sexta-feira 15 de dezembro



12 DE MARÇO DE 2015 VOLTAR PARA LISTA DE ENTREVISTAS

Márcio Vassallo: o encantador de palavras

Márcio Vassallo

Dani Fernandes

Com dezessete anos de literatura recém completados, o carioca Márcio Vassallo é um dos escritores e jornalistas mais procurados no Brasil para palestras e oficinas sobre formação de leitores, criação literária e mercado editorial. Não por acaso. Vassallo, com mais de cem mil livros comprados pelos principais programas de leitura municipais, estaduais e federais do país, entende como poucos a estrutura e os elementos essenciais para uma boa narrativa. Antes mesmo de se tornar escritor, já prestava serviço de consultoria para autores e editoras do país, avaliando projetos, originais e linhas editorais, e fazendo comentários críticos para quem deseja publicar livros e precisa de uma orientação.

A trajetória  de sucesso como escritor começou com o seu primeiro livro, A Princesa Tiana e o Sapo Gazé, lançado pela Brinque-Book em 1998. De lá para cá, 14 livros (incluindo três coletâneas que organizou) já ganharam as prateleiras e conquistaram leitores de todas as idades. Recentemente, lançou”Seu Conto é Nossa História”, publicado pelo Sesi Cidadania e escrito em co-autoria com mais de 200 crianças de onze comunidades pacificadas do Rio. Seu livro mais recente é De Filho Para Pai (editora Abacatte), inspirado na relação amorosa que mantém com o filho, Gabriel, de 13 anos. Vassallo já participou de diversos programas e projetos de incentivo à leitura, além das principais feiras literárias no Brasil e no exterior. Por onde passa, o encantador de palavras surpreende plateias com suas exposições sobre educação para o encantamento e a serventia da fantasia no dia a dia da gente.

Para comemorar o trabalho de mais de 20 anos como consultor literário, recentemente Vassallo deu início à coluna semanal “De olho no leitor”, que mantém em seu perfil profissional no Facebook (Márcio Vassallo Consultor literário: http://goo.gl/0iNoJB). O espaço foi criado para tirar dúvidas e trocar ideias com autores, editores, agentes e leitores, sobre o processo de criação literária.

Saindo do universo dos livros, mas ainda inserido no das palavras, Vassallo empresta seu talento de escritor e jornalista para assumir o papel de mestre de cerimônia em casamentos, projeto que ele intitula de Casamentos Manuscritos (assista ao vídeo:http://goo.gl/Sak1R8). A sensibilidade de Vassallo, que apura em detalhes a vida em comum dos noivos e a traduz de forma poética e bem humorada, emociona a todos.

Confira, abaixo, a entrevista com o autor:

Como começou sua trajetória como autor e jornalista?
Acho que de alguma forma já era escritor e jornalista na adolescência, sem saber disso, claro. Narrava os campeonatos de botão que eu organizava, quando morei em Belém do Pará, dos doze aos dezessete anos. Eram campeonatos intermináveis que eu jogava sozinho, para no final escolher os vinte e dois botões que enfrentariam os times de outros meninos, na Copa do Mundo da vila onde eu morava. Naqueles jogos eu já era jornalista, entrevistando os botões no final dos jogos, e de algum modo já era escritor, porque vivia de imaginar e de desdobrar cena na ideia. Então, resolvi fazer jornalismo, e fui repórter, cobrindo futebol, na Rádio MEC. Depois também fui repórter do Segundo Caderno, no jornal O Globo, e no Caderno Bis, na Tribuna da Imprensa, na área de cultura. Ah, e quando trabalhava nas redações, pensava sempre numa das frases que eu mais gosto do Mario Quintana: “O fato é um aspecto secundário da realidade”. Bem, o fato é que a fissura pela ficção e pelo gosto por inventar histórias jamais deixou de me rondar. Inventar histórias foi uma das formas mais irresistíveis que descobri de me aproximar das pessoas, de me aproximar de mim mesmo. Até que, em 1998, lancei A princesa Tiana e o sapo Gazé, pela editora Brinque-Book. E não parei mais de me entregar para as palavras.

Sempre teve facilidade com as palavras? Como se descobriu mais escritor que jornalista?
Não tenho facilidade com as palavras, elas é que têm comigo. Sou muito fácil para elas. Um verdadeiro oferecido. E na realidade nem sempre sou mais escritor do que jornalista. Uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida é entrevistar pessoas. E esse é um trabalho que tenho feito muito, há vinte e cinco anos, para jornais, revistas, e também mediando mesas-redondas em eventos por todas as regiões do Brasil.

Dentre os seus livros publicados, a maioria é categorizado como livro infantil. Pode me dizer quantos e quais os mais expressivos?
Escrevi nove livros que chamam de literatura infantil. Para mim é tudo literatura. De verdade, não escrevo para nenhuma faixa etária. Fico mais do que um bocado feliz quando uma criança me lê, óbvio, só que não escrevo pensando se quem vai me ler é um menino de nove anos, ou uma mulher de quarenta. Ah, e gosto de achar que todos os meus livros são expressivos. Afinal, de alguma forma, todos expressam as minhas perturbações, os meus desatinos, as minhas faltas, os meus excessos, as minhas inquietudes, os meus desejos, tudo o que não cabe em mim e que mais careço escrever.

Por que escolheu se dedicar a este gênero?
O universo da infância me seduz. Gosto de me assombrar com o cotidiano, com as coisas aparentemente mais banais. As crianças nos ensinam a achar assombro e poesia no dia a dia, principalmente quando não são tolhidas. Tenho trabalhado com oficinas de educação para o encantamento e formação de leitores, viajando pelo Brasil todo, e uma das propostas desses encontros é exercitar a infância para viver com mais leveza, perder o medo de errar, ser mais criativo, mais autêntico, mais feliz. Acho que nem toda pessoa autêntica é feliz, mas toda pessoa feliz é autêntica. E a literatura é uma forma irresistível de exercitarmos a nossa mais profunda e legítima autenticidade.

