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ASSOMBRAMENTOS LUMINOSOS
Lya Luft fala sobre o seu novo livro, PERDAS E GANHOS,
explica por que a quietude incomoda as pessoas
e diz que a imprecisão é o véu da fantasia




Lya Luft: “O exílio afetivo é o mais doído de todos.”


Márcio Vassallo

Em PERDAS E GANHOS, publicado pela Record, você diz que uma boa parcela dos sofrimentos entre pessoas nasce do desencontro e da incomunicabilidade. O que é mais comum: desencontros que provocam incomunicabilidades, ou incomunicabilidades que provocam desencontros? 
Lya Luft - No fundo, é um circulo vicioso. Mas, acima de tudo, a dificuldade de comunicação acaba provocando a maioria dos desencontros. Temos muita dificuldade de nos abrir, de escutarmos o outro. E isso causa desencontro. A comunicação sofre muitos ruídos, sofre muitas interferências, sofre muita rigidez e muita frivolidade. As pessoas têm muito medo de se entregar, têm muita pressa, muita superficialidade. Então, às vezes há desencontros quando poderia haver encontros importantes, e diálogos de amizades, diálogos amorosos, diálogos de família.

As pessoas geralmente desperdiçam os seus afetos?
Lya Luft - Sim, há muito desperdício de afeto e de felicidade. Tudo seria mais fácil, se a gente refletisse um pouco mais. Mas é aquela história: parar para pensar, nem pensar. Freqüentemente, deveríamos acordar de manhã, sentar na cama, e se indagar: “Quantos anos será que eu tenho de vida? Vinte, quarenta? Quero continuar vivendo o que estou vivendo agora? Algumas coisas sim, outras não? Como é que eu faço para melhorar? O que as pessoas que eu amo significam para mim, o que eu significo para elas? São coisas simples que deveriam ser bem cotidianas, mas que a gente faz tão pouco.

Você disse que “parar para pensar, nem pensar.” Parar para olhar também é muito raro?
Lya Luft - Acho que sim, as pessoas não param muito para olhar o outro, nem para olhar a si mesmas.

Outra frase do livro: “É uma idéia assustadora: vivemos segundo o nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos.” E o nosso ponto de vista, vive de acordo com o quê?
Lya Luft - O nosso ponto de vista é a nossa perspectiva do mundo e de nós mesmos. Essa perspectiva nasce de nossos valores e de nossa bagagem. Se levamos uma vida muito superficial, o nosso ponto de vista acaba ficando muito rasteirinho. Ficamos presos ao resto do chão e à superfície das coisas. Mas se tivermos uma bagagem, com experiência de vida, e um olhar mais atento, a nossa visão ficará muito mais ampla, menos superficial. É assim que vamos entender mais o outro e a nós mesmos, para vivermos melhor. Precisamos reinventar a vida com mais freqüência.

Temos que tirar a clausura do olho?
Lya Luft - É, vivemos muito apressados pelo tempo, pelos compromissos, pelos modelos inatingíveis, pela pressão social. Temos um certo horror ao silêncio. Se vemos uma pessoa quieta, achamos que ela está deprimida. “Você quer um Prozac?”, perguntamos a ela. Se a criança está meio parada, já achamos que está doente. Ficamos correndo feito hamsteres, nos alimentando da nossa própria agitação. Isso nos empobrece muito, porque quando temos um baque qualquer, uma perda ou de repente temos que fazer uma escolha, sentimos falta de material para nos agarrar.

Tem gente que está sempre correndo e não sai nunca do lugar?
Lya Luft - Tem gente que está sempre correndo, não sai do lugar e ainda vai para trás, avança menos do que poderia, ou avança pelo caminho errado. E também existe muita agitação interior. Cada vez mais as pessoas têm que mostrar serviços para as outras, têm que usar as roupas de grife, têm que ter aquela bolsa, têm que ser bonitas, têm que ser atléticas, têm que ser alegres. E eu acho que, acima de tudo, a gente tem é que ser feliz.

Vamos voltar um pouco à questão dos ruídos. No livro, você escreve assim: “A quietude perturba. O recolhimento intriga e incomoda os demais: Ele deve estar doente, deve estar mal, vai ver é depressão, quem sabe um drinquezinho, uma nova amante, um novo namorado.” Sempre que nos encontramos para uma entrevista, aqui no hotel, por exemplo, há sempre um televisor ligado, sem ninguém assistindo. Por que a quietude é tão perturbadora?
Lya Luft - Vivemos de fato na cultura do agitação e do ruído. Você tem que estar sempre correndo, sempre se atualizando, sempre produzindo, sempre participando. Há realmente uma dificuldade de lidar com a quietude. Antigamente, no final da tarde, nas famílias, as pessoas tinham o costume de ficar quietas, bordando, tocando piano, lendo, vendo as estrelas...

