24 de maio de 2016

Flávio Carneiro comemora 30 anos de carreira

ENTREVISTA COM FLÁVIO CARNEIRO

Por: Aline Reis (Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ)
1. Em O leitor fingido, você menciona ter conhecido, ainda criança, a poeta Cora Coralina. Teria nascido em você, nesse momento, a paixão pela escrita?
Eu era uma criança ainda quando conheci a Cora e não fazia ideia de que era uma poeta. Acho que nem sabia o que era poeta. Para mim, Cora era uma velhinha que vendia os doces que ela mesma fazia. Doceira eu sabia o que era, rs.
Ia com meus pais à sua casa, um velho sobrado do tempo dos escravos, à beira do Rio Vermelho, comprar doces.
Depois, já morando no Rio – para onde me mudei aos 18 anos, sozinho, sem conhecer ninguém, só com a cara e a coragem – visitei Cora Coralina na sua casa. Eu devia ter uns vinte e poucos anos, já tinha escrito uma coletânea de contos (que seria publicada nos anos 90, com o título Da matriz ao beco e depois) e uma história para crianças. Tudo inédito.
E, claro, meu sonho era publicar o primeiro livro. Na conversa que tive com a poeta, ela me perguntou, depois de eu ter dito que queria ser escritor: qual a coisa mais importante para um escritor? Apressado, respondi: publicar. Ela então me disse: não, a coisa mais importante para um escritor é escrever.
Foi principalmente isso que aprendi com a Cora, que é preciso ter paciência se você quer ser escritor. O Drummond – que, aliás, foi quem revelou a Cora Coralina, quem a lançou no mundo literário, digamos assim – escreveu: “convive com teus poemas antes de escrevê-los.” É o que deveria estar na mesa de cabeceira de todo escritor. Quem quer ser escritor precisa ter paciência.
Primeiro, para escrever, para saber o tempo certo de contar determinada história, por exemplo. Cada história tem seu tempo de ser contada. E esse tempo você precisa respeitar. Tenho um romance cujo enredo já está todo pronto na minha cabeça, do começo ao fim. Cheguei a escrever a sinopse, tem título, tudo. Isso desde 2003. Quer dizer, é uma história com a qual convivo há pouco mais de uma década e sinto que já está chegando a hora de escrevê-la de verdade.
Publicar não é o mais importante. Isso eu aprendi com Cora Coralina, o mais importante é escrever, escrever sempre. Quando o livro estiver pronto, quando você olhar pra o que escreveu e puder dizer: se essa história fosse de outro autor, eu gostaria de ler – quando isso acontecer, aí sim chegou a hora de procurar uma editora. Não antes disso.
A paixão pela escrita eu tinha já antes desse encontro com a Cora, na minha juventude. O que aprendi com ela – com nossa conversa e também com o testemunho da sua própria vida – foi a importância da paciência na formação do escritor.
2. Nesse ano de 2016 você completa 30 anos como escritor. Muita coisa mudou nesses anos? O quê?
Para começo de conversa, eu mudei. Tinha 24 anos quando publiquei meu primeiro livro. Ainda acreditava em muita coisa que fui deixando pelo caminho ao longo do tempo. Por exemplo, acreditava que lançar o primeiro livro por uma grande editora – no caso, a editora Globo – significava ter portas abertas para os livros que viriam. Não foi bem assim. Cada livro meu, pelo menos na primeira década da minha carreira, foi uma conquista, uma dura batalha.
Os contratos também eram diferentes. Meus primeiros contratos foram batidos a máquina, para você ter uma ideia, nem passaram pelo computador. E os contratos ainda eram muito ruins para os autores. As prestações de contas, em alguns casos, eram semestrais, sem reajustes. Isso numa época de inflação altíssima. Hoje são um pouco melhores, mas ainda acho que 10% de direitos autorais muito pouco.
Muitos não sabem, mas é isso o que ganha um escritor, 10% do valor do livro. Mudou também o mercado editorial, claro. Hoje há muito mais editoras do que naquela época. E as editoras se modernizaram, o mercado se tornou mais competitivo, inclusive com a entrada de grandes grupos multinacionais.
Outro fator diferente é presença do agente literário. Hoje há bem mais agentes do que quando comecei. Minha agente é a Lucia Riff, com quem estou desde o início dos anos 90, quer dizer, há mais de 20 anos. Nesse período, vi muitos outros agentes aparecerem, o que é bom para os autores.
