segunda-feira 19 de agosto



29 DE JULHO DE 2011 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Luis Fernando Verissimo - Com uma vida rodeada de poesia

 
 
Luis Fernando Verissimo: “O silêncio é como um lençol, o mistério é o que está embaixo. Será um corpo ou roupa suja?” 
 
 
Márcio Vassallo
 
 
Você foi o primeiro entrevistado do site da Agência Riff, em 2003, e agora está sendo o primeiro entrevistado de nosso novo site. Ao longo desses oito anos, em que aspectos você acha que mais mudou e em que sentido você acha que continua o mesmo? 
LUIS FERNANDO VERISSIMO - Eu acho que, ao contrário da agência, não mudei nada. Continuo no mesmo endereço, em todos os sentidos. Talvez o que tenha mudado através dos anos é que nossas relações com a agência e com a Lucia evoluíram, de uma ligação meramente profissional para uma grande amizade.   
 
A Agência Riff está comemorando 20 anos de vida. Nossa querida amiga Lucia Riff nem sonha que vou te fazer essa pergunta. Mas aí vai: o que foi mais decisivo para você topar ser representado por ela?
LFV -  O decisivo foi nosso primeiro encontro, que foi rápido mas bastou para mostrar que ela era uma pessoa capaz, além de simpática, e que estaríamos em boas mãos.
 
O que é mais decisivo até hoje para que vocês continuem juntos nessa parceria? 
LFV - Acho que é porque deu tudo certo, do ponto de vista profissional e pessoal também, e há um clima de confiança e afeição mútuas.  
 
Sempre com a agenda transbordada de compromissos, você é um dos escritores brasileiros que mais viajam por todo o país e pelo exterior, fazendo palestras, participando de mesas redondas, autografando livros, conversando com os leitores em geral. Acima de tudo, o que te move nesses encontros?
LFV - Eu não tenho muito jeito para falar em público e é uma coisa que faço com algum desconforto, mas acho importante ajudar na luta para difundir o livro e criar novos leitores, que é um bom combate. Aceito, principalmente, quando o convite é de escolas, para conversar com os alunos.
 
Normalmente você viaja com a Lucia, sua encantadora esposa. No ano passado, durante três dias, tive o prazer de conviver com vocês, em Belém, quando também participei da Feira Pan Amazônica do Livro. Muito bem humorada, Lucia costuma dizer que assiste às suas palestras para saber o que você está pensando, numa referência à sua fama de tímido. De que modo você mais gosta de saber o que a Lucia está pensando?
LFV - A Lucia é uma pessoa extremamente comunicativa e simpática. Sempre digo que ela é tão simpática que eu não preciso ser.  Imagino que as pessoas digam: o Luis Fernando é aquele anti-social, sério e fechadão, mas a Lucia... Nem sempre sei o que ela está pensando, mas o importante é que ela aguenta os meus silêncios há 47 anos.
 
O que você mais gosta na sua mulher quando vocês estão viajando? 
LFV - Justamente a facilidade dela em se comunicar com qualquer um. 
 
O que você mais gosta nela quando vocês voltam para casa?
LFV - Ela é uma pessoa prática e ativa que sabe contrabalançar as minhas distrações e preguiças. 
 
Será que viajar é uma arte e saber voltar para casa também?   
LFV - É. Deve-se saber ir, mas também saber voltar, e saber para o que se volta. E por que.
 
Das viagens para o mercado editorial, como você analisa a presença da literatura brasileira em outros países? 
LFV - A presença do Paulo Coelho é impressionante, em qualquer lugar do mundo. O Jorge Amado continua sendo lido, a Clarice Lispector tem um grande prestígio num público mais restrito e o Rubem Fonseca também é conhecido. Pelo que eu tenho visto nas minhas andanças por livrarias do mundo, é isso aí.
 
Na sua opinião, o que falta para as editoras estrangeiras investirem mais na publicação dos nossos autores?
LFV - Não sei. Talvez só falte nos descobrirem.
 