Botando o silêncio em dia?
Lya Luft - Sim, e hoje as pessoas chegam em casa e ligam a televisão antes de guardar a bolsa. Não é para assistir a um programa. Vejo muita televisão, gosto de ver programas interessantes. Mas as pessoas ligam a televisão, na maioria das vezes, para ficar com um ruído por perto, para ficar com uma companhia. As pessoas têm muita dificuldade de se interiorizar e de rever os seus valores. Alguém me disse que o PERDAS E GANHOS é um livro sobre reinventar a vida todos os dias. Entretanto, se não pensamos nos outros e em nós mesmos como algo muito além de pagar contas, transar, ganhar dinheiro, e comer, de fato, precisamos nos atordoar com o ruído. Esse ruído não é nem fala, nem música, nem presença. Ele é um fundo não-musical para coisa nenhuma.

Antes de escrever o livro, você reuniu grupos de mulheres e depois grupos de homens, para falar sobre as perdas e os ganhos do amadurecimento. Em comum, eles “questionavam suas escolhas, ressentiam-se do envelhecimento, sofriam com o medo de perder a potência (também a econômica e a autoridade), de perder a saúde e a forma física.” O que foi mais enriquecedor para você nesses encontros?
Lya Luft - Na realidade, eu já estava pensando há muitos anos nas perdas e nos ganhos da passagem do tempo. Já escrevi sobre esse tema em outros livros. PONTO CEGO é todo sobre a passagem do tempo. O MENINO QUE NÃO QUER CRESCER também. Então, com o apoio de uma amiga terapeuta muito experiente, reuni grupos de mulheres para debater o tema “Maturidade: perdas e ganhos.” Depois, como você mesmo disse, também reunimos grupos de homens, e foi bem surpreendente descobrir que os desejos, os medos, as inquietações eram bem parecidas. Pedi ajuda a essa minha amiga, não para organizar grupos terapêuticos, mas sim para me precaver, se precisasse lidar com eventuais crises das pessoas. Reunimos cerca de dez grupos. Nos encontros, líamos textos para abrir reflexões, ou propúnhamos temas para debates. Numa das reuniões, propus assim: “Hoje vamos falar do que a gente tem raiva...”

Qual foi a reação das pessoas?
Lya Luft - No começo ficou todo mundo em silêncio. De repente, uma mulher muito tímida e muito bonita, de uns 50 e poucos anos, disse baixinho: “Eu tenho raiva, eu tenho muita raiva.” E foi aquele frisson. Essa mulher tinha um problema familiar muito grave. E depois todo mundo começou a falar sobre as suas próprias raivas.

Teve alguma história mais marcante que todas?
Lya Luft - Muitas me marcaram. Uma moça, por exemplo, nos telefonou querendo que a mãe freqüentasse o grupo. E a minha amiga terapeuta fazia uma pequena triagem, para ver se a pessoa se enquadrava na nossa proposta. A moça, que tinha cerca de 30 anos, estava preocupada porque a sua mãe, que era viúva, não saía de casa e chorava muito. “Então, a terapeuta perguntou: “Há quantos anos a sua mãe está viúva?” E a moça respondeu: “Há 15 dias.” Assim, a minha amiga disse para ela: “Deixe a sua mãe sofrer.” Nós temos horror ao sofrimento alheio. Queremos que todo mundo esteja sempre lindo e saudável, para não nos preocuparmos com o fato de que isso também pode acontecer conosco.

Você diz que está sempre buscando o seu próprio tom para escrever. E que também buscamos o nosso tom para viver. O que é mais difícil, achar esse tom, ou mantê-lo e renová-lo?
Lya Luft - PERDAS E GANHOS foi um livro particularmente difícil de escrever. O romance é mais o meu terreno. Mas esse livro não tem gênero. Não é ensaio, não é memória, não é nada. É realmente uma conversa no ouvido do leitor. Estava há anos com esse material, sem achar o tom do texto. Só consegui achá-lo, quando desisti de procurar por ele. Aí o tom se encontrou por si mesmo. Acho que a gente também tem que se reinventar assim. De repente, você pensa: “Puxa, estou vivendo num tom tão melancólico, num tom tão agressivo... O que eu posso fazer para mudar, para viver num outro tom?”

