sexta-feira 15 de dezembro



07 DE AGOSTO DE 2012 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Sylvia Orthof para sempre

 

No mês em que Sylvia Orthof completaria 80 anos de vida, publicamos aqui uma entrevista exclusiva da autora, editada originalmente no jornal literário Lector, em 1995. Na ocasião, Márcio Vassallo a entrevistou, em Petrópolis, na casa da livreira Suzana Riet, durante um churrasco. Sylvia estava lançando o seu livro Vários 15 anos. A publicação desta entrevista aqui no site é uma homenagem da Agência Riff a uma das nossas escritoras mais amadas, mais talentosas, mais saudosas, mais sensíveis, mais lidas e mais inesquecíveis de todos os tempos. 

 
 
Márcio Vassallo
 
Como nasceram os seus vários 15 anos?
SYLVIA ORTHOF – Toda mulher é sempre um pouco adolescente dentro dela mesma. É uma história mais ou menos inventada e mais ou menos vivida. Não por mim, mas pela minha família. Não por mim, mas pela minha família. Trata da aventura de uma mulher, aos 15, 30, 45... E assim por diante, até os 75 anos. No livro, há sempre o símbolo do pudim de leite.
 
O que ele significa?
Sylvia – O pudim simboliza a infância que a moça resgata e não resgata. Em cada um desses episódios, ela tem uma atitude adolescente. A força feminina está nisso. Não temos aqueles muros que o homem costuma erguer. Ele quase sempre usa uma máscara. A mulher geralmente não. Tanto que as mulheres falam demais. Dizemos certas coisas que os homens jamais diriam. É por isso que nos damos tão bem com bichos.
 
Sua cachorra, como você já disse, é ciumenta como as palavras. E está sempre exigindo atenção. Qual seria a grande exigência das palavras?
Sylvia – Manter certos segredos.
 
Segredos que elas só compartilham com o seu próprio autor?
Sylvia – É, porque as palavras são feitas para mostrar e ocultar os nossos pensamentos.
 
Para que nós os adivinhemos?
Sylvia - Ah, com certeza.
 
As palavras costuma se sentir traídas?
Sylvia – Várias vezes.
 
Mais por você, ou pelas ideias?
Sylvia – Por ambas.
 
Segundo você, as mulheres dizem certas coisas que os homens jamais diriam. Que tipo de coisas são essas?
Sylvia – Apesar de os grandes escritores serem homens, as mulheres têm mais capacidade de exprimir o que pensam em palavras. Chegou a hora de a mulher filtrar os seus próprios pensamentos. Com isso, é possível que surjam cada vez mais novas escritoras. Os homens realmente têm mais dificuldade de exprimir as suas próprias emoções. A sociedade os influencia. Para que eles sejam mais contidos.
 
É a velha história de que homem não chora?
Sylvia – É.
 
Isso está acabando?
Sylvia – Sim. Os homens estão começando a compreender que não é só a força que importa. Eles estão se conscientizando de que  também têm direito à emoção.
 
Um direito às lágrimas?
Sylvia - Exatamente.
 
Você disse que as mulheres se relacionam bem com os bichos. Qual é o motivo principal dessa boa convivência?
Sylvia – Não sei te dizer ao certo. Mas sinto que há uma grande afinidade entre eles. Por sua vez, o homem não se liga às minúcias.
 
Que tipo de minúcia?
Sylvia – Os detalhes de uma casa, por exemplo. Vejo o homem mais como um arquiteto das coisas grandes. Não que as coisas menores tenham menos importância. Acho que os homens homossexuais têm essa característica feminina. Reparo muito nas conversas de homem com homem e de mulher com mulher. Por exemplo: um homem fala mais a outro de coisas gerais. E a mulher fala mais das suas coisas pessoais. O homem não deixa que o outro entre muito em sua intimidade. A mulher agora está sendo mais descoberta na literatura. Então, esse é um lado novo. Quando um autor escreve sobre uma mulher, não revela nada dele mesmo. Machado de Assis é um bom exemplo.
 
Jorge Amado também?
Sylvia – Sim. Mas como nos livros de Machado de Assis, as mulheres são vistas por olhos masculinos. Não que isso seja ruim, veja bem. É apenas uma característica que me faz refletir. Como seria o comportamento de uma personagem de Jorge Amado vista pelo ângulo feminino? Ela sempre é a mesma mulher. É o tipo de mulher que ele enxerga. Geralmente uma baiana bonita, sensual e namoradeira.
 
