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Com passaporte para o encantamento e a beleza Flávia Lins e Silva lança o Diário de Pilar na Grécia, revela o que mais a apaixona pela estrada afora, em suas viagens, e mostra de que forma a literatura nos faz olhar com fundura para tudo
Flávia Lins e Silva: “Viajar é o que mais me abre a imaginação”.
Márcio Vassallo
Você acaba de lançar o seu Diário de Pilar na Grécia, numa caprichada edição da Zahar, com bonitas ilustrações da Joana Penna. Seus outros livros com a mesma personagem são A folia de Pilar na Bahia e O agito de Pilar no Egito. Como é que a Pilar começou a engatinhar na sua ideia, Flávia? Flávia - Comecei a escrever a personagem Pilar há dez anos, e ela tem uma personalidade danada. Depois que terminei o primeiro livro, As peripécias de Pilar Grécia, ela continuou borbulhando na minha cabeça e assim surgiu a série, que agora resolvi reescrever, na primeira pessoa, com a própria Pilar narrando suas aventuras. Assim surgiu o formato Diário de Pilar. Está me dando uma trabalheira enorme, mas também um grande prazer. Uma coisa que adoro é inventar personagens, descobrir a personalidade delas e o que as move.
O que mais move a Pilar? Flávia - Ah, o que move a Pilar é uma curiosidade sem fim. Uma curiosidade desprovida de qualquer preconceito.
No seu novo livro, sem preconceito, você provoca a curiosidade do leitor a cada página, contando a história deliciosa da Pilar, essa menina que divide segredos e encantamentos com o avô, até ele ir para a Grécia e desaparecer da vida dela. De que modo essa história te puxou? Flávia - Acho que relação com avô e avó é coisa muito especial. Eles têm mais tempo, não têm obrigação alguma de educar ou coisa parecida, podem simplesmente curtir a vida junto com os netos. Pilar ainda por cima cresceu na casa com o avô e quando ele some realmente ela não suporta e vai atrás dele, com sua rede mágica. E talvez seja justamente esta ausência que faça ela se mover em direção ao mundo.
É você que escolhe os lugares para onde a Pilar vai viajar, ou, quando percebe, é ela que viaja e te escreve de lá depois? Flávia - Tem vezes que Pilar viaja mesmo antes de mim, chega a ser engraçado. Quando ela embarcou para o Egito, eu nunca tinha pisado naquela terra linda. Então, abri mil livros para pesquisar, viajei pelo computador. Só anos depois tive a chance de conhecer o Egito, descer o rio Nilo num barco a vela, e o país me arrebatou completamente. Agora estou muito contente porque vou reescrever o livro do Egito, já conhecendo o deserto e o rio Nilo de perto. Mas realmente, muitas vezes, Pilar já está lá na frente e eu tenho que correr atrás. Vou confessar: adoro a liberdade dessa personagem que pode ir a qualquer lugar assim, num balançar de rede.
Pergunta para a leitora: o que um texto sempre carece para te fazer viajar? Flávia - Acho que todo livro gera algum tipo de deslocamento. É sempre outra vida, outra história. No mínimo nos leva a descobrir sensações, maneiras de se pensar, faz com que a gente se sinta sob a pele de um outro, mesmo que esse outro seja inventado. Um bom texto para mim carece de encantamento. Gosto do que vai muito além da realidade. Sou fã de carteirinha do Ítalo Calvino, Mia Couto e do mestre Guimarães Rosa.
Pergunta para a escritora: o que você sempre carece para dar viagem num texto? Flávia - Muitas vezes começo um texto pela geografia. Um manguezal com suas raízes expostas, por exemplo, pode me inspirar a falar da nossa lama submersa, assim como as águas infinitas do Amazonas podem trazer emoções profundas. É curioso isso, mas às vezes a ideia brota da natureza que nos cerca. De qualquer jeito, sempre gosto de criar algum tipo de deslocamento, que não precisa ser necessariamente geográfico. Pode ser social, emocional, comportamental.
Assim como a Pilar, você também ama viajar. Aos 16 anos de idade, participou de um intercâmbio e morou com uma família americana, numa fazenda, em Wisconsin, nos Estados Unidos. Depois, aos 18 anos, com uma mochila nas costas, foi ser babá na Europa, onde cuidou de crianças austríacas, alemãs e italianas, e aprendeu francês, alemão e italiano. O que foi mais difícil e mais apaixonante nessas experiências? Flávia - Adoro mesmo viajar. E pode ser para qualquer lugar: do norte ao sul do país, do leste ao oeste do globo terrestre. Sempre quis saber mais sobre o outro, como é a vida nas outras culturas, que palavras trocam que nós não conhecemos, o que comem no café da manhã. Para entender o outro, preciso chegar perto, conviver, vivenciar na pele, e nem sempre isso é fácil. Às vezes, a gente sai meio lascada das experiências. Mas cada viagem é um aprendizado infinito.
