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ENCANTAMENTO É COISA SÉRIA
Casados e cada vez mais ligados ao universo infantil, os escritores
Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires
analisam a importância da fantasia na vida da gente e falam
sobre os seus mais recentes lançamentos


Leticia Wierzchowski e Marcelo Pires acabam de lançar
O Menino Paciente

 

Márcio Vassallo

Leticia, em Todas as coisas querem ser outras coisas, lançado pela Record, você descobre o desejo de secadores de cabelo, sapatos de salto alto, cintos, pipas, bolas, bonecas e camisas. De onde veio a vontade de contar essa história?
Leticia Wierzchowski
- Quando eu era pequena, gostava mais de criar os espaços onde as brincadeiras aconteciam do que usar o pronto. Nunca gostei de casinha de boneca de loja, eu criava a minha, e nela caixa de charuto era armário de roupas, porta-jóias era baú, pano de crochê da minha vó virava vestido de boneca. Assim eu resgatei essa capacidade infantil de imaginar, do desapego da forma pronta, e escrevi aquela história.

Muitas pessoas também desejam ser outras pessoas e com o tempo vão se esquecendo dos seus sonhos mais essenciais, você concorda?
Leticia -
Concordo. E acho também que os desejos vão mudando ao longo da vida.

Marcelo, você já escreveu a história de um menino que queria ser celular, reeditada agora pela editora Melhoramentos. Vocês acham que, de alguma forma, tem gente que acaba virando coisa?
Marcelo Pires -
Infelizmente, tem. Crianças na rua, mendigando, elas se nivelaram às outras “coisas” que a gente cruza no trajeto do trabalho pra casa, da casa para o  trabalho. Olha ali: o muro pichado, o saco de lixo, o outdoor de cerveja, a banca de revista, o semáforo, a menina de 12 anos com um bebê no colo, o avião no céu, a viatura de polícia, o camelô. No outro dia vai ser a mesma coisa. E no outro. E no outro. E por ser assim, nós, que estamos indo do trabalho pra casa, da casa pro trabalho, também vamos ficando umas coisas bem esquisitas.

Esquisitices à parte, mais do que tudo, o que vocês desejam quando escrevem?
Leticia -
Quando escrevo pra crianças, eu desejo reencontrar aquela criança que eu fui, que brincava muito, inventava tudo e era feliz.
Marcelo – Eu não sei responder. Para falar a verdade, nem sei porque escrevo histórias para crianças. E se eu pensar muito nisso, juro, não escrevo nunca mais. Sempre que eu me levo muito a sério, putz, eu viro um desastre.

Até que ponto os seus desejos os movem, até que ponto cada um de vocês move os seus próprios desejos?
Leticia -
Ah, eu acho que isso é como dançar um tango. Tenho muitos desejos, mas alguns eu realizo no plano da ficção, ou seja: escrevendo. Por isso, talvez, eu escreva tanto, para viver sob outras peles, provar outros desejos e satisfações. É aliviante, e prático também.
Marcelo - Cismas, devaneios, extravagâncias, inspirações, teimosias, veleidades, desatinos, impulsos, apetites, tesões, vontades, metas, manias, vaidades, sonhos: os desejos são muitos e de várias modalidades - e eu sou só um. Acho que são eles que me movem.

O que vocês mais desejam para o João, e para quem está a caminho? Perguntas clichês, mas importantes: o bebê já tem nome; já sabem se é guria ou guri; é para quando?
Leticia -
O que eu desejo pro João é que ele seja feliz. Que ele encontre um caminho seu, que ele sempre se reconheça: ou seja, às vezes a gente vai mudando, pelos outros ou pelas circunstâncias da vida, e um dia não se reconhece mais. Assim, eu desejo que ele sempre se sinta confortável dentro da sua vida. Agora, sobre o outro baby, bem ainda estamos esperando uma definição, se é menino ou menina. Mas eu desejo pra ele a mesma coisa que pro João: que ele seja uma pessoa feliz.
Marcelo - Eu desejo pro João que ele continue sendo gente fina do que jeito que ele já é. Sobre o baby, é a Leticia, grávida de três meses, que tem prioridade no que se refere a desejos (mas ela que não venha pedir brócolis com sorvete de manga no meio da noite).

Acho que o Marcelo está é te dando uma idéia, Leticia. Por falar em idéias, como evitar que a educação de um filho não seja o mero prolongamento das vontades dos pais?
Leticia -
A individualidade tem que ser respeitada. Mas mesmo sabendo disso, a gente erra muito... Porém, como eu escolhi um caminho peculiar na vida, escrever histórias, e causei grande espanto aos meus, acho que pelo menos essa compreensão, esse olhar do diferente, eu tenho. Ou seja, se meus filhos quiserem ser contadores, tudo bem. No final do ano, farão meu imposto de renda!
Marcelo - Este negócio me lembra aquela história clássica do Garrincha. Um dia, o técnico disse para ele: “Você vai lá, dribla um, dribla dois, dribla três e faz o gol”. E o Garrincha reagiu: “Mas você já combinou com os adversários?”. Para quem acha que a educação de um filho pode ser mero prolongamento das vontades dos pais, eu pergunto: mas você já combinou com os filhos que isso vai ser assim?

