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EM ESTADO DE ENCANTAMENTO
Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant´Anna comemoram 70 anos de idade e conversam sobre a importância da poesia e da beleza na vida da gente

  


Casados há 37 anos, Marina Colasanti e Affonso Romano revelam o que mais aprenderam um com o outro.

  

Márcio Vassallo

Marina e Affonso, queridos amigos, me digam, o que o tempo mais traz e o que ele mais tira de cada um de vocês?
Marina Colasanti -
É uma boa pergunta... Olha, entre outras coisas, o tempo nos tira uma certa beleza física, se é que ela existiu...
Affonso Romano De Sant´Anna - Não acho, não, eu acho que nós estamos cada vez mais bonitos.
Marina – Bem, completando, eu acho que os anos também nos tiram aquela sensação da juventude de que temos todo o tempo do mundo, o que é uma ficção. Por outro lado, o tempo nos dá muitas coisas. Na verdade, eu estou achando ótimo. E digo isso com a maior lisura, porque com o tempo nós passamos a conhecer as nossas manhas e as manhas da vida. Com o tempo, em geral, nós nos sentimos mais bem postos na cela da vida.

Até para lidar melhor com os coices dela?
Marina
- É, nós aprendemos a reagir a esses coices e às coisas boas também. Com o tempo, você passa a ter um diálogo melhor com você mesmo, de uma forma muito mais fácil.

Será que o tempo te deixou mais seletivo, Affonso?
No meu caso, o tempo não tirou nada, só acrescentou. É como se fosse um investimento em ouro, com uma correção monetária sempre melhor.Evidentemente que isso está ligado ao fato de que a Marina e eu temos um projeto que nós perseguimos, que vamos completando. Ao contrário de outras pessoas, mais dispersivas, que saem pela vida gastando a sua fortuna temporal, atabalhoadamente.

É muito fácil gastarmos o nosso tempo por aí, de forma atabalhoada?
Affonso
 - Ah, acho que isso é o mais comum de acontecer com a maioria das pessoas.

E o que mais o tempo te trouxe?
Affonso -
O tempo me trouxe tranqüilidade, me trouxe uma visão de conjunto da História do país, e um mapa razoável de mim mesmo e dos meus semelhantes. As principais questões que eu tinha aos cinco anos de idade, ou seja, quem somos, de onde viemos e para onde vamos, essas questões ainda não foram resolvidas, mas eu me acostumei com elas.

Há quanto tempo vocês estão casados?
Affonso -
Há 37 anos.

Mas hoje em dia os casais estão comemorando bodas de meia hora. O que vocês acham que mais afasta e mais aproxima as pessoas num casamento?
Affonso -
A verdade é que as relações humanas, na maioria dos casos, passaram a ser descartáveis. Em geral, as pessoas não trabalham as relações entre si, e não trabalham internamente. Hoje, as pessoas se separam, muitas vezes, porque cada um está mais interessado em si mesmo, não dá para cada um investir no outro. E numa relação amorosa e afetiva, nós temos que prestar atenção no outro e sair do nosso centro de gravidade.

Além de prestar atenção no outro, o que é essencial num casamento?
Marina -
Antes até de prestar atenção no outro, nós temos que ter a certeza de que queremos manter o casamento, de que queremos manter a relação. Temos que nos perguntar isso o tempo inteiro, no dia-a-dia, porque a vida não é linear, e o outro não te oferece sempre o mesmo rosto, o outro te oferece um rosto hoje, e um novo rosto amanhã, e por aí vai. Nesse caso, se você quer manter o seu casamento, há os acertos que precisam sempre ser feitos... Então, você puxa um pouco para cá, puxa um pouco para lá, eu te ofereço isso, você me oferece aquilo, segue para aquele lado, segue para aquele outro. Dito assim, parece uma negociação fria, mas não é. E eu tenho a impressão de que os jovens, atualmente, não estão acostumados a fazer esse tipo de organização da libido, essa organização dos desejos, essa organização dos sentimentos. As relações, hoje em dia, já não começam para durar para sempre. A idéia de uma relação, atualmente, é muito centrada na expectativa da sexualidade.