Que costuma romper com certas regras sociais?
Sylvia – É.
 
Do que você mais sente falta na literatura masculina?
Sylvia – Sinto falta  da mulher pensando com ela mesma, e conversando naturalmente com uma amiga. Andando de chinelo em sua própria casa.
 
Descalça de rótulos?
Sylvia – Exatamente. Mas veja que curioso: uma mulher tem muita dificuldade de desenhar um homem. A mulher é mais linear. O homem é mais de cor. Estou chegando a essa conclusão agora. Pode ser que eu esteja errada.
 
De que modo o homem teria mais cor?
Sylvia – É aquilo que eu te disse sobre a preferência feminina pelos detalhes. O homem é mais de manchas. A mulher é mais de linhas. Esse é o meu ponto de vista, não é necessariamente a verdade. Isso também acontece na literatura. O homossexual tem as manchas masculinas e as linhas femininas. Por isso, ele costuma se tornar um bom amigo das mulheres.
 
Você não acredita na amizade de um homem hetero com uma mulher?
Sylvia - Dificilmente isso acontece. Ele pode até ser amigo dela. Mas é pouco provável que entre na sua intimidade. Ela até pode se abrir com ele. Mas ele não fará o mesmo com ela. Ele pode ser o confidente dela. Mas é raro um homem fazer de uma mulher a sua confidente.
 
Que tal você me fazer uma confissão? A Sylvia, é mais fada, ou bruxa?
Sylvia – É mais bruxa. Todas as bruxas são boas. Na verdade, as fadas e as bruxas são a mesma personagem.
 
Como em seu livro Uxa, ora fada, ora bruxa?
Sylvia – Sim, esse livro mostra bem isso. Não gosto de catalogar as pessoas como boas ou más. Há momentos em que não concordamos com nós mesmos. É difícil descobrir que não somos aquilo que gostaríamos de ser. Mas quando isso acontece, nos tornamos bons.
 
Por quê?
Sylvia – Porque, nesse momento, nos julgamos e não aceitamos o nosso comportamento negativo. Assim, conseguimos sempre dar um passo à frente.
 
Como você costuma dar esses passos?
Sylvia – Dou passos para frente, para trás, para todos os lados. Tenho muita dificuldade em me aceitar.
 
De que forma você não se aceita?
Sylvia – Sobretudo como escritora, que as pessoas dizem que eu sou.
 
Você não acredita que é uma escritora?
Sylvia – Não. Entrei de brincadeira em um concurso, porque precisava de um emprego. Ganhei. E as pessoas passaram a me levar a sério.
 
Você não se leva muito a sério?
Sylvia - Em questão de literatura, não. Tenho uma certa facilidade para escrever. Venho fazendo isso, desde 1981, e já tenho mais de 100 livros escritos. Vejo que as crianças se identificam com eles. Comecei a escrever tarde. Publiquei o meu primeiro livro aos 48 anos. Hoje, estou com 62. E, com o primeiro livro, tive a sensação de que havia perdido muito tempo de vida, sem ter descoberto uma coisa que me dava um prazer extraordinário. Então, comecei a escrever, escrever, escrever...
 
Compulsivamente?
Sylvia – É. Todas as manhãs.
 
Há alguma espécie de ritual?
Sylvia – Sim. De manhã, abro a porta para a cachorra entrar, tomo café e vou para a máquina. Esse ritual já faz parte de mim. Escrever é uma viagem maravilhosa.
 
Em seu livro Vovó viaja e não sai de casa, você conta uma história semelhante. Escrever é viajar sem tirar os pés do chão?
Sylvia – Isso mesmo. Escrever é realmente uma viagem fantástica. Mas, como em tudo na vida, você precisa se dar um crédito. Quando você acredita que é capaz de fazer uma coisa, você faz e dá certo. Toda viagem tem que ser uma festa. Por isso, a menina leva até um bolo de aniversário na mala. É assim que faço as minhas malas para escrever. Sem muita organização, mas com muita festa.
 
Sylvia, as coisas inúteis te fascinam?
Sylvia – Muito. Tenho horror a esse negócio de haver um padrão de bom gosto. Adoro caixas de música. Elas são especiais como um papel em branco, que tem uma vibração de espera. É como um namoro. Tem que dar certo. Chego sempre a ele vestida de noiva.
 
