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PLANETA ESTÁ EM BELAS MÃOS
Uma das nossas autoras mais queridas e premiadas,Rosa Amanda Strausz assume a editoria infantil e juvenil da Planeta

Rosa Amanda Strauzs: "Ser obrigado a ler um livro que não te diz nada é como ser obrigado a jantar com uma pessoa enfadonha".
Márcio Vassallo
Rosa, você agora é editora de livros infantis e juvenis da Planeta. Como foi que essa idéia nasceu, cresceu e te conquistou?
Rosa Amanda Strauzs - Muita gente me conhece como escritora, mas poucos sabem que eu venho do meio editorial. Antes de “passar para o outro lado da mesa”, trabalhei na Graal, na Codecri, na Nova Fronteira e na Nova Aguilar, nas atividades mais diversas. Passei pela divulgação, pela produção gráfica e pelo editorial. Mesmo depois de ter começado a publicar meus próprios livros, continuei desenvolvendo projetos para editoras. Acho que a consultoria que estou dando para a Planeta é uma decorrência natural desse processo.
Acima de tudo, o que mais te motivou a assumir esse desafio?
Rosa Amanda - Primeiro, o fato de eu poder trabalhar numa atividade que me dá imenso prazer. Depois, a possibilidade de aprender e experimentar coisas novas, não necessariamente no plano editorial, mas na ponte que liga o autor a seu público.
Você é uma autora super respeitada e muito premiada. Até que ponto será que a editora vai competir com a escritora, no seu coração, no seu pensamento, no seu dia-a-dia?
Rosa Amanda - Eu sou uma autora que precisa trabalhar para viver. O que compete com a escritora é a necessidade de sobrevivência. Já que é preciso trabalhar, é muito melhor fazer uma coisa que me motiva, me mobiliza, me dá prazer, do que simplesmente produzir textos a metro para instituições e empresas. Por outro lado, o trabalho – seja de que natureza for – me libera para escrever só o que quero.
Por falar nisso, você está escrevendo algum livro?
Rosa Amanda - Estou na metade de um livro de contos para adultos. Mas não tenho pressa de terminá-lo. Nunca tenho. Eu sou uma escritora que publica pouco. Não acho que o fato ter escrito alguma coisa é motivo suficiente para buscar publicação.
Para você, quais as grandes qualidades de um editor de livros para crianças e jovens?
Rosa Amanda - Produzir livros que cheguem, efetivamente, até seu público. Encontrar os textos que as crianças e jovens podem vir a amar. Reconhecer o caminho que levará essas obras até seus leitores. Acho que o bom editor, não só de infantis, é que pensa no caminho inteiro.
E quais os maiores pecados?
Rosa Amanda - O principal é subestimar o leitor. Confundir o seu público (a criança, o jovem) com os compradores (pais, professores). Um livro comercialmente viável não é aquele empurrado para as crianças porque os adultos o julgaram adequado.
O que um texto infantil mais precisa para te seduzir?
Rosa Amanda - Precisa ter luz própria. Não adianta ser apenas bom. Tem que me surpreender.
Por outro lado, o que faz você desistir de uma leitura logo no primeiro parágrafo?
Rosa Amanda - O amadorismo da escrita. Textos produzidos por gente que, evidentemente, não lê. Mas leio muito mais textos ruins quando sou jurada de concursos literários. De modo geral, os textos que chegam às minhas mãos agora não são ruins. O que não quer dizer que justifiquem a publicação.
Quais os critérios que você vai usar para selecionar originais, Rosa?
Rosa Amanda - Os mesmos que sempre usei para selecionar textos para as coleções e antologias que organizei: a qualidade literária e a viabilidade comercial. Como eu disse antes, o editor é quem faz a ponte entre o escritor e seu leitor. Para que isso aconteça, é necessário vislumbrar esse leitor. Todo texto traz embutido o público a que se destina. O problema é que, às vezes, esse público é pequeno demais. Pode ser constituído apenas pelos netos de quem o escreveu, por exemplo. Neste caso, não justifica a publicação.
De que forma você acha que uma editora mais pode contribuir para a formação de leitores no Brasil?
Rosa Amanda - Acho que, isoladamente, nenhum elo da cadeia que produz livros forma leitores. A formação do leitor resulta de um conjunto de ações que envolve editoras, governo, escolas, família, meios de comunicação, etc. As editoras, sozinhas, têm o seu papel: produzir livros e colocá-los em contato com o público.
Para você, o que é essencial para incentivar o amor pela leitura numa criança?
Rosa Amanda - Essencial é que ela tenha livros à sua disposição. Livros variados. Isso é o básico. Mas nem sempre o básico é suficiente.
O que será que mais costuma afastar as crianças da literatura?
Rosa Amanda - Vamos olhar pelo lado oposto. O que aproxima uma pessoa da literatura? Na minha opinião, é a possibilidade de encontrar, em palavras, as vivências que ela própria possui. Só não possuía aquelas palavras para descrever o que sentia. Esse é o primeiro momento de encontro com a literatura. O problema é que cada pessoa – e crianças são pessoas, bem entendido – precisa de um livro diferente, em algum momento da vida. A literatura nos organiza internamente. Nos põe em contato com sentimentos, vivências, experiências vitais para as quais não temos palavras. Nesse sentido, o que mais nos afasta do livro é a falta de afinidade com o que está ali escrito. No adulto, isso não causa problema algum. Você fecha o livro e pronto. Com a criança, é diferente. Ela raramente tem a liberdade de abandonar uma leitura que não a atrai. Ser obrigado a ler um livro que não te diz nada é como ser obrigado a jantar com uma pessoa enfadonha. Você já viu como crianças se comportam em ocasiões assim?
A comparação é perfeita, Rosa... Mas, jantares enfadonhos à parte, como foi que você começou a se aproximar dos livros na sua vida?
Rosa Amanda - Você acredita que eu não me recordo? Os livros são tão incorporados na minha vida que não consigo lembrar do tempo em que eles não existiam. Desde que fui alfabetizada, sempre estive lendo alguma coisa.
Que livros você costuma reler, que livros costumam reler você?
Rosa Amanda - Tenho um amor permanente pelos portugueses. Eça de Queiroz, que me ensinou a escrever, está sempre nas releituras. Também retorno com muita freqüência aos poetas portugueses contemporâneos, como Eugénio de Andrade e Alexandre O’Neil.

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