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PARA A GENTE TER AINDA MAIS VONTADE DE LER
JOÃO CABRAL

Filha e herdeira do poeta, a professora de roteiro e tradutora Inez Cabral
revela o que é mais inesquecível no seu pai

 
Para Inez Cabral, é preciso mostrar aos jovens que ler poesia
é tão bom quanto ouvir rock in roll.

 
Márcio Vassallo


O que falta, de fato, para que muitos mais leitores brasileiros, incluindo os jovens, se apaixonem pelo João Cabral?
Inez
- A meu ver, precisamos captar novos e jovens leitores, descobrir onde eles se encontram, e propor a eles outro jeito de ler, mostrando que poesia pode ser tão bom quanto rock in roll, por exemplo.

Nesse sentido, o que você acha essencial para seduzir uma criança ou um adolescente para a poesia?
Inez -
Talvez dar às crianças o direito de ler e achar o que quiserem, em vez de tentar criar miquinhos amestrados, que decoram as críticas que as professoras (que na sua maioria não gostam de ler) acham pertinentes. O que mais afasta as crianças da poesia é a falta de sensibilidade das professoras que não gostam de ler e não sabem, portanto incutir em seus alunos o hábito e prazer da leitura. Eles só lêem para passar de ano.

Que cenas da sua infância mais te fazem lembrar do seu pai?
Inez -
Lembro de quando ele jogava cartões postais de arte abstrata na minha frente, e me pedia para botar de cabeça para cima. Lembro também de ele nunca falar tatibitate com a gente, e quando você perguntava qualquer informação sobre História, ou significado de palavra ou outra informação qualquer, ele mandava você ler um livro, geralmente livro de adulto.

O que é realmente inesquecível nele?
Inez -
O respeito que ele tinha pela opinião alheia, mesmo se fosse uma opinião infantil. Aliás, ele sempre falava com a gente como se fala com adultos. 

Ah, me diga também, o que será que você aprendeu com o seu pai e não se esqueceu nunca mais?
Inez -
Aprendi a gostar de ler e de arte em geral, a acreditar mais nas minhas opiniões do que nas das freiras e outras autoridades, na importância de desenvolver a capacidade de pensar e de me expressar convenientemente e, sobretudo, de não acreditar em dogmas impostos.

Tem alguma coisa que ele te ensinou e você se esqueceu?
Inez -
Esqueci... ;))

Quais são as suas principais atividades no momento, Inez? Você é roteirista, dá oficinas de roteiro, faz traduções, poemas... O que mais te ocupa, o que mais te move, o que mais te entusiasma, o que é mais difícil, o que mais te seduz nos seus ofícios?
Inez -
Eu dou aula de cinema na escola Darcy Ribeiro, (adoro) não sou roteirista, ou melhor, só roteirizo meus trabalhos, faço curtas, quando consigo, tenho uma trajetória meio diferente, virei amador em termos de cinema, faço meus filmes de maneira independente, não quero fazer concessões com minha vocação. Gosto de dar aula, e continuo sonhando com os filmes que quero fazer. Traduzo filmes para legendagem, faço outras traduções também, coisas essas que faço com facilidade, são divertidas, mas não comprometem a minha vocação, que é dizer com imagens.

Qual a maior dificuldade para um tradutor de poesia?
Inez -
Eu não costumo traduzir poesia, acho intraduzível em 90% dos casos.

De certo modo, será que tentar traduzir poesia é como tentar traduzir a melodia de uma música?
Inez -
Acho que é feito querer traduzir entrelinhas, silêncios...

Um pensamento do nosso querido poeta: “Literatura não é só o ato de captar na obra literária uma determinada coisa: há a contraparte, que é a capacidade de comunicar a coisa captada. (...) o critério para saber se a coisa foi bem expressa é justamente a possibilidade de que ela tenha sido comunicada a outras pessoas além do artista.” Para você, Inez, o que dá mais brilho à capacidade do João Cabral para comunicar a coisa captada?
Inez –
O fato das pessoas entenderem o que ele tentou dizer, de minha empregada adorar Morte e Vida Severina, de adolescentes em viagem a pernambuco se apaixonarem por O Rio mostra a competência dele de transmitir o que quis dizer.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1968, João Cabral era considerado o mais forte candidato brasileiro a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Ele conversava com você sobre essa possibilidade?
Inez -
Quem sonhava com o Nobel era minha madrasta, ele não dava a mínima.

Uma curiosidade repentina, de que forma você começou a ler os livros do João Cabral?
Inez -
Aos 18 anos, ao ver Morte e Vida, em Nancy, e mais tarde ao ler as besteiras que "intelectuais" escreviam sobre ele para aparecer. Ficar, por exemplo, durante duas laudas estudando o sentido de um verso... fala sério, como diria Bussunda.

Para que livros dele você volta sempre? Por que eles mais te fazem voltar?
Inez -
Estou sempre descobrindo novas facetas, mas volto sempre ao Auto do frade, que ele escreveu porque eu encomendei, com a proposta de fazer um filme, que está se tornando meu tapete de Penélope. Me falta talento para captar recursos. Gosto muito da Educação pela pedra. E um dos poemas dele que prefiro é o Ferrageiro de carmona, onde ele fala do duro ofício de fazer poesia.

Quais são os seus poetas favoritos, quais são aqueles que mais te puxam pela alma?
Inez -
Sem levar a alma em consideração (acho que alma só entende de incenso e de canto gragoriano), os que prefiro são: Manuel Bandeira, Carlos Drummond,  Mario Quintana, Rimbaud, Jacques Prévert, Antonio Machado, García Lorca, mas confesso que costumo preferir prosa.

De que forma o João Cabral lidava com o amor na vida dele? Ele era mesmo um homem mais racional do que emocional?
Inez -
Amor não era assunto na minha família, tratava-se de assunto pessoal e intransferível. meu pai não falava de amor nem de emoções, apenas as sentia, e as colocava no papel.

Que coisas pequenas mais emocionavam o seu pai?
Inez -
Os netos, quebra-cabeças, futebol, ler, arquitetura, touradas, flamenco, canaviais, não necessariamente nessa ordem.

Mais do que tudo, o que deu grandeza na vida dele?
Inez -
O talento que ele tinha, a inteligência e a indiferença pela fama, pelo brilho de festas e afins, esse tipo de coisa.

Seu pai era mais mar, ou lago; mais asa, ou porto; mais colo, ou palavra; mais ação, ou olho?
Inez -
Acho que ele era mais pedra que água (mar ou lago), mais porto, mais palavra, mais olho.

Afinal, pra você, acima de tudo, para que serve a poesia?
Inez -
Para dizer o indizível, explicar o inexplicável, e/ou para motivar, retratar, expor, como qualquer outra arte.









       
 
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