PERDAS E GANHOS é um livro de reflexões, na linha de RIO DO MEIO. Antes de começar a escrever, você já suspeita que roupa vai botar nos seus livros, ou são eles que escolhem as roupas, e desarrumam os seus armários mais secretos, sem a sua permissão?
Lya Luft - Sou muito de escolher as roupas de repente, mas depois gosto de bagunçar tudo. A minha construção é muito lenta. Só escrevo quando o livro pede realmente para ser escrito. Mas normalmente não tenho o começo, o meio e o fim na minha cabeça. Então, a estrutura do livro, que já está dentro de mim, vai emergindo. É como se ele estivesse nascendo. Ele já está dentro de mim, e eu tenho que ir riscando daqui, cortando dali, fazendo um trabalho muito intuitivo, muito do inconsciente. Depois sim começo a fazer um trabalho mais artesanal, voltado para a linguagem. E basicamente o meu trabalho com a linguagem é tirar, tirar, tirar tudo o que não seja essencial para a frase. Quero sempre que o meu leitor encontre uma linguagem muito simples. Gosto muito de escrever. Nunca tive a angústia da página em branco, porque quando não tenho nada para escrever, fico quieta.

Mais uma do PERDAS: “Nem saberei se o prato das inevitáveis perdas pesou mais do que o dos possíveis ganhos.” Perder é inevitável, ganhar é possível?
Lya Luft - Ganhar e perder é inevitável. Só acho que a gente tem a tendência de curtir mais as perdas do que os ganhos. Claro que há momentos da vida em que parece que a gente só perdeu. Mas, acima de tudo, você tem que se perguntar: “Como eu que eu vivo a minha vida? Com uma seqüência de perdas, ou uma seqüência de perdas e ganhos, que podem ser maiores?” A realidade é que a visão das pessoas hoje está muito restrita em cima da juventude. Só quando é jovem e bonito que você pode ser amado, pode transar, pode se alegrar, pode viver.

Você já disse que as pessoas estão vivendo mais tempo, só que com uma perspectiva de vida bem pequena. O que diminui essa perspectiva?
Lya Luft - Tem mulheres de 60 anos, tão disfarçadas e tão puxadas, que acabam se transformando em caricaturas do que teriam sido aos 20 anos de idade. E está acontecendo um fenômeno inverso: há muitas jovens mães que estão tendendo a vestir as meninas, de quatro ou cinco anos, como espécies de mini-xuxas, como se as crianças tivessem 15 anos. Fui comprar uma sandália para a minha neta de quatro anos, e descobri que hoje em dia as sandálias infantis vêm com plataforma, com saltinho. Acho que isso acaba sendo uma coisa um pouco pervertida. E as mulheres de 30 ou 40 anos, em geral, também querem ter 14 anos. Então, tem aqueles modelos vagamente andróginos. Acho isso tudo muito triste. Como disse uma vez o Hélio Pelegrino sobre uma mulher muito linda e muito conhecida no Brasil, que estava fazendo mil plásticas: “Ela não vai passar por fases de amadurecimento nem de envelhecimento. Ela um dia vai ser uma criança destroçada.”

Também em PERDAS E GANHOS, você escreve: “Um dos motivos de nossas frustrações, homens e mulheres, é vivermos numa cultura que idolatra a juventude e endeusa a forma física além de qualquer sensatez.” O que essa obsessão pela aparência mais faz com a gente?
Lya Luft - Ah, mais do que tudo, acho que elas nos reduz demais. Na minha fantasia, imagino a Ingrid Bergman, que se estivesse viva teria hoje uns 80 e poucos anos, e não imagino que ela teria uma cara de boneca toda repuxada.

Com aquele mesmo rosto, se despedindo do Humphrey Bogart, no final do Casablanca?
Lya Luft - De jeito nenhum, já pensou, ela com 80 anos e com cara de boneca? Acho sim que ela seria uma velha linda, até mesmo com alguma plástica, fazendo ginástica, ou usado os recursos possíveis, mas sem se transformar numa caricatura. E aí vem o preconceito que a gente tem com a palavra “velha.”

Essa palavra costuma ser associada a coisas obsoletas, estragadas: “Ah, está velho, joga fora.”
Lya Luft - Sim, e isso é tão estranho. As pessoas ficam inventando nomes, “Terceira Idade”, “Melhor Idade”. Acho que aos 80 anos você tem o direito de dizer assim: “Agora estou velho, mas não quer dizer que sou inútil.” E as pessoas ficam dizendo: “No meu tempo não era assim.” Conforme vamos avançando na idade, perdemos todos os direitos, inclusive sobre o próprio tempo, como se estivéssemos realmente acabados.