Seus livros O clube dos anjos e O jardim do diabo serão adaptados para o cinema, e com produção da Urca Filmes, a Multishow veiculará uma mini-serie baseada no seu livro Ed Mort. A obra também vai ser relançada, e o personagem principal será interpretado pelo Fernando Caruso. O que você mais espera (e o que você não espera de forma alguma) quando adaptam um texto seu para o cinema,  o teatro, a televisão? 
LFV - Eu sempre encaro a adaptação de algum texto meu para cinema, teatro ou TV como o trabalho de outro, a ser julgado pelos seus próprios méritos e não pela fidelidade ou falta de fidelidade ao original. Nos casos citados do Clube dos Anjos e do Ed Mort sei que quem está fazendo é gente muito boa, jovem e de talento. Espero o melhor deles. 
 
Pensamento seu publicado na primeira entrevista que fiz com você aqui para o site da agência: “A gente pode escrever sobre todo tipo de coisa, de uma maneira leve. Para escrever sobre um assunto sério, ou pretensamente sério, o autor não precisa escrever de forma empolada, formal”. Será que para escrever com leveza também é preciso viver deste modo? 
LFV - É preciso preferir a informalidade e a clareza, em vez da solenidade e da complexidade, tanto na vida quanto na escrita. E nunca se levar muito a sério.  
 
O que mais dá leveza no teu dia? 
LFV - O convívio com os de casa. Ultimamente, principalmente o convívio com a Lucinda, nossa neta. 
 
E o que mais te dá peso? 
LFV - O noticiário nacional e internacional.
 
“É quando sento em frente ao computador que organizo melhor o meu pensamento”. O que geralmente desorganiza o seu pensamento? 
LFV - Qualquer confusão, muito barulho, muitas coisas para fazer ao mesmo tempo sem tempo para pensar. 
 
Mas nem tudo o que nos desorganiza é ruim, concorda? Que tipos de desorganizações te seduzem? 
LFV - Bom, a vida em geral é muito desorganizada, né? Como já disse alguém, a vida não tem script.  E essa confusão pode ser estimulante ou, no mínimo, inspiradora. Mas eu gostaria que tivesse um roteiro, e que ele fosse meu. 
 
Novo pensamento seu: “Quando não dizemos nada, ampliamos no outro as possibilidades de interpretação. O silêncio permite mais interpretações do que a palavra. Acho que o silêncio é bem mais amplo, é bem mais rico que a palavra. Na realidade, a palavra tem mais limites do que o silêncio”. Quais os limites do silêncio? 
LFV - Eu disse tudo isso? Não sei se me entendi, mas concordo comigo. Acho que não é o silêncio que intriga os outros, é o não dito, o que poderia ser dito e não foi. O silêncio é como um lençol, o mistério é o que está embaixo. Será um corpo ou roupa suja? 
 
Ah, e qual é um dos seus silêncios favoritos? 
LFV - Eu gosto muito das pausas num improviso do Miles Davis. O não tocado envolvendo o tocado. 
 
Tem um silêncio que a gente faz na frente de uma beleza indizível. Esse é um silêncio que dá vontade de compartilhar, concorda? 
LFV - É. O silêncio da reverência que merece tudo que é bonito. Mas se não é dizivel não pode ser compartilhado. Os olhos dos outros que se virem.  
 
Com uma mediação maravilhosa do Arthur Dapieve, junto com o nosso querido Zuenir Ventura, você participou de um livro fantástico para falar sobre o tempo e outros temas. E você já disse que o tempo é o nosso inimigo mais terrível. “Não temos nenhum recurso para combatê-lo. Ninguém enxerga o tempo. Ele age de uma maneira subversiva, e nos invade sem que possamos repelir essa invasão”. Então, se não podemos repeli-la, para você qual a forma mais in teressante de lidar com essa invasão do tempo? 
LFV - Pois é, o botox não adianta. Acho que o jeito é desprezar a passagem do tempo. Não lhe dar atenção. Pode ser que ele se envergonhe e pare. 
 
