| |
|
|
Uma estreia luminosa Janaína Michalski lança Onde o sol não alcança e já amanhece como uma das mais brilhantes revelações da literatura infantil brasileira
 Janaína Michalski: “A literatura me leva para dentro de mim, para fora de mim, para dentro do outro, para o coração do mundo”.
Márcio Vassallo
Bem, vamos fingir que eu não sei, para você contar a quem ainda não sabe. Então, Janaína Michalski, me conte, como nasceu Onde o sol não alcança, seu livro de estreia na literatura, publicado pela Nova Fronteira? Janaína Michalski - Foi enquanto adaptávamos o seu livro A princesa Tiana e o sapo Gazé para o teatro. Antes de nos conhecermos e nos encontrarmos para trabalhar no roteiro da peça, eu já conhecia todos os seus livros infantis. E foram eles e depois a convivência contigo que me abriram os horizontes para as histórias para crianças. Minhas referências de bons livros infantis estavam fora de moda, estavam lá atrás na minha infância, com Condessa de Ségur, Monteiro Lobato e mesmo o Ziraldo. Não quero cometer o pecado de chamar alguns clássicos de démodé, mas as necessidade de identificação passa também pela contemporaneidade, não é? Eu achava os livros que meu filho me trazia muito sem graça, de linguagem fragmentada - que tem a ver com nossa época super áudio-visual -, mas que não é literatura. Eu sentia falta de estética nos livros infantis.Estética no texto, claro. E o meu Onde o sol não alcança conseguiu nascer quando eu entrei em contato com uma estética com a qual eu me identifiquei. Com você e outros autores que você me apresentou. Por exemplo, a Marina Colasanti e o Manoel de Barros que têm lindas histórias para crianças e eu não conhecia até poucos anos atrás.
E como será que nasceu em você a vontade de escrever histórias? Janaína - Comecei a escrever histórias na adolescência. Naquela fase em que todo mundo precisa se expressar de qualquer forma. Das poucas coisas que mostrava para os amigos e para a família, eu chocava todo mundo. Eles diziam: “Nossa, que coisa forte!”, “Puxa, eu consigo enxergar o que você escreve!”. Mas só na faculdade de jornalismo, incentivada por grandes professores, que eu peguei gosto e não parei mais. Hoje, para mim, escrever histórias é a mesma coisa que viver. Não existe a vontade de escrever. Existe o escrever, apenas.
Foi o seu filho, Leonardo, de oito anos, que deu o título para o livro. De que outras formas o Leonardo mais te inspira? Janaína - O Léo me pira mais do que inspira. Agora mesmo estou numa fase de expirar bastante por causa de um skate que ele ganhou. Ele tem aquele jeito gentil e educado de ser e chega em casa com os joelhos estraçalhados, escorrendo sangue até o chão. E na maior calma: “Mãe, lava aqui prá mim que minha mão também tá doendo”. Mas claro, ele é uma fonte constante de inspiração com suas observações, com sua visão de mundo original, com umas coisas bem essenciais. O Léo me leva até as coisas mais essenciais desse percurso que é a vida. Ele me ensina a relaxar dentro do que eu sou e a aceitar o mundo como ele é. Isso acaba se traduzindo em aprender a aceitar e respeitar a individualidade dele. Como o amor que ele tem por chinelos.
Como é esse amor do seu filho por chinelos? Janaína - É outro negócio de pirar. Ele simplesmente se nega a usar calçados. Usa tênis só porque faz parte do uniforme da escola, porque é obrigado. Fora isso usa chinelo para tudo. Até para jogar futebol ou basquete. Não há argumento de elegância ou outro qualquer que o faça mudar de ideia. Das vezes que o convenci a colocar sapato me arrependi amargamente porque ele estraga qualquer programa. Fica com um mau humor horrível quando está calçado.
De que modo você acha que mais inspira o Leonardo? Janaína - Acho que ajudo o Léo a colorir algumas angústias e ansiedades quando faço leituras leves de coisas que ele me traz. Ele vem com problemas bem cabeludos e eu ensino ele a fazer uma depilação a jato! Ele já me disse que sou a melhor mãe do mundo porque sou a mais bocó. Por um lado, acho que eu ser bocó inspira leveza na vida dele, por outro lado, inspira responsabilidade. Ele percebe que eu não vou me responsabilizar pelas coisas dele.
Ser bocó é uma vocação, um dom, uma benção, uma danação, um exercício, um sinal de maturidade? Janaína - Sem dúvida nenhuma é tudo isso junto. Não há inocência em ser bocó. Eu diria até que é um posicionamento político. E social também.
Como o desejo de escrever costuma amanhecer dentro de você, Janaína?
