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NOS TERRENOS DO AFETO
Em seu novo livro, SEMENTES DO AMOR, Maria Tereza Maldonado
analisa uma das mais importantes fases da educação infantil
e mostra caminhos para nos maravilharmos com as coisas mais simples da vida




Maria Tereza Maldonado: “A maternidade e a paternidade são grandes oportunidades de nos reapresentarmos à beleza.”


Márcio Vassallo



Como você começou a semear a idéia do livro?
Fiz esse trabalho a partir de um livro anterior chamado COMO CUIDAR DE BEBÊS DE ZERO A TRÊS ANOS (Saraiva). E os livros, como nós, estão sempre precisando de atualização. Afinal, passamos a ter novas idéias, novos conhecimentos, novas perspectivas, novas descobertas, novos aprendizados, novas possibilidades de caminhos. Trabalho basicamente com o conceito de construção da paz. A paz entendida como cuidar bem de nós mesmos, dos outros e do ambiente. E agora, em AS SEMENTES DO AMOR: EDUCAR CRIANÇAS DE 0 A 3 ANOS PARA A PAZ (no prelo da Planeta), mostro como nós podemos investir maciçamente nas novas gerações, para que as crianças, um dia, mudem o cenário que estamos vivendo.

O que é mais difícil, plantar essas sementes, ou preparar o terreno para elas?
Há uma relação muito estreita entre terreno e semente. Boas sementes em terrenos áridos têm dificuldade de crescer. Embora algumas plantas cresçam saudáveis em locais inimagináveis.

Tem plantas que nascem nas pedras?
Sim, tem plantas que nascem nas pedras. E por outro lado, o terreno pode ser muito propício, mas se as sementes não forem boas, também é provável que não germinem bem. Mas as crianças em geral têm um terreno muito favorável para o cultivo de coisas boas. E outras, mesmo com terrenos pouco favoráveis e sementes de pouca qualidade, acabam germinando acima de todas as expectativas. De toda forma, principalmente nos últimos cinco anos, a neurociência afetiva tem feito descobertas impressionantes sobre a capacidade do cérebro, especialmente sobre a influência dos relacionamentos na própria estruturação neuronal.

Como é que funciona a neurociência afetiva?
Com o avançado desenvolvimento da tecnologia, hoje é possível vermos o cérebro funcionando. Isso tem permitido uma linha de pesquisas assombrosa. O cérebro tem uma plasticidade enorme a vida inteira, especialmente nos primeiros anos de vida. Ou seja, nesse período, ele é um terreno muito propício para plantarmos as sementes do amor. Outra linha de pesquisa muito fascinante é a respeito do desenvolvimento da empatia. Atualmente, sabemos que crianças de um ano e meio a dois anos já podem desenvolver a capacidade de compreender o ponto de vista dos outros. Se a família, a creche e a educação infantil investem nisso, temos uma ótima conjugação de bom terreno e boas sementes, para plantar nas crianças o desenvolvimento da capacidade amorosa, de empatia, de resolução não-violenta dos conflitos, para que a pessoa se transforme cada vez mais numa construtora da paz.

Muitos estudiosos afirmam que as crianças estão se desenvolvendo cada vez mais cedo. Você concorda?

Toda linha de pesquisa mostra isso de uma forma cada vez mais clara. Mas a realidade é que as crianças sempre tiveram essa capacidade de se desenvolver. Nós é que não a enxergávamos. Havia muito desconhecimento e uma série de mitos. Só que muitos desses mitos ainda existem. Um deles, por exemplo, é que os bebês só enxergam vultos. Na realidade, desde a época fetal, os bebês já mantém relacionamentos com o mundo exterior. Eles já têm memória para a música, memória para a história. Crianças com até dez dias de idade já nos olham no olho e sorriem. Hoje já trabalhamos com o conceito de feto competente, de bebê competente. Ou seja, o ser humano já nasce equipado para o vínculo, para o relacionamento. E se essa capacidade for enriquecida e estimulada, realmente teremos condições de formar novas gerações de pessoas, para reverter o cenário desolador em que vivemos. Apesar de não vivemos só num cenário violento e tenebroso, claro.

