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CUMPLICIDADE NA FLOR DA IDADE
Em COISAS QUE EU DIRIA À MINHA FILHA, SE ELA TOPASSE OUVIR,
Cristiane Costa aproxima mães e adolescentes, com sensibilidade,
sedução e um texto de abrir papo



"O diálogo aberto é melhor que se esconder atrás de máscaras e mentiras.”


Márcio Vassallo

Depois de publicar a novela AMOR SEM BEIJO, pela editora Global, você segue a linha de temas para adolescentes, com COISAS QUE EU DIRIA À MINHA FILHA, SE ELA TOPASSE OUVIR, publicado pela Planeta. Você está seguindo esse caminho, ou esse caminho está seguindo você?
Cristiane Costa - Acho que é uma coisa natural. Fui uma adolescente muito encanada. Pensava muito sobre tudo. Acho que funciono bem escrevendo para adolescentes, porque eu não sou do tipo de dizer: “Ah, eu era a certinha, fazia tudo certo.” Eu também fazia tudo errado. Não me coloco numa posição superior, cheia de verdades.

O que te encanava mais, Cris?
Cristiane -
Ah, tudo o que está no livro: corpo, namoro, comportamento, medos, futuro... Lógico que tem problemas novos. Namoro na Internet, por exemplo, é uma coisa que não existia.

Como é que está o ouvido da sua filha, a Ana Clara, depois do livro? Apurado, entupido, arejado, estourado, encantado, ou tudo isso ao mesmo tempo?
Cristiane -
Santo de casa realmente não faz milagre. A Ana tem 11 anos e, como típica adolescente, ouvidos muito distraídos. Escrevi o livro especialmente para ela. A idéia nem era publicar. Ia colocando as idéias num caderninho roxo, que ficava na minha gaveta, e planejava um dia dar de presente para ela. Mas você acredita que até hoje a danadinha não leu? As cobaias foram as amigas e as primas.

Acima de tudo, o que você diria hoje à sua filha, se ela topasse lhe ouvir?
Cristiane - Que ela é a pessoa mais importante da minha vida. De todas as coisas que eu disse, é a única que ela não pode esquecer.

Será que as mães estão se declarando assim para as filhas?
Cristiane - Não tenho a menor idéia, não dá para generalizar, mas acho que as mães hoje, em geral, são mais carinhosas que antes. No meu tempo, ninguém chamava as filhas de meu amor. A gente chamava a mãe de senhora. Ainda hoje chamo a minha mãe assim. Mas essa era uma relação minha com a minha mãe, e não quer dizer que não havia amor, era só uma maneira diferente de tratamento.

Na sua opinião, as meninas topam ouvir menos que os meninos, ou os meninos só falam menos e por isso parece que escutam mais?
Cristiane -
Sinceramente, adolescente é tudo igual.

Nem sempre ficar calado é sinônimo de escutar?
Cristiane - Eles até ficam quietos, mas olhando para um lado, para o outro, para o nada, você vê claramente que não estão prestando muita atenção. No fundo, acham que a gente não sabe nada.

Por que será que eles acham isso?
Cristiane - Eles acham que o mundo só começou quando eles nasceram. Acham que nós não passamos pelas coisas que eles passaram. Então, às vezes a experiência dos mais velhos é vista como uma coisa medrosa, sem ousadia, ultrapassada.

Você se lembra de quando a sua filha virou adolescente?
Cristiane - Sabe, eu me lembro exatamente do mês em que a minha filha virou adolescente. Até então ela era uma criança adorável, amável, vivia grudada em mim, me dando beijo e abraço. Agora é um tal de “ai, desgruda, mãe” o tempo todo. Se a gente vai numa festa, ela já vai me catequizando no carro: “Olha, você não vai me chamar de meu amor, você não vai contar história de quando eu era criança, perto dos meus amigos, você não vai me beijar nem me abraçar e, principalmente, você não vai dançar.”

