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Para aquecer, inspirar e divertir À frente da Livraria da Travessa, um dos pontos culturais mais badalados e bem-sucedidos do Brasil, Rui Campos fala sobre o seu compromisso com a diversidade
Rui Campos: “Em geral, o desafio enfrentado pela livraria coincide com o desafio do país: educar!”
Márcio Vassallo
Em que aspectos a Livraria da Travessa te deixa mais te entusiasmado, mais mexido, mais feliz? Rui Campos - Tenho certeza que o livreiro tem uma missão privilegiada, que é proporcionar o encontro do leitor com o livro. Livros aquecem, inspiram e conspiram para um mundo mais diverso e que se não for melhor, pelo menos será mais divertido.
O que você geralmente pensa e faz primeiro, quando entra numa das suas livrarias? Rui - Clima. A luz está correta? A temperatura está ok? Os livreiros estão disponíveis? A música está agradável? As novidades estão expostas corretamente? Tudo isso junto e mais muita coisa!
Todos os editores costumam visitar a Travessa, para verificar como está a distribuição e a exposição dos seus livros. Acima de tudo, o que faz com que a Travessa seja uma vitrine e um ponto de referência no mercado editorial? Rui - Entre todas as características que marcam a Travessa, a diversidade do estoque é, sem dúvida, a principal. Nossa missão é apresentar ao público tudo de mais importante da produção editorial mundial. A parceria que temos com vários editores é uma fonte preciosa de trocas. Da mesma maneira, se eu fosse editor ia acompanhar meus filhos direitinho e também dar uma olhadinha nos filhos dos outros, sempre que possível. Enfim, a Travessa é um lugar para ler e ser lido. Entre, leia e ouça.
Mais do que uma livraria que se tornou referência no mercado, a Travessa é um dos pontos de encontro mais charmosos, mais badalados, mais bonitos do Rio de Janeiro. Essa também era sua idéia inicial? Rui - Disseram ao Picasso que ele tinha sorte em ter tanta inspiração: - Sim, tenho sorte, pois toda vez que a inspiração me procura estou em meu ateliê trabalhando...!
O que é essencial para o sucesso de um livreiro? Rui - Cito Rui Barbosa: " Para não arrefecerdes lembrais que podereis vir a saber tudo. Para não presumires, lembrais que, por mais que souberes mui pouco tereis chegado a saber".
Qual o erro mais comprometedor que um profissional da área comete? Rui - Achar que já sabe tudo.
Quais os critérios que os seus profissionais utilizam para comprar títulos, quais os critérios que eles utilizam para definir a exposição desses títulos, quem vai para a vitrine, quem não vai? Em que escala estes fatores são mais decisivos? Divulgação na mídia, vendas bem-sucedidas no exterior, histórico do autor, competência do vendedor da editora? Rui - Como diria o bibliotecario de Musil: não se trata de conhecer cada livro, e sim "ter a noção do todo"! Outra historinha que se passou na livraria: Um cliente perguntou encantado: Quem escolhe esses livros? A resposta foi: Você! Uma palavra é fundamental: DIVERSIDADE! Vive la diference!
Por outro lado, na sua opinião, num mercado cada vez mais competitivo, o que define o sucesso de um livro? Rui - Nada! Tudo! Apesar de existirem formas de aumentar as chances de um livro, o acaso costuma dar dicas preciosas. O difícil é agendar reunião com ele.Nossa preocupação é que o mercado seja cada vez mais saudável e diversificado e assim possa continuar.
Estamos aí com uma nova edição da Festa Literária de Paraty. Além de prestigiar a FLIP pessoalmente, você leva sempre vários funcionários da livraria, e ninguém vai para trabalhar, para vender livro (a venda é feita pela Livraria da Vila, que monta uma livraria inteira só para atender a FLIP). A equipe da Travessa vai para curtir o ambiente, os autores, as palestras, os encontros, enfim, para respirar livro e cultura durante cinco dias, fora das livrarias. O que mais te motiva nesta sua iniciativa preciosa? Rui - Nossos livreiros são nosso maior investimento e nosso maior patrimônio. Vê-los interagindo com o mundo literário em Paraty é um dos melhores motivos para tornar a FLIP um momento muito especial para nós.
E quanto a você, Rui, qual a sua formação? Como é que as livrarias entraram na sua vida? Rui - Aos 20 anos, matei meu professor de lógica ... (Campos de Carvalho em "A Lua vem da Ásia" ).
Quais os grandes desafios que você enfrentou para criar e manter a Livraria da Travessa? Rui - Matar um leão a cada dia é uma frase que cai bem. Em geral, o desafio enfrentado pela livraria coincide com o desafio do país: educar!
Será que você pensa em expandir a Travessa pelo Brasil? Rui - Na medida em que possamos manter a qualidade que hoje nos faz merecer a retribuição do público, achamos que a Travessa poderá realizar novos investimentos em novas lojas.

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