Marina Colasanti ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro do ano com o infantil “Breve História de um Pequeno Amor”. Na sua opinião, a literatura infantil nacional está ganhando maior reconhecimento dentro do mercado editorial?
Principalmente pelas compras de governo, nos últimos anos, o mercado editorial de literatura infantil cresceu ainda mais. Entretanto, de fato, para mim é tudo literatura, tudo arte. E a verdadeira arte não se limita a gêneros. Marina Colasanti é uma das artistas mais brilhantes do Brasil e uma amiga muito querida. Mas, afinal, o que ela faz da vida? É uma poeta, uma contista, uma autora de literatura infantil, uma artista plástica? Mais do que tudo isso, para mim, a Marina é uma escritora maravilhosa que não cabe em rótulos. Em geral, acho que os rótulos limitam as pessoas e suas tantas possibilidades.  

O que um bom livro precisa ter para conquistar leitores e se destacar no mercado editorial atual? Que dicas pode dar para um autor iniciante?
Um bom livro precisa ter autenticidade, verdade, impressão digital; tem que ter uma linguagem própria, que nos arrebate; e tem que nos emocionar de alguma forma, tem que nos surpreender, tem que nos perturbar, tem que nos amansar, tem que nos tirar o sono; tem que nos encantar. Penso que nem tudo o que nos surpreende é encantador, mas tudo o que é encantador, antes de tudo, nos surpreende, nos apaixona. Por isso, o autor precisa se surpreender com o que ele mesmo escreve. Só assim tem uma possibilidade de surpreender um leitor.

E você se surpreende no seu trabalho de consultor?
Sempre me surpreendo, de uma forma ou de outra. Não há mesmice nesse trabalho, porque cada pessoa é bem diferente da outra.

Você está comemorando vinte anos como consultor literário. É difícil fazer a avaliação crítica de um livro?
Ao longo desses anos, quase sempre por não atingir grandes expectativas, muitos autores desistiram de escrever. Outros ainda escrevem, mesmo sem conseguir o espaço que um dia planejaram conquistar. E outros foram publicados por boas editoras, trilharam seus próprios rumos e chegam ao coração dos leitores. Durante esse tempo todo, alguns desses autores que atendi se tornaram meus amigos, e alguns amigos se tornaram autores. Por isso, uma das coisas mais difíceis do trabalho de um consultor literário é manter um distanciamento para emitir sua opinião sem medo de magoar ou desanimar quem o escuta. Fico feliz por constatar que consigo isso.

Como começou esse trabalho?
Quando editava o jornal literário Lector, na década de 90, certo dia, uma escritora inédita me pediu para que, por gentileza, eu lesse o romance que ela havia escrito e desse a ela minha opinião crítica. Em vez de só ler o manuscrito e resumir em algumas linhas o que havia achado do que li, acabei fazendo várias observações, anotei à lápis muitas sugestões, no próprio original, e depois me encontrei com a autora, pessoalmente.

Dos livros que já avaliou descobriu autores talentosos?
Descobri menos autores talentosos do que eu gostaria, e mais do que eu imaginava que fosse possível.

Recentemente você criou mais um canal de comunicação com os autores e leitores, a coluna “De Olho no Leitor”. Qual o objetivo desse espaço?
Nessa coluna, toda sexta-feira, respondo a uma pergunta de autores, editores, agentes, ou leitores em geral, sobre a arte da criação literária, incluindo desafios, obstáculos, descobertas e reparos a partir da minha experiência de consultor e também do meu ponto de vista de escritor, evidentemente. Não me comprometo a responder em público, no Facebook, a todos os autores, nem a dar retorno a todas as perguntas que recebo. Respondo apenas as questões que considero realmente relevantes e do interesse de mais autores. Nesse caso, interessados podem enviar uma pergunta para mim por in box. Ah, pensando melhor, detesto essa história de “in box”. Assim, reformulando, interessados podem enviar uma pergunta para mim pela caixa de correio particular do meu perfil no Facebook (que só uso para trabalho), ou da minha página de consultoria para autores.

Além de escritor, jornalista e consultor literário, você ainda realiza o que chama de Casamentos Manuscritos. Como é esse trabalho?
Tenho feito casamentos em todas as regiões do Brasil. Este ano já estou com vários agendados. Na primeira etapa, entrevisto os casais, para conhecer suas histórias, seus sentimentos, suas emoções, seus temperamentos, como se vêem no dia a dia, como enxergam um ao outro, a forma como conduzem os seus relacionamentos amorosos. Depois, edito o material dessa entrevista, crio um texto que tenha a identidade do casal, e apresento esse texto aos noivos e seus convidados, no dia da cerimônia. É um trabalho em que misturo o ofício do jornalista (quando entrevisto o casal e edito o que me disseram) com o do escritor (quando crio uma história a partir do que eles me contaram) e do palestrante, quando apresento o texto no dia do casamento.

Para você, o que é mais encantador nesse trabalho?
O que mais me encanta nesse trabalho é a surpresa no olho dos noivos, quando apresento o texto, no dia da cerimônia, e eles constatam que a história do seu relacionamento é ainda mais bonita, ainda mais única e ainda mais cheia de graça do que ambos achavam que fosse. Afinal, um dos ofícios do escritor é reparar beleza no que é aparentemente banal e sem importância. Mas não reparo para escrever. Só escrevo porque reparo.



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