Da educação dos filhos para os projetos de vocês. Marcelo, você está colaborando como roteirista do seriado de televisão Antonia, certo? Qual o grande desafio desse seu novo trabalho? O que mais tem te entusiasmado?
Marcelo -
Ajudei a escrever a segunda fase de Antonia, o Jorge Furtado era o responsável pela equipe, foi bacana, aprendi bastante. Adoraria continuar esta minha nova carreira de roterista de programas de TV (escrevo faz tempo roteiros de comerciais de TV!). Tomara que rolem novos projetos, alguns já estão engatilhados. Vamos torcer.

Tem algum novo livro a caminho?
Marcelo –
Relancei O Menino que queria ser celular.  Este livro, que fiz em parceria com o Roberto Lautert,  agora sai pela Melhoramentos. Isso já é motivo de festa. E tenho dois infantis na gaveta. Os dois prontinhos, com ilustrações e tudo. Adoraria  que o próximo publicado fosse O Navio e a Nuvem, parceria minha com um baita de um artista plástico gaúcho, o Ramires.

Leticia, você também acaba de lançar o romance De um grande amor e de uma perdição, pela Record, Como é que ela nasceu e como é que ela mais mexeu com você?
Leticia -
De um grande amor e de uma perdição maior ainda é um livro que começou a ser escrito há muito tempo, quase dez anos atrás. É a história de Bibico Nunes, um mulato bonitão, que se envolve com três mulheres. É um livro bem brasileiro mesmo: tem praia, orixás e humor. Depois de tantas guerras, eu queria uma história leve, que pudesse fazer rir entre um capítulo e outro.

Bem, Leticia e Marcelo, meus muito caros, outro lançamento de vocês (que eu li e adorei) é O Menino Paciente, publicado pela Record. "Um dia, o menino ficou doente e foi para o hospital. Assim, de uma hora para outra, a mãe do menino virou acompanhante, a sua dinda virou visita, o que sempre foi cama virou leito e, surpresa, a sua história virou este livro". Como essa história começou a engatinhar na idéia de vocês?
Leticia -
 Foi a vida que nos colocou engatinhando nessa idéia, pois o livro surgiu de uma experiência hospitalar que tivemos com o João. Assim a gente vai remando. Remando, aprendendo e escrevendo.
Marcelo - Tudo começou com uma decisão que tomamos na UTI: em respeito ao João, em homenagem ao João, resolvemos enfrentar tudo aquilo com leveza. Esta leveza gerou o livro.

Que coisas vocês acham que mais deixa um menino impaciente?
Leticia -
Solidão e tristeza, eu acho. Por isso, num caso de doença, é preciso lembrar que criança doente ainda é criança. Eu estive em alguns hospitais contando histórias depois do lançamento do livro, e vi isso. Meninos fracos, levando seu soro e jogando, brincando, vivendo esse lúdico mundo infantil.
Marcelo- Adulto sem graça impacienta crianças.

Vocês encontraram fantasia na dor, beleza na preocupação, encantamento no aperreio. De onde vem esse olhar de achar poesia em tudo?
Leticia -
O João ajudou muito, porque foi corajoso, e deu tudo certo no final. Mas a gente sempre teve em mente que criança doente é criança também. Não se pode perder o lúdico, deixar de tratar a criança como ela merece e precisa: com graça e alegria.

Bem, para não perdermos o lúdico, nós precisamos exercitar o olhar o tempo todo. Tem segredo para apurar o olho?
Leticia -
Acho que a convivência com crianças, se você tem um pouco de sensibilidade, é tudo.
Marcelo - A questão não é apurar o olho.  A questão é não fechar os olhos.

De olhos bem abertos, O Menino Paciente me lembrou o trabalho extraordinário dos Doutores da Alegria, que levam riso, leveza e poesia a tantas crianças e famílias, em hospitais de todo o Brasil. No dia-a-dia, até que ponto vocês acham que a fantasia e o encantamento são capazes de salvar a vida da gente?
Leticia -
Eu admiro muito o trabalho dos Doutores da Alegria! Acho que a fantasia, essa leveza que ela traz, não pode ser perdida. Adulto às vezes tropeça nisso, no excesso de materialidade e matemática. Acho que, num hospital, esse lúdico é uma espécie de rede de segurança para as crianças. Um apoio quando a dureza da vida penetra a fantasia da infância.

Que coisas mais dão encanto na sua vida de vocês?Leticia - A minha família, claro. E mais os livros, os personagens que eu invento. E um dia de sol na praia.
Marcelo -
Acrescento um item à lista da Leticia: música. Me dêem um Tom Jobim que eu relaxo.









       
 
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