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TALENTO E SENSIBILIDADE NA ESTRADA DOS LIVROS
Uma das jornalistas mais requisitadas para mediar encontros literários no Brasil,
Cristiane Costa fala sobre a arte da mediação e analisa a presença das novas tecnologias no mercado editorial

 

 

Márcio Vassallo

Vamos começar a falar sobre as suas novidades. Você foi convidada para mediar duas mesas na Flip deste ano: uma com o autor Robert Darton sobre novas tecnologias do livro e outra com escritores contemporâneos. E também vai mediar umas mesas no Festival de Literatura em São João del Rei, em julho. Quais as suas expectativas?
Cristiane Costa -
 Participei das reuniões para a criação da primeira Flip. É sempre com carinho que volto a Paraty todo ano e fico alegre porque vejo que o clima de festa, de reencontro de amigos, continua. Tenho certeza de que o Festival de São João del Rei não vai ser diferente. Os brasileiros sabem escolher muito bem os locais para estas festas literárias: Porto de Galinhas, Mantiqueira, Ouro Preto são sinônimo de boas pousadas, bons vinhos e caipirinhas, boa comida, boas conversas. O que não falta é festival literário interessante hoje em dia. Se duvidar, podemos até abrir uma agência de turismo chamada Literatur.

A ideia é tentadora, Cris. Mas, tentações à parte, como mediadora o que você mais costuma esperar de você mesma num evento literário?
Cristiane - Diria que sou uma mediadora tímida, que foi ganhando canja com o tempo.  Hoje tiro de letra. Mas ainda me lembro do susto que foi quando, convidada para mediar uma mesa na segunda edição da Flip, cheguei a Parati e percebi que não seria numa salinha para 60 pessoas, mas numa tenda para 600!

Qual foi a sua reação?
Cristiane - Eu queria voltar para casa dali mesmo. O engraçado é que comecei minha carreira como professora universitária justamente para curar minha timidez de falar em público. Eu não sabia pensar falando, só com os dedos na tecla. Como na época eu era editora do Ideias (suplemento de livros do Jornal do Brasil), tinha que falar em muitos seminários, em programas de televisão e aquilo me apavorava. Com o tempo, fui perdendo a vergonha e hoje acho que me saio razoavelmente bem. Cheguei a montar meus próprios eventos, onde atuei como mediadora. Ao lado da Valéria Lamego, minha grande parceira, criei e apresentei durante três anos o Laboratório do Escritor, que levou gente como Verissimo, João Ubaldo e Lya Luft aos CCBBs do Rio, Brasília e mais dez centros culturais do Norte e Nordeste. Até para Macapá a gente foi. Também com a Valéria criei e fiz as mediações dos encontros Eu Vejo Novela, no CCBB do Rio, desta vez reunindo autores como Gilberto Braga e Manoel Carlos com pesquisadores como Esther Hambuger e Heloisa Buarque de Hollanda. Mediei vários encontros e ciclos na Casa do Saber e também um encontro chamado Casa do Saber na Livraria da Travessa, que durante seis meses levou Joel Birman, Silviano Santiago, Sergio Paulo Rouanet e outros grandes intelectuais para falar sobre como montar uma biblioteca em suas áreas específicas, como psicanálise, literatura brasileira e filosofia. Enfim, hoje não tenho mais pavor de falar em público. Mas foi preciso enfrentar os meus medos.

E, enfrentando os seus medos, o que você mais espera dos autores numa mesa redonda?
Cristiane -
Que abram seus corações, se revelem, falem coisas para o público que só contariam aos melhores amigos. Isso gera uma conexão irresistível. Lembro que o Laboratório do Escritor com a Lygia Bojunga levou todo mundo às lágrimas, de tão emocionante. Já o do João Ubaldo levou toda a plateia às gargalhadas. Era de passar mal de tanto rir. São exemplos de escritores muito generosos, que tratam o público como um velho amigo.