Velhice não é sinônimo de ponto final?
Lya Luft - Exatamente, por que uma velha não pode morar numa casa grande? Por que uma velha não pode comprar um sofá novo, por que só pode usar sapato de cambraia e calça larga? Porque a gente, no fundo, acha que quem é velho está liquidado. Em Porto Alegre, comemoramos agora os 90 anos da minha comadre e amiga Mafalda Verissimo, mãe do Luis Fernando e viúva do Erico. E ela é uma velha tão legal, é uma mulher tão interessante, que a gente fica esperando pelo domingo para curti-la. Aprendo muito e me divirto muito com ela. Mafalda tem amigos no Brasil inteiro, muita gente liga para ela. Jamais diria da Mafalda que ela está na Melhor Idade. Como também não acho que se deva botar as mulheres de 70 anos com umas roupetas, meio saltitantes. Acho que ainda não achamos o tom de viver a nossa própria maturidade.

Sobre isso você diz: “Por que necessariamente agora, com corpo agrandado, pele menos suave, rugas e experiência, estarei em declínio e não em natural transformação? O que é bonito num bebê desagrada num adolescente; o que num jovem deslumbra, numa pessoa madura pode ficar deslocado; assim como na velhice – se ela não for uma caricatura da juventude - , encanta o que é próprio dela.” Temos que conquistar esse encanto?
Lya Luft - Sim, temos que conquistar a nossa maturidade. Cada idade tem a sua beleza, o seu encanto, as suas coisas boas e as suas coisas ruins. O nosso tempo é sempre agora.

Mais uma sua: “Meu corpo está mudando como está desde que nasci. Meu coração se transforma a cada experiência. Mas ainda palpita, se sobressalta e se assusta. Ainda sou vulnerável ao belo e ao bom, ao ruim e ao decepcionante, como quando eu tinha dez anos.” Ser vulnerável lhe deixa protegida?
Lya Luft - As pessoas costumam ter medo de ser vulneráveis. Mas ser vulnerável é ser verdadeiro. Ainda me assombro com uma árvore, com o mar, com a vida e suas belezas, suas complexidades, suas relações. Por isso, nas perdas, temos que recorrer ao que existe dentro de nós. Nas grandes perdas é isso o que nos salva. Se dentro de nós conseguimos cultivar afetos, valores, amizades, amores, sempre vamos ter um galho de árvore para nos agarrar, mas se só ficamos na superfície, acabamos nos perdendo...

Aí a árvore só serve para a gente se jogar?
Lya Luft - Também, também. Mas tudo isso é literatura, tudo isso é muito bonito, mas na hora de viver realmente é difícil, é complicado, não tem receitas. Ninguém ensina valores aos filhos com conversa. Você ensina a levantar a tábua na hora de fazer xixi e olhe lá. Valores você ensina pelos poros, pela pele, pelos exemplos, pelo seu tom de voz, pelo seu modo de se vestir, pelos seus silêncios, pela maneira com que você abraça, pelo clima que você cria na sua casa.

Em PERDAS E GANHOS, você conta que um dia lhe pediram para escrever sobre “o casal perfeito.” E aí você fala, dentre outras coisas, sobre os rótulos da perfeição. Nesse sentido, que estereótipos são mais nocivos?
Lya Luft - Na visão das pessoas, o casal perfeito não tem problemas, está eternamente lindo, eternamente sorridente, com muita grana, coisa e tal. E na realidade, não existe casal perfeito. O amor é amizade com sensualidade. Se você não gosta do seu parceiro como ser humano, não vai dar certo. Se a relação é só feita de tesão, não vai durar. Se é só feita de amizade, não precisa morar junto, casar, ter filhos. O casal vai criando o seu próprio universo, seus próprios modelos, seus próprios gostos. Há revistas que mostram casais dizendo que têm, toda noite, dois, três orgasmos, que transam tantas vezes por noite, e aí, com a cabeça vazia, muita gente se compara e acaba se frustrando.

Ser feliz dá muito trabalho?
Lya Luft - Viver é uma trabalheira danada. Ser feliz não é viver sem problemas, mas sim sentir-se bem na própria pele. Para isso, você não precisa ser jovem, nem bonito, nem rico. Felicidade tem muito a ver com dignidade, com afeto, com integridade, com a forma como você se sente importante para as pessoas que fazem parte da sua vida: seus filhos, seus amigos, seus vizinhos... Isso independe das tragédias que podem lhe acontecer.

