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TUDO PELA LEITURA Secretária-geral da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Elizabeth D`Ângelo Serra avalia o desafio de trabalhar há 20 anos em defesa da cultura escrita para crianças e jovens, fala sobre a importância da literatura na sua vida e aponta caminhos para a formação de leitores no Brasil
 Isis Valéria, Lucia Riff, Beth Serra e Bartolomeu Campos de Queiroz
Elizabeth Serra: "A literatura me permite caminhar e ver a realidade e a fantasia ao mesmo tempo”.
Márcio Vassallo
Para quem ainda não conhece, como é que você define a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ? A FNLIJ é a única instituição no país totalmente voltada para o direito de todas as crianças e jovens terem acesso à cultura escrita, por meio da leitura de livros de qualidade, em particular da literatura, como a base para uma educação de integrada à formação cultural. Para quem acredita que um mundo melhor e mais justo só é possível se trabalhamos para proporcionar às crianças e jovens o direito a uma vida digna, que compreende o acesso ao patrimônio artístico da humanidade, e para quem acredita que a literatura é o melhor caminho para conhecer o outro e a si mesmo e assim, compreender melhor a realidade, por meio da imaginação bem alimentada, a FNLIJ é a instituição, por excelência, para defender esses direitos. Além disso, a Fundação nos proporciona os melhores encontros para fundamentar a certeza de que esse é o caminho que contribui, de maneira radical, para a paz e o entendimento entre as pessoas e os povos, bandeira do International Board on Books for Young People/IBBY, organismo que a FNLIJ representa no Brasil. Perto de completar quatro décadas, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil está presente, de maneira direta e indireta, em todas as ações de promoção da leitura literária em nosso país. O que mais faz com que você se levante, todos os dias, para ir à Fundação, rodar o Brasil e o mundo falando sobre a questão da leitura, acordar e dormir pensando em literatura, livros, formação de leitores e outros pensamentos cheios de lombadas? A missão institucional da FNLIJ me conquistou totalmente. O meu encontro com a FNLIJ foi uma oportunidade única na minha vida. Foi mesmo um presente. E o que me move todos os dias para esse trabalho é o desejo de contribuir para um Brasil mais justo, para um mundo melhor, com uma irresistível vontade de partilhar a alegria e a força revolucionária da leitura para alcançar esse objetivo. O meu principal foco de interesse para trabalhar na direção do meu sonho, provavelmente por influência de Lobato, é a criança e o futuro.
Por isso você escolheu a educação e a cultura como áreas de estudo e trabalho? Sim, defender o direito à cultura escrita é a forma que eu encontrei para canalizar o meu trabalho na direção do meu foco. O direito de conhecer a produção artística da humanidade por meio, principalmente, da literatura e de ter acesso crítico à informação é tão importante para a saúde das pessoas como alimentar-se, morar bem, trabalhar e conviver bem com o outro. Acredito profundamente nisso. E é isso que me faz continuar insistindo nesse ideal que não é só meu, mas de muitos, embora ainda sejamos poucos.
Em que momento você descobriu que os livros fariam parte da sua vida para sempre? Os livros sempre estiveram presentes na minha vida. Viver no meio de livros é resultado do ambiente cultural e educacional em que nasci e cresci que valoriza o livro e a leitura. O marco inicial desse processo foi a coleção de Monteiro Lobato que recebi de presente de aniversário de meu pai, aos dez anos e que me foi entregue com um certo ritual de quem me entregava algo muito precioso, com o ritual de quem me entregava um tesouro que eu tinha que conhecer para descobrir o seu valor. Naquele momento, é claro, eu não podia supor a importância que esse fato e as leituras de Lobato teriam na minha vida. Depois, casei-me cedo e, como não podia deixar de ser, com um leitor. De presente de casamento ganhei dele a coleção de Eça de Queirós, em papel bíblia, e um livro de Roberto Pontual sobre arte brasileira. Nossa casa é cheia de estantes com livros, inclusive no nosso quarto. Considero isso um privilégio. E, quando penso que a imensa maioria da população brasileira e do mundo não teve essa oportunidade, me engajo mais e mais no trabalho da FNLIJ e do IBBY.
Por outro lado, em que momento você mais redescobre a leitura na sua vida? A cada dia em que leio ou releio livros, teóricos ou de ficção, principalmente dos autores que eu gosto e respeito, a cada dia em que leio os jornais, a cada semana que leio uma revista semanal, a cada momento que leio as revistas sobre literatura, história, educação, decoração, gastronomia ou natureza e me lembro daqueles que não podem comprar o que eu posso e que não têm nem a opção de usufruir de um sistema de bibliotecas que ofereça livros novos, jornais diários e revistas atualizadas para satisfazer os seus interesses e curiosidades. Também gosto quando assisto a um filme, ou a um bom programa de televisão que sempre me remete a algum livro, a alguma leitura. Redescubro a importância dos livros e da prática da leitura quando converso com pessoas que admiro e que são leitoras. Enfim, quanto mais leio, quanto mais vivo, mais aumenta o meu desejo de ler e de que todos possam ter acesso ao bem precioso que é leitura tendo a literatura infantil como porta de entrada para esse mundo fascinante e inesgotável que é a imaginação humana.
