sábado 16 de dezembro



22 DE AGOSTO DE 2012 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Na estrada com Dodô Azevedo

 

  
 
Dodô Azevedo: "A estrada te tira qualquer traço de arrogância, e isso é o que ela tem de mais irresistível".
 
 
 
Márcio Vassallo
 
Você começa o seu belo livro assim: "A vida não é simples. Por isso, é tão boa". Mais do que tudo, em que aspectos você acha que a vida é tão complexa e tão boa?
Dodô - Num aspecto que define a pretensão do Fé na Estrada: a vida é algo que não se reduz ao entendimento imediato. Como deveria ser toda a arte. Porém, o mercado, das editoras ao leitor, precisa, e eu entendo isso com serenidade, de produtos que ofereçam esse entendimento imediato. A função, no meu entender, de um escritor contemporâneo, é ter a coragem de aceitar essa condição de mercado, não negá-lo, deixar a preguiça de lado e trabalhar para que suas obras tenham ideias simples sendo ditas no plano do significado e que sejam multiplicadas emergindo complexas no plano do que a gente chama de significante. Simples e acessíveis frases, pagrágrafos e capítulos que reverberam multiplos sentidos. O Fé na Estrada, e a vida, no meu entender e pretensão, são bons, porque contêm níveis discursivos latentes que se revelam um dentro do outro. Por isso o livro demorou quase dez anos para ficar pronto. 
 
Para escrever Fé na estrada, em 2003, dois anos depois do 11 de Setembro, você atravessou os Estados Unidos com a fotógrafa Luiza Leite, refazendo a rota de Jack Kerouac, autor do clássico On the Road (traduzido no Brasil como Pé na estrada), sob o ponto de vista de um estrangeiro no Século XXI. Vocês atravessaram 14 estados , rodando 80 mil quilômetros. Ao longo de tanto chão e tantas experiências, o que mais manteve a sua fé na estrada? 
Dodô - O que é "o estrangeiro no Século XXI"? Ainda dá para se sentir um estrangeiro no século XXI? Essas são também questões do Fé na Estrada, que parte do On The Road, obra feita por um praticamente estrangeiro (a língua nativa de Jack Kerouac, de ascendência franco-canadense, é o francês), e do livro de fotografias The Americans, do suíço Robert Frank e prefácio de Kerouac. Historicamente, o estrangeiro é quem melhor compreende o país dos outros. Com a América não é diferente. A América restaurou a tradição dos impérios que suscitam o fascínio (no que fascínio é  mistura de intenso desejo e intensa repulsa) do estrangeiro. O império inglês não causou isso, por exemplo. O tema da jornada, da odisséia, tão seminal em literatura, antes da ascenção da América na segunda metáde do século XX, havia ficado para trás. A literatura passou a ocupar-se de investigar o mundo sem riscos, sem sair da própria cidade, como a Dublin de Ulysses, da própria escrivaninha, como A história da eternidade, do Borges. Escritores passaram a ser sujeitos que não sabem o que é nada na prática: orgasmo, cachoeira, ferimento à faca, abraços muito apertados, um tornado - tudo isso eles sabiam o que era, mas de ouvir falar, de ler na enciclopédia. Foi a era dos escritores asmáticos, alérgicos a poeira. O que se repete hoje com a internet. A garotada sabe o que é um deserto: mas de ter visto uma foto na internet . A garotada não sabe o que é caminhar um quilômetro. O interior dos Estados Unidos, o que há entre Nova Iorque, na costa Leste, e Los Angeles, na costa Oeste, é chamado hoje de Flying Over Territory. Hoje, como na era dos escritores alérgicos a poeira, a recusa em viver experiências físicas cria artistas e consumidores imaturos, lotados de questões repetitivas, que já foram resolvidas pela filosofia moderna, um intelectualismo-zumbi, morto-vivo. Para inoculá-los com vida, para tornar o mundo contemporâneo menos bunda mole (adoro esse termo), só sugerindo fé na experiência física. E experiência física, teu nome, desde o império do Vale do Indo, 3.300 anos antes de Cristo, onde uma rota popular, de dois mil quilômetros, cheia de viajantes interessados em intercâmbio cultural, e que ligava ia de Tilmun a Mohenjo-Daro, deste esse tempo, vida é estrada. Minha fé foi construida quando imediatamente começaram essas experiências físicas. 
 
