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COM BELEZA NA PROFUNDEZA Maitê Proença diz que estamos fugindo dos sentimentos, fala sobre o prazer de agarrar a vida pelo colarinho e comenta trechos do seu novo livro, Uma vida inventada – memórias trocadas e outras histórias
 Maitê Proença: "Cada vez que fazemos uma coisa nova na vida, que nos faça bem, reinventamos uma nova infância".
Márcio Vassallo
Logo no começo do seu novo livro, Uma vida inventada - memórias trocadas e outras histórias, publicado pela editora Agir, você escreve: “Tem um congestionamento aqui dentro de mim. São muitas pessoas querendo falar, se exibir, se expressar”. Ultimamente, quem é que mais tem buzinado nesse congestionamento? Maitê Proença – Escrever permite que todas essas pessoas falem dentro de mim. Estou muito serena, mais do que já estive em toda a minha vida. É um estado novo e tomara que ele se perpetue por um bom tempo, porque é muito agradável.
Qual é a sensação desse seu estado novo? Maitê - De estar feliz. Não sei explicar direito...
Não precisa explicar, não. A felicidade não precisa de explicação, concorda? Maitê - Concordo, a felicidade é uma coisa que acontece. Nós não determinamos quando vamos ter serenidade na nossa vida. Se planejarmos esse estado, na verdade, já estaremos ansiosos para que ele aconteça. A serenidade é algo que vem chegando naturalmente.
Você não acha que pelo menos podemos decidir buscar por tudo isso? Maitê - Os budistas buscam por essa plenitude, mas é uma busca tão diferente da nossa. Quando vamos para um país em que o povo inteiro é budista, vemos que não há ansiedade na busca deles. Na realidade, os budistas entendem que a serenidade e a plenitude vão chegar, mas sem esforço. Se houver esforço, não será divino. Tudo o que é divino é sem esforço. Por exemplo, quando um ator ensaia três meses para fazer uma peça, aquilo é uma pedreira. Precisamos cavar bem lá dentro, para achar e pôr para fora sentimentos que normalmente escondemos e trancamos a sete chaves, pelo bem do convívio social. Mas na hora em que vamos nos apresentar para o público, há que ser uma apresentação fluida, sem esforço. Caso contrário, não será bonito para a platéia ver.
Uma vida inventada também vai sair pela editora Oficina do Livro, em Portugal, onde você já lançou o seu primeiro livro, de crônicas, Entre ossos e a escrita. Já tem previsão para o lançamento? Maitê - Vai ser lançado, assim que eu puder voltar a Portugal. Jantei em Lisboa, outro dia, com os meus editores. Foi uma noite agradabilíssima, em que combinamos: assim que eu conseguir uma brecha (estou atribulada com estréia de novela), irei para Portugal lançar o livro. Em outubro, possivelmente.
De Portugal vamos voltar para os seus pensamentos, em Uma vida inventada: “Será que antes da pessoa encarnar botam num curso preparatório pra vida que ela terá? Devo ter perdido ensinos indispensáveis, o de controle de pequenos ímpetos certamente. Na verdade, sou magnífica nas situações de impacto, mas me enrolo vergonhosamente com as minúcias do dia-a-dia. E a vida é feita do corriqueiro”. Em que sentido o corriqueiro te assusta? Maitê - Para quem mora no Brasil, em geral, o corriqueiro é lidar com as coisas que não funcionam. A cada passo que você dá, tem uma coisa que não anda como o esperado, uma pessoa que te promete algo que não vai acontecer. Quando penso nisso, vejo que tem um lado meu que gostaria de viver na Áustria. Mas tem outro, mais forte, que acharia a Áustria um tédio. Por isso, tenho que buscar uma tolerância, uma paciência, um Zeca Pagodinho dentro de mim. Grito por ele, mas muitas vezes sinto-me com o banzo de um lugar em que eu nunca vivi.
Você já disse que, quando começou a escrever Uma vida inventada, na realidade, não sabia que estava escrevendo um livro. De que forma você vive as suas invenções, de que modo inventa a sua vida? Maitê - Não sou alguém que costuma pensar muito para fazer as coisas. Quando algo me puxa em determinada direção, eu vou. Não pondero, por temperamento. Nesse sentido, a minha filha, por exemplo, é completamente diferente de mim. Se eu disser para a Maria, “Pula!”, ela vai medir a altura de onde está, vai olhar em volta, vai pensar nas circunstâncias, vai avaliar as conseqüências, talvez fique por lá um bom tempo, antes de pular, e talvez nem pule. No meu caso, se houver um pequeno estímulo, eu já pulei.