Você já trabalha com livros há quanto tempo? Olha, considerando os livros como o foco do trabalho profissional, trabalho com livros desde que entrei para a FNLIJ, em fevereiro 1987. Portanto, estou às vésperas de completar 20 anos na Fundação.
Com o que você trabalhava antes? Antes de entrar para a FNLIJ, tive uma loja de arte popular, chamada O Artesão, onde a literatura de cordel tinha presença forte. Eu e meu marido viajamos muito pelo interior do Brasil para conhecer e comprar objetos de arte popular. Em Juazeiro do Norte, conheci José Bernardino da Silva, em sua livraria de cordel com belos armários de madeira e portas de vidro para proteger os folhetos. Na época, escrevi um artigo para um jornal chamado Partir, falando sobre essa viagem ao interior de Pernambuco e da Bahia. Muito tempo depois, constatei em vários momentos como essa opção pela arte popular tinha ligação com os livros.Um exemplo recente foi ver que J.Borges, cordelista de Pernambuco, está escrevendo livros para crianças. Tive a oportunidade de conhecer o Borges e vender seus trabalhos em minha loja. Promovi também exposições, dele e de outros artistas, em minha casa numa época em que a arte popular só tinha entrada na casa de praia dos mais abastados como objeto exótico e não como arte.
A arte sempre foi uma escolha para você? Sim, eu creio que a arte sempre esteve presente nas minhas escolhas e a literatura terminou por ocupar o maior espaço.Depois da loja, trabalhei por oito anos, em uma pequena escola particular do Rio de Janeiro, o Instituto Nazaré, de Regina Yolanda Werneck, onde a leitura e os livros de literatura eram o carro-chefe do trabalho. Assim, ir para a FNLIJ e trabalhar com livros de maneira profissional foi uma conseqüência da minha trajetória pessoal e profissional.
Como é que você entrou na vida da Fundação, como é que a Fundação entrou na sua vida? Conheci a Fundação por intermédio de Regina Yolanda, no Instituto Nazaré. Aos poucos fui conhecendo a instituição. Para você ter uma idéia da importância do Instituto Nazaré nessa minha trajetória em direção à literatura infantil, foi lá que eu conheci, pessoalmente, Ana Maria Machado e Lygia Bojunga. Isto foi no início dos anos 80. O meu olhar para as artes plásticas foi despertado para a ilustração de livros infantis por Regina Yolanda, que além de educadora é ilustradora. Conhecia também a Feira de Bolonha pelo que Regina nos contava. Em 1987, Eliana Yunes, que tinha filhos na escola, me convidou para trabalhar na FNLIJ.Chegar à FNLIJ foi como uma continuação da minha trajetória na direção das crianças, dos livros e da arte. Para entender melhor esses meus movimentos é importante citar que junto a esse caldo de cultura privilegiado eu estava envolvida no movimento feminista e na militância política. Cheguei à FNLIJ com muita curiosidade e com o receio e a insegurança de quem sabia que tinha muito a aprender. Fiquei fascinada com a quantidade de livros que estavam nas estantes e com os que chegavam para serem analisados. A convivência com o mundo dos editores, dos autores, dos especialistas era totalmente nova para mim. E, durante muito tempo fiquei só observando e aprendendo, sempre disposta a aceitar qualquer desafio que me levasse a saber mais sobre a FNLIJ e sobre o IBBY. Então, quando Eliana Yunes me perguntou se eu podia viajar para o exterior a trabalho eu logo aceitei. Sem dizer nada a ela me pus a treinar meu inglês, em casa, contratando uma professora particular, para desempenhar melhor a minha tarefa. É claro, também procurei ler o que pude e que estava ao meu alcance. E olha, poder partilhar com os escritores e ilustradores, com especialistas do Brasil e do mundo, os mesmos ideais os mesmos sonhos e poder participar das - ainda pequenas - conquistas que levam leitura e livros aos vários recantos do país mundo é o que a FNLIJ oferece para aqueles que a ela se dedicam por inteiro.
O que te fascina no contato com essas pessoas? Para mim, o fascinante é ver que essa rede silenciosa, mas poderosa, aumenta cada vez mais, embora de maneira lenta para a necessidade da população.
Há quanto tempo exatamente você trabalha na FNLIJ, e há quanto tempo você está à frente dela? Entrei para a FNLIJ em 1987. Embora continuando a colaborar com a FNLIJ, em 1989, Eliana deixou a função e me convidou para assumir o seu cargo (de secretária geral), onde estou até hoje. A fundação é privada e sem fins lucrativos. Sua estrutura é formada por quatro conselhos que se renovam, a cada ano. O meu cargo é o executivo da instituição e pelo qual sou remunerada. Entre as inúmeras funções que exerço a mais trabalhosa é a busca de recursos.Uma experiência muito rica tem sido conviver com os vários conselhos que a FNLIJ teve ao longo desse tempo. É com o conselho diretor que essa relação é mais freqüente já que nos reunimos a cada quinze dias e nos falamos várias vezes durante a semana, de acordo com a necessidade.Fiz grande amigos nos conselhos da FNLIJ e esse é também um legado importante para mim, pois aprendi e aprendo muito com eles e assim procuro melhorar a minha atuação à frente da instituição. Deles sempre recebi total apoio e confiança.