Por falar em experiência física, como foi o seu primeiro dia de estrada?
Dodô - No primeiro dia de estrada pegamos um tornado e, sem saber, dirigi por dentro dele - para desespero da defesa civil local. Em seguida vieram experiências com desertos, florestas, desorientação com mapas, a descoberta de que a sensação de perder-se é fundamental num mundo onde todo mundo tem GPS e uma convição tola de que se está onde realmente acha que está Essa arrogância "de homem branco" em ter fé na ciência, em vez de na estrada. 
 
O que a estrada tem de mais irresistível para você?
Dodô - A estrada te tira qualquer traço de arrogância, e isso é o que ela tem de mais irresistível.
 
No prefácio do livro, o cineasta Walter Salles escreve: “Fé na estrada impacta pela liberdade com que é narrado. Impacta, também, pelo frescor e honestidade com que a busca da herança de Kerouac e dos poetas impuros de sua geração é narrado ao leitor (...). Nos dias em que tantas coisas são vividas à distância, na realidade virtual e outras formas de existência por procuração, Fé na estrada funciona como um antídoto – radicalmente livre, moderno e original”. Você acha que hoje é radicalmente livre?
Dodô - Eu não. O texto de Fé na Estrada, sim. Eu ainda estou preso a essas tentações que se vê muito entre a geração literária anterior a minha (a maioria de amigos queridos), de ler, por exemplo, David Foster Wallace e sair escrevendo igual. Tem um conto meu, O vinagre, publicado na Revista Ficções em 2010, que é todo pontuado com interrogações, uma sequência de 231 perguntas, cheio de estilo e tal. Escrevi em duas horas e meia. A crítica achou que era Literatura com ele maiúsculo, ganhei elogios, resenhas... muito por causa desses meus amigos, todos muito afetuosos e a quem tenho carinho imenso. Cedi aos carinhos, aos mimos, comuns no meio literário que reconhece um talento desde que você tenha os amigos certos, e eu tenho. Mas isso também me torna um escravo de um universo radicalmente pequeno e estéril, embora afetuoso e cheio de camaradagem.  Aí pensei: o Fé tem que ser o contrário disso. Só que, na hora de escrever, aquela máxima aparentemente tola de que "escrever fácil é dificil", prevaleceu. Foram oito anos de muito trabalho e atenção para não cair nas armadilhas da forma, quando não se tem algo realmente relevante a dizer. Libertar um texto dá trabalho. Eu sigo tentando.
 
Mais uma frase de Walter Salles sobre Fé na estrada: “O seu livro mostra quanto ainda podemos nos surpreender quando parece não haver mais nada para nos maravilhar”. Na sua opinião, o que há de surpreendente e maravilhoso no cotidiano e que na maioria das vezes não reparamos?
Dodô - Pessoas que se supreendem e se maravilham são consideradas, desde a idade moderna, idiotas. Otimistas. Hippies. No oriente é o contrário: o sorriso é a característica dos sábios. Os mestres zen sempre respondem com sorrisos quando fazem alguma pergunta a respeito do sentido da vida. No ocidente, o grande artista, o grande intelectual, é aquele que não sorri. Se for um desencantado então, pronto, ganha fãs sem sequer precisar expor seus trabalhos. É uma praga que até a mim me pega: um de meus heróis é o H.L Menken, famoso por seu mau-humor e por sua falta de entusiasmo pelo cotidiano. Acontece que outro herói meu é o Stanley Kubrick, considerado um autor de cinema pessimista, desencantado. Hoje, sabemos, ele morria de rir desse mal entendido. Há um livro recente, chamado Kubrick's Hope, que traz algumas entrevistas onde o americano nos lembra que a imagem emblemática concebida por ele, a do close no olho arregalado do astronauta (libertado, segundo Tom Zé), maravilhado com a visão de outra dimensão, sugere que tudo em Stanley Kubrick é a mensagem de que devemos modificar o nosso olhar. Durante a viagem do Fé na estrada, tive contato com índios navajos, um mestre zen surfista, uma sacerdotisa russa de magia celta e um rajanesh do trantra. Respectivamente, sabedoria nativo-americana, Japão, Rússia e Índia. Em todos os ensinamentos apresentados no livro, uma coisa em comum: a necessidade em modificar o olhar e permitir-se maravilhar-se com o cotidiano. Nós, homens brancos, ocidentais, não sabemos sequer respirar direito. Quanto mais olhar direito. A resposta para a maioria das perguntas ditas existencialistas, está no mar. Basta sentar e observá-lo, sem pressa, com o olhar modificado. A falta de sentido, a imprevisibilidade, a confusão, o caos e a complexidade da vida são fascinantes, não o contrário . As pessoas falam: "Estou tão confuso!" - eu respondo "Que bom!". As pessoas dizem: "Essa vida é muito louca!", eu digo "ainda bem!". As pessoas dizem: "O mundo é chato!" , eu respondo: "O mundo é redondo!" 
 