Como consequência desse aprendizado infinito, será que ser babá de crianças estrangeiras te deixou com uma fantasia poliglota? Flávia - Acho que a fantasia poliglota existia antes de tudo e por isso fui ser babá. Eu não tinha outro jeito de viajar, precisava trabalhar. Tinha uma gulodice com o mundo que realmente era enorme. Se tivesse tempo e espaço no meu hard disk, hoje aprenderia tupi, chinês e árabe porque realmente acho interessante conhecer novas línguas. Cada língua é um sistema de pensamento diferente, com uma lógica própria, e estes diferentes sistemas me fascinam. Mas sou mais uma curiosa que uma especialista. Os alemães, por exemplo, têm uma obsessão em definir tudo com uma precisão absoluta, enquanto nós aqui passamos receitas de maneira completamente vaga, já percebeu? Mexa até aparecer o fundo da panela, sal a gosto, tudo isso revela nossa fluidez, nossa imprecisão despreocupada, algo muito comum na nossa cultura. Os chineses são completamente metafóricos, suas palavras são verdadeiros poemas. Esquecimento, em chinês, são vários ideogramas juntos que significam morte no coração, olha que coisa linda. Já os árabes vão direto ao que interessa e dispensam qualquer artigo. Os italianos devem ter inventado o superlativo, são muito divertidos em seus exageros, amorosíssimos e dramáticos como ninguém. De qualquer modo, a experiência de babá foi mesmo fundamental na minha vida. Aprendi a ouvir as crianças muito de perto, li e inventei muitas histórias e tive esta vivência de ser babá e empregada doméstica que transformou meu olhar sobre o assunto e é uma coisa que eu jamais esquecerei.
Em 2004, você ganhou uma bolsa da Eisenhower Fellowship para se especializar em entretenimento para crianças. Muita gente vê a palavra entretenimento de forma pejorativa, como se, por exemplo, um livro não pudesse ser lindo e emocionante, não pudesse ser um provocador de pensamentos, e ao mesmo tempo ser uma deliciosa diversão para as pessoas. De onde você acha que vem essa discriminação com a palavra e com o próprio ato de se divertir? Flávia - Eu também escrevo para cinema e televisão e muitas vezes esta palavra é mesmo vista de maneira pejorativa. Entreter pode ser incrivelmente mágico. A bolsa do Eisenhower Fellowship pode ser usada como cada um achar melhor, em dois meses nos Estados Unidos. No meu caso, fui conhecer editoras, produtoras de cinema e TV. Visitei os estúdios da Pixar e da Dremworks, foi uma viagem de sonhos. Sabe, eu acho que o audiovisual pode estar cada vez mais perto do livro. É uma bela maneira também de se contar histórias, mas como o custo é muito maior, a independência para se desenvolver uma história é menor. No Brasil, a cultura audiovisual é fortíssima, mas o investimento em filmes para crianças e jovens é coisa rara. Apenas este ano o Ministério da Cultu ra notou isso e resolveu lançar editais especificamente voltados para o público infantil. Fico feliz com a novidade.
Num livro, num filme, numa peça de teatro, num espetáculo de dança, num show de música, o que não pode faltar para te divertir de forma mágica? Flávia - Tem que ter fantasia, magia, jogo lúdico. Ver a vida dos fantasmas em Pluft, o fantasminha, não é incrível? Acho uma delícia esta liberdade de a gente se relacionar com seres que não existem. Crianças têm um imaginário tão amplo, tão aberto, é uma pena esta mania de realismo no mundo adulto. Eu costumo brincar que agora o selo de "baseado em fatos reais" tornou as coisas ainda mais "importantes". Uma pena. Os adultos precisam se permitir fantasiar mais também.
 Alessandra Missagia e Flávia Lins e Silva
Para você, no seu novo livro, em que aspectos as ilustrações da Joana Penna estão mais cheias de fantasia e mais sedutoras? Flávia - Uma amiga comentou comigo sobre a Joana e, desta vez, eu queria achar um traço mais especial para a Pilar. Então, peguei um avião e fui conversar com ela em Nova York, onde mora. Contei o que imaginava, trocamos muitas ideias e acho que ela entendeu a personagem brilhantemente. Joana tem mesmo um traço muito delicado, é criativa e usa uma mistura de desenhos e objetos que dão um charme muito especial ao livro.