Que histórias emocionantes você poderia contar sobre essa sua experiência de tantos anos trabalhando com leitura e leitores? Você e a equipe da FNLIJ devem ter muitas histórias para contar, nas suas andanças pelo Brasil e em outros países. Bem, eu não sou uma boa contadora de histórias. Acho mesmo que não sou contadora de histórias. Prefiro ler as histórias contadas por grandes escritores. Por isso, acho difícil eu relatar as histórias que temos vivido de forma a atrair a atenção do leitor. Mas acho que posso falar das sensações que guardamos dessas histórias. São alegrias que surgem depois de grandes esforços e dificuldades para conseguirmos subir alguns poucos degraus. São alegrias proporcionadas por pequenos retornos de crianças, jovens ou mesmo adultos contando seus relacionamentos com a leitura e o desejo de ler mais e de ter acesso a mais livros. São alegrias que nos causam quando um grupo de pessoas percebe a importância de se organizar uma biblioteca por entender a sua importância para a formação cultural e humanista da sua comunidade e passam a reivindicá-la como direito.São alegrias com o reconhecimento do nosso trabalho vindo das parcerias estabelecidas e que aparecem sempre acompanhadas de histórias interessantes. Mas, acho que a história mais emocionante é a história da criação e do primeiro período da FNLIJ.
O que você sempre lembra dessa história? Vendo hoje a FNLIJ, prestes a comemorar 40 anos, não há como deixar de nos referir à determinação de três amigas que, no final dos anos 60, em meio a um período triste da nossa história, acreditaram em um sonho e lutaram por ele, olhando para o futuro e para nossas crianças, como Lobato.Rutth Villela,já falecida, Maria Luiza de Oliveira e Laura Sandroni fizeram as histórias mais bonitas da Fundação que nós temos o privilégio e a obrigação de continuar e fazer avançar.
Que espaço a literatura infantil e juvenil brasileira tem conquistado no exterior? Como seção do IBBY (International Board on Books for Young People), a FNLIJ é responsável por indicar, a cada dois anos, candidatos aos prêmios Hans Christian Andersen, de ilustração e de texto. Esse trabalho é o resultado de leitura e análise da produção anual feito desde 1974. É com orgulho que constatamos que o trabalho da FNLIJ resultou nas mais importantes conquistas internacionais de reconhecimento da qualidade da literatura brasileira para crianças com os prêmios para duas grandes escritoras: Lygia Bojunga, em 1984 e Ana Maria Machado, em 2000. A partir desses prêmios, ambas vêm conquistando outros prêmios internacionais o que confirma a qualidade da nossa literatura. Todos os anos, desde 1974, a FNLIJ é responsável pela organização do estande brasileiro na única feira internacional especializada em livros infantis e juvenis, a Feira de Bologna. Para isso, preparamos um catálogo com livros selecionados da produção anual e sempre buscamos ter um destaque para um escritor ou ilustrador. Este ano homenagearemos Sylvia Orthof, que faleceu há dez anos.
Os editores estrangeiros costumam visitar o estande brasileiro na Feira do Livro de Bolonha? Sim, com o reconhecimento internacional de Lygia e de Ana Maria, pelos prêmios recebidos e pela variedade e qualidade da nossa produção, o estande brasileiro, na Feira de Bolonha é cada vez mais um espaço de interesse dos estrangeiros. Lá, eles encontram os livros de nossos autores importantes, bem como os novos valores. Sempre incentivamos aos nossos escritores e ilustradores a incluírem a Feira de Bolonha em seus planos como parte de sua formação profissional e da divulgação dos seus trabalhos. A maioria dos editores brasileiros não divulga os nossos autores nas feiras internacionais. Eles comparecem à feira principalmente para comprar direitos. Por isso, os autores devem ir para divulgar o seu próprio trabalho. Cito um exemplo bem-sucedido: a ilustradora Marilda Castanha seguiu esse caminho e hoje o seu trabalho é bastante conhecido na Itália e em outros paises. Além disso, temos participado de outros eventos muito importantes. Em 2007, fomos convidados para o Salão do Livro para crianças em Pontevedra, na Espanha e para o festival Minimondi de literatura infantil, em Parma, na Itália. Estarão indo, também como convidados, Ana Maria Machado e Rui de Oliveira. O convite para esses dois eventos é fruto do trabalho internacional da FNLIJ, como seção brasileira do IBBY e como participante da Feira de Bolonha, na divulgação dos nossos livros de qualidade. Não quero dizer com isso que a FNLIJ é a única responsável pelo reconhecimento da qualidade dos nossos artistas, mas como instituição única no gênero, já que não há nenhum órgão do Ministério da Educação ou da Cultura que faça essa tarefa, sem dúvida o trabalho da FNLIJ tem sido decisivo para o reconhecimento dos autores brasileiros no exterior.
