmo foi recebido com carinho e atenção pelos leitores e jornalistas. Isso ainda me choca.

Como nasceu a idéia de erguer a Casa da Palavra? 
Julio - Quando eu tinha 14 anos, no curso de inglês, me pediram para escrever "o que eu vou ser quando crescer". Escolhi editor e fiquei com aquilo na cabeça. Depois, encontrei a Martha por acaso quando tínhamos 17 anos, uma idade em que a pergunta "vai fazer vestibular para quê" é ouvida de dez em dez minutos. Ela respondeu "Produção editorial". Eu pensei: é isso!, vou ser editor. Cinco anos mais tarde, formado em Administração, voltei a encontrar a Martha - de novo por acaso -, e resolvemos botar o bloco na rua.
Martha - Foi assim: quando tinha 15 anos ganhei um guia do estudante e descobri a faculdade de Produção Editorial na UFRJ.  E tenho clareza que escolhi a profissão certa. Meu Deus, como eu gosto disso! Eu e Julio estudamos juntos desde crianças. Então, como ele disse, nos reencontramos quando estávamos terminando a faculdade e decidimos começar com a cara e a coragem.

Com a cara e a coragem, ao longo desses dez anos, quais as portas mais preciosas que a Casa já abriu?  
Martha  - As relações que construímos, os amigos que conquistamos.
Julio – Sim, nós conquistamos algumas relações importantes, mas, sem demagogia, o importante para mim também são as amizades sinceras que criamos ao longo desse tempo, (quase que totalmente) isentas de interesses profissionais.

Que chaves são essenciais para uma editora que está começando?
Julio - A chave do tamanho. Mas essa não deu certo nem para Emília... Mais seriamente: paciência, abnegação, um tanto de idealismo e, esgotada uma fase de romantismo saudável, nervos de aço e cara-de-pau para encarar o mercado.
Martha  - Uma varinha de condão! Brincadeiras à parte, amor pelos livros e pelos numeros. Acho que meu aprendizado diário é com as planilhas!

Qual é o maior desafio, conquistar o seu espaço no mercado, ou mantê-lo, renová-lo, ampliá-lo?
Julio - É conseguir fazer tudo isso e ainda dormir de noite...
Martha  - A gente tem que se reinventar todo dia. E haja criatividade e energia, tendo que fechar as contas no fim do mês.
  
Como vocês desenhariam a planta da Casa da Palavra? É uma casa com muitas janelas? Essas janelas têm vista para onde?
Julio - Seria uma casa de fazenda, com uma varanda enorme com redes para os autores aguardarem tranqüilamente a produção e a venda de seus livros, grandes portas para receber amigos para conversas na cozinha ao pé do fogão. E uma torre bem alta onde, longe desse povo todo, a gente possa trabalhar em paz. Das janelas, tenta-se ver, além do horizonte, um lugar ou tempo onde os brasileiros poderão comprar todos os livros que desejem e onde editar livros deixará de ser uma aventura quixotesca.
Martha  – Para mim, seria uma casa moderna, clara, aconchegante e cheia, cheia de livros. Um belo jardim, com uma mesa grande e comprida para as reuniões, regadas a chá, café e bolo, uma vista linda e ampla, para ver um futuro melhor para o Brasil, e uma passagem secreta para a livraria do coração.

Das plantas e janelas para os projetos... A Lucia Riff me contou que vocês estão com um lindo livro no prelo, que fala justamente sobre os livros que mudaram a vida de algumas pessoas. O que vocês poderiam falar sobre esse título? Já tem data de lançamento?
Julio - O título é10 livros que abalaram meu mundo. Todo mundo tem "aquele" livro que, lido "naquele" momento crucial da nossa vida (infância, adolescência ou maturidade) abriu nossa cabeça para as possibilidades sem fim do livro, do conhecimento e da literatura. Pedimos a 10 amigos (a maioria escritores, embora alguns dos melhores textos venham de gente "de fora") que dissertassem sobre seu livro particular, como forma também de marcar a passagem dos 10 anos da editora. Acho que muita gente vai se identificar e, quem ainda não encontrou pelo caminho o seu livro especial vai abrir seu coração e sua mente para esse encontro. O lançamento é no dia 26 de julho, data do aniversário da editora.

Para vocês, o que não pode faltar, de jeito nenhum, num projeto editorial?
Martha  - Cuidado com o texto e com o visual.
Julio - Um pé no chão (mas só um) e uma cabeça no céu (mas não alto demais).

Por outro lado, o que é que pode sobrar num projeto? Que tipo de excesso mais seduz vocês?
Julio - O luxo tipográfico com fontes caprichadas e caracteres arcanos, como œ, §, ß. Ilustrações e imagens de época nunca são demais. Também sou fã de notas explicativas supérfluas e saborosas.
Martha  - Índices e notas. Adoro!

Quais os caminhos que vocês até hoje seguem para fortalecer cada vez mais o departamento editorial e o comercial da Casa da Palavra?
Julio - Chegamos a um ponto que alcançamos uma estabilidade dinâmica. Em outras palavras, é como andar de bicicleta: nos mantemos de pé enquanto estivermos em movimento. Portanto é necessário, nos departamentos editorial e comercial, atentar para as oportunidades, inovar nas soluções, criar novos espaços, para não cairmos ou sermos atropelados. Já há algum tempo tiramos as rodinhas e ainda não caímos...
Martha  - O nosso lema agora é livro com lucro. Realizar projetos com a nossa cara e ao mesmo tempo e imprescindivelmente rentáveis.

O que torna mais forte e respeitada uma editora perante os livreiros, perante os autores, perante a mídia, perante o mercado em geral, perante os leitores?
Julio - Constância. É melhor lançar good-sellers bimestrais do que best-sellers bisextos.
Martha  – De fato, o lançamento regular de livros interessantes e rentáveis. E um luxo de vez em quando!

E, na opinião de vocês, o que mais enfraquece, o que mais fragiliza, o que mais prejudica uma editora no mercado?
Julio - Quando ela tenta, atabalhoadamente, seguir a tendência e copiar o que está dando certo alhures, ou procura seduzir autores de terceiros. Isso vai minando a própria individualidade da editora, confundindo sua imagem perante o leitor.
Martha  - Não ter identidade prejudica muito uma editora no mercado.
 
Mercados à parte, o que mais torna um livro apaixonante para o leitor? O faz com que uma leitura seja mais inadiável para cada um de vocês?  
Martha  - A solidão e o encontro, estar ao mesmo tempo sozinho e acompanhado.
Julio - No momento, o que mais admiro em um livro é o silêncio. Num mundo sobrecarregado de informação e opções audiovisuais (e palato-olfativas), virtuais ou concretas, abrir um livro, deixar-se levar pelo texto e ir desacelerando e voltando a sua velocidade natural é o verdadeiramente urgente. Não há silêncio mais eloqüente que o de quem lê.

 
Em que aspectos abrir um bom livro é sair para o mundo, em que aspectos abrir um bom livro é entrar em casa?
Julio - Ler um bom livro é a mais revolucionária das atividades solitárias. É dialogar com o mundo e não apenas reagir a seus estímulos. O motor da sociedade de hoje funciona a base de consumo e frustração. Ler é pisar o pé no freio.
Martha  - Saber que quando chegar em casa hoje aquele livro está me esperando e que vou mergulhar na sua história e seguir viagem. O ato de ler, a leitura em si, faz eu me sentir em casa, mas cada livro, cada autor e seu texto me fazem sair para o mundo (deles). E quando então o autor me faz desembocar no meu mundo, aí é êxtase.









       
 
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