Na estrada e fora dela, no dia a dia, para você, quais os seus exercícios de liberdade essenciais?
Dodô - Perder-se. Sempre.
 
Abençoadamente perdido, no segundo capítulo do livro, você revela: “Eu odiava viajar, acampar, lidar com mosquitos, comida enlatada, cheiro de mato. Conhecer gente nova que depois você nunca mais vai ver na vida é para os outros, não para mim (...)”. Acima de tudo, o que te puxou para fazer essa viagem?
Dodô - Antes de cair na estrada eu achava que eu sabia quem era. Acho que ninguém sabe quem é até pegar a estrada. O susto que levei quando, ao montar uma barraca pela primeira vez, o fiz em menos de um minuto, como estivesse nascido para isso, foi  o susto de descobrir quem se é na verdade. Acima de tudo, o que me levou a empreender a viagem fui Dodô Azevedo, um completo estranho a quem só fui encontrar na Estrada. É por isso que Fé na Estrada começa com um capítulo chamado "Eu" e termina com um cujo o título é "Você". 
 
Você de novo, completando sua revelação: “Mais do que viajar, eu odiava os Estados Unidos, comandados e representados pela família Bush e seu invencível medo de tudo: da liberdade, da música dos negros, dos deuses dos índios, das drogas, da escassez de petróleo, da escassez de dinheiro para os bancos, medo das outras línguas faladas no planeta, medo dos americanos que não estão nem aí para o dinheiro, do MP3, da internet, da alimentação orgânica, dos vegetarianos, dos poetas, dos que gostam de sexo, dos despreocupados e, finalmente, dos estrangeiros. Sou estrangeiro, gosto de sexo, não estou nem aí pra dinheiro, não falo direito o inglês, rezo a todos os deuses do candomblé, sei tocar na bateria e na guitarra todos os blues de Robert Johnson. E, se me perco, não me encontro mais”. O que mudou em você depois dessa viagem?
Dodô - O que mudou em mim, e em caráter definitivo, foi o olhar. Sobre os Estados Unidos, por exemplo: continuo achando uma potência careta, arrogante, preconceituosa. Mas entendo, agora, que é um país muito menos careta, arrogante e preconceituoso do que o Brasil. Não estamos perto de sequer ter um apresentador negro na bancada do Jornal Nacional, da Globo. Mas isso não é culpa da Globo. É culpa de nosso povo, que não admira nem confia nos negros. Todas as conquistas em termos de direitos humanos, direitos das minorias etc, não poderiam ter acontecido em outro lugar senão na América. E até hoje, é na América onde os movimentos contraculturais e de desobediência civil nascem, como os jovens de Seatle que em 1993 quase acabaram com a cúpula do G20 e, mais recentemente, a invenção do movimento Occupy.  A respeito do olhar sobre o Brasil, houve um a mudança ainda maior. Durante a viagem, me confundiam com todas as nacionalidades possiveis: espanhol, paquistanês, jamaicano, marroquino, grego, iraquiano... Não tive dúvidas, abracei cada nacionalidade atribuida a mim. Me achou com cara de marroquinho? Ok, então eu sou marroquinho. Quando alguém, em algum acampamento, me perguntava pelo meu país, o Marrocos, eu citava Nelson Cavaquinho em inglês, e dizia que era um poeta do século 12. As pessoas ficavam maravilhadas com Nelson Cavaquinho. Em outra ocasião, copiei as brasilerissimas obras de arte do meu amigo Antônio Dias, contemporãneo de Oiticica, que fez recentemente sucesso em todo planeta com a obra Anywhere is my land. Aos poucos, fui descobrindo que ser brasileiro, no século XXI, significa reconhecer-se como a interseção, logo a resolução, para os problemas como os que fazem parte da Europa, onde ingleses odeiam romenos, que desprezam os kurdos, que querem matar os sunitas, que causam nojo aos franceses, que rivalizam com espanhóis, que invejam os alemães. 
 
Então, depois do livro, o seu olhar mudou em caráter definitivo. Por sua vez, o que você acha que não vai mudar nunca em você?
Dodô - O que não vai mudar nunca em mim, não importa quantas viagens eu empreender, é o ânimo, o fascínio pela contradição.
 