Como tem sido esse reconhecimento na América Latina? Na América Latina, eles são bem mais conhecidos do que em mercados mais fortes como os Estados Unidos ou a Europa, graças também ao trabalho de divulgação das seções latino-americanas do IBBY que há 40 anos também fazem o mesmo esforço em seus paises e que reconhecem o valor da nossa literatura e o trabalho de promoção da leitura que a FNLIJ realiza no Brasil. Mas, sem dúvida, há muito ainda a se fazer para que a literatura infantil e juvenil brasileira venha a ter o lugar que merece no cenário internacional. Para se vencer a barreira da língua é determinante que os textos sejam traduzidos para o inglês para serem conhecidos e apreciados no exterior.
O que falta para que essa conquista seja ainda mais significativa? A criação literária brasileira para crianças e jovens tem qualidade internacional e, para ser mais conhecida no exterior precisa de uma ação de reconhecimento e de apoio dos governos federal e os estaduais. A literatura para crianças tem que ser vista e tratada como um importante produto de exportação da nossa cultura. Falta, portanto, uma política de governo que, de maneira eficiente - o que significa ter orçamento, ter dinheiro - crie programas que possibilitem aos nossos autores apresentarem suas obras no exterior e estarem em pé de igualdade na disputa pelos mercados internacionais. A forma de realizar isso é o incentivo e o apoio a traduções de qualidade e a programas que financiem a ida dos autores a eventos como os de Bolonha, entre outros, a fim de se tornarem conhecidos e conhecerem outras culturas, outros editores e outros artistas. Por sua vez, na área privada, em 2006, registramos algumas ações corajosas de pequenas editoras que estão investindo na divulgação dos autores brasileiros. Além de participarem do estande coletivo que a FNLIJ organiza, com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional, o Sindicato Nacional de Editores e a Câmara Brasileira de Livros, além de 12 editores que investem nessa idéia, a editora Biruta e a editora Callis, foram a Bolonha, em 2006, para apresentar e oferecer nossos autores. Também em 2006, Lucia Riff, pela agência literária Riff, decidiu investir nessa idéia e preparou um belo catálogo com os autores brasileiros que representa. Sem dúvida, são iniciativas que contribuem para a divulgação dos nossos artistas, mas precisam ter apoio expressivo dos governos, para que a literatura brasileira para crianças ocupe o espaço internacional a que tem direito e assim, sem falsa modéstia, outras culturas possam se beneficiar de nossa riqueza literária para crianças. Veja por exemplo, o caso de Monteiro Lobato, totalmente desconhecido no mundo da literatura infantil mundial. O governo tinha obrigação de promover um amplo projeto de tradução da obra de Lobato no exterior. Como faz a Dinamarca, com Hans Christian Andersen e a Suécia com Astrid Lindgren, já que o nosso Lobato está no mesmo patamar desses autores.
Qual você acha que é o papel da imprensa na divulgação da literatura infantil e juvenil? A imprensa também pode ajudar muito divulgando mais o trabalho dos escritores e ilustradores. O espaço na mídia dedicado à literatura infantil e juvenil é muito pequeno, quase insignificante para a importância que essa arte merece. Esse devia ser um tema de toda a mídia, principalmente quando se constata o baixo nível da educação oferecida em nossas escolas e a frágil formação dos nossos professores. Por exemplo, nunca houve uma cobertura sobre a Feira de Bolonha pela grande imprensa. E, no entanto, nossas emissoras de televisão transmitem muitas vezes feiras e eventos internacionais com bem menos importância. Essa é uma questão de prioridade.
A Feira do Livro para Crianças e Jovens de Bolonha, na Itália, é a mais importante do gênero. O que mais te seduz nesse evento? Em meados dos anos 90, com a chegada do fax, comentava-se, na Feira de Bolonha, que as feiras de livros iam perder o sentido de existir já que os negócios podiam ser feitos à distância. Mas, ao contrário, a cada ano mais gente vai à Feira de Bolonha. Depois, com a chegada da Internet, ocorreu o mesmo receio e novamente mais pessoas passaram a ir, assim como puderam aproveitar melhor os encontros, já que a comunicação eletrônica possibilita resolver, antecipadamente, os problemas burocráticos. Com isso, a qualidade do encontro entre editores, artistas e especialistas aumentou, mostrando que, além do comércio que as feiras proporcionam, o encontro entre pessoas é muito importante e motivador.