Dançar na frente deles, hoje em dia, também é um mico?
Cristiane - É sim, é sim. A turma da minha filha está junta desde a primeira série. Antigamente deixavam a gente dançar. Hoje os pais têm que ficar até uma da manhã sentados na cadeira. Mas não é só uma questão de mico não. Na realidade, os pais têm que entender que esse é um processo de cortar o cordão umbilical.

Mas esse corte dói?
Cristiane - Ai, eu acho que dói. É um processo de luto para a mãe. Você fica sem o seu bebê, sem a sua criancinha. Depois que viram adolescentes, eles querem mesmo é desmamar, para crescer.

Sobre essa questão, você escreve: "Não, você não é a única. Pergunte em volta. Toda mãe de adolescente tem esse problema. Aquela menina que antes chegava da escola cheia de novidades para contar agora se fecha no quarto, passa horas no telefone cochichando com as amigas, prefere ligar para um programa da MTV para tirar suas dúvidas sobre sexo do que pedir ajuda a você. Se não fala _ a não ser para reclamar que não tem roupa para ir à festa, que o programa que adorava fazer com a família agora é coisa de pirralho - muito menos ouve a mãe. É, o mundo dá voltas. Talvez você tenho sido igualzinha na idade dela." Até que ponto você acha que os problemas continuam os mesmos, até que pontos eles mudaram com os anos?
Cristiane - Esse trecho é parte da introdução dedicada às mães que, como eu, já brigaram muito com seus pais, exigindo mais liberdade. O livro é voltado para mulheres na faixa dos 40 anos, que dificilmente casaram-se virgens, talvez tenham se divorciado, namorado, casado de novo, estudaram, trabalharam, enfim, tiveram uma vida bem diferente de suas mães e avós. E, por terem uma relação menos repressiva com as filhas, achavam que, com elas, tudo seria diferente, do tipo amigas para sempre. Mas as filhas precisam se libertar das mães. E a gente se conscientizar disso.

O que mais afasta e o que mais aproxima mães e filhas?
Cristiane -
O que afasta é a falta de diálogo. De repente, abre-se um fosso e você mal reconhece aquela menina que saiu da sua barriga. O que mais aproxima é o companheirismo, fazer coisas juntas, ser cúmplice e amiga.

Que tipo de ruído mais atrapalha o papo entre a menina e a mãe?
Cristiane - A dificuldade da filha em ver que a mãe também já foi uma adolescente como ela e a da mãe em compreender que a filha não é mais uma menininha, mas quase uma mulher.

Tem mãe que tenta ser só amiga e se esquece de ser mãe, tem mãe que tenta ser só mãe e se esquece de ser amiga?
Cristiane -
Para falar a verdade, nunca soube direito onde acaba uma coisa e termina outra. Mas tenho uma amiga que diz que não tem jeito. Por mais que a gente se esforce, os filhos um dia irão ao analista falar mal de nós.

Você concorda com a sua amiga?
Cristiane - Puxa, não sei, não sei, vou esperar para ver o que a Ana Clara vai dizer de mim.

Também no livro, você diz que talvez a leitora tenha sido igual à filha, quando adolescente: “Mas sua filha jamais acreditará nisso", você completa, e conclui: "Para ela, você nunca ficou na dúvida sobre o que fazer na hora do primeiro beijo, nem roubou ou teve o namorado roubado por uma amiga e jamais teve uma crise por causa de uma espinha que cismou em aparecer bem no dia da festa. O problema é que você já passou por tudo isso e muito mais. Aprendeu, às vezes na marra, dezenas de coisas que gostaria de compartilhar com ela.” De que forma compartilhar sem ditar verdades?
Cristiane - A idéia é que o livro não seja uma lista de conselhos de mãe, mas dicas de uma ex-adolescente. Há poucas coisas no imperativo, tipo faça ou não faça. No geral, são informações úteis sobre temas que vão de menstruação, corpo, namoro, sexo, estudo e trabalho, que podem ajudar a menina a tomar decisões mais equilibradas e evitar cair em roubadas.

