13 de dezembro de 2023

Minha vida de agente literária

Por Felipe Maciel

Celebrando 40 anos de carreira dedicada à literatura, Lucia Riff recorda nesta entrevista momentos marcantes de sua trajetória, pontua as grandes transformações que testemunhou à frente da Agência Riff e avalia o cenário atual e as perspectivas para os próximos anos.  

Lucia descobriu sua vocação para o mercado literário quase por acaso, quando conheceu em 1983 por intermédio de um amigo a lendária agente literária Carmen Balcells e começou a trabalhar em seu escritório no Rio de Janeiro. Alguns anos depois, reencontrou Carmen e, no início dos anos 1990, fundaram, juntas, a BMSR (Balcells Mello e Souza Riff). 

A sociedade chegou ao fim em 2004, com a aposentadoria de Balcells. Nasceu, então, a Agência Riff. Sócios da nova empresa e já experientes no ofício, Laura Riff e João Paulo Riff assumiram o braço estrangeiro da empresa, enquanto Lucia passou a se dedicar aos autores brasileiros.

De lá para cá, muitas mudanças: “Começamos com um fax e máquinas de escrever elétricas – a chegada dos primeiros microcomputadores foi uma tremenda mudança em nossas vidas. Mais adiante, os e-mails aposentaram o fax, os computadores ligados em rede, a criação de um sistema para a gestão da agência – e o fim dos controles manuais.”, recorda. Lucia ressalta, porém, considerar, nessas quatro décadas, ainda mais marcante o fortalecimento do autor brasileiro no mercado brasileiro, e ressalta a força da diversidade que remodelou o mercado nos últimos anos, incorporando novas vozes, temas e formas de narrar.

Hoje, a Agência Riff conta com uma equipe formada por 14 profissionais, que se dedicam a um grupo diverso de autores brasileiros e uma ampla lista de clientes estrangeiros, de todas as partes do mundo (agentes literários e editoras).

Há otimismo e cautela em sua visão, que aponta os desafios e entraves nas traduções para o exterior de obras nacionais e o árduo processo para a concretização de adaptações literárias para o audiovisual. Mas a avaliação, ainda que realista e precavida, esbanja otimismo e mantém aceso o desejo de realizar ainda mais: 

“Estou sempre aprendendo, me reciclando, conhecendo novas pessoas, novas obras. Os planos são aprimorar ainda mais o trabalho com os autores e clientes. Quero estar cada dia mais próxima de cada autor e autora, de cada cliente. E, dentro do possível, ler mais (e mais rápido), conversar mais, ouvir mais.”

Confira a seguir a entrevista na íntegra com Lucia Riff:

1. Quarenta anos de carreira dedicada à literatura é uma data bastante significativa. Como tudo começou?

Começou em janeiro de 1983. Conheci a Carmen Balcells através do nosso querido amigo comum, Paulo Gurgel Valente, e ela em seguida me convidou para trabalhar em seu escritório do Rio de Janeiro. Na época eu estava formada em Psicologia, com filhos ainda bem pequenos, tentando escolher um rumo para minha vida profissional. Nunca havia lidado com o mercado editorial – a Agência da Carmen foi minha estreia.

2. Nessas quatro décadas de carreira, você se consolidou como uma das principais agentes literárias do país. Como definiria o seu ofício?

É um ofício fascinante – não tenho um minuto de tédio, de rotina. Estou sempre aprendendo, me reciclando, conhecendo novas pessoas, novas obras. Por outro lado, o volume de trabalho é brutal e nem sempre é fácil lidar com as pressões e tensões que vêm de todas as partes. Ainda assim, não consigo me imaginar fazendo outra coisa na vida.

3. Criada em 1991 em parceria com a lendária Carmen Balcells, a Agência Riff seguiu seus próprios caminhos sob seu comando e completa 33 anos em janeiro de 2024, reunindo uma equipe diversificada e com atributos diferenciados. Quais os momentos mais marcantes dessa longa trajetória? Como avalia a Agência Riff hoje?

A agência começou em um momento bem complicado – o Brasil vivia a hiperinflação, e sobreviver naquele ambiente de caos foi nosso maior desafio. Além do mais, quase ninguém sabia o que era uma agência literária. Com o Plano Real, as coisas começaram a se equilibrar – aos poucos a agência foi se firmando no mercado. Começamos com um fax e máquinas de escrever elétricas – a chegada dos primeiros microcomputadores foi uma tremenda mudança em nossas vidas. Mais adiante, os e-mails aposentaram o fax, os computadores ligados em rede, a criação de um sistema para a gestão da agência – e o fim dos controles manuais. Em 2004, Carmen se aposenta na Espanha: nesse momento, negocio a compra de suas cotas e fico com 100% da agência, junto aos meus dois filhos e sócios, Laura Riff e João Paulo Riff. Na sequência, a agência que antes se chamava BMSR (Balcells Mello e Souza Riff), passa a se chamar Agência Riff – Laura e João Paulo assumem os clientes estrangeiros e eu passo a cuidar exclusivamente dos autores brasileiros. Em 2009, nos mudamos para nosso novo escritório no Centro do Rio, com vista para a Baía da Guanabara, e aqui estamos. Somos 14 na agência – um super time para cuidar de um grupo maravilhoso de autores brasileiros e uma impressionante lista de clientes estrangeiros, de todas as partes do mundo (Agentes Literários e Editoras).