Nesse sentido, o que é mais motivador? Rever pessoas que estão em seus países lutando pelos mesmos ideais conhecer novas pessoas que se incorporam a esse trabalho faz parte da formação de quem está no meio dos livros para crianças. É na Feira de Bolonha que o IBBY anuncia os vencedores do prestigiado Prêmio HCA, mantido em segredo até a hora da conferência de imprensa que ocorre dentro da Feira. Todos os brasileiros presentes em Bolonha, no ano 2000, tiveram o privilégio de viver a emoção do anúncio da premiação da Ana Maria Machado. Nunca vou me esquecer dessa emoção. Esta é uma boa história para ser contada. O fascinante da Feira de Bolonha é ver que ela está viva e a cada ano com mais pessoas que acreditam no mesmo que nós acreditamos. São escritores, ilustradores, editores, professores, bibliotecários que a cada ano se reencontram ali, por quatro dias, para falar de leitura, para ver e falar de livros para crianças, para se alimentar das experiências dos outros provando que esse pequeno objeto, simples, mas poderoso, ainda arrebata multidões e mobiliza as nossas vidas. E há algo também que quem vai à Feira sempre ressalta: apesar de ser um evento exclusivamente de negócios já que não é aberto ao público, o fato de que o produto-livro, objeto da feira, é para crianças, é algo que envolve as pessoas de uma maneira diferente. Alguns chegam a dizer que há um clima mágico nos encontros da Feira. Ah, e vale a pena lembrar que a pessoa responsável por criar esse clima de confraternização, de amizade, foi sua antiga diretora, Francesca Ferrari, que permaneceu no cargo durante 32 anos. Francesca cuidava, pessoalmente, de todos os detalhes da feira, de cada expositor, com uma atenção especial que fazia com que cada um se sentisse único. Foi ela que criou a exposição de ilustradores conhecida no mundo todo. Com a FNLIJ, como seção do IBBY, bem como com as representações dos paises mais pobres ela sempre dedicou uma atenção especial. Nós nos tornamos grandes amigas e, embora Francesca não tenha mais voltado à Feira, todos os anos nos encontramos quando ela reúne os amigos que fez durante o seu trabalho. E esse encontro é sempre uma alegria, um renovar de esperanças.
Para você, mais do que tudo, o que representa a Feira de Bolonha? Para mim, a Feira de Bolonha é como uma universidade do livro infantil e juvenil. Para coroar esse ambiente da Feira, o clima cultural da cidade de Bolonha é muito especial transbordando, para além do espaço do evento, o seu aspecto formador. Seja por sua arquitetura e história, seja pelas bibliotecas e livrarias infantis ou pelas várias exposições que se espalham pela cidade a sensação de imenso prazer se mescla com um sentimento de tristeza por pensar em quantos deveriam desfrutar dessa oportunidade.
De volta para o Brasil, quais os desafios da Fundação para sobreviver, se manter, crescer e concretizar cada vez mais projetos para incentivar a leitura e a produção de bons livros? A luta pela sobrevivência da FNLIJ não termina. Ela é constante e com as dificuldades que temos para nos manter pode parecer um contra-senso as viagens para o exterior que fazemos para a Feira de Bolonha ou para os congressos bienais do IBBY. Porém, faz parte da existência da FNLIJ essa troca internacional, já que somos a seção brasileira de um órgão internacional. É uma via de mão dupla, pois é vendo o todo que conseguimos buscar as soluções para o local, o nosso particular. Diferentemente de outras instituições internacionais, o IBBY não custeia a ida de seus associados a esses encontros. Cada seção nacional deve buscar os recursos para sua sobrevivência e viagens. De certa forma, as dificuldades que passamos para nos mantermos refletem as do nosso órgão central espelhando a situação mundial de que o acesso a livros de qualidade não é prioridade no mundo, com raríssimas exceções. Quando estou vivendo as experiências fora do Brasil que mostram que bibliotecas públicas para crianças aumentam, ano a ano, bem como as livrarias especializadas, depois de 20 anos quase completos trabalhando na FNLIJ e agora, eu com 60 anos, me dá uma tristeza muito grande ao voltar para o Brasil. Apesar de termos melhorado muito quanto à oferta de livros de literatura nas escolas públicas, isso é muito pouco em relação à nossa dívida com a população brasileira e ao direito que todos deveriam ter, já garantido, de acesso a livros bons, em bibliotecas públicas, com compra de acervos todos os anos, profissionais preparados e ambientes propícios e bem cuidados para a prática da leitura. Em vez disso, temos visto um retrocesso nas conquistas recentes. Por exemplo, o movimento em torno de bibliotecas aumentou. Mas, o conceito do que seja uma biblioteca pública e a sua importância se banalizou.
De que forma você observa essa banalização? Hoje, uma sala com livros em uma estante é chamada de biblioteca. O uso populista da idéia de biblioteca pública não garantiu à população a existência de uma rede de bibliotecas como eu vejo nos países que valorizam a cultura. Investir em bibliotecas, escolares e públicas, como o espaço por excelência da formação dos cidadãos, requer dinheiro, orçamento, verbas. Como qualquer projeto de governo que se torna prioritário. Mas, entre nós, o que constato é que o acesso à cultura escrita, embora tenha aumentado, ainda é um privilégio e não vejo ainda uma ação política, com verbas e projetos para mudar esse quadro. No retorno de uma viagem, o que me deixa realmente orgulhosa é a certeza de que temos uma maravilhosa literatura para crianças e jovens que se compara às melhores do mundo.