Mais uma constatação sua: “Faço refeições em torno da mesa, oração às seis da tarde, nado mil metros todos os dias, tenho um bom trabalho, um bom dinheiro, a filha perfeita, amigos de trinta anos e um homem que me ama. Contudo, muitas vezes me sinto perdida numa desestrutura abissal! Não me lembro de terem me avisado que precisaria lidar com tantas verdades incongruentes se confrontando dentro de mim”. Em que momentos as suas incongruências te movem, em que momentos elas te paralisam? Maitê - Essa resposta está em todo o meu livro, você não acha?
Quem sabe? Agora, para saber essa resposta, todo mundo vai precisar ler bem logo o seu livro, viu só? Maitê - Mas, sabe, quando eu tinha cinco anos de idade, minha mãe me disse, “a incoerência é uma categoria lógica”. A minha mãe era filósofa. Para ela, era natural falar algo assim para uma criança pequena. Hoje em dia, entendo bem o que ela dizia. É lógico, óbvio até, o ser humano viver com as suas incoerências, mesmo dentro de uma aparente linearidade.
Muita gente acha que essa linearidade é o que nos dá segurança. É como se passar a vida numa reta interminável fosse bem seguro. Maitê - Só que não é nada seguro passar a vida toda numa reta.
Sem dobrar, sem virar, sem mudar... Maitê - Se a reta porventura quebrar, você fica sem chão.
Um pequeno auto-retrato seu, nada linear: “Não sou certinha, não sou calma, não penso uma coisa só, o sangue me corre quente, sou da briga e quero brincar, dou risada alto, falo baixo, tenho explosões de alegria e fico muito, muito triste. Mas não me faço de coitadinha e não choro à toa ou por falta de coragem”. O que você ainda carece descobrir desta mulher? Maitê - Espero descobrir muitas coisas, porque eu vou viver muito, Márcio. Já combinei isso com a minha filha, prometi a ela. Minha avó foi até os cento e três anos. E, hoje em dia, com todos os recursos da Medicina, planejo seguir por muitos e surpreendentes anos. Veja que delícia, falta mais tempo para eu viver do que o que eu já vivi!
Para você, o que é a beleza? Maitê - O que é a beleza? Acho que...
Não pondere, Maitê, pule. Maitê - Não, eu estou aqui pensando, porque eu quero te dizer o que eu acho de verdade, Márcio. Afinal, esse é um assunto que está sempre à minha volta... E, sabe, eu acho que beleza tem a ver com saúde. O que a gente gosta na juventude é a saúde. Se o jovem é saudável, tem ali um viço, um brilho, uma beleza, e quando se consegue perpetuar isso tudo, quando se é vigoroso, não importa com que idade, tem beleza ali.
Mais do que tudo, para você, o que é ser saudável? Maitê - Gostar das coisas, ter sempre curiosidade por elas, e manter um permanente interesse pelas pessoas e suas diferenças. Quando o entorno interessa, o olho brilha. E nisso há saúde.
Pensamento seu, Maitê: “Existem mulheres que se encontram acima dos atributos puramente físicos. São tão extraordinárias em seus encantos que a gente passa por cima da questão feia-bonita e se deixa magnetizar por fascínios superiores”. Que fascínios superiores, acima de todos, tornam uma mulher realmente encantadora? Maitê - Tem gente que é muito bonita e apagada. Aquela beleza te interessa durante três minutos, depois, é uma decepção. E há homens, mulheres e crianças que quanto mais os ouvimos, ou os olhamos, mais temos vontade de ficar perto... São os encantadores. Eles encantam, ora, por tudo que já falamos.
Não dá vontade de ficar só na superfície dessas pessoas? Maitê - Dá vontade de mergulhar nelas... Por outro lado, algumas pessoas te absorvem de uma forma muito negativa, é como se elas te esvaziassem de algum modo, concorda?
Concordo. E também concordo, quando você diz no livro que não se morre de intensidade, mas pelo embrutecimento. Existe vacina contra o embrutecimento? Maitê - Não sei, acho que não, porque a pessoa embrutecida, em geral, não percebe que esteja assim.
Já faz parte do embrutecimento não perceber isso? Maitê - Sim, talvez a vacina seja a auto-percepção, olhar para dentro e perceber que a sua vida se tornou uma mera busca por sinais exteriores de sucesso.
