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COM O OLHAR PARA O FUTURO
Lucia Riff fala sobre os 15 anos da agência, e sua nova fase,
aponta os seus principais desafios no mercado editorial
e investe para
fechar ainda mais e melhores
contratos de autores brasileiros no exterior
 Cláudio, Laura, Emídio, Célia, Marcos, Lucia, João Paulo, Miriam e Roberto
Márcio Vassallo
Agora, com 15 anos de vida, a BMSR passa a se chamar Agência Riff. Acima de tudo, o que representa essa troca de nome? Acho que representa nossa maturidade, nosso olhar para o futuro. A empresa agora tem nome, tem sobrenome, e foi construída por nós. É o que importa. Chega de explicar que letras são aquelas, de onde vieram, etc e tal. É a celebração da nossa deliciosa parceria: Lucia, Laura e João Paulo, os Riffs, como nos chamam, juntos com o Roberto Matos, e também o Cláudio Augusto, a Miriam Campos, o Emídio Matos, o Marcos Oliveira e a Célia Oliveira.
O que você mais destaca na sua equipe? A simpatia, a boa vontade, o amor pela agência, a vontade de crescer, a seriedade, a paciência, a capacidade de trabalhar sob pressão. Mas, acima de tudo: são gente boa, no melhor sentido da expressão.
Com uma equipe altamente afinada e cheia de gente realmente tão boa, quais são os principais desafios da agência atualmente? Bem, é o desafio de melhorar sempre, principalmente a qualidade do nosso trabalho. Outro desafio é conhecer cada vez melhor o mercado brasileiro e o estrangeiro, continuar aprimorando sistemas de controle. É conseguir dar conta do trabalho, e ganhar em agilidade. E, para mim, é fechar mais e melhores contratos de autores brasileiros no exterior.
Que tipo de desafio mais te tira o sono? Além do volume inacreditável de trabalho que temos que gerir, sem se atropelar, o maior desafio está em manter bons relacionamentos com autores, clientes, editores, público em geral. Precisamos sempre nos fazer entender, promover o entendimento entre as partes, manter o bom diálogo, sem que nada fique atravessado no caminho. Isso é um mega desafio.
Mas nem tudo o que tira o nosso sono é ruim, não acha? Tem notícia boa que te atrasa o sono? Ah, isso tem, claro! A excitação de uma viagem para Frankfurt, por exemplo. Ou acompanhar o sucesso de um autor, de um livro - ainda mais aqueles para os quais não havia nenhuma grande expectativa. Ou batalhar com os termos de um contrato difícil, mas que deu uma imensa alegria para as partes envolvidas. Tem muita coisa boa pra se comemorar a cada dia, se a gente souber olhar direito, e não ficar só se amargurando com o que não foi ainda feito, com as cobranças alheias...
Cobranças à parte, o que mais te emociona nesses 15 anos de história no mercado editorial? Minha história no mercado editorial começou em 1983, bem antes da fundação da nossa agência (que foi em janeiro de 1991). Uma coisa que me emociona é ver a força que tem hoje o autor brasileiro. Na década de 80, havia incentivos para quem publicasse autores nacionais. Poucas eram as editoras que se aventuravam. Veja só que absurdo! E hoje temos uma situação totalmente inversa. E também me emociona quando a gente vê que o editor brasileiro é reconhecido lá fora como um bom cliente: ousado, moderno, ágil, capaz de produzir livros lindos, e de pagar suas contas com pontualidade e competência. Os maus pagadores são exceção, e não regra.
Como a agência nasceu na sua vida, como a sua vida, hoje em dia, se confunde com a vida da agência, Lucia? Olha, a gente vive a agência com muita intensidade. Os amigos são autores e editores e gente do meio editorial. As viagens. As leituras. Nossos assuntos têm a ver com a agência. Ainda mais porque estamos juntos - eu e meus dois filhos - e meu marido Roberto Riff sempre nos acompanhou, apoiou, ajudou, e esteve presente em todos os momentos, bons ou não...
Se é que essa idéia passou pela sua cabeça, em que momentos você pensou em desistir de tudo? Foi num único momento: no final de 1993, quando a inflação ia para os 80% ao mês, e muita gente nos devia dinheiro. Mesmo já conseguindo boas vendas para a agência, a vida estava duríssima. Mas esfriei a cabeça, e resolvi tentar mais um pouco. Já em 94 estava com a agência equilibrada, e nunca mais pensei em desistir, mesmo que em alguns momentos tenha tido vontade de subir pelas paredes...
Por outro lado, o que mais costuma fazer a equipe toda aí da agência subir pelas paredes de felicidade? É ver um autor nosso contente, progredindo, brilhando, ou um cliente orgulhoso com o sucesso de um de seus livros no Brasil, ou em Portugal, onde também estamos atuando. É ver que a gente fez uma diferença positiva na vida de alguém.
Lucia, no dia-a-dia, qual costuma ser a sua rotina, desde que você acorda até a hora em que vai dormir? Em resumo: olho para o computador, escrevo e respondo emails. Leio textos na tela. Organizo pendências. Sofro com os atrasos (os meus, principalmente). Muitas vezes recebo visitas de editores e autores. Eventualmente temos eventos à noite, ou viagens de trabalho. Tiro um tempinho para a esteira e o pilates, antes de abrir o laptop. E um tempinho para o francês.