Com que expectativa vocês começaram o casamento?
Marina -
Affonso e eu começamos a nossa relação de outra maneira. Nós começamos já adultos, com trinta e poucos anos, cada um com a sua profissão estabelecida, cada um já com o seu rumo, tendo vivido bastante, já éramos muito maduros.

Essa maturidade é fundamental?
Affonso -
Ah, sim, as pessoas só começam a entender alguma coisa depois dos trinta anos. Antes dos trinta, as pessoas só conseguem viver no espaço.

O que é viver no espaço?
Affonso -
É simplesmente deslizar na superfície das coisas. É achar que o mundo é só físico. Só com o tempo é que nós descobrimos que o mundo também é metafísico. Viver no espaço é uma relação egoísta. Então, depois dos trinta, as pessoas passam a ter outra dimensão da vida, em geral. 

Em geral, mas nem sempre?
Affonso -
Sim, em geral, mas nem sempre, tem gente que passa a vida toda só na superfície das coisas.  

Na superfície e na fundura, o amor muda com o tempo de convivência, ou é a convivência que muda com o tempo de amor?
Marina –
Acima de tudo, são as pessoas que mudam com o tempo. Uma coisa, por exemplo, é você estar casado e ter filhos pequenos, outra coisa é estar casado e ter filhos adultos. Geralmente também há um momento em que os filhos saem de casa. Tudo isso são alterações extremamente intensas que mexem com a relação. O bom é quando a relação e as pessoas crescem juntas e mudam na mesma direção. Se um cresce e o outro fica para trás pode ser bem desagradável.
Affonso - É como no jazz. Com diversos instrumentos, no conjunto, os músicos têm uma liberdade para compor, para tocar, e desenvolver o tema, mas eles estão dialogando o tempo todo...

No jazz, para tocar bem, um músico precisa escutar os outros do conjunto o tempo todo...
Affonso -
Exatamente. Às vezes, parece que um som não tem nada a ver com o outro, mas tem sim, e estão todos ligadíssimos. Então, amor é aprender a tocar junto. Amor é tocar de ouvido mesmo, com improviso.

Não dá para amar com partitura?
Affonso -
Bem, com partitura qualquer um toca, mas nem todos se escutam...

Amor também é tocar diante dos imprevistos do outro?
Affonso -
É, e muitas vezes com audiência.

Marina, audiências à parte, o que você mais aprendeu com o Affonso?
Marina -
Ah, eu aprendi muitas coisas com Affonso. Profissionalmente, por exemplo, eu vim de outra área, eu vim do jornalismo. Nesse sentido, a maneira que Affonso tinha de pesquisar e trabalhar era muito mais inteira, muito mais vertical que a minha. No jornalismo, na maioria das vezes, você nem tem tempo de pesquisar nada, porque em geral está sempre correndo...

Você vivia com alma de fechamento?
Marina -
Sim, e Affonso me ensinou a pesquisar e a fazer conferências. Ele tem um pensamento largo e eu tenho um pensamento focado. Nós funcionamos muito bem juntos. Affonso tem um olhar amplo para as cosias. Eu gosto de partir do pequeno. Sou realmente mais focada. Outra coisa, Affonso tem uma qualidade que eu não tenho: ele é muito generoso. Isso é muito bom. Eu não sou tão generosa.

E você, Affonso, o que mais aprendeu com a Marina?
Affonso –
A Marina realmente me ensinou a ver detalhes, tanto para olhar uma flor, um tecido, o gesto de uma pessoa, o tempero de uma determinada comida. Ela consegue decompor o elemento atômico molecular. Antes da Marina, os detalhes me escapavam muito. A Marina me ensinou a comer... Ela é uma cozinheira impecável, capaz de criar ou reproduzir qualquer tipo de prato que tenha provado e gostado. Também aprendi muito com ela a ler as artes plásticas. Marina tem muita cultura artística e uma rara sensibilidade plástica. Além disso, aprendi com ela a dialogar mais com as nossas filhas. Acho que eu tinha uma certa impaciência masculina. Outra coisa, com ela eu aprendi a gostar mais de animais. Antes, eu gostava, mas não pensava em ter uma cachorra, como temos hoje, por exemplo. Ah, e eu aprendi com a Marina a entender mais de perto o universo feminino.