Estou me lembrando agora do filme A vida dos outros, em que um especialista em técnicas de tortura e interrogatório é designado para espionar o dia-a-dia de uma atriz e de um autor de teatro supostamente subversivo. Para quem não viu o filme (que é um absurdo de belo), com o passar dos dias, esse homem começa a se sensibilizar e a mudar o seu destino, provocado pela vida cheia de beleza e poesia do casal. Você acha que a convivência com outras pessoas também ajuda a desembrutecer a alma? Maitê - Ah, mas aquele homem do filme vivia uma vida muito pequena para a grandeza que ele já tinha. Era o homem errado no lugar errado.
Será que muitas vezes uma pessoa cheia de grandeza e fundura passa a vida embrutecida por estar no lugar errado, com as pessoas erradas? Maitê - Acho que sim. Há pessoas que têm uma profunda insatisfação, mas não sabem nem imaginam que possa haver uma saída. E sempre há uma saída. Mas talvez o embrutecimento seja o mal deste século e do século passado. Se você pegar os romances do século dezenove, verá que os sentimentos eram magníficos, nobres, profundos, densos. Hoje os sentimentos duram três segundos. Saímos correndo dos sentimentos. Queremos coisas para exibir aos outros, é tudo para uso externo, nada acontece dentro. Ninguém sofre mais de amor, já reparou? Não existe luto pela relação partida. Está tudo efêmero. Não é só no amor. A gente vai ao cinema para ser estapeado e não para sentir coisas sutis. Sai dali e segue pra uma boate para ouvir música bem alta, beber muito, namorar muitos, encontrar uma multidão. Tudo excessivo e tudo para fora. Por dentro, um deserto. Ficam procurando fora o que está dentro, ali onde há silêncio, poder criativo e paz. Até para dormir, só conseguem tomando remédios, não agüentam esperar a transição entre o fazer e o desligar - e perdem aquele limbo delicioso...
Você dedica o livro à sua linda filha, Maria, que está com dezessete anos. O que você mais aprende com a sua filha? Maitê - Que há coisas que nasceram com ela. Ela não é de ímpetos. É muito mais delicada do que eu. Não há hipótese de Maria ser indelicada com alguém por falta de cautela. Maria jamais dirá algo que possa ofender alguém. Por outro lado, ela tem um universo ético e moral que pegou de mim. Pensamos de forma semelhante e fazemos opções parecidas, ou faríamos, diante das mesmas situações. Mas ao contrário de mim, Maria não se excede, desde pequena, nunca foi uma criança que esperneou, porque queria alguma coisa. Até hoje a Maria é muito nobre no caminhar. E tem uma maneira sutil de ser. É bonito ver que ela trouxe essa nobreza lá de... uma outra vida talvez.
O que a maternidade te ensinou sobre educação? Maitê - Que ser mãe é muito fácil. É só botar aquilo em primeiro lugar. Tem pessoas que vivem dizendo que abriram mão de várias coisas pelos filhos. Mentira, se os filhos forem prioridade, nunca haverá dúvida na escolha entre isso e aquilo. Eu deveria ter tido oito filhos, porque foi o que fiz melhor na minha vida. Quando erro, peço perdão. Ninguém precisa posar de herói para um filho. Eles nos conhecem bem e também nos amam incondicionalmente. Os pais ficam angustiados porque querem parecer perfeitos para os filhos, mas querem também, e talvez ainda mais, fazer sucesso na carreira e na vida social.
Antes de começar o livro, ou já começando, você cita um trecho do livro Senhorita Smilla, o sentido da neve, de Peter Hoëg. “Existe uma crença muito difundida de que as crianças são abertas, de que a verdade sobre seu ser interior praticamente brota delas. Não é bem assim. Ninguém é mais protegido que uma criança, e ninguém tem mais necessidade de sê-lo. Essa é uma reação a um mundo que o tempo todo tenta abri-la com um abridor de latas para ver o que ela tem por dentro, com a intenção de avaliar se não seria o caso de trocar por algo mais funcional”. A que você atribui esse desejo do mundo de tornar as crianças mais funcionais? Maitê - Não queremos ter trabalho com eles, preferimos que pareçam sempre bem adaptados a tudo, para que possamos exibi-los, nossos troféus-bibelôs.
Essa sua constatação me fez lembrar de uma cena. Certa vez, na época do Natal, vi um pai, num shopping, pressionando a sua filha, de uns cinco anos, a sorrir na hora da foto com o Papai Noel. Ele estava bravo, e dizia que tinha enfrentado uma fila grande e que estava pagando uma nota por aquela foto, e que por isso ela precisava sorrir, para não estragar tudo. Por que não deixar registrado o momento verdadeiro daquela menina? Maitê - Aquele momento era para ser bonito para ela, não para o pai. Mas esse homem queria que ela sorrisse, só para depois ter uma foto para mostrar aos amigos no trabalho.