No livro, você diz: “Atritos fazem parte da realidade e certamente são menos danosos do que a dissimulação. O escondido debaixo do tapete é um tumor mais mortal porque oculto. Todas as relações precisam ser reenquadradas aqui e ali, ainda que aos trancos e com sofrimento.” Quais os grandes tumores de um relacionamento?
Lya Luft - A frieza, a hipocrisia, a superficialidade, a deslealdade. O medo de enfrentamento é um tumor. O medo de mexer nas coisas causa ressentimentos, causa doenças, causa tudo de ruim.

A que você atribui esse medo?
Lya Luft - Acho que a solidão é uma das coisas que mais apavora as pessoas. Muitas vezes temos que enfrentar uma separação, enfrentar uma perda, e temos que reinventar um novo modo de viver, sem medo de ficar sozinho.

Por falar nisso, olha você de novo: “É importante não correr para os braços do outro fugindo da chatice da família, da mesmice da solidão, do tédio. É essencial não se lançar no pescoço do outro caindo na armadilha do ‘enfim nunca mais só!’, porque numa união com expectativas exageradas decreta-se o começo do exílio.”
Lya Luft - Isso não acontece só com a meninada mais jovem. Também é comum com pessoas que se separam aos 40 ou 50 anos. Naquele desespero, elas se agarram ao primeiro que aparece, e naufragam. Precisamos aprender a viver bem sozinhos, para sabermos viver bem com o outro.

Quais os nossos exílios mais doídos?
Lya Luft - O exílio na família, o exílio no casamento, o exílio dentro de casa, o exílio da falta de diálogo... Acho que o exílio afetivo é o mais doído de todos.

Você diz no livro que o espaço entre opressor e oprimido é um vazio. Sem um vazio recíproco essa relação não se preenche e acaba?
Lya Luft - Na realidade, o opressor não existe sem o oprimido, e vice-versa. Por razões geralmente desconhecidas, muitas pessoas se submetem a opressões das quais elas participam. Nos casamentos, por exemplo, há muitas opressões, às vezes mudas, disfarçadas, silenciosas... E depois as pessoas ficam culpando umas às outras pelas suas próprias frustrações e infelicidades.

Novamente em PERDAS E GANHOS, você reflete: “Quem se subestima precisa de alguém ao lado para confirmar sua validade como pessoa. Nessa situação não se dialoga, pois o equilíbrio da balança está demais prejudicado. É surpreendente a dificuldade de mulheres, mesmo competentes, para se sentirem justificadas, validadas por si sós.” Até que ponto a presença de outra pessoa faz com que essas mulheres se sintam realmente validadas?
Lya Luft - Ser amado melhora demais a nossa auto-estima, principalmente quando a pessoa faz com que você se sinta importante e se sinta bem de alguma forma. Mas quando uma pessoa transforma a outra num cabide, para tentar suportar a sua baixa auto-estima, isso é uma coisa muito triste. Conheço uma médica que não entra sozinha em restaurante, que não sai para jantar com uma amiga. Ela só faz isso em congressos, por exemplo, por que aí está numa espécie de evento oficial. Isso realmente é muito triste, você precisar de uma outra pessoa até para ser capaz de entrar num restaurante. É claro que o afeto do outro sempre nos revalida, é muito legal ter alguém querido do lado. Entretanto, ter um companheiro, ter uma companheira não pode ser um pré-requisito para você ser inteiro.

Ser inteiro é aprender a respirar sozinho?
Lya Luft - É isso mesmo. Um amigo me disse que não quer reproduzir, no seu casamento, o modelo do casamento dos seus pais: “Quando um não respirava, o outro já estava sufocando”, ele me contou. Só que aí o pai dele morreu, e a mãe, com mais de 50 anos, começou a florescer. Não que ela tenha começado a ter amantes de 30 anos de idade, nada disso. Ela comprou um computador, aprendeu a entrar na Internet, passou a sair com as amigas, ficou melhor de saúde, realmente floresceu. E os filhos querem ver o pai e a mãe bem. Um filho não quer que a mãe e o pai se sacrifiquem o tempo todo por ele, que se tornem vítimas, por sua culpa. Nesse caso, o filho fica como um eterno devedor. Ninguém quer ser devedor. O devedor não quer ver nem a cara daquele para quem deve.