Numa entrevista para o jornalista Carlos Albuquerque, do jornal O Globo, você declarou: “Acredito que um livro deve conter vida e verdade, mesmo que para isso você tenha que abandonar filtros e se arriscar, expor as tripas. Afinal, com essa minha cara de iraquiano, quem se atreveria a cruzar a América em plena era Bush? Quem dormiria no subsolo de Las Vegas e se perderia nos desertos do Arizona? Quem teria coragem de rodar o país com uma fotógrafa mal-humorada que, na verdade, era a única pessoa de bom senso em volta?”. Qual o grande desafio da arte de expor as tripas?
Dodô - São dois: primeiro, a arte contemporânea é consumida imediatamente. Antes, um autor pintava um quadro, escrevia um livro, compunha uma ópera, cinquenta anos depois morria, e cinquenta anos depois sua obra fazia sucesso ou não. Sabendo que não viveria para ver a repercussão de sua arte, o artista se arriscava. Hoje, não. Você pinta um quadro, escreve um livro, grava uma canção e dois minutos depois vem a repercussão. Somos todos vaidosos. O grande desafio da arte hoje é superar a própria vaidade. O outro desafio é: mas o que hoje são tripas? Outro dia estava vendo um filme de terror na tevê. Para enganar e atravessar um grupo zumbis, de mortos-vivos que cercam a cidade, os heróis arrancam as tripas de cadáveres as esfregam no próprio corpo, para que eles parem de cheirar a gente viva. Seria uma ótima metáfora para o que é a arte e mercado hoje. Vivos tentando se passar por mortos-vivos para sobreviver. Mas a metáfora fica ainda mais interessante quando realizamos que se trata de um filme e as tripas são falsas, feitas de borracha, e que o telespectador adora ver tripas, mesmo sabendo que são falsas. Não só faltam tripas à arte contemporãena, como faltam tripas verdadeiras. Aquelas que você arranca de si, que fazem falta ao seu corpo. Nesse sentido, o desafio do artista ficar atento a se está expondo suas reais tripas ou se está produzindo, de novo por falta de coragem, apenas efeitos especiais.   
 
No livro, você conta o quanto foi difícil convencer a Luiza embarcar nesse projeto. Em que momento você acredita que ela se convenceu ?
Dodô - Ela nunca se convenceu. Luiza (Laura no livro) foi uma desconfiada até o final. E daí vem o segredo do equilibrio do casal de viajantes que formamos. Eu lotado de fé. Luiza de desconfiança. Dei muita sorte. Encontrei uma companheira tão Sancho Pança que fiquei livre para ser integralmente o Quixote da jornada. A essa sorte eu não outra explicação que não seja fé. 
Sobre a Luiza, num encontro recente, você declarou: “Ela me mostrou suas tatuagens esotéricas, contou sobre viagens à India, foi tão bonito. Para a Luiza, a viagem do Fé na estrada ainda não terminou. O livro foi escrito com a pretensão louca de operar essa mesma transformação no leitor, de fazer o que o On the Road fez com as pessoas nos anos 1950”. O que você acha que o On the Road mais fez com as pessoas nessa época? Em que sentido você gostaria que o seu livro mais mexesse com os  leitores? 
Dodô - On The Road, de imediato, exerceu dois tipos de influência. Uma em leitores, outra em escritores. Os leitores descobriram conheciam apenas uma parcela do mundo físico. Os escritores descobriram que é possível viver para escrever e não escrever para viver. O Fé na Estrada está sendo muito bem recebido por gente que não nunca leu Jack Kerouac - gente que passa a ter interesse no On The Road por causa do Fé, coisa que não passou pela minhas mais despudoradas pretensões. As mais realistas, no entanto, não são menos pretensiosas. Para começar, o livro foi pensado e editado para ser um objeto com força mística. Algo para dar sorte e afastar tudo o de ruim. Os capítulos são 32, há espelhamentos de páginas e algo que deu bastante trabalho: esconder dentro do livro uma penca de mensagens cifradas. Ontem uma pessoa me abordou em uma livraria e disse que entendeu todas as referências que o capítulo 12 faz ao elemento Mercúrio. Uma leitora de São Paulo, se disse encantada pelo fato de que toda a passagem pelo Nebraska ter sido escrita usando enunciados de Edmund Waller, poeta do século 17 e uma dos primeiros artistas que eu conheço a falar que um livro é um objeto que contém magia em si. Se as consequências do sucesso de On The Road vão desde a existência do jeans em nosso coditiano até a yoga que as moças pelo mundo inteiro praticam todas as manhãs antes de ir para o trabalho, o Fé quer organizar o que é hoje uma imensa colcha de informações que reúne no mesmo saco auto-ajuda, filosofia barata e o que de melhor do pensamento e da produção acadêmica humana. O Fé separa o joio do trigo, pela via da experiência física, do encorajamento por não renunciar a viver o máximo de sua potência. 
 