Você de novo: “Neste mundo não há saída: há os que assistem, entediados, ao tempo passar da janela, e há os afoitos, que agarram a vida pelos colarinhos. Carimbada de hematomas, reconheço, sou do segundo time”. Tem segredo para agarrar a vida pelo colarinho? Maitê - Não sei se tem segredo, acho que é uma vocação. E também não sei se agarrar a vida pelo colarinho é melhor, ou pior. Você prefere passar a vida assistindo aos outros fazerem aventuras, pelo Discovery Chanel, ou subir a montanha? Eu prefiro estar lá em cima da montanha, mas tem gente que morre no meio da escalada. Toda experiência pode ser muito ruim, e também pode ser inesquecivelmente bela. Mas olha, sinto um pouco de vergonha com tudo isso o que eu estou dizendo... São só coisas que eu acho, viu?
Claro, mas esta é uma entrevista de achamentos. Maitê – Não sei nada de nada, que fique bem claro!.
Você tem muita clareza na idéia, Maitê, fique tranqüila. Mas olha, também no seu novo livro, você conta que escolheu a arte como expressão, porque nela há espaço para enfrentar a mesmice, e ressalta que só vê graça no que mexe com as suas profundezas. O que é realmente capaz de mexer com as suas profundezas? Maitê - É aquilo de que falamos. Ser ator é mostrar para as pessoas o que você não mostraria em nenhuma circunstância. Só fica interessante a partir do momento em que se consegue isso, e de uma forma que tenha algum tipo de beleza. Você me disse que o que gostou mais no meu livro foi a forma, Márcio. Eu também. Afinal, fato por fato, há mais suculentos nos jornais. Só me permito falar de determinados assuntos, por conta da forma que encontrei. Quando li o Uma vida inventada, para um áudio-livro, que vai sair ainda este mês, tive a sensação de que estava lendo o texto de outra pessoa. A verdade é que eu me emocionei, estranhamente, por coisas que não me emocionaram quando escrevi. E não me emocionei com os momentos tristes, mas com os momentos em que a vida foi gentil, nos momentos de generosidade, sabe? Ao ler o meu livro, em voz alta, apareceu uma terceira pessoa que estava além dos fatos. Por ser atriz, habituei-me a cavar em algum lugar íntimo do universo do outro, do autor.
Você tem que importar a intimidade do outro? Maitê – Ao ler, fizisso com a minha própria pessoa, como se eu fosse duas.
Sobre o seu ofício de atriz, você constata que passar a vida interpretando textos de outras criaturas vai abafando a sua própria voz. Vozes abafadas à parte, o que mais te apaixona, o que mais te arrebata no seu trabalho de atriz? Maitê - A liberdade de mostrar o que há de autêntico. Hoje, como nunca antes na minha vida, eu posso oferecer ao público, como atriz, o que considero mais essencial.
O que é mais essencial para um ator? Maitê – O despojamento. É perder, profundamente, o medo de se expor em cena, é aprimorar cada vez mais a técnica, mas sem ter medo de errar... Não fazer nada pela metade. Se fizer completamente, pode ser doloroso, arriscado, mas pode também resultar magistral, ou não, mas aí... tentou-se.
Você diz no livro que escreve contra a solidão e o escritor precisa da solidão para escrever. Qual é a solidão que mais te perturba? Maitê - A da incompreensão. Essa não há como driblar, existirá sempre. Mas também não mata.
Mais uma constatação sua, em Uma vida inventada: “Há pessoas que só sabem amar na tensão, vivem às turras e assim se realizam”. Na sua opinião, que tipo de realização têm os casais que só vivem às turras? Maitê - O amor e o ódio são sentimentos que muitas vezes se tocam e se confundem. Há casais que cultivam um prazer macabro de se torturar, porque esse jogo cria uma interdependência. É aquela história: “Se eu te achatar, e fizer com que você se sinta um nada, você só vai conseguir viver a partir de mim. “Eu sou o seu sol.”. Eles criam essa forma de amar...
Ou pelo menos que eles acham que é amor. Maitê - Vai ver é mesmo algum tipo de amor, não sei... Existem mães que fazem isso com os filhos. “Sem mim, você não será nada. Eu que te guio, eu que te ensino, eu que te oriento”. Mas aí, quando o filho sair do casulo, como é que ele vai andar, sem autoconfiança, sem saber que é capaz de seguir por conta própria?