Dívidas à parte, você também fala muito sobre as nossas escolhas amorosas. Temos que educar os nossos filhos para que eles aprendam a fazer as suas próprias escolhas, em todos os sentidos?
Lya Luft - A criança vai fazer as suas escolhas, de acordo com o modelo que ela tem em casa, e também segundo o seu próprio caráter, claro. Não determinamos as escolhas dos nossos filhos completamente. Somos muito marcados por uma bagagem psíquica. Você olha dois bebês gêmeos, e já na barriga da mãe um se mexia mais do que o outro. Essa bagagem psíquica também vai influenciar nas nossas decisões, nas nossas escolhas. Na realidade, pais felizes, que vivem uma relação saudável, não necessariamente têm filhos que vivem bem, mas a chance de que essa felicidade se reproduza é muito grande.

Tem escolhas que se transformam em martírios?
Lya Luft - Sim, as nossas escolhas não devem ser martírios. Martírios escolhidos são muito ruins. Mas a realidade é que, como eu já disse, falar e escrever sobre tudo isso é bonito e fácil. A vida é muito mais complicada. De todo modo, as escolhas são coisas que repensamos sempre. Tenho um amigo que, no aniversário de 70 anos da esposa, disse assim para ela: “Nesses 50 anos que a gente vive junto, eu não te escolhi só no dia do nosso casamento. Todos os dias, quando eu acordo, eu te escolho de novo.”

Em PERDAS E GANHOS, você lembra que as pessoas, em geral, estão delegando a educação dos filhos para a escola. Por que isso acontece cada vez mais?
Lya Luft - Hoje em dia, a mulher que não trabalha fora acaba sendo vítima de uma série de preconceitos. Acho que muitas vezes as pessoas trabalham bem mais do que precisariam. Elas poderiam dedicar mais tempo às crianças pequenas, e não dedicam. Claro que muitas pessoas precisam trabalhar fora o dia inteiro, para realmente sobreviver. Mas existe também uma espécie de coerção para você ser e ter mais do que precisa. Às vezes, há uma espécie de descontrole das prioridades. Tem gente que poderia ficar uma hora a mais com os filhos em casa, e não fica. Por outro lado, estamos sendo inundados de teorizações psicológicas. Sou fã de psicanálise, mas acho que existe uma idéia meio torta disso daí. Então, transformarmos a professora em tia, e dizemos que é preciso aprender brincando. Acho que tem uma hora que é de brincar, e outra hora que é de aprender algumas coisas. Vários conceitos se misturaram.

Seguimos com o livro: “Escrevo em meus romances sobre nosso lado obscuro, sobre conflito e drama. Tento desvelar a face trevosa, de perversidade, de autodestruição, de acúmulo de raivas e ressentimentos que há no ser humano. Mas não acredito que ele seja principalmente isso. Gosto de gente. Sou solidária com os personagens de ficção que criei com minha imaginação.” O que você mais busca nos seus personagens?
Lya Luft - Sempre me interessei pelo lado mais secreto das pessoas. Qual serão os dramas, as verdades, os desencontros, as dúvidas, os avessos de cada uma delas? A minha arte sempre nasce de conflitos. A não ser nas histórias infantis que estão surgindo para mim agora, meio de surpresa, e também em alguns dos meus poemas de amor. Mas eu gosto muito de escrever sobre o intrigante.

Você vai estrear na literatura infantil, já com cinco livros, pela Record. Como nasceu a idéia de escrever para crianças?
Lya Luft - Já tinha recebido, ao longo dos anos, vários pedidos de outras editoras para fazer literatura infantil e juvenil. Bem, não acredito muito em literatura juvenil. Acho que o jovem tem que ler tudo. Mas acredito muito na literatura infantil. Acho que se faz literatura infantil muito boa e muito ruim. Só que eu não tinha jeito nem vontade de escrever para crianças. Essa vontade aconteceu meio por acaso – se é que o acaso existe. Tenho três netas que moram comigo, duas gêmeas de nove meses, e a Isabela, que tem quatro anos. Então, durmo muito com ela. E a Isabela sempre gosta que eu lhe conte histórias. Assim, comecei a inventar histórias de uma bruxa boa, que seria eu, e que tem uma aprendiz de bruxinha, que era ela. Agora vamos escolher um bom ilustrador, ou ilustradora, ainda não sei. Só sei que serão cinco livros e que eles devem sair no ano que vem.