Frase sua: “Nós fomos um povo muito estudado por estrangeiros. Chegou a hora de sermos estrangeiros estudando povos”. O que é mais sedutor nesse estudo?
Dodô - Houve uma época em que antropólogos corriam em povorosa para o Brasil por pura volúpia pelo exótico e desencanto com as resoluções civizatórias do ocidente. Para eles, o estado selvagem era o estado puro do homem, e o homem civilizado era o homem degenerado. Bobagem. O homem branco é estúpido, concordo. Mas foi ele quem inventou o ar-condicionado, o picolé de limão, o cinema . Mas inventou tanta coisa que hoje está perdido. Toneladas de informação somadas a toneladas de ignorância e auto-confiança deixaram o que a gente chama de homem branco num estado letárgico. Fica bem claro que eles não sabem "o que fazer com tudo isso" criado principalmente no século XX. Nós, os estrangeiros acostumados a revezes, principalmente o de complexos e crises de identidade, somos hoje os doutores na matéria. Observar a estupefação do povo do hemisfério norte e pensar em soluções é um privilégio. O cenógrafo Italiano Carlo Conti, duas vezes ganhador do Oscar por direção de arte, disse, num jantar em Paris com a equipe do On The Road que o Fé na estrada é hoje um livro até mais necessário no exterior do que aqui no Brasil.
 
Você abre o seu livro com este bonito texto: “As únicas pessoas que me interessam são as loucas, aquelas que são loucas para viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, que têm um desejo de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem algo normal, mas queimam, queimam, queimam como velas cruzando o céu e todo mundo fica boquiaberto ‘Ohhhhh!”. Você acha que essa lúcida loucura é uma vocação, um dom, uma benção, uma danação, um aprendizado?
Dodô - Quem escreve isso é o Waltinho, no início de seu generoso prefácio. Loucura, para mim, é benção. Mesmo que seja uma danação. Essa benção da loucura, no meu entender, nos é dada a todos. Acontece que, novamente falo aqui de falta de coragem, 99% das pessoas a rejeitam e resolvem trancá-la no armário. Mal sabem que a loucura, se aprove itada pa ra o bem, é o grande motor da genialidade. E que se usada sem parcimônia, ela se extingue, ela cumpre sua função na tua vida, e vai embora. Tente esconder tua loucura embaixo do tapete. Ela vai cobrar depois, com juros. E à vista. 
 
A geração beat, tão bem mostrada no livro de Kerouac, como você mesmo diz, foi uma “geração brilhante e propensa ao risco, que fez do movimento e da experimentação constante sua razão de ser”. Dodô, de que forma o risco mais te atrai e quais as tuas principais razões de ser?
Dodô - O risco que mais me atrai é tentar fazer algo que minha intuição, essa síndica castradora, sugere que não levo jeito. Tudo que eu domino me entedia. Sou auto-didata. Aí comprei um violão, montei uma banda, lancei um disco, dois, fiquei amigo do Kurt Cobain e a Petrobrás comprou os direitos de uma composição minha para uma campanha publicitária. Perdi a vontade de fazer música. Fui me aventurar no cinema. Fiz questão de não estudar nada de cinema. Fiz questão de não me preparar em nada para fazer, sozinho, fotografia, edição, roteiro e produção. Esse salto no escuro me deixou com um sorriso de orelha a orelha. Aí meu filme Eva na Primavera, ganhou prêmio, foi para Cannes em 2012, e hoje estou trabalhando com as atrizes Sophia Reis, Fernanda Paes Leme e Juliana Didone em uma nova série de filmes. Filmo sempre no escuro, com o mínimo roteiro, com nada de técnica. Aí vem alguém, vê um dos novos fimes, e chora de emoção. Aí eu fico torcendo para que essa maravilhosa aventura no escuro que é ter me metido a cineasta não perca a graça para mim. "A vida começa onde termina a sua zona de conforto", li outro dia numa caneca. Essa é a minha única razão de ser. Fico tão feliz por não ser nenhuma orientação rebuscada, de no fim das contas minha razão de ser estar em uma frase de caneca.
 