Antes mesmo de sair do casulo, a gente já precisa dar autoconfiança a um filho, não acha? Maitê - Depois que largou o peito da mãe, seria bom que a criança já fosse aprendendo a confiar em si. E os pais podem ensinar isso a um filho com o maior amor do mundo. Eu te amo, eu te solto. Isso serve para todo tipo de relação: deixar o outro livre para olhar coisas novas, para investigar feiúras e belezas...
Para agarrar a vida pelo colarinho? Maitê - Para agarrar a vida, trazê-la para qualquer relação, e tornar esse relacionamento cada vez mais rico. Não é fácil. Também é uma questão de vocação. Muitos casais acabam vivendo num mundinho chato, cheio de interdependências, de mentiras e tédio.
Esse mundinho acaba se transformando num ringue? Maitê - Já pensou que assustador?
(Neste instante, um vento com chiado de assombro passa forte pela janela do apartamento)
Esse vento tornou a cena do ringue ainda mais assustadora, Maitê. Será que você acionou algum botão para ligá-lo? Maitê - Você viu só? Uuuuuuuu... Foi para dar uma sonoplastia na entrevista.
Outro trecho desse seu livro tão sensível e tão bonito: “Eu não confio em gente que não se apaixona. A pessoa está andando na rua e esbarra no grande amor, aquele com quem se fica junto como se estivesse sozinho. Ela não vê. Esbarrou na sorte, na razão de tudo, na grande justificativa de uma existência, mas por falta de paixão deixou a vida escorrer. E aí?”. Como é que o grande amor de uma pessoa mais justifica a existência dela? Maitê - Viver um amor correspondido deixa o azul mais azul, a brisa mais brisa, tudo é mais bonito, você se torna mais generoso com as pessoas. Mas tem muita gente que não se permite viver o amor de forma grande. Elas têm medo de se entregar, de se revelar para o outro, com medo de perder. Só que quem tem medo de perder o amor, e não o vive, já está perdendo tudo o que existe de bom na coisa. Veio fazer o que aqui, se tem medo de amar? A vida dá uma, duas, três chances, e nada... Acho até pecado não viver o grande amor.
Além da falta de paixão, que outras coisas fazem com que muita gente faça as escolhas erradas e deixe a vida escorrer? Maitê - É o medo que vai se acumulando dentro da gente...
Feito depósitos de medo? Maitê - Feito depósitos de medo que, se deixarmos, vão amesquinhando a nossa vida. E um dos grandes medos é aquele que faz com que a pessoa passe o tempo todo repetindo coisas, repetindo formas de se relacionar, repetindo tudo, sem ousar, sem correr riscos, comportando-se como crianças pequenas, que gostam de ouvir sempre as mesmas histórias, para se sentirem seguras. Mas a realidade é que quando crescemos somos capazes reinventar novas infâncias.
Como você acha que alguém pode reinventar uma nova infância? Maitê - Cada vez que fazemos uma coisa nova na vida, que nos faça bem, reinventamos uma nova infância.
Você nasceu em São Paulo, mas mora em Copacabana há mais de 25 anos, aqui neste apartamento, de frente para o mar, e conta no seu livro: “As paredes de minha casa estão rachando, e a mulher que me arruma as coisas e que sabe muito da vida prática disse que é o calor, que a tinta não foi feita pra essas temperaturas. Achei lindo viver num lugar que rasga fendas escaldantes nas paredes. Gosto de sentir calor em vez de frio”. Acima de tudo, para você, o que é uma vida com quentura? Maitê - É comer coisas deliciosas, estar com gente que te proporcione um conforto de berço, quando você não precisa fazer nenhum gênero. Ah, ficar em casa e não achar que está perdendo tempo lendo um livro que te aqueça também é uma delícia... Sentir-se bem na própria casa traz quentura para a vida. Mudar de idéia, depois que alguém te telefona, e resolver sair, também pode ser magnífico. Na minha vida as pessoas foram muito embora. Além de muitas pessoas amadas terem morrido, tenho amigos que se foram para toda a parte do mundo. Mas quando eu os encontro, mesmo depois de dez anos sem vê-los, é como se não houvesse passado um dia. Então, religar-se a pessoas queridas, nadar, namorar, descobrir, imaginar, sentir saudades, chorar, dar risada, tudo isso traz quentura para a minha vida.
Para visitar o site da autora, entre em www.maite.com.br .

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