22 de novembro de 2021

As muitas faces de um mesmo dia

Editora José Olympio celebra 90 anos com lançamento da antologia de contos Dias de domingo, reunindo 15 autores brasileiros contemporâneos representados pela Agência Riff

Por Felipe Maciel

Dias de domingo é o título da coletânea que celebra os 90 anos da José Olympio, casa editorial que tradicionalmente abrigou e é ainda hoje a morada de grandes nomes da nossa literatura.

Plural e contemporâneo, o volume, organizado por Eugênia Vieira-Ribas, reúne 15 escritores e escritoras brasileiros representados por nós e que apontam para diversas maneiras de ver e narrar o mundo – ou mesmo de se aventurar por um simples, ou ainda, complexo domingo.

Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Carlos Eduardo Pereira, Cíntia Moscovich, Giovana Madalosso, Julia Wähmann, Juliana Leite, Marcelo Ferroni, Marcelo Maluf, Maria Ribeiro, Maurício de Almeida, Noemi Jaffe, Sérgio Rodrigues, Tobias Carvalho e Veronica Stigger nos apresentam, cada um à sua maneira, uma concepção de um “dia de domingo”.

Encontramos diferentes escritas, estilos e contextos que refletem sobre uma gama de sentimentos que um único dia é capaz de despertar. Aguardado? Festejado? Temido? Tedioso? Ou apenas o prenúncio da segunda-feira?

“Acreditamos no contemporâneo como um diálogo entre autores. Nosso trabalho com as antologias são tentativas de incitar esse diálogo, e nos permitem enxergar esse fio da verdade que os une. Brincamos com esse fio impossível de se ver, que é a literatura de um tempo, de um grupo, e, ao mesmo tempo, esse impossível de não se ver, de deixar passar. Porque os autores estão ali, naquele mesmo lugar, naquele recorte comum. E é isso que queremos – tentar – registrar.”, analisa Eugênia.

Temos um encontro marcado neste domingo, dia 28/11, a partir das 16h, para o lançamento do livro na Janela Livraria, no Rio de Janeiro. Estão todos convidados!

QUINZE PARÁGRAFOS DOMINICAIS

“A certa altura, sentindo uma ereção se formar, você teme que já não consiga adormecer de novo, que seu corpo esteja desperto demais, embora o cérebro ainda cabeceie na bruma. É com surpresa que ouve bem distante, lá no fundo do pavilhão auditivo, como uma leve cócega, aquele choro de bebê.” SÉRGIO RODRIGUES

“Hoje é outra vez segunda-feira e ontem, finalmente, as flores se abriram no começo da tarde, o que me dá um pouco mais de vontade de continuar. Esperei hoje o dia inteiro que a cliente voltasse, não sei Explicar o porquê. Talvez para que ela visse que, dessa vez, eu não iria chorar. Mas ela não veio.” NOEMI JAFFE

“Era bobagem, até que não era mais. Miguel gostaria que o pai fosse vivo para ver aqueles cientistas respondendo às perguntas no centro suíço. Esses sim fizeram bobagem. Criaram uma fratura no espaço-tempo. Ou é o que a pesquisadora no grupo de físicos está finalmente dizendo, quando Miguel passa com as sacolas pesadas em frente ao boteco. São onze da manhã e as cadeiras já estão ocupadas pelos bebedores de plantão. Todos virados para a TV, cervejas apoiadas em barris vazios e banquetas, esperando o início da primeira partida de futebol do dia.” MARCELO FERRONI

“Quando cheguei à churrasqueira, a função já ia adiantada. Minha cunhada preparara a caipirinha num grande copo de vidro, que passava de mão em mão. Ricardo dispusera as carnes numa gamela de madeira e, naquele exato instante, polvilhava costelas, picanhas e maminhas com sal grosso; ao lado, dispusera linguiças, cebolas, tomates e pimentões numa travessa, tudo pronto para ir à grelha assim que o fogo baixasse e o carvão virasse nada mais do que brasas. A mãe, atracada num copo de água mineral, estava sentada no sofá com os dois netos, um de cada lado, assistindo a alguma barbaridade no celular.” CÍNTIA MOSCOVICH

“Pelo menos comer, comemos bem. O prazer permitido, escondido dentro da desculpa da subsistência, cozinhado discretamente por gerações de mulheres que traficavam dentro de raviólis a sua carta de insurreição contra a dureza. Você aprendeu bem as receitas. Antes de servir, limpa a borda do prato — jamais se serve uma borda suja —, depois coloca a massa à minha frente. Dou uma garfada atrás da outra. Elogio de boca cheia, regredindo no tempo através das papilas. Você dá risada. Sei que adora me ver desse

jeito. Sugiro que depois do almoço a gente dê um passeio. Você diz que não pode, tem que arrumar a cozinha. Olho para as panelas que lavei enquanto você cozinhava, para a bancada quase limpa. Insisto: o dia está lindo.” GIOVANA MADALOSSO

“Amanhã é segunda, é dia de branco, e eu só quero ver como é que as coisas vão ficar, precisa botar essa gente pra descer o morro, o nome é desobediência civil, precisamos retomar uma normalidade, o governo ficou de tomar providências, o prefeito tem que convocar exército, uma guarda, sei lá eu, decretar estado de calamidade, porque é isso, esse estado de coisas tá um verdadeiro caos, é simplesmente impossível viver com esse cada um por si, é questão de segurança nacional, a sociedade carioca hoje clama por justiça e ordem, a sociedade brasileira, pois não pense que essa coisa vai parar por aí, dizem que certas lideranças desse movimento estão se articulando com as de outras cidades e o temor é que a onda se alastre por todo o país, isso não vai terminar nada bem” CARLOS EDUARDO PEREIRA