E tem ainda a internet, que não havia naquela época. Os blogs se tornaram um grande meio de veiculação da obra de autores jovens. E as redes sociais também. Além de um grande número de pessoas que criaram páginas para comentarem o que estão lendo, numa espécie de rede de resenhistas amadores, o que acho muito interessante. Teve também o surgimento das livrarias virtuais. E dos sites especializados em literatura, com resenhas, entrevistas com autores etc.
3. Nesse mesmo livro você comenta que seu pai era um bom contador de histórias. Isso teria aguçado o Flávio leitor?
Sem dúvida. Meu pai era, ainda é, um desses narradores orais, esses contadores de história que a gente quase não encontra mais. Quando eu era criança e até certo ponto da minha adolescência, acreditava que todas as histórias que ele contava tinham acontecido de fato, exatamente como ele as narrava. Eram histórias da sua infância – ele nasceu e foi criado numa fazenda, só foi pra Goiânia já adulto –, da adolescência, da chegada à capital, com personagens fascinantes e um jeito de contar muito pessoal. Depois descobri que ele inventava um pouquinho.
Minha mãe era um pouco mais calada, não era, não é ainda, de falar muito. Mas sempre foi muito observadora, atenta, e com uma leitura de mundo impressionante, repleta de sabedoria. Ela também, como o meu pai, nasceu e passou boa parte da vida em fazenda, no interior do estado.
Não tenho dúvida de que a presença dos dois, nos seus modos diferentes de ler o mundo, foram fundamentais na minha formação como leitor.
E como escritor também. Quando era criança, gostava de chegar da escola e reescrever, no caderno, a história que a professora tinha contado em sala. E assinava como se fosse minha. Escrevia lá: “A cigarra e a formiga”, por Flávio Carneiro.
Sou autor de todas as fábulas e contos de fada que ouvi na escola, rs. Naquela época, eu não sabia que as histórias tinham dono. Se é que elas têm mesmo.
Então, meu pai, que era professor de datilografia, batia a máquina aquelas minhas histórias dos outros. Cortava em 4 uma folha e datilografava nelas a história. Minha mãe, que era professora de crianças e também costureira, fazia, com minha ajuda, umas capas com papel de seda amassado e outras colagens. Depois costurava, fazendo uns livrinhos. Foram meus primeiros livros, que eram e não eram meus.
E hoje vejo como isso foi importante na minha obra como um todo. Se você for ver, praticamente todos os meus livros falam de outros livros, são histórias sobre histórias. Da matriz ao beco e depois, Lalande, O livro de Marco, A distância das coisas, Prezado Ronaldo, O campeonato, A confissão, O livro roubado, A ilha, todos estes são de algum modo reescrituras. São, todos eles, romances permeados de romances. Gosto muito desse escrita atravessada pela leitura. Em O leitor fingido afirmo uma coisa em que sempre acreditei: o escritor é um leitor que escreve.
4. Dos livros que já escreveu, qual teria sido o mais difícil para ser concluído? Por quê?
A Confissão. O narrador é um sujeito que sequestra uma mulher, sedando-a com clorofórmio, e a leva para uma casa, numa praia deserta. Quando ela acorda, ele explica à mulher, com calma, de forma tranquila e elegante, por que a sequestrou. Fez isso porque precisava lhe contar uma história.
Esse narrador precisava ser ao mesmo tempo sedutor e um tanto assustador. Era isso que eu queria criar, um narrador ambíguo, que manteria até o final da história a resposta à pergunta que a mulher se fazia: por que ele me escolheu?
O problema é que esse narrador estava pesado demais. Assustador demais. Eu tinha pesadelos com ele, sério. E não conseguia de modo algum insuflar nele alguma leveza, algo que lhe desse a ambiguidade que eu queria. Depois de mais de 50 páginas escritas, pensei em parar. Insisti mais um pouco e parei de vez.
Então guardei o romance numa gaveta e fui escrever O Campeonato, meu primeiro romance policial. Foi uma escrita muito divertida porque o narrador, André, e seu assistente, o Gordo, são dois jovens apaixonados por literatura policial, bebem todas pelos bares do Rio e têm uma visão de mundo bem parecida com a que eu tinha na idade deles, 26 anos. Eu ria sozinho das encrencas que eu mesmo criava pra eles. Foi um romance bom de escrever. Um romance leve.
Quando acabei O Campeonato, voltei ao romance do meu narrador atormentado. E, veja só, a história fluiu exatamente como eu queria no início. Um romance salvou o outro, entendeu? O Campeonato me deu de presente a leveza para terminar de escrever A Confissão.