Qual a grande roubada da adolescência?
Cristiane - Andei pensando nisso. No meu tempo, a grande roubada era o sexo. Os pais tinham muito medo daquela história de a menina ficar falada, ser vulgarizada, coisa e tal. A gente tinha que ficar sempre na defensiva e os meninos tinham que ficar no ataque. Os papéis eram muito definidos. Isso melhorou. Não é mais como antes. Hoje não tem aquela pressão familiar sobre as meninas, quando os pais ainda tinham um ideal de pureza. Na minha geração quase ninguém casou virgem, quase todo mundo se divorciou, não tem mais aquela pressão tão forte. Mas hoje eu acho que as principais roubadas são a bebida, a droga, a violência. Tenho um amigo que tem uma filha e que diz assim: “Tenho muito medo, porque a droga e a bebida fazem com que a gente faça coisas que não queria, que você sabe não que não são certas.” Concordo muito com ele. Bem, a violência é outra grande roubada. E há uma relação de violência com as drogas. Na minha geração, quase todo mundo experimentou drogas, ou conviveu com pessoas que usavam drogas. Não quero ser careta não. Mas há uma questão ética por detrás disso. Os adolescentes precisam saber que, hoje em dia, quando você usa uma droga, você está desviando o seu dinheiro para um marginal, que pode usar o seu dinheiro para comprar uma arma, fora o perigo do vício, da dependência, de tudo quanto é atraso na vida de uma pessoa.

Será que um dos grandes desafios é descobrir as verdades da própria filha e saber lidar com elas?
Cristiane - A minha filha diz que, de vingança, vai escrever um livro: Coisas que eu não ouviria da minha mãe, se ela topasse não falar. Por ela, eu nunca mandaria 300 vezes por dia escovar os dentes, tomar banho, fazer o dever, essas coisas que toda a mãe faz. É brincadeira. Mas, no livro, dou umas dicas valiosas de como a filha se fazer ouvir pela mãe. Por mais discordâncias e até reações emocionais que um diálogo aberto pode provocar, ele ainda é melhor do que se esconder atrás de mentiras e máscaras.

Em que aspectos lidar com as verdades e os desejos dos filhos é uma arte?
Cristiane - Se você for uma pessoa aberta, isso é absolutamente natural. Faz parte do relacionamento humano respeitar as diferenças. Mas não sei o que faria se a minha filha me dissesse que quer botar um piercing na língua!!!

Em que sentido um piercing mais incomodaria você?
Cristiane -
Ah, eu acho que cada um tem os seus próprios limites, né?

É verdade, é verdade...
Cristiane -
Melhor nem pensar muito nisso...

Tudo bem, é melhor mesmo, vamos deixar os piercings de lado. Outro trecho do livro: "(...) a adolescência é um momento divertido, mas cheio de riscos, físicos e emocionais. Com a experiência adquirida em seus 30 ou 40 anos, você bem que poderia orientá-la, preveni-la, confortá-la. Mas, do outro lado, é bem provável que os ouvidos de sua filha estejam fechados, ou distraídos com alguma novidade, e você só escute um "já sei, já sei, já sei" impaciente. Ou pior: o eterno `nada a ver`." Para você, o que é que mais provoca esse "nada a ver"?
Cristiane - O desprezo pela experiência dos mais velhos, como se o mundo tivesse começado a partir do dia em que o jovem nasceu. E também um certo pensamento mágico de que coisas ruins acontecem aos outros, jamais a ele. Quando a gente cresce, percebe que não é bem assim.