Segundo você, um dos grandes desafios do século XXI é continuar descobrindo caminhos eficazes para ajudar crianças e jovens a crescer com a capacidade de construir a paz e a solidariedade em um mundo com tantos episódios de violência. Que caminhos são esses?
São muitos. Por meio da capacidade de empatia, desde cedo, podemos fornecer recursos para que as crianças comecem a transformar conflitos destrutivos em negociações construtivas. Precisamos aprender a fazer acordos de bom convívio. Combinar mais para brigar menos. Essa idéia também pode ser aplicada, por exemplo, na ótica empresarial, na resolução de conflitos no ambiente profissional. Conflitos sempre vão existir, devido às diferenças entre as pessoas. Diferenças de opiniões, interesses, pontos-de-vista, necessidades, circunstâncias, de tudo. Hoje em dia existem milhares de institutos especializados em educação para pais e gestão de conflitos, no mundo inteiro. A verdade é que o conflito é inevitável, mas não é necessariamente destrutivo.

Palavras suas: “São tantos os estudos e as descobertas sobre as competências pré-natais, que há quem considere o útero nossa primeira ´sala de aula´.” Quem são os grandes ensinamentos dessa sala de aula primordial?
Existem estudos que nos mostram que é possível observar o comportamento do feto através de ultra-som de exposição prolongada, mostrando até mesmo como os gêmeos se relacionam entre si, na vida intra-uterina. É possível hoje saber de que forma o feto está escutando os ruídos do corpo da mãe, de que forma o feto está se situando com a placenta, com o líquido amniótico, como ele está escutando as vozes do pai, dos irmãos, de todo o ambiente familiar. Então, como todas as nossas emoções têm uma tradução bioquímica, os momentos de ansiedade, de angústia, de paz, ou de alegria da mãe, vão se comunicar com o feto através do cordão umbilical. Por isso, quando a mãe já rejeita o filho, antes mesmo de ele nascer, essa rejeição tem influência na criança. Mas o modo como a criança vai lidar com essa influência isso vai depender de vários outros fatores. Mesmo que as primeiras experiências de vida tenham sido difíceis podemos transformá-las em coisas positivas. Esses registros não são apagados, mas eles podem ser reescritos. E a criança pode ser muito feliz. Muitas delas, crianças adotadas, por exemplo, mesmo tendo sofrido bastante, quando encontram uma família amorosa e acolhedora, têm as suas histórias reescritas dentro do seu próprio psiquismo.

Então os ruídos não são necessariamente irreversíveis?
Exatamente. O amor é um elemento extremamente eficaz na cura de ruídos, por conta da nossa enorme plasticidade cerebral.

Mais um pensamento seu: “Todos nós nascemos com um impulso amoroso e com um impulso agressivo. O desenvolvimento da empatia é essencial para controlar a impulsividade e canalizar a agressividade para fins construtivos.” O que é mais difícil, controlar a impulsividade, ou canalizar a agressividade de modo positivo?
São dois processos indissociáveis. Precisamos do impulso agressivo nas nossas vidas. Mas se esse impulso não for bem canalizado, é como se a pessoa tivesse mais acelerador do que freio. Então, quando vem a raiva, essa pessoa imediatamente parte para a agressão, e muitas vezes ela faz isso de forma muito contundente. Por isso, temos que realmente canalizar a agressividade para o nosso próprio benefício. É a partir da energia agressiva que temos garra para persistir nas coisas, para enfrentar desafios, para sobreviver, para nos superar, para sermos incisivos. Mas você pode ser incisivo, sem ser grosseiro, sem ser brutal. Você pode ser espontâneo, sem ofender as pessoas.

Tudo isso precisa ser trabalhado nas crianças, desde bem cedo?
Sem dúvida. As crianças pequenas são movidas por impulsos. Elas só querem fazer as coisas que têm vontade. Isso é viver por meio da lei do desejo. E muita gente passa a vida pensando assim: “As coisas têm que acontecer só do jeito que eu quero.” Mas nem sempre as coisas são do jeito que queremos, da forma que nós queremos, na hora que nós desejamos. Nesse sentido, a importância da família e da escola são fundamentais. Criar limites é cada vez mais importante, para ensinar as crianças a lidar com os seus relacionamentos, para que elas não se transformem em adolescentes e adultos sem limites...

