Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1910. Passou a primeira parte da infância na fazenda de seus pais e, aos três anos, voltou a Fortaleza. Em 1917, foi com a família para o Rio de Janeiro e, no mesmo ano, para Belém do Pará, fugindo dos horrores da seca de 1915, que, mais tarde, seria tema de seu primeiro livro. Em 1919, a família retornou a Fortaleza, onde Rachel cursaria o normal. Aos 20 anos, lançou o romance O Quinze e causou sensação em todo o meio literário nacional, uma proeza ímpar para uma menina criada numa província do Nordeste. Ligada às causas sociais, participou do movimento comunista do qual se afastaria definitivamente em 1940. Viveu algum tempo em São Paulo e, depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Escreveu para vários jornais e para a revista O Cruzeiro, da qual foi cronista exclusiva e onde marcou época. É autora de peças teatrais e de traduções impecáveis de Dostoievski, Tolstoi, Santa Teresa de Jesus e Emily Brontë, entre outros. Em 1957, mais de 40 anos antes de completar sua extensa lista de títulos, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Romancista, cronista, dramaturga e autora de obras infantis, uma das principais representantes do movimento regionalista, detentora de vários prêmios literários, com obras editadas em diversos idiomas e adaptadas para tv, foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras. Morreu no Rio de Janeiro, em 2003, aos 93 anos.
Rachel de Queiroz pertencia à categoria de escritoras que não fazem da condição feminina uma bandeira. No entanto, poucas terão feito tanto pela mulher na literatura quanto ela. Acreditava que, assim como sua personalidade, o fato de ser mulher estaria registrado em sua obra sem que fosse necessário esforçar-se para isso. E, realmente, parece impossível separar a literatura de Rachel de sua personalidade. A par das qualidades de estilo, o traço mais marcante da figura humana e da literatura de Rachel é provavelmente a coragem, coragem de ser autêntica, de desafiar a superficialidade para encarar o fundo das coisas e, sobretudo, coragem de ser humana; reflexos daquela têmpera sertaneja que fez Euclides da Cunha proclamar: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” (Os Sertões). Aliás, dos outros três adjetivos com que Euclides descreve o sertanejo – “esperto, resignado e prático” – somente o segundo, “resignado”, não se pode aplicar a Rachel, pelo menos não assim, à primeira vista.
Aos 17 anos, ainda na cidade natal, Rachel, sob pseudônimo, envia a O Ceará uma carta ironizando o concurso Rainha dos Estudantes, promovido por aquele jornal. Diante do sucesso da carta, o diretor do jornal convida-a para colaborar com o veículo. Três anos depois, lecionando no colégio onde havia estudado, Rachel é eleita Rainha dos Estudantes. Aceita o prêmio (e aí, talvez, encontremos o sinal da resignação de que falava Euclides) e, durante a festa de coroação, recebe a notícia do assassinato do governador do estado da Paraíba, João Pessoa. A rainha joga a coroa no chão e sai às pressas, explicando: 'Sou repórter'.
Em 1931, em viagem ao Rio para receber da Fundação Graça Aranha o prêmio de melhor romance, por O Quinze, conhece alguns membros do Partido Comunista e, de volta ao Ceará, colabora na fundação do PC local. Em 1932, é fichada pela polícia como 'agitadora comunista'. A essa época, acabara de escrever seu segundo romance, João Miguel, e é informada de que deveria submetê-lo a um comitê do PC antes de publicá-lo. Semanas depois, em uma reunião no cais do porto do Rio de Janeiro, comunicam-lhe que seu livro não fora aprovado, porque nele um operário mata outro. Depois de reaver seus originais, fingindo concordar com a decisão, declara que não reconhecia no comitê autoridade para censurar sua obra, e foge do local em disparada. Rompida com o partido, aproxima-se do grupo trotskista. Em 1937, com a decretação do Estado Novo, a autora é detida por três meses, acusada de subversão, e seus livros são queimados em Salvador. Em 1940, a notícia do assassinato de Trotsky, por ordem de Stalin, faz com que ela se afaste definitivamente da esquerda.