Do momento em que comecei A Confissão até o ponto final se passaram 8 anos.
5. Há algum livro seu que tenha demorado para ser publicado? Se sim, quais seriam os motivos?
Logo depois de publicar meu primeiro livro, Acorda, Rita!, pela Globo, assinei o contrato para publicação do próximo, Lalande. Uma série de mudanças na editora, porém, provocaram um distrato, uma rescisão contratual. Quer dizer, desistiram do livro. Me explicaram que iriam desativar todo o departamento de livros para crianças e jovens e investir em quadrinhos do Faustão e da Xuxa (era a editora Globo, da Fundação Roberto Marinho, não nos esqueçamos disso).
O livro já estava pronto, só faltando ir para a gráfica. Tinha ilustrações prontas – belíssimas ilustrações, ao estilo oriental, do grande Rui de Oliveira. Fotolitos prontos, tudo.
Esse distrato foi um banho de água geladíssima na minha carreira, que mal começara. Aos vinte e poucos anos, não é fácil lidar com uma frustração dessas. Mas ficou pior.
Alguns anos depois, assinei um novo contrato, desta vez com a Ática. Manteriam as ilustrações, capa etc.
Não dizem que um raio não cai nunca duas vezes no mesmo lugar? No meu caso, caiu. Um ano depois, com lançamento marcado, recebi meu segundo distrato (ainda bem que acabou por aí). A Ática, como anteriormente a Globo, passava por mudanças e iria distratar uma série de outros livros, além do meu.
Por fim, Lalande foi publicado pela Global. E quem tiver o livro em mãos, repare num detalhe. Algumas das ilustrações vêm com a assinatura do Rui de Oliveira e, abaixo, um número: 87. Foi o ano em que ele as fez, 1987. Na ficha técnica, você verá a data de publicação do livro: 2000.
Acho que ninguém esperou tanto tempo para ver publicado um livro que já estava pronto, com capa, ilustração, fotolitos. Exatamente 13 anos.
6. É difícil publicar um livro hoje em dia? (pense nas editoras prestadoras de serviço, pois na edição passada a editora da revista disse que não era tão difícil assim… pagando, tudo sai. Então pense numa resposta tanto para editoras grandes, como as pequenas que prestam esse serviço, ok?)
Acredito que hoje seja mais fácil sim publicar. Com os avanços tecnológicos nessa área, acredito que a edição de um livro tenha ficado bem mais barata do que era nos anos 80 e 90. E há novos concursos, como o Prêmio SESC e o Barco a Vapor, que publicam o vencedor por grandes editoras. Há também as cooedições, que podem ser um bom caminho.
Agora, a questão não é apenas publicar. É preciso ficar atento a isso. Se você quer apenas ver seu nome na capa de um livro, é só pagar e pronto. Mas se quer de fato ser lido, é preciso pensar o que você, ou a editora, ou a gráfica que estiver publicando seu livro, vai fazer com ele.
A distribuição é o grande problema. Já era quando comecei a publicar e ainda é hoje. O seu livro vai estar nas livrarias? E a notícia de que ele existe vai chegar para além do seu círculos de amigos? São coisas em que o escritor iniciante deve pensar também.
7. Quais os desafios editoriais de um escritor veterano? Ainda que conhecido de grandes editoras, ele os tem ou os desafios, hoje, são para novos escritores?
Para quem, hoje, já não tem grandes dificuldades em publicar seu livro, porque já construiu uma obra consistente e já tem alguma boa editora aguardando o novo livro, o desafio é, ainda, o de alcançar seus leitores. O sistema de distribuição é um tanto cruel, as livrarias físicas têm espaço limitado, os livros estrangeiros são economicamente mais competitivos, há uma série de problemas. Publicar pode não ser mais um problema, mas ser lido continua sendo, sobretudo num país onde se lê muito pouco.
Outro desafio é ser publicado no exterior. O quadro melhorou nas últimas décadas, mas ainda hoje os editores estrangeiros querem do Brasil, ou de outros países do chamado terceiro mundo, histórias exóticas, associadas, no nosso caso, ao carnaval, às favelas, ou que tematizem a violência, a corrupção. Dificilmente vão publicar, por exemplo, uma obra de ficção científica, ou enveredando pelo fantástico. Isso limita muito a possibilidade de ser lido em outros idiomas, que é também uma aspiração legítima de todo escritor profissional, em qualquer lugar do mundo.

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