Vocês viajam há muitos anos, pelo Brasil e por outros países, para falar sobre literatura, para levar o encanto da palavra às pessoas. Nesse sentido, o que mais move vocês a sair de casa para pegar a estrada?
Affonso –
A minha formação é metodista. O metodismo foi criado pelo inglês John Wesley, que dizia o seguinte: “O mundo é a minha paróquia”. Tenho uma vocação de sair, pregando o evangelho a toda criatura, como diz a Bíblia. Então, ir a Passo Fundo, participar da Bienal do Rio, estar daqui a alguns dias na Feira do Livro de Miami ou ir à Bienal do Chile, para mim já virou rotina. Essas viagens nos permitem alcançar fisicamente leitores que nem supomos que existem.
Marina – Eu sou viajante por formação, por nascimento. A minha mãe viajou grávida da Itália para a África. Na África morei em dois países diferentes, depois morei na Itália... Eu sempre viajei muito. Estar parada, para mim, é fatal. Eu acho péssimo. Começo logo a sonhar que viajo.

Quais são as suas próximas viagens até o final do ano?
Marina -
Vou a congressos este ano em Cuba e Bogotá e vou dar palestras também na Feira do Livro de Miami. Também vou passar dez dias falando de literatura, no interior da Bahia, pelo projeto TIM Grandes Escritores. E vou passar alguns dias nas cidades históricas de Minas, também pelo projeto TIM.
Affonso – Depois de qualquer notícia de que vai para o aeroporto, a Marina já se transforma, já fica morrendo de felicidade, mesmo com crise aérea, atrasos e cancelamentos de vôos, de fato, ela adora viajar...
Marina – É verdade, se eu sei que vou viajar, já fico de bom humor. Eu me dou bem com aeroportos...

Você gosta até de comida de avião, Marina?
Marina -
Eu incluo a comida de avião na categoria “sobrevivência”. Mas até o aperto das poltronas dos aviões não é uma tragédia para mim, porque eu estou em movimento, eu estou indo. Sempre quero estar indo a algum lugar. Só fico aflita quando tenho muitas viagens marcadas e sinto que as exigências e os compromissos estão se acumulando por aqui. Fico com medo de não dar conta dos prazos. E eu também tenho que ter um tempo para escrever. Mas se não viajasse, estaria derrotada. Tenho sempre que ir.

Por falar em viagens, recentemente, fomos vizinhos de quarto de hotel, na extraordinária Jornada de Literatura de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, que existe há 26 anos. Foi a primeira vez que eu fui à Jornada, e saí de lá profundamente sensibilizado com tudo. O que mais impressiona vocês na Jornada?
Marina -
Dizem que brasileiro não lê. Brasileiro gosta de ler, sim, desde que você o prepare para ler, desde que você dê a ele acesso aos livros. Então, Passo Fundo é a prova de que, quando se quer, é possível. A abertura da Jornadinha (encontro de literatura infantil que faz parte da Jornada) foi uma coisa muito comovente, com cinco mil crianças cantando, como nos estádios de futebol: “Eu sou leitor brasileiro, com muito orgulho, no coração”... A Jornada não foi criada para vender livros. Mais do que isso, a Jornada de Passo Fundo é um lugar de louvação à leitura, ao leitor, aos livros. Aquela região toda lê. Se toda uma região lê, por que não outra ali, outra lá, e por aí vai, até fazermos de todo o Brasil, finalmente, um país de leitores?