4. Sua experiência profissional permitiu a você ser testemunha de profundas mudanças do país e, em particular, do mercado editorial. Quais os principais avanços você apontaria nessas transformações? Quais os principais desafios para os próximos anos?

A mudança mais marcante para mim foi o fortalecimento do autor brasileiro em nosso mercado – e, ainda, a força da diversidade. Se compararmos com as décadas de 1980 /90/00, o que vemos agora é surpreendente, lindo e extremamente positivo. Quanto ao futuro, se pensarmos exclusivamente no mercado editorial, acho que podemos ser otimistas. No mais, está tudo um pouco confuso e assustador, não?

5. O elenco de autores brasileiros contemporâneos representados pela Agência Riff é bastante amplo e diversificado. Como avalia a literatura brasileira dos dias atuais? O que as editoras nacionais estão buscando? A seu ver, o que tem chamado a atenção dos leitores?

Me parece maravilhoso que não tenhamos que seguir um só caminho – temos autores, editoras e leitores para todo tipo de obra. Há uma procura maior por obras escritas por mulheres – mas não apenas. Há uma busca por diversidade, por qualidade, por originalidade. Há espaço para novas vozes – e isso é muito bom.

6. Qual sugestão você daria a um escritor ou escritora iniciante que deseja seguir a carreira literária?

São vários os caminhos possíveis para um escritor iniciante – existem as oficinas literárias, os cursos de escrita criativa, os concursos literários, a autopublicação, os blogs, as redes sociais. Se possível, me parece bom estar conectado com o meio,  conhecer os colegas, estudar o mercado editorial – procurar conhecer as regras do jogo, frequentar eventos e feiras literárias. E, sobretudo, ler muito!

7. O Brasil é um país que não valoriza sua memória. A Agência Riff representa também obras literárias de grandes autores do passado, entre eles Lygia Fagundes Telles, Ariano Suassuna, Erico Verissimo, Rachel de Queiroz, João Cabral de Melo Neto, Mario Quintana e Manoel de Barros. Como avalia o interesse das novas gerações pelos clássicos?

O interesse pelos clássicos é sempre muito forte – e isso é motivo de muita alegria. Vejo as editoras trabalhando os clássicos com muita competência, buscando reedições caprichadas, novas capas, paratextos modernos, novos formatos, bom aproveitamento das efemérides. Enfim, há todo um cuidado para que as obras se mantenham vivas. Nesse sentido, os herdeiros ajudam muito e têm sido parceiros fundamentais.

8. Este ano vivemos um fato inédito com a vitória de Stênio Gardel do National Book Awards. A publicação de obras literárias brasileiras no exterior, porém, é ainda um grande desafio. Quais os principais entraves? Como ampliar a presença da literatura brasileira no exterior?

O principal entrave é o idioma. Como não é comum encontrarmos editores estrangeiros que leiam o português, precisamos verter para o inglês todo e qualquer material enviado para avaliação – isso torna o processo mais caro e mais lento – e não tão eficaz. Há também um certo desconhecimento do que seja uma obra brasileira, ou do que seja o Brasil. Um livro pode ser recusado por ser “brasileiro demais”, portanto seria de pouco interesse para o público estrangeiro, ou “brasileiro de menos”, ou seja, o editor avalia que aquela obra poderia ter sido escrita em qualquer outro país – sendo assim não faria sentido o investimento em uma tradução mais cara. Temos que continuar batalhando, com mais e mais contatos, com presença maior nas Feiras Literárias, com o firme apoio da Bolsa de Tradução da Biblioteca Nacional e do Itamaraty. Sinto que houve uma melhora nos últimos anos, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

9. Acompanhamos nos últimos anos um aumento do interesse dos leitores pela literatura contemporânea brasileira com fenômenos de vendas de nomes como Carla Madeira e Itamar Vieira Junior. Há também novas editoras apostando na renovação da literatura brasileira. Como avalia este momento? Veio para ficar?

Minha aposta é que sim: esse bom momento veio para ficar. A tendência é que melhore ainda mais. Os clubes de leitura aproximaram ainda mais os autores de seus leitores, e, claro, as redes sociais e os eventos literários espalhados por cada canto do país. Em todo o mundo, o autor nacional ocupa posição de destaque no mercado – no Brasil, não será diferente.

10. A relação entre literatura e audiovisual não chega a ser uma novidade, mas, com a ampliação das produções nacionais para o streaming, acompanhamos um aumento expressivo de licenciamento de obras literárias para essas plataformas. Como se dá esse processo? O audiovisual amplia o interesse pelas obras adaptadas? Quais os principais desafios nessas negociações?

Sim, é verdade que temos negociado um volume maior de contratos de adaptação para o audiovisual, mas, entre um contrato e a estreia do filme, vai um tempo imenso (isso, quando tudo dá certo e flui nos prazos previstos). Curtimos imensamente cada negociação e ficamos superfelizes com o interesse crescente em nossos autores, ainda mais por saber do quanto é difícil o mercado audiovisual no Brasil. Um brinde aos valentes produtores, diretores, roteiristas e a todos que se dedicam ao cinema brasileiro!

11. Quais são seus planos para os próximos anos?

No momento só tenho planos para as férias!! 😊😊😊 Falando sério: os planos são aprimorar ainda mais o trabalho com os autores e clientes. Quero estar cada dia mais próxima de cada autor e autora, de cada cliente. E, dentro do possível, ler mais (e mais rápido), conversar mais, ouvir mais.


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