E qual a grande importância da FNLIJ na formação de leitores, num país com tão poucas bibliotecas? O papel da FNLIJ na formação de leitores é também pioneiro, procurando aproveitar as brechas que aparecem para ocupar espaços e defender o direito ao livros e à leitura. Em 1974, a FNLIJ trouxe para o Brasil o Congresso do IBBY, que se tornou um marco para o trabalho com literatura infantil nas universidades brasileiras. Nas bienais, também foi a FNLIJ que iniciou com os seminários de literatura infantil para os professores. Mas o projeto mais importante foi a Ciranda de Livros, que no início dos anos 80 levou livros de literatura para as escolas mais carentes do país, bem como iniciou a divulgação da literatura pela televisão. Antes disso, o governo federal não tinha um projeto de distribuição de livros de literatura para as escolas públicas. Foi a Ciranda que abriu o caminho para a criação do programa Salas de Leitura. A Ciranda não só levava livros de literatura selecionados entre os melhores para as escolas. Levava, também, orientação para a formação de professores leitores. Nesse sentido, algumas pesquisas foram realizadas e a que teve um desdobramento concreto e histórico foi a pesquisa realizada, em 1987, com apoio da FINEP, intitulada Por uma política nacional de leitura. A pesquisa motivou a criação do Proler (Programa Nacional de Incentivo à Leitura), no governo Fernando Collor. O apoio do então presidente da Fundação Biblioteca Nacional, o escritor Affonso Romano de Santanna, que conhecia bem o trabalho da FNLIJ, foi decisivo para a criação do Proler, em 13 de maio de 1992 e que completará 15 anos em 2007. Vários cursos de literatura foram promovidos pela FNLIJ e que se desdobraram em inúmeros outros. O mais recente é o que acabamos de realizar por demanda da Secretaria de Educação do Município do Rio de Janeiro. Foi um curso para 900 professores, com carga de 80 horas. O trabalho de formação de leitores promovido pela FNLIJ, por meio de seus inúmeros projetos visa atingir a criança e o jovem por meio de seus professores. Como a formação de nossos professores, para a escola básica, é frágil no que toca à leitura literária é este o foco a ser atingido. Para isso, as escolas de formação de professores devem mudar o rumo de seus currículos radicalmente e dirigir o foco principal para a formação leitora e escritora. Sem professores leitores de literatura não teremos como conquistar nossas crianças e jovens para a beleza da nossa língua e a para a vontade de dela se tornar íntima.
O que você acha que mais afasta uma criança, ou um adolescente, dos livros, e o que mais pode aproximá-las? O que afasta é a falta de oportunidades de conviver com livros e com adultos leitores que testemunhem o gosto de ler. As crianças se espelham nos adultos para construírem seus valores. Se não vêem adultos a sua volta lendo dificilmente se sentirão atraídos pelos livros. E o que mais aproxima crianças e jovens dos livros são as oportunidades que os adultos oferecem para que elas vejam livros, ouçam histórias lidas por adultos, conversem sobre leituras e sobre livros. Nos dias 18 e 19 de dezembro realizamos, na Biblioteca Nacional, um evento de leitura. Organizamos, no espaço em torno do auditório da BN, uma biblioteca cheia de livros selecionados, especialmente, para o deleite das crianças. Convidamos escritores e ilustradores e comprovamos, mais uma vez, como é simples atrair as crianças para o livro. Foram dois dias de sol e calor no Rio, mas muitos pais e instituições escolheram levar suas crianças para essas atividades. As histórias de encontros ali surgidas embora, de certa forma, esperadas pela equipe, nos emocionaram e nos deram a certeza, mais uma vez, desse caminho. Portanto, não há mágica. O que é preciso é criar oportunidades concretas para que todas as crianças e jovens tenham o direito de encontrarem espaços com livros bons e adultos leitores preparados para recebê-las. Esses espaços chamam-se bibliotecas.
Na sua opinião, como a FNLIJ contribui até hoje para a evolução do mercado editorial de literatura infantil e juvenil, no país? Ao ser criada pelas três amigas bandeirantes Ruth, Laura e Maria Luiza, a FNLIJ contou, desde o primeiro momento com o apoio dos editores brasileiros comprometidos com a formação de leitores como empresários e cidadãos comprometidos com o desenvolvimento do país. A FNLIJ surgiu em 1968 e já o seu estatuto de criação continha a representação dos editores, bem como associação de educadores e dos gráficos. Apesar da participação dos editores desde o seu início, a FNLIJ soube sempre manter total independência em relação a eles quando se trata de seleção de livros e tudo o que isto possa envolver. E os editores respeitam a nossa independência, pois entendem a sua importância. A primeira fase da FNLIJ foi de levantamento da produção cultural para crianças com o objetivo de elaborar um diagnóstico, sob a orientação de Ruth Villela que era bibliotecária e tinha experiência com livros para crianças. Laura Sandroni conta que foi Ruth quem deu as primeiras orientações, para ela e Maria Luiza, sobre livro e leitura para crianças. Depois de cinco anos, em 1973, elas propuseram ao Instituto Nacional do Livro - INL - a criação de um prêmio para o livro infantil, e que foi realizado com sucesso, com o objetivo de estimular a qualidade da produção editorial brasileira seguindo as diretrizes do IBBY para suas seções. No ano seguinte, a própria FNLIJ, criou o seu prêmio, O Melhor para crianças e, desde então, não parou mais. Os prêmios FNLIJ, já com mais de 30 anos de existência, são a maior referência nacional de reconhecimento pela qualidade do livro publicado, para editores e autores, dado a seriedade e isenção com que a FNLIJ sempre conduziu o processo de análise, seleção e premiação ao longo dos anos. O papel da FNLIJ na evolução do mercado editorial não tem como ser comprovado, mas dada a importância que o Prêmio FNLIJ tem, podemos dizer que o conceito de livro de qualidade no nosso pais tem, sem dúvida, a influência dos critérios estabelecidos pela FNLIJ que são os da qualidade do texto, da ilustração e do projeto gráfico. Mas é a qualidade da obra dos nossos artistas a matéria prima mais importante para o reconhecimento, nacional e internacional, que a produção brasileira tem recebido.