Para isso, a iniciativa pessoal da professora Tania Rösing, criadora e organizadora da Jornada, é essencial...
Affonso -
Sim, concordo com tudo isso que a Marina disse e com você também, claro. A liderança da Tania foi e é fundamental para a existência da Jornada. Sem uma liderança, movimentos como esse se perdem e não funcionam, essa é a realidade.
Marina - Além dessa importância indiscutível da Tania, é bom lembrarmos que a Jornada não é apenas o que aparece. Quando uma Jornada acaba, outra já começa imediatamente a ser preparada. Estávamos na 12ª, agora, em 2007, e mal ela acabou, a cidade já está preparando o encontro de 2009. Os encontros da Jornada de Passo Fundo, entre autores e leitores, são de dois em dois anos, mas a Jornada é permanente, porque as pessoas lêem os livros dos autores com quem vão se encontrar. A Jornada não pára nunca, nas escolas, nas casas das pessoas, em tudo quanto é lugar. Affonso - É diferente de certas coisas que acontecem no país chamadas de eventos, que são pontuais. A Jornada de Passo Fundo, como lembrou a Marina, não é um encontro pontual, é permanente.

Desta forma, os caminhos para formar leitores já existem no Brasil. E os próprios leitores existem muito mais do que a maioria das pessoas imagina. Para vocês, o que falta para formarmos ainda mais leitores?
Affonso -
Já estamos na fase da multiplicação dos pães. O Fabiano dos Santos está fazendo um trabalho incrível com promoção de leitura no Ceará e foi chamado para implantar esse mesmo trabalho no Maranhão. Por sua vez, o Marcelo Andrade também tem feito um trabalho excelente por meio do projeto TIM Grandes Escritores, primeiro em Minas, depois no estado do Rio, agora está indo para a Bahia. O Jason Prado é outro que tem desenvolvido um trabalho primoroso em vários estados com a Leia Brasil. A gente poderia relatar centenas de pessoas, ongs e empresas que estão desenvolvendo essas iniciativas de formar leitores. Enfim, parece que as pessoas se deram conta de que a leitura é a chave do amanhã.
Marina – São iniciativas pessoais, ou coletivas, de tudo quanto é lugar. Há, por exemplo, prefeitos que resolveram levar a leitura para as suas cidades e começam a movimentar os seus municípios. Então, uma cidade que era pequena, e sem brilho maior, resolver ter o espírito de uma cidade de leitura e não para de promover ações.
Affonso – Colatina, Araxá, Araruama, Morro Reuter, entre outras dezenas de outras cidades, são exemplos maravilhosos de municípios que já têm programas de leitura excelentes.

Estive em Morro Reuter, no interior do Rio Grande do Sul, ano passado. O trabalho de formação de leitores que eles fazem por lá é realmente impressionante.
Marina –
Também estive lá, Morro Reuter é mesmo maravilhoso. E embora em vários encontros de literatura, ainda estejamos discutindo como formar leitores, o que na verdade já discutimos há mais de vinte anos, tem gente agindo e fazendo isso acontecer.
Affonso – Até grupos leigos têm iniciativas excelentes. No Paraná, por exemplo, existe a Sociedade dos Leitores Tortos, que reúne um grupo de advogados, médicos, profissionais em geral, que se reúnem para discutir livros que estão lendo. Mas é preciso que os deputados, senadores, ministros, e sobretudo o presidente da república, também comecem a ler. Aí será mais fácil tornar o Brasil um país de leitores.
Marina – De volta à questão do prazer de viajar, quero acrescentar que uma das melhores coisas é encontrar os leitores. Afinal, uma vez que a imprensa está...
Affonso – Uma vez que a imprensa está loteada pelos divulgadores de imprensa...
Marina – É, eu estava tentando encontrar uma palavra mais delicada, mas é isso mesmo, uma vez que a imprensa está na mão dos divulgadores, se você não tem um assessor pessoal feroz e bem relacionado, você não vai ver o título do seu livro em lugar nenhum, e ficará com a impressão de que não existe. Mas quando viajamos, vemos que existe gente adotando os nossos livros, tem gente trabalhando os nossos livros, tem gente lendo os nossos livros. Nós precisamos dessa constatação também, porque o livro tem que ter leitores, para não perder a sua função. As viagens nos colocam em nosso lugar de escritor, que conhece de perto o seu próprio público, que existe muitas vezes apesar do silêncio da imprensa. As pessoas te encontram e te dizem o efeito que o teu livro tem, te dizem como o teu livro entrou na vida delas. Podemos ir a uma cidade aqui do Rio, ou à Selva Amazônica, por exemplo, e encontrar leitores nossos.

