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SEMPRE AFONSO Criador e apresentador do Sempre um papo, o jornalista e escritor Afonso Borges fala sobre um dos projetos literários mais brilhantes e bem-sucedidos do Brasil
 Afonso Borges: “O que mais me mobiliza no Sempre um papo é a expansão do projeto e a interatividade do público”.
Márcio Vassallo
Criado por você há 22 anos, o Sempre um papo é um dos mais bem-sucedidos,respeitados e preciosos eventos culturais do Brasil.Como nasceu a idéia do projeto? Afonso Borges- Eu era músico, tocava em um bar e já fazia jornalismo. Por sugestão de um amigo, decidi fazer uma entrevista ao vivo, antes de começar a tocar. Oswaldo França Júnior foi o meu primeiro convidado. Então, do bar para os auditórios foi um pulo. E o que era um programa de entretenimento cultural, transformou-se na minha vida.
O Sempre um papo deveria fazer parte da programação de todas as capitais do Brasil, e também de tantas outras cidades, mas falta patrocínio, certo? Quais foram e ainda são os principais desafios do Sempre um papo? Afonso - O maior desafio continua sendo realmente o patrocínio. E como é um programa com entrada franca, não há outra solução. O segundo maior desafio são as tais cadeiras. Se elas estiverem vazias, não tem evento. Nossa tarefa é colocar pessoas nas cadeiras, para ouvir o escritor.
Hoje em dia, como você viabiliza o projeto? Afonso- Através da Lei Federal de Incentivo à Cultura, com recursos da Usiminas, Cemig e Vale, e o apoio do jornal Estado de Minas e Guarani FM.
Até hoje foram quantos escritores e personalidades culturais convidados? Você tem esse número? Afonso - Estamos fazendo um levantamento rigoroso do nosso acervo, que está sendo totalmente digitalizado. Mas creio que estamos entre duas mil e quinhentas atividades, com autores e personalidades em geral. Grande parte desses convidados é reincidente.
E o que você mais leva em conta na hora de convidar um autor para participar do evento? Afonso - Em primeiro lugar, qualidade. Em seguida, o lado profissional, ou seja, a participação da editora, fundamental para a viabilização do evento. Mas atrair público também é determinante. Não podemos expor um escritor a um auditório vazio. E isso, graças a Deus, acontece raramente conosco.
Que escritores você ainda gostaria de ver no seu projeto? Afonso - Tenho um sonho: levar escritores de fora do eixo Rio-SP: Benedito Nunes, do Pará, Charles Kiefer, do Rio Grande do Sul; procurar talentos e levá-los para um grande evento em São Paulo. Vou propor isso ao Danilo Miranda, presidente do SESC. Tenho certeza de que ele vai adorar.
Além da empatia entre o convidado e a platéia, o que determina o sucesso de um encontro? Afonso - Um bom trabalho de comunicação. Sem isso, nada feito.
Provavelmente, ao longo de todos estes anos, alguns encontros não deram certo, por vários motivos. A que você atribui isso? Afonso- De cabeça fria, a resposta sempre é a mesma: trabalhamos mal. E ao reconhecer isso, nos fortificamos para trabalhar melhor, na próxima. Quando isso acontece, catar erros é o correto a se fazer.
Outro dia, num dos vídeos que você disponibiliza no seu site (www.sempreumpapo.com.br), assisti à participação da Adélia Prado, no projeto. Bem, já assisti a outras participações deliciosas, mas o encontro com a Adélia, de fato, está de tirar o fôlego de tão bonito. Que encontros foram realmente inesquecíveis para você? Afonso - José Saramago, no Grande Teatro do Palácio das Artes que, lamentavelmente, a televisão que gravou perdeu a fita. E Chico Buarque e Raduan Nassar, uma leitura divertidíssima, numa tarde de sábado. E que, curiosamente, uma televisão também perdeu a gravação. Eu fiquei três semanas mandando a minha secretária dizer para o Chico Buarque que eu não estava. Você já ouviu falar de uma pessoa que tenha feito isso nessa encarnação?
Não, não conheço. Imagino o que a sua secretária pensou, quando dispensava o Chico. Mas olha, nessa encarnação, concentrado em Minas, o Sempre um papo também se apresenta em que outros estados. Você percebe alguma diferença de público, de uma cidade para outra?
Afonso - Sem dúvida alguma! Quando começamos em Curitiba, cortávamos o ar com giletes. Eles são mudos! Em Belém, as pessoas são interativas, queridas, envolventes. No Rio de Janeiro, por incrível que possa parecer, as pessoas são sérias. Mas a nossa felicidade reside no interior. As pessoas estão ávidas por informação, conhecimento, é uma experiência gratificante para ambos: o público e o autor.
Ao longo de todos esses anos, provavelmente você coleciona histórias curiosas, engraçadas, dramáticas ou inusitadas, vividas na produção do evento, ou mesmo durante as conversas do convidado com o público, certo? Afonso - Sim, e eu prometo escrever um livro, um dia, contando essas histórias. É muita história. Mas muita mesmo.
Além de jornalista, você é escritor, com quatro livros publicados: Retrato de Época, Bandeiras no Varal e Profecia das Minas (todos de poesia) e Sinal de Contradição - Conversas com Frei Betto (pela editora Espaço & Tempo), publicado também na Suíça e na Argentina. Gostaria que você falasse um pouco deste seu livro com o Frei Betto. Afonso - Os de poesia não existem mais, são independentes. E o do Frei Betto esgotou-se também e, além do mais, está completamente desatualizado. É um livro de entrevistas, separadas por assunto.
Em que momentos o escritor se mete na vida do jornalista, em que momentos o jornalista se mete na vida do escritor? Afonso - Hoje, ambos se misturaram. Agora, então, que tenho um programa diário de rádio, na Guarani FM (está disponível também no meu site), chamado "Mondolivro - O blog sonoro da literatura"... virou uma grande mistureba. Eu escrevo, diariamente. O lado bom é que estou voltando à boa forma.
Acima de tudo, até hoje, o que mais te arrebata, o que mais te encanta, o que mais te mobiliza no Sempre um papo? Afonso - O que me mobiliza é a interatividade e expansão do projeto. Temos 90 programas de TV disponíveis para download gratuito, 110 programas de rádio, o "Espaço dos Livros", que é um projeto de biblioteca dentro de prédios residenciais, o "Ler Convivendo", onde adotamos bibliotecas comunitárias, a série de DVD's educativos, com o melhor de cada ano, distribuídos para centenas de escolas brasileiras. E muito mais que vem por aí.
Na sua opinião, o que sempre um (bom) papo precisa ter? Afonso - Descontração, boa energia, público receptivo, lugar iluminado. Num clima assim o papo é sempre bom.
Afonso, em que sentido a literatura é definitivamente apaixonante para você? Afonso - No sentido transformador. Acredito piamente na transformação do ser humano através da literatura. E sempre para o bem.

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