Janaína - Quando eu leio uma cena da vida real e percebo que aquela leitura é só minha sei aquilo pode ir para o papel. Ou quando estou conversando com alguém e conto alguma coisa, normalmente banal, e a reação é inusitada, dá vontade de escrever também. Uma coisa que eu descobri é que a minha inspiração está na convivência, nos relacionamentos, em reparar nas pessoas. Se estou num período mais sozinha não sai nada. Mas se estou mais social, frequentando um curso, na gravação de um filme, no meio de bastante gente, a produção aumenta. Pode parecer bobagem, mas para mim foi uma descoberta importante. Eu nunca vou para uma ilha me isolar para escrever.
Há momentos em que você precisa se isolar? Janaína - Isso nunca aconteceu comigo. Em todos os momentos eu preciso de gente em volta. Às vezes eu preciso de mais gente e não de menos gente. Porque minha vida é naturalmente solitária. Venho de uma família muito pequena, fugitiva de guerra, que está esparramada pelos quatro cantos do planeta. Fora isso, meus pais optaram por se desgarrar do Sul e viver outros horizontes. Gostaram tanto que nunca mais voltaram. Lá se vão quase 30 anos. Hoje moro sozinha com o Léo. Mas procuro estar perto dos amigos, sempre, sempre. Nossa casa tem uma vocação enorme para visitas, festas e hóspedes. Volta e meia aparece alguém para passar um tempo. Nós adoramos. O normal é ficar aliviado quando um hóspede, mesmo que muito querido, vai embora. Nós, não. Sempre achamos que poderia ter ficado mais um pouco.
O que amanhece sempre dentro de você? Janaína - Vida. A vida amanhece sempre dentro de mim, mesmo que o resto todo anoiteça. E olha que às vezes vem cada noite com tempestade, que parece não ter fim, dá medo. Nessas fases, o que me segura é essa vontade de viver que sempre amanhece dentro de mim.
E quando está amanhecida, nada te segura? Janaína - Quando estou amanhecida, está tudo bem, a gente vai tocando a vida. Mas tenho muitos freios que me seguram. Não sou tão desenfreada como pode parecer. Sempre existe algo que nos segura. E isso é bom. Ruim é quando tanta coisa te segura que você não vai em frente, não sai do lugar, não cresce, não vive.
Como já escrevi na quarta capa do seu livro lindo, sem me segurar, mais do que contar a deliciosa história da amizade dentre duas meninas vizinhas, e de um muro que as aproxima, em vez de afastá-las, você atravessa fundo os sentimentos mais simples e sublimes que vamos deixando de lado ao longo do tempo, por causa das nossas pressas, dos nossos atropelos, das nossas perdas, dos nossos medos, da nossa falta de reparo no que é realmente essencial. Para você, o que é essencial para escrever uma bela história? Janaína - Você foi muito generoso nessa quarta capa... Para escrever história bonita o essencial é se despir... Sempre, sempre... Escrever por pura necessidade, sem amarras. Quando você é livre para deixar a história pulsar, crescer, a ponto de pular para o papel, normalmente nasce algo bonito. Falo da liberdade de tempo, de preconceitos, de necessidade de aceitação. Ter que escrever é horrível. Claro, como jornalista a gente escreve textos com prazos, para alguém gostar, com um conteúdo específico. E não morre por causa disso. Mas não é literatura. E está longe de ser belezura.
Afinal, para você, o que é belezura? Janaína - É tudo que tem de mais simples na vida. Tudo que é o mais natural possível, como uma maçã. E também coisas naturais e inusitadas de certas pessoas. Outro dia, vi um ilustrador trabalhando. Ele usava só lápis preto e papel. Mas enquanto desenhava com a mão direita ele ia sombreando o desenho com a mão esquerda. Fazia um movimento tão suave no papel, e muito lentamente ia alcançando o efeito desejado. Eu achei isso de uma belezura incrível. As coisas forçadas que me desculpem, mas a beleza mora nas expressões mais naturais.
As coisas forçadas te cansam a beleza? Janaína – O forçado, o falso, o anti-natural e as vaidades que levam a isso tudo me cansam, sim. Falando de gente, claro. Porque amamos certos falsos como o cinema. Mas, olha, conheço pessoas que estão sempre correndo atrás de serem alguém que não são, de mostrar coisas que não têm. Isso em qualquer classe social. É tão estranho e cansativo! Não tenho paciência. Admiro o exercício de se despojar das vaidades e tentar encontrar um sentido para o nosso mundinho. Nosso mundinho... Conscientizar-se de que é apenas isso pode ser um grande passo de despojamento!