Hoje em dia, muitas vezes, as pessoas precisam se ver na imprensa para acreditar que existem...
Affonso –
Imprensa à parte, quando você sai para o corpo a corpo com o leitor, você não precisa mais deste rebatedor, deste intermediário, para acreditar que existe. A relação com o leitor é quente e imediata, a relação com o jornal, que é um simulacro, é fria e ilusória. Um autor pode se achar o rei da cocada preta porque tem um bom divulgador, mas às vezes, na realidade, não tem leitores. Os leitores, nesse caso, são alugados pelo marketing.
Marina - Márcio, você que escreve há menos tempo que a gente, um dia vai encontrar a segunda geração dos seus leitores. É quando as pessoas te encontram, já adultas, e te dizem: “Ah, eu me tornei leitora depois que li um livro seu, quando era menina, na escola, ah, eu lia os seus livros quando criança e agora quem te lê é o meu filho, e por aí vai”...
Affonso - Agora mesmo, na Jornada de Passo Fundo, leitores de diferentes gerações, mães e filhos, contaram para mim e para a Marina que são nossos leitores desde crianças e que agora são os filhos que nos lêem...

O que é mais emocionante nesses encontros?
Marina –
Ah, a emoção que nos passa quando a pessoa vem nos dizer isso. Ela não nos conta isso como que diz “comprei um peixe na feira”. Ela vem te entregar realmente um presente, que é essa revelação, e quer que você faça parte disso, para fechar a relação dela com o seu livro e com você. Afinal, você influenciou a vida dessa pessoa, você entrou na vida dela, e ela quer que você saiba... Isso é muito bonito... Tem leitor que chama filho com nome da gente, em homenagem.
Affonso – Tem pessoas no Brasil, na Colômbia, em um bocado de lugar, que fizeram essa homenagem à Marina.
Marina – Como trabalhei dezoito anos com comportamento feminino, na revista Nova, ainda encontro muitas mulheres que me dizem que eu mudei a vida delas. Mas eu não mudei a vida delas. Ninguém muda a vida de ninguém. Foram elas que mudaram a própria vida. Eu talvez tenha ajudado elas a mudarem as suas próprias vidas.
Affonso – Outro dia conheci um casal no mercado, com a Marina. Eles me contaram que tinha se casado por minha causa. O homem começou a mandar para ela poemas meus como se fossem dele. Ela viu que eram meus, e começou a mandar para ele pedaços de crônicas minhas, e acabaram  casando. Também tem muita gente que diz que parou de se drogar por causa de alguns textos que escrevi sobre o Tim Lopes.

Saber de tudo isso acaba mudando a vida de vocês também, não é?Affonso – Ah, sim, o tempo todo.
Marina –
Escrever é uma responsabilidade muito grande.
Affonso – Exatamente, escrever não é um esporte, o escritor não escreve só para se divertir, ou só para divertir os outros, como muita gente acha.

Por falar nisso, o que vocês estão escrevendo, ou lançando, no momento?Affonso - Este ano, pela Global, publiquei a antologia de poemas A implosão da mentira.  Também lancei o livro de crônicas Tempo de delicadeza, pela L&PM. E estou terminando um livro de ensaios, bem denso, falando sobre a questão da arte do nosso tempo, que eu pretendo lançar no ano que vem.
Marina -
Pela Melhoramentos, lancei o Minha tia me contou, que me deu muito prazer de fazer. Ah, fazer livro é muito bom, não é, Márcio? É realmente um prazer ter uma idéia, depois estrutura-la na cabeça. A idéia vai tomando um corpo, vai se organizando, vai te dizendo para onde você vai com ela, vai ditando o seu rumo... Esse livro que eu acabei de lançar é dedicado à minha tia Gabriella Besanzoni Lage, dona do Parque Lage e famosa cantora lírica. Essas são as histórias verdadeiras, que ela me contou mesmo. Bem, a última história do livro, na realidade, a Gabriella contou para a sua sobrinha Eliane Lage, que foi uma atriz maravilhosa. E a Eliane, depois, contou para mim. Fiz um outro livro que está lindo, que ainda vai sair pela Ática. É o livro de poesia para crianças Minha ilha maravilha. Comecei a fazer esse livro há dois, três anos.