Você já conquistou o Prêmio João de Barro para literatura juvenil com o livro Nas curvas d´água. Para onde costumam te levar as curvas d´água nesta vid a, Flávia? Flávia - Quando ganhei o prêmio o original se chamava Nas curvas d'água. Agora que vai ser publicado, mudei o título para Mururu no Amazonas. Mururu é o nome do casquinho, o barco que a menina Dorinha rema pela imensidão amazônica. O livro vai ser lançado no Salão do Livro para Crianças e Jovens, pela Manati. Estou numa felicidade total com esse livro e com o imenso cuidado que o texto vem recebendo das editoras.
Além de escritora, você também é roteirista e documentarista. Vamos falar um pouco dos seus filmes. Dadá, por exemplo, é um curta com direção de Eduardo Vaisman e roteiro seu. Esse filme conta a história de três adolescentes moradores da favela do Vidigal, no Rio. Acima de tudo, de que forma esse trabalho mexeu com você? Flávia - Este filme ganhou vários prêmios mundo afora. É curioso porque a gente usa a ficção como ponto de partida para conversas documentais. Então em alguns festivais consideraram o filme ficção. Acho que ele é mais documentário do que tudo. Este filme me fez ter muita vontade de fazer outros documentários. Fez renascer o lado jornalístico que estava adormecido. Entrevistar, conversar, pescar respostas é um grande prazer, não é? Ficamos depois muito ligados ao grupo Nós do Morro. Este ano completam dez anos que filmamos Dadá e eu gostaria muito que o Duda Vaisman fizesse a continuação do filme, com os mesmos atores, dez anos depois.
Em Vício de liberdade, com direção e roteiro seus, de Vinícius Reis e do Eduardo Vaisman, você mostra a trajetória do Brasil, da década de 60 à eleição do Lula, pela ótica do jurista Evandro Lins e Silva. Será que o Brasil ainda é viciado em liberdade? Flávia - Este foi um filme bastante amador, no melhor sentido da palavra. Foi um filme feito com muito amor e muita amizade. Ganhamos um prêmio do estado do Rio de Janeiro que até hoje não foi pago. Tivemos que contar com a boa vontade de muita gente para realizá-lo. A videofilmes emprestou a ilha de edição, até hoje devo a alguns amigos e por sorte o GNT entrou na reta final. O filme também participou do festival de documentários de Amsterdam que é a Meca dos documentaristas, um festival lindo, imperdível.
Quais as liberdades que realmente te viciam? Flávia - O direito de ir e vir, isso é o que chamo de liberdade. E gostaria de um mundo sem fronteiras, acho que isso que aconteceu na unificação da Europa e mesmo o nosso Mercosul já é um primeiro passo. Essa paranóia que tomou conta dos aeroportos é a coisa mais triste que tenho vivenciado nos últimos tempos. Tem guarda abrindo mamadeira para checar se o leite é leite, veja que coisa absurda. Adoraria fazer um documentário nestas filas de aeroporto para mostrar a maluquice que estamos vivendo.
Das maluquices do aeroporto para a beira do mar, outro filme seu é o documentário Faixa de areia, em que você e a Daniela Kallmann mostram se a praia no Rio de Janeiro é mesmo um lugar democrático, como dizem. Mais do que tudo, o que você constatou quando terminou esse documentário? Flávia - O documentário não conclui, ele apenas levanta perguntas e cada um que vá somando suas respostas pessoais. Cada resposta faz o público lembrar de algum momento seu, pessoal e, como disse meu mestre Eduardo Coutinho, quem completa um filme é o público. Adorei fazer o filme das praias porque pude ver mais de perto a nossa realidade do Rio de Janeiro. O que mais me impressionou foi ver a quantidade de gente que perde o emprego e vai trabalhar na praia. E o brasileiro gosta de trabalhar sem patrão, fazer seu horário. Nem sempre é fácil, mas dá uma sensação maior de liberdade a esses trabalhadores.
No seu site, você revela alguns dos sentimentos e pensamentos que teve nas suas viagens pelo Brasil e pelo mundo. Do Egito, por exemplo, você conta: “Descobri que o deserto é igualzinho a uma folha em branco. Parece que não vai mostrar coisa alguma, mas aos poucos tudo vai se revelando”. O que uma folha em branco não é nunca capaz de te revelar?Flávia - Ora, se eu soubesse, é porque teria se revelado, não é? Brincadeirinha, brincadeirinha... Por enquanto, a folha em branco tem me revelado muitas coisas. Acho sempre um prazer, um desafio começar uma nova história. Gosto dos inícios. Difícil é o que vem depois, não acha?