Em O RIO DO MEIO, você também fala sobre a arte de escrever: “Fazer ficção é, para mim, vagar à beira do poço interior observando os vultos no fundo, misturados com minha imagem refletida na superfície.” Às vezes esses vultos sobem para a superfície?
Lya Luft - Quando sobem, eles se tornam personagens. De fato, sempre gostei de contemplar os meus sustos, as minhas imaginações, os reflexos de tudo o que me contaram, de tudo o que eu vi, de tudo o que eu sonhei, das minhas fantasias. Então, os vultos que sobem na minha superfície não são só meus, também são vultos dos outros. O artista não fala só de si mesmo. Ele também fala sobre as inquietudes, os tormentos, as ansiedades de todo mundo. Assim, quando um desses vultos emerge, chega na superfície, e prende mais a minha atenção, acaba se transformando num personagem meu. Os meus personagens não vêm de fora, eles vêm de dentro, vem exatamente desse meu poço interior.

Em geral, as pessoas associam o poço a coisas ruins. Mas o fundo do poço também mata a sede?
Lya Luft - O fundo do poço pode ser muito interessante. De certa forma, ele é um espelho. Claro que tem o lado do medo, do susto...

Do escuro?
Lya Luft - É, do escuro, da treva, da fresta, mas acho que é uma mistura das duas coisas, você pegou bem, é uma mistura de coisas que nos amedrontam e coisas que nos atraem.

O fundo do poço também lembra queda. Tem queda que lhe atrai?
Lya Luft - Tem sim, tem muito. Aliás, certa vez uma pessoa fez uma tese muito boa sobre a presença da verticalidade na minha obra. Nunca tinha pensado nisso, claro. Mas foi aí que descobri que nas minhas histórias sempre tem sótãos e porões, sempre tem alguém caindo, tem muita queda, tem muita atração para baixo.

De volta para o livro: “Gosto das coisas – pessoas e palavras – desconcertantes. Seus contornos imprecisos permitem que a gente exerça o direito de refletir e de criar em cima delas.” A imprecisão alimenta o encantamento?
Lya Luft - Sem dúvida, a imprecisão é o véu da fantasia. Um ovo frito é muito menos interessante que o ovo que contém um pintinho. Pelo menos é o que eu acho.

Será que todo encantamento é impreciso?
Lya Luft - Acho que não. Posso estar passeando de carro e ficar vendo uma paisagem maravilhosa, com uma sensação de beleza e plenitude nada imprecisa. Mas quem sabe lá no meio daquelas árvores exista um duende, ou um troço assim. No final, acabo sempre atraída por esses pensamentos.

Você sempre conta que foi uma menina muito contemplativa. Como você era na escola?
Lya Luft - Eu era uma menina realmente contemplativa e sonhadora, mas também era muito arteira, muito rebelde, tinha muito dificuldade de me enquadrar na escola. Estudava numa escola mais ou menos rígida. Achava as aulas chatas, queria ficar em casa lendo, deitada na rede, olhando as árvores. Queria ficar cantando no terraço da casa do meu pai. Nas aulas, eu era a palhaça da turma, fazia muita bagunça, ficava muito de castigo, a minha letra era horrorosa, tinha que fazer mil cópias.

Em geral, as pessoas não imaginam que uma criança possa ser arteira e contemplativa?
Lya Luft - Não, a maioria das pessoas não imagina isso. Mas não tem nada a ver. Até hoje gosto de ver graça onde quase ninguém vê. E contemplação não significa tristeza. Você não precisa ser uma freira para ser contemplativa.

Você analisa o preconceito que as pessoas geralmente têm em relação às crianças: “Muito escutei na infância: ‘Criança não pensa.’ Criança pensa. Mas faz também algo mais importante, que amadurecendo desaprendemos: ela é. Contemplando uma mancha na parede, um inseto no capim ou a revelação de uma rosa, ela não está apenas olhando. Está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o besouro, a figura na parede, ela é a flor, o vento, é o silêncio.” É possível a gente voltar a ser tudo isso na maturidade?
Lya Luft - Acho que toda criança tem os seus deslumbramentos diante das coisas. Nesse aspecto, o artista está sempre espiando pelo olho mágico. Mas você não precisa ser uma artista para viver dessa forma. Isso depende das nossas escolhas, do nosso temperamento, do incentivo que recebemos dos nossos pais, das pessoas que convivem conosco quando somos crianças. Outro dia a minha neta Isabela viu com a mãe um anão na rua. E ela perguntou: “Mãe, ele é um homenzinho pequeno?” A mãe explicou a ela que aquele homem era um anão. E a Isabela perguntou: “Mamãe, vamos convidar esse anãozinho para morar lá em casa, no nosso jardim encantado?” Porque eu sempre digo à minha neta que o nosso jardim é encantado, que tem um monte de fadas e outras criaturas. Tudo bem, não precisamos crescer achando que os duendes vêm sentar na beira da nossa mesa, para almoçar conosco, apesar de eu ter as minhas dúvidas se isso realmente é impossível. Bem, de todo modo, o mais importante é não perdermos o gosto pela contemplação, pela fantasia, sem ficarmos embrutecidos.

