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O PODER DA FANTASIA NO MEIO DA GUERRA
Com mais de 125 mil livros vendidos na Jordânia, Luciana Savaget destaca o papel do sonho em nossas vidas e fala sobre sua bela e perturbadora experiência envolvendo jovens em situações de alto risco, na Faixa de Gaza e em favelas no Rio

 


Luciana Savaget: “O sonho é a nutrição da vida”.

 


Márcio Vassallo

 

Luciana querida, me fale um pouco, ou um muito, do seu mais novo sucesso, na Jordânia. Publicado no Brasil pela Nova Fronteira, Operação resgate em Bagdá foi lançado na Jordânia e teve uma mega compra do governo de lá, certo?
Luciana Savaget -
Sim, foi uma grande emoção ter o Operação Resgate em Bagdá traduzido em árabe. Realmente foi uma surpresa boa saber que o Ministério da Educação palestino comprou  100.000 exemplares e que  os livros em edição normal, em árabe, já ultrapassaram a marca dos 25.000 livros vendidos. São muitos zeros para se imaginar que existam leitores numa região arrasada por tanta guerra, não é mesmo? Doei os direitos para o Instituto Tamer, ong que trabalha com crianças vitimas da guerra e que vivem em campos de refugiados.

Como nasceu a ideia da SIRF (Sociedade de Resgate à Fantasia)?
Luciana Savaget -
A SIRF é uma organização poderosíssima. Existe há séculos e em todos os países. A organização nasceu da vontade de resgatar os sonhos escondidos, esquecidos, ou sufocados no coração das pessoas.

Quando a gente fala em fantasia e encantamento, muita gente acha perda de tempo, ou algo restrito ao universo infantil no seu mais sentido mais pejorativo, como se houvesse sempre coisas mais urgentes e importantes para nos preocuparmos. A que você atribui esse estereótipo?
Luciana Savaget -
Tenho pena de quem pensa assim. O que será de uma pessoa que não sonha. Os sonhos movimentam a ciência, a tecnologia, o mundo, a vida.

Em que aspectos o resgate à fantasia é mais urgente na vida da gente?
Luciana Savaget - O aspecto mais importante é o sustento da nossa existência. O sonho é a nutrição da vida.

De que forma você resgata a sua própria fantasia, minha amiga?
Luciana Savaget -
Escrevendo... Conhecendo crianças. Ajudando jovens a pensarem que a vida tem futuro.

Num artigo publicado no jornal O Globo, você contou que esteve uma vez na Palestina, tentando entrar numa zona de conflito bélico permanente. “De repente, surgiu um posto de controle, o chamado chek-point, com soldados armados, todos adolescentes, apontando seus fuzis em nossa direção. Hostis, inspecionaram a placa e a permissão do veículo para circular naquela região onde a linguagem é a do ódio e do sangue. Um deles nos perguntou: “O que vocês vieram fazer aqui, é a morte que procuram?”. Depois, no mesmo texto, você lembra que passou por uma situação muito semelhante, tendo o carro interceptado por adolescentes traficantes, também armados, na favela da Maré , no Rio (...). No fundo mais fundo de todos, o que aqueles soldados palestinos têm mais em comum com os jovens do tráfico carioca? Será que é o sentimento de fatalismo, de que não há jeito, de que eles não têm escolha, de que a eles só resta lutar até morrer?
Luciana Savaget -
Tanto lá (no Oriente Médio) como aqui (no Brasil) a vida é tratada de forma banal. As crianças são acostumadas a testemunharem massacres, assassinatos, violência, exatamente como os meninos e meninas do Rio de Janeiro, cidade em que vivo. A diferença é que a nossa guerra não é uma disputa por terra, é uma disputa pelo território do tráfego de drogas.

O que pode mudar esse sentimento fatalista no pensamento de uma criança, ou de um adolescente que vive em zonas de profunda violência?
Luciana Savaget -
Muito complicado e complexo. Mas responderia de maneira mais simplista em relação ao Brasil: EDUCAÇÃO – em letras garrafais.  

Outro trecho do seu belo texto: “A Faixa de Gaza é a mesma na Maré ou na Palestina: ao anoitecer, no silêncio entre as ruelas, palpita o medo dos homens, fardados ou bandidos. As invasões repentinas, as bombas exterminadoras, os tiros ininterruptos, os terroristas uniformizados ou seminus, os vizinhos inimigos, todos e tudo fazendo parte de uma disputa que também é quase igual: pelo domínio do território e se valendo da forma insana, da violência ilimitada”. Para você, acima de tudo, o que realmente leva a toda essa violência insana e ilimitada?
Luciana Savaget -
A falta do sonho de paz.  As pessoas individualmente querem a paz, mas os governantes sofrem com a possibilidade dela. Meio doido, mas é realmente isso que acontece. São muitos interesses envolvidos para uma simples solução: a paz.

Pensamento seu: “Militantes das palavras, nós, escritores, sabemos inútil qualquer retórica diante da eloqüência do sangue. Seja no Brasil, na Palestina, em Israel, no Afeganistão, na Colômbia ou no Haiti, nossa tarefa é humanizar a história da qual somos simultaneamente criadores e personagens”. O que é essencial para humanizar uma história?
Luciana Savaget -
Uma poderosa arma é a palavra. Mas três letrinhas podem humanizar qualquer história, o “P”, o “A” e o “Z”, juntas formam a palavra PAZ.  

Você de novo: “Em situações de emergência, o escritor parte à procura de um papel moral, um papel para resgatar valores, dos quais o mais importante é a liberdade de sonhar por uma condição melhor de existir”. Em que momentos você sente que consegue, de fato, resgatar valores com a sua palavra, o seu trabalho, a sua militância, Luciana?
Luciana Savaget -
Quando conto história para crianças que vivem em situação de risco, como os jovens do projeto Vida Real, na favela da Maré. Com eles aprendi o poder das palavras e o poder que tem o resgate da Fantasia e da SIRF.

O que você mais tem feito hoje em dia, querida?
Luciana Savaget -
Eu sou uma caixinha de sonhos, não paro. Faço mil coisas ao mesmo tempo. Escrevo, dou palestras, sou coordenadora de pós graduação em telejornalismo, diretora de uma TV universitária. Não paro, como no verso do poeta português Antônio Gedeão: “Sou uma bola colorida nas mãos de uma criança.”

Sem parar, mais do que tudo, para que serve a literatura na sua vida, Luciana?
Luciana Savaget -
A literatura é o ar que eu respiro.

 









       
 
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