Para que não se transformem em pessoas sem freio, só com o pé no acelerador...
Sim, muitas vezes literalmente. E aí elas vão fazer pega de carro e atropelar os outros.

Em todos os sentidos?
Em todos os sentidos. Uma pessoa sem limites vive atropelando os outros e se atropelando também, das mais diversas formas.

No livro você fala sobre uma espécie de globalização do afeto. De que forma é possível globalizar sentimentos?
Podemos globalizar sentimentos com ações positivas. Esse é um pensamento de muitos autores, como Milton Santos, e Leonardo Boff, que acreditam na força dessa globalização na luta contra a exclusão social, contra as guerras, contra a exploração indevida dos recursos naturais da Terra. Há milhares de pessoas trabalhando, de diferentes modos, em nome da globalização afetiva no mundo. Somos uma grande família, a família humana, vivendo numa grande casa, que é o planeta. E eu acho que um dos caminhos para vivermos cada vez melhor nessa casa é revermos os nossos hábitos de consumo.

Será que a globalização da violência sempre predominou no mundo?
Não. Tenho visto estudos muito interessantes de importantes sociólogos e antropólogos. E eles mostram que, na maior parte do tempo, o que predominou na História não foram as guerras nem a violência, foi a paz. Na realidade, segundo esses estudiosos, a paz é o lado oculto da História.

A paz nunca foi notícia?
Sim, mas esses estudos mostram, de fato, que a paz sempre foi o que mais predominou no mundo, e é o que ainda predomina hoje em dia no nosso cotidiano.

Mas os horrores da guerra e da violência em geral são tão fortes que ficam com enraizados na nossa cabeça, como se os episódios negativos fossem predominantes na História?
Exatamente.

Com mais de trinta anos de prática de consultoria nas áreas de saúde e educação, como psicoterapeuta, você conta que tem se dedicado a trabalhar com a ampliação dos recursos de comunicação e com a melhoria da qualidade de vida nas várias etapas do ciclo vital familiar, desde a gestação até o envelhecimento. Quais os principais desafios desse trabalho?
Um dos principais desafios é trabalhar para expandir o potencial amoroso das pessoas. De volta para a história dos limites, uma das grandes distorções na educação familiar é não dar freio às crianças. Há uma grande confusão entre autoridade e autoritarismo. Por isso, muitas crianças crescem sem aprender os valores de convívio: respeito, consideração, gentileza, solidariedade. Essas pessoas raramente conseguem gerenciar os seus conflitos. Os pais geralmente se sentem culpados com as suas próprias ausências, devido à sobrecarga de trabalho e compromissos. Essa culpa paralisa demais a nossa capacidade de gerenciar o tempo de outra maneira. Temos que criar momentos de convívio significativos, mesmo num dia-a-dia cheio de exigências, cheio de pressões, cheio de ameaças.

As pessoas podem se fazer presentes de várias formas?
Ah, sim. Você pode dar um telefonema no meio da tarde para o seu filho, por exemplo. Pode fugir no meio do dia para encontrar com a sua família. Ou, caso isso não seja possível, você pode decidir desligar a televisão na hora do jantar, em consenso com as outras pessoas da família. É preciso muito esforço para fazer uma profunda revisão do cotidiano. Mas esse esforço está basicamente nas pequenas atitudes. É por meio de decisões extremamente simples que solidificamos os nossos relacionamentos amorosos. A questão da cooperação também é muito importante. Antes havia um regime autoritário no qual dizia-se que criança não pensa. Hoje em dia passamos para outro extremo, no qual os pais se transformaram em súditos dos seus filhos. Na realidade, pais e filhos precisam aproveitar ao máximo o tempo em que convivem juntos, sem extremismos.

