30 de junho de 2022

Onde podem chorar as crianças, sozinhas em sua dor?

Com um romance intimista, delicado e ambientado no interior do país, Eugênia Ribas-Vieira faz sua estreia como escritora.


Por Felipe Maciel

Eugênia Ribas-Vieira tem intimidade de longa data com a literatura. Como editora e agente literária, a escrita sempre fez parte de sua vida. Mas, agora, ela se revela como escritora com o romance Onde choram as crianças (Faria e Silva). E faz bonito em sua estreia.

A autora nos leva ao vilarejo de Nossa Senhora das Dores e conta como uma doença desconhecida deixa um rastro de dor, sangue e sofrimento. O silêncio e a solidão tomam conta da atmosfera.

O silêncio (Enquanto todos gritam, uma criança chora), o medo (Sozinhas como abandonadas), a morte (Um cântico ressoa pelo resto de meu corpo) e assim por diante. Os capítulos se entremeiam a partir de temas universais e incluem ilustrações singelas de Marcia Cavalcanti, nos apresentando personagens sufocados entre as meias-palavras, o desconhecido e os desejos ocultos.

“A estrela aponta a saída da cidade, cidade que se fez doença. Há pouco tempo, menos de dez anos para cá, todos foram contaminados pela púrpura. A cor de sangue, a mais vibrante de todas as cores, desenha a pele dos habitantes de Nossa Senhora das Dores com seus pequenos e incontáveis pontos.”, revela a autora já na primeira página da obra.

Sinhá Dora é a mãe de Luiz, “uma mulher de idade, quase careca, com seus poucos fios brancos que restavam colados um ao outro de tanto sebo acumulado.” Ao perceber que seu filho foi infectado pela terrível peste, ela decide escondê-lo dos olhos alheios. O julgamento social é seu maior temor.

Austera e áspera, Sinhá Dora sempre levou uma vida de acordo com os padrões convencionais – ia à missa todos os dias e se confessava com regularidade. Diante da enfermidade de seu filho, se sentiu pela primeira vez alvo do arbítrio social. “Seu sentimento de culpa nasceu apenas quando lhe disseram que Luiz, seu próprio filho, era filho do Diabo. E que precisou agir em função disso.”

Neste pacato ambiente rural assolado pela morte e o horror, descortinam-se outros personagens, como o menino Joaquim, sua mãe Sinhá Teresa, e o Padre Clemente. E, assim, Eugênia vai pouco a pouco costurando sua trama, com uma escrita depurada e delicada, e nos apresenta uma história sobre mães e filhos, amor e desejo, paixão e vingança, desamparo e perdão.

1. Confira a entrevista exclusiva da autora: Como surgiu Onde choram as crianças? Em que circunstâncias a obra foi escrita? Como funciona seu método criativo?

Onde choram as crianças surgiu em três momentos específicos. Quando primeiro ouvi a música Mortal loucura ao vivo, cantada por Zé Miguel Wisnik. Quando num passeio a cavalo por Vassouras, encontrei um cavalo morto, virado de ponta cabeça num rio. Quando li A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, emprestado pela minha mãe. Algo de muito obsessivo se deu em minha cabeça. Nunca tinha sentido isso antes – uma necessidade de escrever– como se houvesse uma voz que não controlasse. Esse processo de escrita se deu muito próximo ao processo onírico, ou de sonhar mesmo. Porque fazia questão de acordar por volta de quatro e meia, cinco da manhã, e escrever. Como se desse continuidade ao que estava sonhando, mas sabia aquele se tratar de um sonho já pensado, delineado, com alguma lógica. Mas essa era uma hora em que a escrita alimentava o sonho e o sonho alimentava a escrita. Escrevi, com intervalos, num período de dois anos. E voltei a ele, a partir de leituras, minhas e de outras pessoas próximas, num período de dez anos. Sempre editando. Editando. Cortando, fundamentalmente. E ainda vejo erros no final. É uma luta sem fim a de escrever e publicar.

2. Você tem uma carreira bem-sucedida como editora e agente literária e, neste sentido, sempre atuou nos bastidores do mercado editorial.  Como está sendo a experiência de se lançar como autora? Sempre teve esse desejo?

Essa foi uma decisão difícil, na verdade. A vontade de ser escritora nunca se deu de maneira consciente, algo que houvesse buscado, que tenha exercitado. Sempre veio do que considero um “transbordamento” deste outro trabalho com livros, esse que nunca parei, que fundamentalmente é o trabalho de leitura. Não é incomum, para mim, ter que escrever ao final do dia. Seja uma frase, uma anotação, um verso. Um miniconto, uma página. Sempre guardados de maneira alheia, sem ordem. Onde choram as crianças foi um processo que parecia sugar tudo isso que sempre foi solto. Nele, numa primeira vez me concentrei. Devo dizer que desde o momento que decidi lançá-lo, me veio um enorme sentimento de liberdade, de que dele estava livre, e que poderia escrever algo novo, ao que me atirei. Ao mesmo tempo, a decisão de lançar esse livro ainda me traz uma enorme insegurança. Porque sei não ser perfeito, e o outro lado – editora e agente literária – de alguma maneira exigem isso de mim. Sim, posso dizer que existe um conflito aí.