Mais um pensamento seu: “O amor primeiro, aquele entre pais e filhos, vai determinar nossa expectativa de todos os amores que teremos.” Em que aspectos essa expectativa é uma benção e uma danação?
Lya Luft - Ela é uma benção, se você foi amado no primeiro olhar que recebeu, quando nasceu. Claro que essa é uma imagem metafórica, mas esse olhar vai formar um espelho, e no fundo desse espelho você vai tentar desenhar e redesenhar o seu próprio perfil. Mas você vai ter mais dificuldade de elevar a sua auto-estima, se nesse primeiro olhar você foi olhado como uma caricatura, como um objeto indesejado, se você foi olhado com frieza...

Ou nem foi olhado?
Lya Luft - Ou nem foi olhado. Aí é uma danação. De alguma forma, isso marca a criança.

Você também fala sobre as perdas e os ganhos dos nossos mais diferentes percursos: “Carregamos muito peso inútil. Largamos no caminho objetos que poderiam ser preciosos e recolhemos inutilidades.” O que nós largamos de mais precioso, o que nós recolhemos de mais inútil?
Lya Luft - Largamos pelo caminho, muitas vezes, a nossa inocência, que é tão preciosa. A inocência de acreditar que a felicidade é possível, de acreditar nas pessoas, de sonhar, de ver o belo. E o pior que recolhemos é a insegurança, é a suspeição do outro, é sempre achar que o outro não presta, é sempre achar que você mesmo não presta. Esses objetos que recolhemos, feito de mágoas e desconfianças, mais do que inúteis, são bem ruins, são muito perniciosos.

Será que a gente também recolhe preciosidades inúteis e inutilidades preciosas?
Lya Luft - Nada do que é precioso é inútil. O belo dos nossos sentimentos, dos nossos mistérios, das nossas contemplações, dos nossos valores, das nossas transcendências, tudo isso é muito precioso.

Otto Lara Rezende dizia que você é uma alma brumosa. Você tem paixão pelas brumas?
Lya Luft - Adoro os dias ensolarados, são bem bonitos. Mas acho que as brumas têm aquele encantamento impreciso do qual a gente falou antes. Quando tem um pouco de nevoeiro na serra, por exemplo, fico toda eriçada. Acho que é uma fixação pelo mistério das coisas.

Muita gente acha que você escreve obsessivamente sobre a morte. No livro, você responde que, na realidade, escreve sobre a vida, da qual a morte faz parte. E completa: “Fazendo aqui um pouco de literatura, posso dizer que a morte é que escreve sobre nós.” A morte é uma contista, é uma poeta, é uma romancista, ou será que ela é uma escritora de vários gêneros, depende da pessoa, depende do estilo, depende da vida?
Lya Luft - Acho que a morte é uma grande romancista, uma grande poeta, uma grande metafórica.

A morte também está sempre em busca do seu próprio tom?
Lya Luft - Nós é que procuramos o tom da morte. Ela sabe tudo sobre a nossa vida. A morte fica lá, quieta, nos olhando, enquanto ficamos aqui com medo de falar dela, com medo de falar das nossas perdas, dos nossos escuros, das nossas neuroses. Esse medo nasce da nossa própria incapacidade de nos consideramos como mistério e transcendência. Como só queremos as coisas imediatas, todo o resto é um horror.

Você diz que “a felicidade exige paciência: é soma, acréscimo, conquista e aperfeiçoamento.” Tem segredo para aperfeiçoar a felicidade?
Lya Luft - Não é bem aperfeiçoar a felicidade, mas sim a própria capacidade de ser feliz. A realidade é que, mesmo com todas as angústias e todos os problemas, precisamos ter projetos, ter esperanças, ter afetos. Tudo isso, no fundo, é o que nos faz felizes.

Será que a felicidade também aperfeiçoa a gente?
Lya Luft - Olha, dizem que o sofrimento melhora as pessoas. Mas tenho as minhas dúvidas. Acho que a felicidade nos melhora muito. Quando estamos bem, nos tornamos mais generosos. E quando estamos mal, tendemos a ficar mais encolhidos. Não gosto daquele conceito de que só o sofrimento enobrece, não concordo com isso. A felicidade realmente nos melhora como seres humanos. Ela é que nos enobrece.









       
 
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