Em mesas-redondas é comum vermos mediadores que têm uma postura muito passiva, sem interferir nem puxar nada dos participantes, e outros que querem falar mais e expressar mais opiniões que os próprios autores. O que você mais costuma esperar de você mesma numa mediação, Cris?
Cristiane - Dizem que sou uma boa mediadora porque nunca quero aparecer mais do que o autor. Isso é muito claro para mim, desde o início: a estrela é o escritor. Também sou muito curiosa, o que me faz perguntar as coisas que todo mundo gostaria de saber e até ser meio indiscreta. Os mais de 20 anos de jornalismo também me deram canja de saber o que perguntar, como e em que momento. Por fim, faço meu dever de casa, leio, pesquiso, estudo e preparo as perguntas com antecedência. Isso é o fundamental. O mediador tem que conhecer bem vida e obra dos entrevistados.

Numa matéria de oito páginas publicada recentemente na Bravo, com o título de Admirável livro novo, você escreveu sobre as novas estruturas narrativas oferecidas pelo iPad e tablets em geral.  Essa matéria é uma continuação da sua tese de pós-doutorado (que vai ser, ou já foi publicada?). O que te move, o que te perturba, o que te apaixona nesse assunto?
Cristiane - Comecei o pós-doutorado no Paac (Programa Avançado de Cultura Contemporânea da UFRJ) este ano. Temos um grupo de pesquisa, o Polo de Cultura Digital. Meu trabalho não é exatamente uma tese. É uma exploração do universo virtual e das novas estratégias narrativas em mídias digitais num livro de ficção. Ou seja, estou pesquisando estas novas estratégias narrativas para usar num romance que não será publicado, porque só pode ser lido na tela do computador. Nem sempre essas narrativas são capazes de formar um “livro” no exato sentido do termo. O próprio livro deixa de ser um modelo absoluto, uma vez que esses novos gêneros narrativos utilizam-se de vários suportes para sua “publicação” (no sentido original de “tornar público” e não no do senso comum: imprimir). O que surpreende nestas experiências é a sua variedade, com novos gêneros surgindo a cada dia e a cada avanço tecnológico. E também sua espontaneidade. Embora alguns já encontrem uma aplicação comercial, em geral não são desenvolvidos para suprir uma necessidade da indústria editorial. E, sim, para viabilizar necessidades de seus autores se expressarem de uma forma mais coerente com o mundo contemporâneo. É um fenômeno novo, que começou a ser mapeado há cerca de dez anos. A sequência cronológica de surgimentos de novos formatos segue uma linha que vai da narrativa hipertextual, passa pela hipermídia e blognovelas e hoje vive a moda das wikinovelas. São obras que se distinguem pela audácia experimental e por se preocupar em oferecer mais do que uma posição passiva.

Tudo isso parece muito novo, experimental demais, sem qualidade literária que possa ser apreciada pelo leitor comum. No entanto, o hipertexto é forma de leitura/escrita anterior ao computador. Há décadas lemos obras que permitem criar combinações entre suas partes, assemelhando-se à escritura multilinear do hipertexto digital. Entre elas, clássicos que já na sua época revolucionaram a estrutura narrativa. Por exemplo, O livro da areia (1975), de Jorge Luis Borges, O jogo da amarelinha (1966), de Júlio Cortazar; Castelo dos destinos cruzados (1976) e Se um viajante numa noite de inverno  (1979), de Ítalo Calvino. Do livro-labirinto de Borges às construções hipertextuais de Cortázar, tem-se uma outra ordem de leitura que, como prenúncio do hipertexto digital, tenta romper com a linearidade da página impressa.

Acesse aqui a matéria da Revista Bravo

Você está escrevendo algum livro no momento?
Cristiane - Só este romance transmídia, que tem o nome provisório de P@r Perfeito.

No meio de tantos compromissos, você consegue encontrar tempo para ler por prazer, sem um objetivo profissional?
Cristiane - Claro! Mas vivo com o sono atrasado.

Além do convite da Bravo para fazer a matéria, você foi convidada para dar um curso na Casa do Saber, em setembro, e um também curso para o Proler (Programa Nacional de Incentivo à Leitura, da Biblioteca Nacional), que deve rodar o Brasil inteiro. A professora Cristiane disputa o seu tempo com a escritora, ou você consegue dar atenção para as duas sem grandes conflitos?
Cristiane - A escritora sempre sai perdendo.

O que te realmente seduz na sala de aula?
Cristiane - Voltar a estudar. Aprender é a minha grande paixão. Também gosto de pensar que tenho um papel importante na vida de jovens que estão começando a carreira. Ensinar é compartilhar, orientar e aprender, por que não? Os alunos têm muito a nos ensinar.









       
 
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