A FNLIJ criou o Salão do Livro para Crianças e Jovens, que há oito anos é promovido no Museu de Arte Moderna, no Rio, com um público cada vez mais amplo. Qual o segredo do sucesso do Salão, e como mantê-lo ainda mais vivo, renovado, desdobrado? A idéia de que o momento era oportuno para fazermos uma feira só de livros para crianças e jovens nos foi trazida por uma grande amiga da FNLIJ, Lilia Alves, que na época trabalhava no SNEL e por seu pai, Propício Alves, que era o presidente da FNLIJ, em 1998. A FNLIJ teve algumas experiências anteriores que não chegaram a se firmar, mas que já apontavam essa possibilidade. Partimos, então, para uma sondagem junto aos editores de literatura infantil e juvenil que logo aceitaram e investiram na idéia. Se não fosse esse apoio e incentivo dos editores de literatura infantil e juvenil não teríamos conseguido iniciar o projeto. Além deles, a CBL, o SNEL, e depois a Abrelivros, apoiaram o Salão. Tivemos também a sorte de contar com o entusiasmo de Maria Regina Nascimento Brito que, na época, era a presidente do MAM e que prontamente nos ofereceu o belo espaço do Museu. O formato do Salão foi se constituindo a partir de alguns princípios básicos e que a cada ano vão sendo aprimorados. Durante um Salão já estamos pensando no próximo e ficamos prestando a atenção nos mínimos detalhes, anotando o que é preciso rever, para melhorar ou mudar o que é necessário para o seguinte visando sempre os objetivos institucionais da FNLIJ e o melhor atendimento ao público a que é destinado: crianças, jovens e educadores em geral. Então, em 2001, por meio de amigos pessoais que acompanham o nosso trabalho, conseguimos apresentar o projeto à Petrobrás que veio a ser o grande patrocinador necessário para garantir a continuidade do Salão e o seu aprimoramento. Mas o que tínhamos muito claro, desde o inicio, é que o livro e a leitura tinham que ser o foco principal e se caracterizando como a principal identidade do Salão. E, claro, com a parte viva desse conjunto material e subjetivo, a presença do maior número de autores de literatura infantil e juvenil. Tanto escritores como ilustradores. O apoio da Petrobrás também foi decisivo para garantir a vinda de autores de outros estados e assim se tornar o grande encontro da literatura infantil e juvenil. A marca do nosso Salão, de só trabalhar com atividades com a leitura, está apoiada no fato de que a sociedade brasileira ainda não valoriza a cultura escrita, no seu sentido amplo e mais complexo e que cabe a nossa instituição essa tarefa, bem como a todos que trabalham com a formação de leitores. A imensa maioria dos eventos com livros agrega outras linguagens o que não fortalece o foco na leitura. Somos um povo que tem na música, na dança e na dramatização expressões fortes no cotidiano. O que nos faz falta é a cultura escrita como um valor igualmente importante. Por isso, eventos com livros para promover a leitura deveriam dar exclusividade justamente ao livro e à leitura. Sei o quanto a minha posição é polêmica em relação a esse tema, mas o sucesso do Salão, que tem essa marca, mostra que é possível atrair o público infantil e juvenil somente pela atividade da leitura. Sem artifícios. E é disso que precisamos para melhorar a vida dos brasileiros. De leitura, muita leitura como direito garantido a todos que quiserem desenvolver e alimentar essa prática. É a imagem de alguém lendo um livro ou conversando sobre livros que queremos fixar no imaginário de nossas crianças, jovens, seus professores e pais.
