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UMA NETA TODA SENSÍVEL, SUA AVÓ ENCANTADORA
 
E O AMOR PELA LITERATURA

Formada em Letras pela USP, com mestrado em andamento na mesma universidade, no curso de literatura Brasileira, Lúcia Telles fala sobre a sua convivência profissional e afetiva com a avó, Lygia Fagundes Telles, e comenta Capitu, roteiro da Lygia lançado em livro,

em co-autoria com Paulo Emílio Sales Gomes

 

 

 

 

 Lúcia Telles e sua avó, Lygia Fagundes Telles: uma convivência cheia de
respeito, amor e admiração.
   

 

 

Márcio Vassallo

 

 

Lançado pela Cosac Naify, o livro Capitu traz o roteiro que a Lygia Fagundes Telles e o Paulo Emílio Sales Gomes escreveram, inspirados na clássica personagem de Dom Casmurro, do Machado de Assis. O que você achou da edição?

Lúcia Telles - Capitu ficou excelente, uma edição muito bonita e cuidadosa, como tudo da editora CosacNaify. Esse roteiro merecia mesmo uma bela edição. Há fotos de Paulo e Lygia, um lindo posfácio escrito por minha avó e reproduções de cursos que Paulo Emilio deu na faculdade de Cinema (ECA) sobre roteiro. 

 

 

Em que aspectos esse trabalho da Lygia e do Paulo Emílio mexe com você?

Lúcia - O roteiro ilustra o companheirismo desse casal. Eles fizeram muitas coisas juntos e escreveram juntos também. Acho esse texto realmente lindo.

 

De que forma você cuida de toda a obra do Paulo Emílio? E você está trabalhando com a Lygia todos os dias, não é?

Lúcia - Sim, trabalho com minha avó, diariamente, em sua obra. Desde digitar seus textos, até organizar a correspondência e cuidar das entrevistas e contratos. Quanto à obra do Paulo Emilio, também faço esse trabalho de organização dos contratos, de envio de material para a editora CosacNaify, que está reeditando toda sua obra. Acompanho, ainda, o belo trabalho da Cinemateca Brasileira que guarda e preserva todo o acervo dele. Além disso, minha pesquisa de mestrado é sobre a correspondência de Paulo Emilio. 

 

Como nasceu a idéia dessa pesquisa e de que modo ela mais tem mobilizado os seus sentimentos?

Lúcia - Após a morte de meu pai, Goffredo da Silva Telles Neto (que era quem cuidava das coisas do Paulo Emilio), comecei a fazer essa pesquisa. Ela surgiu com a curiosidade em olhar para as cartas que estão guardadas e catalogadas na Cinemateca. Com isso, comecei a pensar em trabalhar seriamente com essas cartas. Comecei um mestrado esse ano na USP.

 

Como é que você participou do livro Conspiração de nuvens, da Lygia?

Lúcia - Li os textos todos algumas vezes e acompanhei todo o trabalho de edição, escolha da capa, das orelhas, da foto e impressão.  É um livro com ricas descrições de lugares, épocas e personalidades de nossa cultura. Vale a pena.

 

O que mais te encanta, o que mais te emociona, o que mais te entusiasma na sua convivência com a Lygia?

Lúcia - Ela é incrível. Tem uma força rara, uma inteligência rara. Alem disso, é muito divertida e generosa. Sempre nos demos muito bem e eu aprendo demais trabalhando/convivendo com ela.

 

Que cenas da tua infância mais te remetem à tua avó?

Lúcia - As muitas histórias que ela me contava, eram grandes interpretações. A preferida era a do Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato.

 

Por sua vez, que cenas da tua avó, hoje, mais te remetem à tua infância?

Lúcia - A graça, sempre ri muito com ela. E a disposição com prazer para o trabalho.

 

Escolhi alguns trechos de uma entrevista que a Lygia me concedeu, publicada aqui no site da Agência Riff. Para começar, uma constatação dela: Seguir um impulso é muito fácil. Ao mesmo tempo é difícil, por que toda escolha do coração é um risco, é uma aposta, é um jogo”. De que forma você acha que a sua avó mais costuma apostar no seu próprio coração?

Lúcia - Ela sabe bem misturar os impulsos do coração e da razão, fui aprendendo a fazer esse jogo com ela.

 

Mais um pensamento da Lygia: “Tem coisas que a gente não consegue penetrar, que a gente não consegue entender, e não é bom tentar entender essas coisas, eu não gosto de tentar entender tudo. Tem coisas que ficam encerradas no mistério, como uma concha”. O que você não entende na Lygia e nem gostaria de entender?

Lúcia - Como se dá e de onde vem essa vocação para contar histórias.

 

O que você mais entende nela?

Lúcia - A força vinda do trabalho e a coragem com que enfrenta a vida.

 

Outra frase da nossa queridíssima autora: “Às vezes eu tenho que ir desembrulhando as minhas personagens, para ver o que existe por dentro delas”. Será que você já se flagrou desembrulhando a Lygia, como uma personagem da sua vida, para ver o que existe por dentro dela?

Lúcia - Acho que sim, mas tento sempre fazer isso com o maior respeito. Temos, ela e eu, uma relação de muito respeito.

 

Lygia de novo: “A beleza me consola, me socorre, me acolhe, me move de todas as maneiras”. Em que momentos do dia você percebe que a beleza salva sua avó?

Lúcia - Naqueles momentos em que parece que o mundo está perdido. Uma árvore linda, por exemplo, a deixa muito feliz.

 

E em que momentos do dia a beleza te salva, Lúcia?

Lúcia - Nos momentos de cansaço e solidão.    









       
 
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