O que é mais imprevisível no seu dia, na agência? Êta pergunta difícil... Bem, o que a gente não quer que aconteça nunca é uma crise, um problema, um mal entendido com alguém. O que a gente quer sempre é aquele agito maluco de milhões de emails e ofertas e telefonemas e pedidos e pacotes (aos montes) entrando e saindo todo o tempo.
Acima de tudo, o que mudou na agência com a chegada dos seus filhos, a Laura e o João Paulo? A Laura entrou em 1997, e o João Paulo em 1999. Os dois foram estagiários da agência durante todo o tempo em que eram estudantes de Direito. Em 2003, com ambos já formados, advogados, aí fizemos uma mudança no contrato social, e eles passaram a ser sócios, trabalhando full time, e assumindo, junto com o Roberto Matos, os clientes estrangeiros. Foi a melhor surpresa da minha vida, e um tremendo e fundamental ganho para a agência, que os dois tenham decidido ficar aqui, em vez de assumir a carreira de advogados. Não imagino nem saberia mais tocar a agência sem eles. Os dois trouxeram uma modernidade e um dinamismo fantásticos para a agência. O aumento das vendas foi impressionante.
Todo mundo está sempre precisando aprender alguma coisa, todos os dias. O que você acha que ainda precisa aprender na sua profissão? De tudo um pouco, ou muito, conforme o caso. Posso citar mil coisas que gostaria de aprender ou dominar melhor, mas eu diria que meu sonho no momento seria falar bem o francês, aprender nem que seja um pouco de alemão e italiano. Do ponto de vista administrativo, gostaria de entender melhor questões tributárias e contábeis. Do ponto de vista literário, aí o céu é o limite: quanto mais eu puder ler e conhecer, melhor será, e nunca será o suficiente. Do ponto de vista editorial, quero conhecer ainda melhor o mercado e suas sutilezas, no Brasil e fora.
Por sua vez, o que o mercado editorial brasileiro precisa aprender com o mercado internacional, o que o mercado internacional precisa aprender com o mercado brasileiro? Começo pelo final: o mercado internacional precisa descobrir a excelência dos nossos autores e a coragem dos nossos editores. Quanto aos brasileiros, acho que podemos aprender com os americanos e ingleses a nos promover mais e fazer com que nossa cultura seja mais exportada.
Quais os caminhos que você tem seguido para fechar mais e melhores contratos para os autores brasileiros no exterior? Estou investindo em catálogos melhores, mais caprichados, no site mais completo, em viagens mais frequentes, e o apoio mais forte das colegas estrangeiras - Ray Gude Mertin e Anne Marie Vallat. É um trabalho de longo prazo, de construção lenta. A gente planta hoje, e pode ir colher anos mais tarde...
Qual a grande dificuldade desse plantio? Acho que a dificuldade mais evidente é que estamos lidando com uma língua que poucos lêem lá fora - e isso exige que o material oferecido seja pré-traduzido, para que não se fique limitado às poucas casas que tradicionalmente trabalham com autores de língua portuguesa. Eu destacaria também o papel do autor brasileiro. É fundamental que ele entenda o processo, e trabalhe junto com a agência. Que haja uma parceria de fato, uma confiança mútua. Caso contrário, a frustração pode ser grande para ambas as partes...
E o que você acha que mais tem seduzido os editores estrangeiros, para publicar os nossos autores? Os pedidos mais freqüentes são para nossos grandes nomes, nossa literatura clássica e universal, e também para os novos autores. A turma que está despontando e brilhando agora. Não existe um interesse ´básico´ em literatura brasileira, ou uma real procura pelos nossos autores, infelizmente, mas isso não deve nos abater, já que, por definição, todo bom editor, seja de onde for, tem latente o espírito de buscar e descobrir bons autores. Vejo o mercado editorial, de modo geral, um pouco mais aberto. Os editores buscam autores de toda nacionalidade, ainda que a predominância absoluta das traduções em todo o mundo seja de obras de língua inglesa.
Mais do que tudo, quais são as grandes funções de um agente literário? Em uma frase: promover o entendimento e o equilíbrio entre autores e editoras. Acho que tudo o mais é conseqüência: o bom contrato, a busca da editora certa, a solução dos conflitos e dúvidas, o ombro amigo, o planejamento estratégico, o acompanhamento das questões financeiras, a administração dos limites de cada parte envolvida, outros usos da obra, e por aí vai.
Em que momentos você constata que tocar a agência é o ofício da sua vida? Acho que não saberia fazer outra coisa, e não conseguiria viver sem os amigos que conquistamos, e que agora são a nossa vida. . Qual a grande importância dos afetos para você e para a agência? Os afetos são tudo na vida da gente. É o que nos move, nos faz levantar a cada manhã, nos faz superar os momentos difíceis. Temos que ser profissionais ao extremo, mil por cento éticos, mas tudo isso tem que ser temperado por boas doses de ternura, de bem-querer. Sem isso, a agência não faria sentido, e não teria a cara que tem.

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