3. Qual o significado do título Onde choram as crianças? Como ele surgiu?

Surgiu a partir do título do livro Onde vivem os monstros, que muito me impressionou como livro e filme. Surgiu também a partir da leitura do livro Olhos secos, de Bernardo Ajzenberg. E surgiu dessa minha infância, dessa dor da doença, que sim, fez parte – e que ainda faz, e da qual eu precisava falar.

4. Seu romance é ambientado no interior do país, em um ambiente rural e supersticioso, que retrata um Brasil profundo. Após um longo período de sucesso do denominado romance regional, a literatura brasileira viveu a onda do romance urbano. Recentemente, autores como Carla Madeira e Itamar Vieira Junior alcançaram milhares de leitores com histórias que se passam no interior. Como enxerga este atual momento?

Na verdade, Onde choram as crianças talvez tenha precisado desses dez anos de maturação para ser publicado. Quando foi escrito, só se falava de romances urbanos, não sei, era mesmo um ponto fora da curva este livro. Embora eu acredite que “ser fora da curva” não seja ruim. Gosto da literatura de autores como Felisberto Hernández, Juan Rulfo, Kathryn Mansfield, o próprio J.J. Veiga. Philip K. Dick, e destaco aqui seu conto, A cidadezinha. Gosto muito desse recorte tempo-espaço que esses autores delinearam, à parte de tudo, algo novo, diferente, que não é muito nomeado. E esse livro, Onde choram as crianças, não se trata de regionalismo, ao menos não para mim. Claro que a literatura de Graciliano Ramos sempre me foi gigante, de grande impacto, e me acordaram olhos a um Brasil desconhecido. Mas, no caso de Onde choram as crianças, eu tive uma experiência muito forte numa viagem a Alagoas, com a Escola Parque – eu tinha 16 anos na época – e seguimos de ônibus por cidades à margem do rio São Francisco. Não são cidades fictícias as que trabalho no livro, portanto. Apenas, de algumas, mudei o nome. A cidade de Piranhas, à qual Padre Clemente retorna em certo momento da narrativa, eu tinha uma recordação muito feliz da viagem. Fomos a uma quermesse, comemos carne de sol, coisas que trouxe para o livro. Sempre tive também muita sensibilidade para as diferenças sociais no país e nessa viagem pude ver o que era a miséria. O que era sopa de palma. Também outra realidade que vivenciei e que pude escrever sobre. Pude trazer para esse recorte de cidade que eu precisava ter para escrever essa trama.

5. Sinhá Dora é uma mulher áspera e dura e prefere deixar seu filho à espera da morte diante do temor do julgamento alheio do que confortá-lo e protegê-lo. A maternidade pode ser um lugar de desamparo?

Talvez esta seja a pergunta mais difícil desta entrevista. Reconheço neste livro, depois de um processo de distanciamento que me levou tempo, como disse, cerca de dez anos, que sim, que este livro é um perdão a minha mãe. Fundamentalmente é isso. E gostaria que essa mensagem fosse passada, de maneira universal a todas as mães, que estas sejam perdoadas. Claro que reconheço que cada ação deva ser julgada de maneira individual, nunca como um todo – “ah, um perdão a todas as mães”. Não é isso. Mas que se amplie o entendimento que sim, ser mãe é um lugar de desamparo – talvez o lugar em que estamos mais pré-dispostas a ter que lidar com o real, este real tão falado por Lacan, o lugar do imprevisto, do não esperado. E esse livro surgiu a partir da minha pergunta: como foi para minha mãe ter que lidar com uma doença tão difícil, a púrpura, que tive pela primeira vez com menos de dois anos de idade, em um país estrangeiro. Eu precisei olhar pra isso, sabe? Precisei passar por esse livro para entendê-la. E este livro foi escrito sob o olhar de uma criança, Joaquim, porque até aquele momento, eu não era mãe. Então, o narrador está nessa altura e nessa ingenuidade do olhar de Joaquim. Apesar de onisciente, ele não sabe tudo. Vai descobrindo aos poucos. Vai se surpreendendo ao longo da história. Hoje, que tenho dois filhos, espero, sim, que esse livro possa ampliar a visão das pessoas para a maternidade. Talvez a mãe não seja a “culpada” de todas as coisas. Talvez a mãe precise sim de um lugar mais calmo para atuar, não tão observado e julgado por todos. Gosto, especialmente, da maneira que desenhei a mãe Sinhá Teresa nesse livro. Que embora não demonstre o amor pelo seu filho, sempre está ali. Presente. Forte. Talvez seja isso que possamos dar na maternidade, nossa subjetividade fortalecida. Neste sentido, uma última referência deste livro foi o filme Caráter, de Mike Van Diem, que ganhou Oscar de melhor filme estrangeiro. Essa mãe, que está ali para que o menino enfrente a vida acima de tudo. Para que tenha recursos para isso, físicos e emocionais. Tentei que ao longo da narrativa, Joaquim também, aos poucos, encontrasse seu caminho. Preciso finalizar aqui com O apanhador no campo de centeio, de Salinger. Desculpas essa última referência. Mas outro livro que muito me marcou.


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