Assim você começa Onde o sol não alcança. "Nana gostava de ir para o quintal da casa dela só pra ficar olhando a imensidão que ia da varanda até o muro dos fundos". Que tipo de imensidão você mais gosta de ficar olhando, Nana, quer dizer, Jana? Janaína - Ah, Márcio, você sabe pegar no ponto fraco, não é? Acabou de descobrir um segredo meu! A coisa que eu mais amo na vida é olhar imensidão. E as que eu mais gosto são as imensidões que tem por dentro. Já viu como certas pessoas são tão infinitas por dentro? Eu paro para olhar. Às vezes é uma doçura imensa ou uma cor de olho. Meu pai tem um olho de um azul mais infinito que já vi. Conheço algumas crianças que tem tanta alegria, que não cabe nelas. Tem gente que tem um silêncio sem fim dentro do peito. Esse é mais triste de olhar.
Mas tem silêncio sem fim que é bom de olhar, não acha? Janaína - Não acho não. Silêncio de gente é muito triste. Muito mesmo. É de corroer o coração. Das vezes que resolvi me calar, adoeci. Outras vezes que tive de encarar o silêncio dos outros, adoeci também. Pode haver silêncios de coisas que são bons de olhar. O silêncio do céu, das árvores... Mas de pessoas, nem pensar.
Quais os seus silêncios favoritos? Janaína - Gosto de silêncio que a chuva traz ao meu coração. Tem um cantinho no meu quarto muito bom para curtir esse silêncio. Ah, um silêncio muito legal é aquele que bate depois de um cinema ou um teatro. A gente fica em silêncio um tempo para só depois conseguir falar do que viu. Gosto também do silêncio da cidade de madrugada. Há uma música nesse silêncio, já ouviu?
Já, eu já ouvi, sim. É a música de um silêncio desengarrafado, não é? Mas olha, silêncios à parte, você também é jornalista e trabalhou como editora de programas da Globo News e de outras emissoras. Quando estava na televisão, algumas pessoas te cobravam mais objetividade e menos poesia? Janaína - Ah, sim, completamente. No início eu penei muito. Queria colocar só coisa bonita no jornal. Ou no mínimo coisas verdadeiras, essenciais. Os colegas davam muita risada comigo. Mas até que eles davam o braço a torcer e eu conseguia deixar o jornal mais leve, mais humano. Hoje, como roteirista, consigo mesclar com mais equilíbrio a informação, muitas vezes dura e cruel – como em certos documentários – com uma linguagem e um formato mais leve. Continuo acreditando que falar de porrada é uma coisa e dar porrada é outra. Não sei se é possível falar de porrada sutilmente, mas às vezes a objetividade é tanta que abro o jornal ou ligo a TV e sinto que levei um soco no olho. A gente sabe que existe um milhão de maneiras diferentes para se contar uma história, qualquer história, jornalística ou não. Eu gosto procurar a forma menos agressiva possível.
Hoje, no seu trabalho, há quem te cobre mais poesia e menos objetividade? Janaína - Só no meu trabalho de mãe. Meu chefinho Leonardo me cobra isso, sim. Às vezes com palavras duras, mas na maioria das vezes com um olhar que quer se encostar, com um cansaço que bate e pede um abraço, com uma piada que espera uma gargalhada. Ele é um chefe que está sempre me lembrando que podemos encerrar o expediente agora mesmo e ir até a sorveteria italiana, abrir um tabuleiro ou nos embolar no sofá para ver TV.
O Leonardo é um chefe abridor de recreios? Janaína - Sem dúvida. Outro dia estávamos entre amigos, num papo sobre preferências e tendências para o futuro, e eu perguntei o que mais ele gostava na escola. Lógico que ele respondeu “a hora do recreio”. Insisti, argumentei e ele “ok, também gosto da hora do relax, que vem depois do almoço”. Ele é especialista em recreios. Tomara que fique assim a vida toda. É a minha oração por ele. Por um lado, admito que fico muito brava quando ele resolve abrir recreio no meio de uma conversa séria ou na hora do dever de casa. Por outro lado, acho que a bênção mais maravilhosa que uma mãe pode ter é um filho PHD em recreio. É a certeza de que ele é feliz.
O que os recreios abrem em você, Janaína? Janaína - O recreio é a própria vida. O resto é balela, opressão, conversa mole de fazer dormir qualquer boi grande. Recreio de adulto é o “dar um tempo”. Eu vivo hoje dentro desse “dar um tempo”. E de vez em quando dou uma trabalhada. Mas vou te contar que conquistar isso dá muito trabalho e é necessário muita coragem também. Porque a gente tem uma tendência, talvez cultural, não sei, de ficar amargando num trabalho, num casamento, numa situação familiar que oprime a gente. Às vezes até uma cidade. Não é fácil romper. Mas quando a gente consegue se demitir dessas opressões e permitir com que esse recreio se abra, é um mundo novo e muito bom que se apresenta. Tudo flui.