Você escreveu um livro cheio de dicas, pesquisas e orientações, mas também cheio de cumplicidade, cheio de perplexidade, cheio de susto. No momento em que escrevia, você se preocupou com a forma, ou a linguagem foi se achando naturalmente?
Cristiane - Ah, desde o início saiu daquele jeito. No meu já citado caderninho roxo, eu escrevia uma frase e um parágrafo curto que, de certa forma, esclarecia aquela idéia ou informação. Isso se revelou muito prático, porque o livro pode ser lido do início ao fim ou aos saltos, quando um assunto em especial interessar naquele momento. Tentei escrever de forma clara, evitando imitar o jeito "Tati"dos adolescentes, de um lado, e sem apelar para palavras rebuscadas, de outro.

Ah, você disse que está escrevendo uma tese. Qual é o tema, já tem título?
Cristiane - Na verdade, dei um intervalo na tese que venho preparando há quatro anos para escrever este livro. Só não imaginava que teria tanto trabalho. Pesquisei, li dezenas de livros e me informei muito antes de colocar um ponto final em COISAS QUE EU DIRIA À MINHA FILHA, SE ELA TOPASSE OUVIR. Agora estou aqui, em casa, em plenas férias, tentando fazer o mesmo com "Jornalistas escritores no Brasil". A tese retoma o tema de uma pesquisa que, em 2001, foi premiada com a Bolsa Vitae de Literatura. Pego uma questão levantada por João do Rio numa enquete publicada em 1904 _ trabalhar em jornal é bom ou mau para quem deseja ser escritor? _ e aplico a autores que vão de Machado de Assis e José de Alencar a Marçal Aquino e Bernardo Carvalho, passando por Graciliano Ramos, Oswald de Andrade, Drummond, Ferreira Gullar e Cony, entre outros. Mandei essa pergunta para 30 escritores contemporâneos que são jornalistas. O difícil não foi pensar em nomes, mas deixar de fora muita gente. Parece que metade da literatura brasileira fez estágio no jornal.

Afinal, trabalhar em jornal é bom ou mau para quem deseja ser escritor?
Cristiane - Uns 30% dos autores que ouvi acham que trabalhar em jornal é bom para o escritor, outros 30% discordam, e o restante acha que é mais ou menos. Engraçado foi que o resultado da pesquisa foi praticamente igual ao de 100 anos atrás. Na realidade, não dá para concluir se é bom ou mau, depende de cada pessoa, de muitas circunstâncias e muitos pontos de vista.

O que é mais sedutor numa tese, o que te puxa para a vida acadêmica?
Cristiane - Gosto de pesquisar, de ter uma idéia e vê-la tomar forma, crescer, frutificar, descobrir coisas que eu nunca tinha imaginado antes, pensar. Todo mundo tem uma relação de amor e ódio com a sua tese. Um dia você acha que teve uma idéia genial, no outro não sabe por que está perdendo seu tempo. Mas, quando embala, acerta a estrutura e o tom, dá um prazer enorme.

Da universidade para a redação: você é editora do caderno literário Idéias, do Jornal do Brasil, há quatro anos, e antes foi repórter especial e subeditora do suplemento. O que a jornalista Cristiane diria aos escritores, se eles topassem ouvir?
Cristiane - O que eu diria? Que tem livro demais no mundo. Só escreva um se você puder se dedicar a ele de corpo e alma, se for bem realizado e útil para alguém (nem que seja para fazer o leitor chorar ou rir). No mais, é árvore abatida à toa. Na realidade, o caminho das pedras passa, primeiro, por uma boa leitura dos clássicos e, principalmente, dos contemporâneos. Ninguém vai descobrir a roda a uma altura dessas. Cada novo escritor se inscreve num processo histórico chamado literatura ocidental e num determinado momento literário. Não há lugar para ingênuos. É preciso ter consciência dos temas e questões relevantes para seu tempo, e das possibilidades estruturais e estilísticas já abertas por outros autores. Mas historiador da literatura ou crítico literário em geral não dá bom escritor. É preciso ir além das referências e descobrir sua própria voz.









       
 
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