Você pode ler um desses poemas inéditos, para a gente?
Marina –
Claro. Tem este aqui... Vou ler.
Corcova, uma ova!
Carregando na mochila
o supérfluo e o necessário
todo estudante
parece primo distante
do camelo ou dromedário.

O que deixa o seu dia bonito, Affonso?
Affonso –
O meu dia fica bonito das maneiras mais variadas. Acho que a felicidade é isso, é você conseguir tirar das 24h o mel necessário, que pode ser a contemplação do mar de manhã, de um amanhecer, o afago na cachorrinha, um gesto, um olhar, uma conversa com quem você ama, uma palavra, um livro, uma pessoa com quem você dialoga no elevador, um papo com o chofer de táxi, uma flor que te revele alguma coisa, enfim, o dia é uma sucessão de epifanias. A Clarice Lispector fez a obra dela toda em torno disso: personagens que saem de casa, percebem alguma coisa e voltam ao cotidiano. A realidade é que existem epifanias de minuto em minuto, mas nós estamos cegos diante disso.

Será que você também já se sentiu cego diante da poesia?
Affonso
- Vou te contar... A Marina fez uma coisa muito cruel comigo, um dia, na época em que eu era diretor da Biblioteca Nacional. Nesse dia, quando eu cheguei da Biblioteca, muito suado, e exausto de toda aquela burocracia, encontrei aqui em casa um bilhete dela que dizia assim: “Hoje, seis de agosto, de 1993, o meu marido perdeu um pôr-do-sol, uma orquídia que se abriu e o canto de um pássaro”. Então, eu saí imediatamente da Biblioteca Nacional.

Marina, de que forma o encantamento e a poesia faz diferença na vida de vocês?
Marina –
Se tirar o encantamento e a poesia, não sobra nada na vida da gente.
Affonso – Só sobra comida. Aí não é mais vida. Ficar maravilhado diante do mistério é essencial, para a gente não virar uma coisa, para a gente não virar uma ameba.
Marina – Na realidade, eu acho que as pessoas têm um conceito diferenciado de encantamento. Nós temos um conceito top de linha do que seja o encantamento.
Affonso – É, tem gente que coleciona orquídias ou tudo sobre Elvis Presley...
Marina – Essa ainda é uma boa forma de encantamento... Tem gente que coleciona cinzeiro roubado, mas aí é uma coleção sem graça nenhuma. De todo modo, eu não tenho idéia do que seja uma vida sem encantamento. O encantamento é a centelha da vida. E eu acredito que as pessoas têm encantamento à sua volta, mesmo quando não se dão conta. Conheço uma mulher, sem maiores atrativos físicos, e eu estou sendo generosa dizendo isso...

E você disse que não era generosa, viu?
Marina –
É verdade, acho que estou aprendendo um pouco com o Affonso... Mas o fato é que essa mulher é apontadora do jogo do bicho, que fica sentada numa cadeira, aqui rua. Eu passo todo dia por ela, e ela está sempre fazendo um crochê. Ela faz sapatinhos, faz isto, faz aquilo... O encantamento dela é fazer aquele crochê, que é sempre diferente. Então, ela tem sempre escolhas a fazer: que cor, que fio, que tipo de peça, que ponto, que tamanho... Em geral, as pessoas passam e não percebem que ela está ali, encantada. Há pessoas que têm o encantamento mínimo da luz da vela na escuridão.









       
 
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