Você acha que o mercado editorial tem respondido bem ao Salão? Sim, do ponto de vista do mercado, a resposta é a melhor possível. Muitos editores e autores procuram planejar seus lançamentos para o Salão. Outro apoio importante e que se tornou uma sólida parceria é a participação da Prefeitura do Rio de Janeiro por meio da Secretaria de Educação. Há vários anos, a Prefeitura destina uma verba para que os professores, da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, comprem seus livros no Salão. Como a Secretaria de Educação tem uma proposta de formação de professores e alunos leitores, o Salão é considerado como uma ação complementar a essa formação. E isso confere ao Salão da FNLIJ mais responsabilidade, além do reconhecimento da nossa proposta de trabalho. Outra parceria que foi importante para termos criado e mantermos o Seminário de Literatura Infantil e Juvenil do Salão é a estabelecida com o Instituto Ecofuturo, da Companhia Suzano de Papel e Celulose. O Ecofuturo mantém com a FNLIJ uma parceria, há cinco anos, para o seu projeto de Bibliotecas Comunitárias. Com o Seminário do Salão, a FNLIJ oferece, ao público interessado, um canal de atualização em literatura infantil e juvenil. Do ponto de vista empresarial, a mais nova parceria, é com o Instituto C&A, por meio do programa Prazer em Ler. Também temos uma parceria institucional importante e representativa de um novo setor da literatura infantil, com o INBRAPI, que apresenta a literatura indígena para crianças e que, com muito esforço, traz escritores e ilustradores indígenas para participar do evento. Além disso, contamos com o apoio da AELIJ, o que muito nos honra. E, olhando para trás e lembrando como começamos e como conseguimos chegar até aqui, acumulando já um know-how sobre o evento, não poderia deixar de registrar o apoio incondicional que recebi dos conselhos da FNLIJ, principalmente, dos membros dos conselhos diretores que ocuparam e ocupam o cargo, desde 1999, e que atuam mais diretamente comigo. Quanto à equipe, ressalto o nome de Elda Nogueira que esteve sempre ao meu lado desde que entrei para a FNLIJ e hoje, embora morando no exterior, continua ligada à FNLIJ trabalhando a distância e atuando no IBBY, como membro do comitê executivo e exercendo a função de vice-presidência.Também gostaria de destacar o trabalho de Claudia Pinto, que faz parte da equipe da FNLIJ desde o 3º Salão. Mais recentemente, o apoio de Cynthia Rodrigues que está, desde 2005, na FNLIJ e que trabalhou como minha assessora, no Proler, até 2002, vindo a coordená-lo de 2003 até 2005. Gostaria também de me referir à influência das experiências vividas nas Feiras de Bolonha e com o IBBY que contribuíram para ver o Salão da forma como o realizamos e dizer que a expectativa da FNLIJ com o Salão é de vê-lo multiplicar-se em outros lugares pelo país afora. Seja em parceria, como já aconteceu, seja servindo como sugestão para eventos na mesma direção. Em nosso site procuramos registrar o maior número de informações sobre o Salão com esse objetivo.
A FNLIJ trabalha, dentre outras coisas, para promover o acesso dos leitores a livros de qualidade. O que é um livro de literatura infantil e juvenil de qualidade, para você? No IBBY e na FNLIJ nos referimos sempre à qualidade nos livros. Este é um ponto impossível de definir em toda a sua extensão ou apresentar em tópicos, como muitas vezes nos cobram. A conceituação da qualidade para a arte é subjetiva e representa um conceito cultural que por isto tem conotações diferentes, mas que também contempla aspectos universais. Essa universalidade do conceito de qualidade na arte se explicita em júris internacionais. No caso dos livros infantis, isso é bem evidente para quem é leitor de um conjunto bastante variado de títulos, como ocorre com a equipe de leitores que analisam os livros que chegam à FNLIJ e que eu coordeno há muitos anos, bem como nos júris internacionais. Não basta saber escrever para fazer literatura para crianças. Pelos livros que recebemos para análise podemos afirmar que a maioria ainda é escrita partindo-se da idéia de que a história do livro de ficção para crianças deve ser feita para abordar os problemas contemporâneos, com a linguagem da moda, ou para “ensinar” princípios ou valores acreditando que assim é mais fácil cativar o leitor ou vender. Na verdade, isso banaliza o objetivo da literatura de provocar o imaginário, de fazer pensar e não dar respostas deixando ao leitor a liberdade de construir a sua própria interpretação. Literatura é a escrita com arte. Poucos conseguem fazê-la, embora muitos se achem capazes, mas não têm auto-crítica para um juízo mais rigoroso, prevalecendo a vaidade. E quem perde com essa falta de cuidado com a qualidade dos livros são as crianças, os jovens e a nossa própria cultura.
O que a literatura tem de mais irresistível para você? O segredo da literatura é a arte de usar as palavras para dizer coisas simples e complexas sobre a vida e tudo o que isso possa significar de visível ou de invisível. A literatura toca fundo na emoção e nas idéias. Ela conversa com o nosso eu mais profundo e desconhecido, aquele que não é visível, a parte que nós mesmos não sabemos como conversar, mas que a literatura sabe. Eu consigo conversar melhor comigo mesma, de maneira mais reflexiva, quando leio literatura. E essa conversa por meio da literatura também traz o beneficio de conversar melhor com os outros e tornar a troca de idéias mais interessante e produtiva.
E o que a literatura mais te permite? A literatura me permite caminhar e ver a realidade e a fantasia ao mesmo tempo. E o mais incrível é que o tempo e a distância não existem para a literatura. Essa conversa pode existir com alguém que escreveu há séculos, com alguém que está vivo, que está longe, que está perto, com alguém que conhecemos ou que nunca vamos conhecer.
De que forma um livro te move e te arrebata, Beth? O que me move e me arrebata é o que a literatura traz para a minha própria vida, e também é a vontade que eu tenho de que muitos conheçam e desfrutem o que ela me dá de presente para viver.

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