Gosto demais de uma relação que você fez entre o sucesso e o amor: “Para mim, faz sucesso de verdade quem consegue provocar o amor nos outros. Faz sucesso mesmo quem é uma pessoa amada, uma pessoa que se ama, uma pessoa que é capaz de amar, uma pessoa cheia de amor p or tudo quanto é lado”. O que é essencial para uma pessoa provocar amor nos outros, saber amar, ser amada, se amar e ficar cheia de amor por tudo quanto é lado? Será que basta ter amor na infância para isso? 
LFV - Preciso reler essa entrevista. Penso que a gente aprende a amar com  quem nos ama, começando por pais, parentes, amigos da família e, eventualmente, aquela filha dos vizinhos.  
 
Você também já disse que mesmo quem é feliz e quem faz sucesso tem as suas próprias inquietações, a s suas próprias angústias, as suas próprias infelicidades. “O ideal é a pessoa estar confortável consigo mesma, sem grandes perguntas que provoquem angústias”. O que geralmente mais traz angústia para uma pessoa? As perguntas, ou as respostas?
LFV - É, o sucesso não previne angústias e indagações existenciais. Antes as agrava, pois geralmente o sucesso parece uma benção, um sinal de excepcionalidade, e não é. Os bem sucedidos também morrem. O que traz mais angústia é a pergunta óbvia: pra que tudo isso?  
 
“Tudo o que a gente escreve, tudo o que a gente fala, é sempre uma simulação. Por mais que as pessoas imaginem um monte de coisas, o que vale, no final, é o que fazemos, o que deixamos de fazer, o que somos para nós mesmos e para os outros”. Para você, falando ou escrevendo, o que é indispensável nessa arte da simulação? 
LFV - Acho que com "simulação" eu quis dizer os rostos que se usa para encontrar outros rostos, como no poema do Eliot. Não é exatamente uma máscara enganosa, é um rosto público, convivial, indispensável  para uma vida social. Alguns dominam a arte do convívio, outros só esperam que o rosto não pareça muito falso. Escrevendo a gente constrói uma personalidade, ou um estilo, que não deixa de também ser um rosto postiço. 
 
Um dos seus maiores sucessos de vendas é As mentiras que os homens contam, uma seleção de 41 crônicas garimpadas em várias publicações, algumas inéditas em livro. Como você nos mostra, a história das mentiras masculinas começa na infância. Segundo você, a primeira vítima é a mãe. Depois vêm as namoradas, a esposa, a sogra, a amante, os amigos, o chefe. Então esse comportamento passa a ser compulsivo. “Muitas vezes lançamos mão delas para evitar algum tipo de constrangimento ou para escapar de broncas, outras pela terrível necessidade de não magoar os outros, ou até mesmo por mera brincadeira”. Na sua opinião, quais as verdades dos homens que as mulheres mais têm dificuldade de escutar? 
LFV - Não sei. Talvez "Vai ao teatro sozinha que eu vou ficar em casa vendo o "CSI".  
 
E, para você, quais as verdades das mulheres que nós não sabemos ouvir?
LFV - Qualquer plano envol vendo lipoaspiração ou aconselhamento matrimonial.
 
“A crônica é um solo de jazz”. O que o jazz tem de mais sedutor e mais irresistível para você? 
LFV - O jazz é a arte do improviso, portanto da invenção, da criação espontânea, mas também é uma arte coletiva. Talvez seja uma lição de vida, com seu individualismo solto que nunca não esquece o conjunto.
   
“A função do escritor não é oferecer soluções prontas para o leitor, mas sim projetar luzes nos lugares certos, da maneira certa, e mostrar coisas que as pessoas não vêem. A literatura serve para clarear os nossos breus”. Que outras coisas no cotidiano clareiam os seus breus?
LFV - Atualmente, é a Lucinda. Nossa neta.
 
Você de novo: “Nem todo poeta é um escritor. O poeta é alguém que tem uma maneira bem especial de viver e de ver o mundo”. Você acha que é possível para todo mundo aprender a ver poesia nas coisas?  
LFV - A gente vive rodeado de poesia. Às vezes se presta mais atenção, e aí ela aparece. 
 


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