Ah, não sei, só vou saber depois, não é? Brincadeirinha, brincadeirinha... Mais um belo pensamento seu, Flávia querida: “O deserto é um exercício para a imaginação. É um espaço para o que está por vir”. De que outras formas você exercita a sua imaginação? Flávia - Viajar é o que mais me abre a imaginação. O exercício do novo, o olhar virgem. Experimentar comidas, imagens, línguas, isso é incrivelmente rico para qualquer mente criativa.
Tem vezes que você se cansa de tanto imaginar? Flávia - Eu brinco que o problema é que meu trabalho sou eu. Aonde eu for, pode surgir uma ideia e a vontade de escrever. Carrego sempre um bloquinho na bolsa e isso é mesmo um vício. Não cansa, não. Para mim, inventar histórias é um prazer sem fim. Mas às vezes a história sai em pedaços, não é? A gente registra o que surge primeiro, deixa decantar, depois trabalha em cima, porque nada nasce prontinho, não.
Mais um pensamento seu: “O Nilo é o rio mais fácil de se velejar que há no mundo: para um lado, o vento leva, para outro, a correnteza carrega”. Que ventos mais te levam, que correntezas mais te carregam nesta vida? Flávia - Amizade é uma coisa que me carrega. Essa invenção do Skype, olha que coisa linda. Posso falar com amigos no Egito, na Inglaterra, na China. Agora, uma coisa que eu queria muito nesta vida era saber voar, feito Ísis ou Mary Poppins. Muitas vezes sonho que estou voando, flutuando mesmo, com a maior simplicidade, com o vento como cúmplice. Sou mesmo apaixonada pelo vento. Chega a me dar arrepio sentir o vento antes da tempestade. Tenho vontade de correr para o jardim, para ver o vento movendo as nuvens, agitando as árvores. Assistir aos pequenos movimentos da natureza é coisa que me transborda o coração.
Com o coração transbordado, de Ollantaytambo, no Peru, a caminho de Machu Pichu, você escreveu: “É um desses lugares onde o tempo passa mais devagar e podemos apreciar tudo com calma”. Será que nesses lugares o tempo realmente passa mais devagar e aí podemos apreciar tudo com mais calma, ou será que justamente por apreciarmos tudo com mais calma é que o tempo passa mais devagar? Flávia - Sair da correria do dia a dia é coisa fundamental para mim. Vivo procurando cantinhos para visitar, perto ou longe. E existem lugares muito mágicos neste mundo. Ollanta e Machu Pichu estão nesta lista, com certeza. A Amazônia é outro desses lugares.
Você costuma dizer que a Amazônia é o lugar mais maravilhoso que existe. Assino embaixo do que você diz e mando reconhecer firma. Para você, o que a Amazônia tem que não a gente não pode encontrar nos mapas nem nos livros? Flávia - Na Amazônia a gente tem a sensação que o mundo está sendo feito ali, naquele exato instante, debaixo do nosso nariz. A cada curva do rio, brota mais vida. É de um encantamento sem fim.
Também pela estrada, recentemente, você esteve na Feira do Livro de Bolonha, na Itália, a mais importante do gênero de literatura infantil e juvenil. Na sua mala e no seu coração o que você trouxe dessa feira e dessa viagem? Flávia - Estive com a nossas queridas Lucia Riff e Alessandra Missagia, da Agência Riff, na feira de Bolonha, e foi uma experiência inesquecível. Imagine um lugar onde há livros para crianças de todos os países do mundo, em todas as línguas, de milhares de autores. Chega a deixar a gente tonta. Trouxe livros coreanos, livros iranianos e muitas vezes me senti igual a uma criança que admira mil imagens antes de aprender a ler.
Como também conta no seu site, na Grécia você foi a Delfos, onde um dia teria existido o famoso oráculo para muitas perguntas e respostas enigmáticas. Há um tipo de resposta que você só acha na literatura? Flávia - A literatura ajuda os questionadores, não acha?
Acho, sim, e alguns questionadores ajudam a literatura... Mas olha, Flávia, que perguntas realmente te questionam e te inspiram para escrever? Flávia - As questões humanas são tantas e tão fascinantes. Adoro cutucar questões mitológicas e psicológicas, gosto de brincar de fazer arqueologia dos contos de fadas, sabe? Acho que tenho este prazer, de buscar o que pode estar por baixo das camadas aparentes das coisas.

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