Você rodou Eva na primavera em Nova York, com narração da atriz Maria Laura Cravo. Todo feito com a câmera do iPhone, Eva foi pré-selecionado para o Short Film Corner, no festival de Cannes 2012. Com outros quatro episódios gravados em Tóquio, Paris e no Deserto de Atacama, no Chile, vai virar filme em 2013. O que você mostra em Eva na primavera? Como nasceu a ideia desse curta?
Dodô - Nasceu da ideia de "Estou louco para fazer algo que tem tudo para dar errado".  Desse tipo de adrenalina. Tenho duas correntes cinematográficas preferidas. A Nouvelle Vague, claro, mas, principalmente, a No Wave Novaiorquina. Richard Kern, Beth B, esse povo é um barato. Sua lógica era uma delícia: num filme, cada componente da equipe só podia assumir funções as quais não dominavam. O ator da turma virava iluminador e o cameraman virava ator. O guitarrista da banda que compunha a trilha sonora do filme virava o editor e o diretor do filme virava baterista da banda. Há uma foto do Jim Jarmush tentando tocar bateria com os integrantes do Sonic Youth que eu acho a coisa mais linda. Um casal apaixonado dançando tango no fio de uma navalha. Portanto, nada mais natural do que eu ter escolhido NYC para compor o primeiro capítulo de um projeto todo pensado e planejado em torno de um minuto e quarenta e cinco segundos. E vinte minutos depois ter um roteiro escrito num guardanapo de lanconete do Brooklyn. Falo sobre quatro brasileiras, de quatro idades distintas, cada uma em um curta, em uma estação do ano, em um canto do planeta. Em comum, o fato de se chamarem Evas, de serem brasileiras e de estarem, como eu no Fé na estrada, interessada em, na condição de estrangeiras, estudar o outro, e procurar entender o que é ser brasileira no século XXI. Cada uma tem uma história, com início, meio e fim. Uma história acessível e despudoradamente tocante. Eu não entendo esses curtas metragens que só tem duas falas. E justamente parece, pelo que tem falado comigo, que a história, o roteiro, é que tem feito esses curtas se destacarem dos demais. Parece que faltam boas histórias no cinema nacional. Não sei se concordo. Mas sei que o fato de eu dizer que escrevo meus roteiros de 30 páginas (sim, minhas Evinhas falam  MUITO em cada curta) em no máximo duas horas ou menos, vai desvalorizar meu trabalho, e aí todo mundo para com esse oba-oba em torno das minhas pretensões em ser cineasta e me deixa fazer meu cineminha em paz.
 
De volta para o seu livro, logo no começo, você escreve: “Há um provérbio navajo, muito sábio e ao mesmo tempo muito ingênuo, que diz que quando se procura alguma coisa, encontra-se tudo, menos o que se procura”. Na sua viagem, o que você procurou e não achou, e o que você encontrou sem ter procurado?
Dodô - Procurei definições sobre o país Estados Unidos da America. Não achei. E hoje, claro, agradeço por isso. A América teria perdido graça pr a mim se fosse algo definível. E o que eu encontrei sem eu ter procurado foi praticamente tudo o que há no livro. Uma sucessão de supresas inimagináveis e até hoje inacreditáveis, no sentido do leitor duvidar: "será que isso aconteceu mesmo, não é possível?". Essas surpesas, esses episódios estão no livro dispostos de uma forma que desconcerte o leitor tanto quanto na época me desconcertou. Por isso, não há preparação para o que vem na página seguinte - que é, essa certeza do que virá na próxima página, justamente a grande desvantagem do livro para a vida. 
 
Dodô, será que escrever Fé na estrada aumentou a sua fé em você mesmo?
Dodô - Fé artistica não. Hoje tenho toda a certeza que meu empenho sobre humano nas artes vem de minha absoluta desconfiança de que tudo vai dar errado. E da delicia que é essa sensação. Em mim, no que a gente chama de "eu", sim. E muito. Tomar peyote com os navajos me fez compreender o óbvio: que não há passado, presente e futuro - que nossa mente para se proteger só consegue perceber o mundo assim, de forma sequencial. Mas quando você toma coragem e resolve enxergar que passado, presente e futuro convivem simultaneamente, você vê a eternidade. E se vê nela. E percebe que os dois são um só. Eu acho que todo o autor deveria escrever livros com objetivo de pegá-lo na mão e contemplar a eternidade, se ver na eternidade-texto, e perceber que os dois são um só. Um ato de fé.
 

 



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