E como acontece o casamento?
Sylvia – Esse é um casamento espiritual. É o lado da festa, da comunhão, da celebração.
 
Também em seu livro Chamuscou, não queimou, uma princesa se apaixona por um dragão e faz aeróbica. As princesas não são mais as mesmas?
Sylvia – As histórias clássicas da literatura infantil sempre tiveram um ponto de vista muito machista. Em algumas delas, a mulher é vista até mesmo como uma meretriz.
 
Por exemplo?
Sylvia – Ninguém pergunta para a Cinderela se ela quer casar com o príncipe. Cinderela casa com o príncipe porque ele tem dinheiro e poder. Ela se prostitui.
 
E a Branca de Neve?
Sylvia – Com ela há o problema do racismo. Escrevi uma história sobre isso.
 
Do que se trata?
Sylvia – É sobre a Branca de Leve. Chama-se A fada fofa e os sete anjinhos.
 
Como o racismo se manifesta na Branca de Neve?
Sylvia – Será que a história seria igual, se ela fosse negra? Questiono isso no livro.
 
Recapitulando: hoje em dia as princesas estão trocando nobres por anfíbios. Qual o maior encanto dos sapos?
Sylvia – As pererecas... Há, há, há... Você ficou vermelho, Márcio!
 
Quem pergunta tem que estar preparado para escutar...
Sylvia – Sempre.
 
As princesas estão se apaixonando mais por sapos e dragões do que por príncipes mauricinhos? Os príncipes saíram de moda?
Sylvia – Saíram. As princesas também. Mas vamos voltar à sua pergunta sobre qual o maior encanto dos sapos. Agora falando sério...
 
Não, por favor, Sylvia. A sua resposta foi definitiva. O grande encanto dos sapos são as pererecas. E ponto final.
Sylvia – Você gostou?
 
Muito.
Sylvia – Então tudo bem.
 
O que você acha das histórias infantis tradicionais?
Sylvia – Elas têm um encanto especial. Se Chapeuzinho Vermelho tem tanta força até hoje, é porque tem o seu valor. Só temos que tomar cuidado para não apresentarmos essas histórias com uma mensagem moralista.
 
É preciso convidar as crianças a refletirem por elas mesmas?
Sylvia – Sim, vamos discutir um pouco. Por que não podemos sair do caminho e procurar um atalho na vida? Será que em todo lugar há um lobo? E será que devemos ter tanto medo dos lobos?
 
O lobo também tem as suas razões?
Sylvia – Claro. Uma vez, a Ruth Rocha estava contando a história de Chapeuzinho Vermelho e começou a diminuir as partes em que o lobo aparecia. Então, um garotinho disse a ela: “Ah, conta aquele pedaço que dá um medinho bom”. De certo modo, as crianças gostam de sentir medo.
 
E gostam de contos trágicos?
Sylvia – Sim, os contos clássicos estão recheados de mortes. Mas a morte deve ser apresentada às crianças, porque ela existe.
 
Tragédias à parte, a sua flor preferida é a Maria sem vergonha. Há algum tipo de identificação?
Sylvia – Acho que sim. Gosto muito dessa flor. Lá em casa, temos uma escada, no jardim. E as flores não quiseram nascer no canteiro. Não foram exatamente as marias, mas também são sem vergonha. Elas nasceram por entre as pedras de um muro. É sempre assim. Nascem nos lugares mais impossíveis. Nos locais onde a gente plantou, elas não nasceram bem. Um rapaz queria cortá-las das pedras. Então, eu disse: “Não faça isso. Elas lutaram tanto por esse lugar”.
 
Será que as flores são poetas disfarçados, procurando a vida no impossível?
Sylvia – Quem sabe, quem sabe? Outro exemplo é a nossa escada. Ela é toda cheia de flores que nasceram ao acaso, por entre as rachaduras da pedra.
 
Isso dá uma história, você não acha? Já germinou alguma?
Sylvia – Ainda não. Está começando a sair agora.
 
A história das flores sem vergonha nas pétalas?
Sylvia – Ou nas pedras... Por que não?
 
Você já disse que os livros são jardins. Como você mais gosta de semeá-los?
Sylvia – O jardim é uma coisa que precisa de atenção. Como os livros.
 
Ambos precisam de cuidados especiais?
Sylvia – Pois é. Mas não gosto daqueles jardins muito cuidados. Podados demais. As plantas, como as histórias, têm o direito de espreguiçar onde quiserem.


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