“As duas cabeças inclinadas sobre as balsas de lançamentos não irão se demorar. Mal ultrapassaram o saguão e deram de cara com aquela bancada de feira, instalada ali para facilitar a visita do leitor de ocasião, aquele que só aparece para adquirir o policial que o apresentador de tevê, aquele engraçado, acabou de lançar, ou a biografia escabrosa do ex-atleta viciado em crack. São os únicos compradores a entrar sorridentes, convictos de suas escolhas, para saírem encurvados, com uma sacola magra entre os dedos e a latejante desconfiança de estar levando o peixe menos valioso de todo o cardume.” ADRIANA LUNARDI

“Você foi embora com motivos e avenidas. Primeiro pra ficar com uma moça de poucos sapatos e depois pra ficar com uma de muitos sapatos. Eu, de All Star, namorei você em dois ou três rapazes, e cheguei a repetir roteiros inteiros, como naquele episódio em que nadamos naquele lago de bacana. Eu nunca entendi eu não continuar sendo pra sempre o seu projeto de cauda longa, mas minha analista diz que preciso aprender a ser um amor, e, não, o amor. “Só um?”, eu pergunto. “Só um não no sentido de ser pouco”, ela diz. “Mas de não ser única.” Que difícil isso. De não ser a única e nem a mais importante.” MARIA RIBEIRO

“É até difícil acreditar que meu bom amigo e eu já fomos tão jovens assim, quero dizer, é difícil acreditar que essa época existiu nessa mesma vida em que agora somos velhos. Quando o meu amigo se sente confuso, ele me pergunta se já houve em sua vida um momento em que aquela dor no ombro não existiu, em que seu ombro foi apenas um ombro comum e indolor, e então eu mostro as fotografias antigas em que ele está com a mochila jeans à tiracolo. Da mochila ele ainda se lembra, do fedor nas costas.” JULIANA LEITE

“Domitila sabe que Deus não existe e que só os bobos e as crianças acreditam em intervenções mágicas.” VERONICA STIGGER

“Numa manhã de segunda-feira, depois de me levantar, escovar os dentes, tomar banho, preparar o café e me sentar para ler as notícias, me dei conta de que o jornal que eu tinha nas mãos era de domingo. Horrorizado, olhei para o celular e ele também marcava domingo. No dia seguinte quando acordei era domingo, e o dia seguinte ao domingo era domingo. E assim, como se eu tivesse me perdido dentro do triângulo das bermudas do domingo, a época de ouro tinha chegado ao fim.” MARCELO MALUF

“Reinava a anarquia. Parte dos primos mais velhos ouvia as fitas de Jimi Hendrix de tia Lurdinha no último volume do rádio da sala. Valter Luís Junior, o mais velho, roubava os cigarros finos dela. As primas rocavam confidências e folheavam revistas que lhes ensinavam ser adolescentes. Valtinho e eu apresentávamos para ninguém as peças de teatro que ensaiávamos aos sussurros com tia Lurdinha na hora da sesta. Pequenos dramas inventados por ele, com papéis fixos: ele, a heroína da novela das oito, e eu, uma coadjuvante que o ajudava a brilhar. Ele era quase dois anos mais velho, eu tinha que acatar. Ao final das sessões, sobrava tempo para uma escapada ao quarto dos meus avós, zona proibida para a qual ainda não tinha sido inventado castigo ou apito. Valtinho e eu admirávamos, com um misto de fascínio e medo, a farda cheia de medalhas — essas sim, verdadeiras — que nunca saía do armário. Só podia ter sido comprada em Paris.” JULIA WÄHMANN

“Estudos arqueológicos inferem que a domesticação desse tubérculo, conhecido também como mandioca, macaxeira ou aipim, ocorreu há cerca de 9 mil anos, no sudoeste da Amazônia. A partir desse polo, o cultivo teria se disseminado entre os indígenas ao longo dos rios da bacia Amazônica. Partindo dessa premissa, a pesquisa procedeu à coleta e análise genômica de exemplares de mandioca-brava, mandioca-mansa, Manihot esculenta ssp. flabellifolia e ainda outras não designadas, cultivados ao longo dos rios

Negro, Branco, Madeira, Solimões e Amazonas, além de amostras do nordeste do Pará e do sul de Rondônia.” MAURÍCIO DE ALMEIDA

“Em um desses domingos, baixei um aplicativo de encontros e me impressionei com a quantidade de caras perto de onde eu morava. A maioria não mostrava o rosto. Gastei um tempo falando com alguns deles até que me deparei com um perfil sem foto nenhuma. Na descrição dizia que ele procurava algo fixo. Ele tinha só um ano a mais que eu e estava a dois quilômetros. Conversamos sobre banalidades, e ele mandou uma foto do rosto. Achei ele bonito, mas quis fingir que tinha o controle da situação, e só mandei: curti. Ele me deu o endereço dele.” TOBIAS CARVALHO

“Meu apetite diminuía, o que decerto era um dos primeiros sinais de sucesso do meu experimento. Comecei a não sentir mais falta da xícara de café matinal que me acompanhava, infalível e sem açúcar, desde os treze ou catorze anos de idade. O mundo sem aquele café tornava-se, de certo modo, um mundo mais transparente. Ao tomar banho, sentia o meu corpo um pouco mais magro, meus cabelos um pouco mais finos e a pele como que mais porosa e macia.” ADRIANA LISBOA


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