Hoje em dia muitas pessoas têm uma febre de entretenimento no final de semana. Desse modo, vários pais saem com os filhos numa busca desenfreada de atividades. E aí fica todo mundo naquela loucura: tem que ir ao clube, tem que ir ao cinema, tem que ir fazer um lanche não sei onde, tem que comprar não sei o quê, tem que ir ao shopping, tudo no mesmo dia, em vez de pelo menos um dia eles passarem uma tarde em casa brincando, lendo juntos, fazendo uma saudável bagunça na cozinha. Você concorda?
Concordo, concordo. Muitas vezes as pessoas perdem boas oportunidades de estabelecer um contato mais íntimo nas suas relações familiares. Há mesmo um apelo muito grande em relação ao consumo. As pessoas, em geral, no final de semana, se perguntam: “O que nós vamos fazer hoje?”

Esse fazer é um “ter” disfarçado?
Exatamente. E também vejo muitas crianças dizendo assim: “Mãe, vamos sair para comprar alguma coisa.”Aí a mãe pergunta: “Comprar o quê?” E a criança responde: “Ah, sei lá, mãe, vamos comprar alguma coisa.” Essa compulsão consumista traz uma agonia muito grande para as crianças. “Já fomos ao cinema, já lanchamos, já fizemos compras, e agora, o que é que nós vamos fazer?” Muita gente acha que as crianças precisam ter um entretenimento permanente, em vez de ter o que deveriam ser prioridades para a família: conviver, fazer alguma coisa compartilhada, criar cumplicidades, sem a obrigação de inventar atividades. As crianças precisam ser apresentadas à beleza do mundo. É muito mais importante para uma criança olhar uma folha, ou uma borboleta, através de uma lupa, num parque, do que passear num shopping center. Tem muitas famílias que transformam os shoppings em lazer, e se esquecem de apresentar a beleza às crianças. E é por meio da beleza que as crianças vão começar a perceber a importância das pequenas coisas, dos pequenos prazeres, nas situações mais simples do dia-a-dia. É assim que vamos plantar nos nossos filhos as primeiras sementes do amor.

Você diz que é essencial apresentar a beleza às crianças. Mas para apresentar a beleza às crianças, primeiro temos que nos reapresentar a ela, certo?
Ah, sim, claro. A maternidade e a paternidade são grandes oportunidades de nos reapresentarmos à beleza. Quantos de nós, ao longo da vida, nos esquecemos da capacidade de nos maravilhar com as coisas simples da vida? E isso nós podemos reaprender com os bebês. Porque, para nos comunicarmos com os bebês, temos que voltar a todo um universo da comunicação não-verbal...

Temos que voltar à nossa primeira sala de aula?
Sim, temos que voltar a ela. É claro que todos nós utilizamos uma comunicação não-verbal o tempo inteiro, por meio da nossa linguagem corporal. Mas raramente pensamos nessa linguagem. Quando estamos nos relacionando com os bebês, com as crianças pequenas, temos que nos preocupar novamente com o nosso olhar, com os nossos gestos, com o nosso toque. E temos de pensar nisso tudo de uma maneira muito forte, para podermos entrar no universo infantil. Além disso, quando estamos em contato com as crianças pequenas, também nos sintonizamos com a maravilhosa capacidade de nos alegrar com as pequenas conquistas. Quando vemos uma criança dar os primeiros passos, ou pegar pela primeira vez um brinquedo, ficamos encantados com essas descobertas, com essas vitórias. E se nós adultos conseguimos revitalizar a nossa sensibilidade, através do olhar da criança, através do nosso próprio olhar, aí podemos redescobrir o maravilhamento com as outras coisas.

Sem nos maravilharmos só diante dos nossos filhos, das nossas crianças?
É isso mesmo. Temos que expandir esse maravilhamento para tudo, temos que estendê-lo, para nos conectar com as fontes da vida. Assim, melhoramos também o nosso relacionamento com os nossos filhos, com as crianças, e melhoramos, em todos os sentidos, os nossos relacionamentos com os outros, e com nós mesmos.

No seu trabalho como palestrante e pesquisadora de projetos sociais bem-sucedidos em todo o Brasil, e também no exterior, você diz que tem constatado um grande crescimento de iniciativas em torno desses três eixos da construção da paz, envolvendo pessoas de todas as idades, cuidando do desenvolvimento das comunidades e da preservação do meio ambiente. O que é mais enriquecedor nessas suas andanças?
Realmente costumo viajar muito.









       
 
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