Você também já foi artista de circo e bailarina. De onde vem o seu amor pela arte, pelo encantamento, pela beleza? Janaína - Vem da barriga da minha mãe! Nasci assim, Márcio, nem sei te responder isso. A estética sempre esteve grudada no meu olho. Chega a ser engraçado pensar nisso. A necessidade de rasgar um espaço cênico, no caso da dança, ou de ver o mundo de cabeça para baixo, no caso do circo é a mesma que me move a escrever, a contar uma história de trás para frente, a colocar cintilância numa coisa que eu vi e recontar com outro brilho. O amor pela arte é o amor à possibilidade de construir o mundo como a gente quiser. Dançar para mim significava dizer ao mundo: vocês usam seus pés para calçarem sapatos, eu prefiro ficar na pontinha deles, o mais esticadinha que eu puder e ainda assim me sentir livre, livre! Hoje essa lógica se aplica ao escrever. Com papel e caneta algumas pessoas escrevem atas, listas de supermercado, fazem jogo da velha... eu prefiro voar, esculpir frases até se transformarem em histórias boas de contar, gostosas de ler.
O que torna uma história gostosa de ler? Janaína - Fluidez e ritmo com uma surpresa dentro. Isso é Ítalo Calvino em Seis propostas para o próximo milênio. Nas palavras dele: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência. Ganhei esse livro do meu pai aos 14 anos. Até hoje não encontrei nada que me colocasse tão no rumo das qualidades de um texto.
Há belezas que te puxam todos os dias? Janaína - Claro! Todos os dias abro a janela da sala e um pedacinho de mar que aparece no fim da minha rua, puxa meu olho. O mar é demais, né? Puxa todo mundo. Mas vou te contar uma só minha: eu adoro dar e receber bom dia, acredita?
Bom dia, Janaína... Obrigada, obrigada, Márcio... Mas é verdade mesmo. Tem uma beleza dentro do bom dia que me faz acordar. O dia é um cacho de belezinhas que vão puxando a gente. Normalmente quando o cacho pesa, surge um texto.
Para surgir um texto, qual o ritmo da sua inspiração? Ele varia de acordo com o seu dia, ou é o seu dia que varia de acordo com o ritmo? Janaína - É um ritmo com vontade própria. Quando eu corro atrás dele, costuma não dar as caras. Quando não estou nem aí, ele aparece. Igual a amor bandido. Tem uma variação mas não é de acordo com o dia, não. É de acordo com o nada.
E para onde a literatura mais te leva? Janaína - A literatura me leva para dentro de mim, para fora de mim, para dentro do outro, para o coração do mundo. Os livros dos outros ou a minha própria expressão através de palavras são a principal ferramenta para catar meus fragmentos e me construir ou para quebrar meus vasos, numa desconstrução que às vezes é necessária.
Não sabia que você quebrava vasos. Os vizinhos costumam reclamar? O que você tanto carrega nesses vasos? Janaína - Olha, os vizinhos não reclamam não. Às vezes até participam e dão uma força. Moro sozinha com uma criança, tem que ter alguma solidariedade em volta. No meu caso, em volta literalmente: conto com meus vizinhos para várias coisas. Quem tem solidariedade não precisa ter plano de saúde. Mas voltando aos vasos. Eu não carrego eles, não. Mas quando me dou conta eles estão lá, construídos e às vezes cheios de entulho, lixo da pior espécie. Isso acontece com todo mundo, é normal. Mas é preciso estar atento, não é mesmo? Não podemos deixar que mágoas, medos e inseguranças tomem conta da gente. Temos que limpar essas coisas para dar passagem para a vida.
Para você, no fundo, onde será que o sol sempre alcança? Janaína - O sol alcança a gente, alcança o mundo todo. É lindo pensar que ele está aqui, em cima do Brasil inteiro. E é quentinho, uma delícia. Eu adoro o abraço do sol. Nasci no inverno mais rigoroso da década de 1970, em Porto Alegre, e talvez por isso não vivo sem o sol. Mas tenho que admitir que ele é superficial. Ele só vai às superfícies. Se você quer uma resposta de funduras eu só posso te falar de lugares que o sol não alcança de tão fundos, de tão infinitos: uma saudade, um suspiro, um favor, um gesto, um telefonema, um olhar, um sorriso, uma palavra de entendimento, um abraço, uma vontade, um colo, um estender de mão, uma pergunta de alguém que te conhece. Essas coisas, às vezes, podem conter uma fundura indescritível, inalcançável.

|