O espírito combativo, o horror à violência e o desassombro em denunciá-la estão em tudo o que Rachel fez, desde o primeiro romance, escrito sobre as tábuas corridas do assoalho da fazenda de seu pai, enquanto a autora, com 18 anos, recuperava-se de uma doença pulmonar. Elogiado por Augusto Frederico Schmidt e Mário de Andrade, O quinze, um dos primeiros do rico ciclo do romance regionalista nordestino, conta, numa prosa sem enfeites, mas carregada de vivo realismo, a história da família de retirantes tangida pela seca de 1915, em busca do sonho de encontrar na Amazônia um lugar melhor para viver. No caminho a fome e do cansaço, eventualmente amainados pela solidariedade de quem é rico de espírito, vão deixando suas cicatrizes. Sessenta e dois anos, cinco romances, centenas de crônicas, cinco peças, e várias obras infantis depois, Rachel, aos 82 anos, mostra-se ainda mais lúcida, mais inventiva e disposta a retratar sua gente, narrando, em Memorial de Maria Moura, a saga de uma menina de boa família que se transforma em guerreira destemida, líder de homens rudes e disposta a vingar o mal que lhe fizeram. Rachel teve um começo parecido com o de sua personagem e transformou-se num ícone, um monumento inconteste da literatura brasileira.
''[...] tento, com a maior insistência, embora com tão precário resultado (como se tornou evidente), incorporar a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à língua com que ganho a vida nas folhas impressas. Não que o faça por novidade, apenas por necessidade.''
Rachel de Queiroz
Sobre a personagem de Maria Moura
''Como sua criadora incomparável, ela, Maria Moura, é um clássico.''
Ledo Ivo, poeta, membro da Academia Brasileira de Letras
OBRAS
Romances
O Quinze – 1930, 2004, José Olympio
João Miguel – 1932, 2004, José Olympio
Caminho de Pedras – 1937, 2004, José Olympio
Galo de Ouro – 1950, 2004, José Olympio
Memorial de Maria Moura – 1992, 2004, José Olympio
As Três Marias – 1939, 2005, José Olympio
Dora, Doralina – 1975, 2005, José Olympio
Memorial de Maria Moura (edição de bolso - 490 págs.) – 2010, BestBolso
Contos & Crônicas
A Donzela e a Moura Torta –1948, José Olympio
O Homem e o Tempo – Mapinguari – 1964, José Olympio
O Caçador de Tatu (seleção Herman Lima) – 1967, José Olympio
As Terras Ásperas – 1993, José Olympio
Cenas Brasileiras – 1997, Ática
Falso Mar, Falso Mundo: 89 crônicas escolhidas – 2002, José Olympio
Melhores Crônicas (org. Heloisa Buarque de Hollanda) – 2004, Global
Um Alpendre, uma Rede, um Açude – 100 Crônicas Escolhidas - 1958, 2006, José Olympio
Existe Outra Saída, Sim - 2003, 2007, Edições Demócrito Rocha
A Casa do Morro Branco – 1999, 2008, José Olympio
A Lua de Londres – 2010, Fundação Demócrito Rocha
Do Nordeste ao Infinito – 2010, Fundação Demócrito Rocha
Pedra Encantada e Outras Histórias (seleção Maria Luiza de Queiroz) - 2001, José Olympio
Infantil & Juvenil
Xerimbabo (il. Graça Lima) - 2002, José Olympio
Memórias de Menina (il. Mariana Massarani) - 2003, José Olympio
O Menino Mágico (il. Laurabeatriz) – 1969, 2004, (nova edição no prelo), José Olympio
Cafute e Pena-de-Prata (il. Ziraldo) – 1986, 2004, 2012, José Olympio
Andira (il. Suppa) 1992, 2004, (nova edição no prelo), José Olympio
Teatro
Lampião - A Beata Maria do Egito - 1953, 2005 - José Olympio
Ficção & Memória
O não me deixes - 2000, 2010 (116 págs.) - José Olympio
Tantos Anos (272 págs.) – 2010, José Olympio
Poesias
Serenata (128 págs.) – 2010, Armazém da Cultura
Mandacaru (160 págs.) – 2010, IMS
Quadrinhos
O Quinze (Roteiro e Arte: Shiko) – 2012, Ática
Edições Estrangeiras
Alemanha - As Três Marias - (no prelo), Verlag Klaus
México – O Quinze - (no prelo), Facultad de Filosofía de La Universidad Nacional Autónoma de México