1 de outubro de 2020

Uma vibração de claridade impiedosa

Por Moacyr Godoy Moreira*

(Resenha de Em Plena Luz, de Tércia Montenegro)

Em seu bonito livro O aprendiz do desejo, Francisco Daudt da Veiga nos diz:

“Ser incompleto não é ser inferior. É ser o que se é, e o que sempre se será. Assumir nossa própria incompletude não precisa representar completude e morrer de medo de que descubram. É poder abrir espaço para desejar a completude transitória de um encontro, de uma realização, de um prazer, sabendo que a incompletude permanece, não como prejuízo mas como pano de fundo que permite o nosso lucro eventual no processo de construção.”

Em seu romance mais recente, Em plena luz, a premiada autora cearense Tércia Montenegro nos oferece uma complexa personagem, Lu (cujo nome inteiro nos é revelado apenas nos estertores no livro, nome que a protagonista detesta, diga-se), que vive um processo de lapidação gradual, livrando-se de homens indesejáveis, responsáveis por amores altamente perigosos (pensando no termo explorado pelo ítalo-argentino Walter Riso). A personagem foge de Fortaleza, rumo a Paris, e novamente foge para Liège, na Bélgica, sempre se esquivando de relacionamentos nocivos, incialmente, o espalhafatoso Zeno, dono de uma empresa de aluguel de limusines e serviços diversos para casamentos, depois o matemático Étienne, detentor de uma distúrbio responsável por sua doentia necessidade de assepsia – condição ironicamente providencial, nos tempos covídicos atuais.

Porém, é na ensolarada Fortaleza, não na tão afamada cidade luz francesa, que a personagem encontra a serenidade de um relacionamento mais leve e delicado. Seu rumo para o ambiente sonhado, em plena luz, ocorre justamente na sua terra natal, depois de mirabolantes reviravoltas mundo afora:

Vou sob uma vibração de claridade impiedosa. Fortaleza tem uma luz incomparável, dura e branca, chapando as figuras, que reverberam entre as sete da manhã e as quatro da tarde.

Adam Philips, engenhoso autor de obras como Beijo, cócegas e tédio e O flerte, nos provoca:

“Mas como seria enamorar-se se o conhecimento de si ou do outro, de si como um outro, não fosse a meta ou o resultado? O que estaríamos fazendo juntos se não estivéssemos conseguindo nos conhecer?”

A trajetória da protagonista de Montenegro é, antes de tudo, uma série de viagens em busca de si mesma: a atividade fotográfica que passa do registro de casamentos ao inspirado retrato de figuras do cotidiano, o embrenhar-se na arte da escultura, a forma como se desfaz de um desagradável emprego num escritório de advocacia para aventurar-se a oferecer suas fotos para um jornal de grande visibilidade.

Não à toa, a capa do livro reproduz um trabalho de Geraldo de Barros, expoente da fotografia e da arte experimental do século XX. Ao mesmo tempo que diversas nuances do claro-escuro atravessam o romance, desde a própria atividade fotográfica da autora, que vai da reprodutibilidade técnica do dispensável registro de casamentos à arte mais expressiva da personagem ao armar-se da câmera e tomar as ruas da cidade (“Gosto desse trecho em que as pedras têm estrias e se empilham como se fossem ossos de um bicho desmontado”), registrando flagrantes aleatórios – e não há nada menos aleatório, em contrapartida, que as desgastadas sequências de imagens de noivos e convidados simulando uma desbotada felicidade – o livro vai ganhando em força, potência de expressão de vida que a narradora nos apresenta aos poucos, até culminar nas belíssimas cenas descritas no último capítulo, o sexo como ponto alto e recomeço de sua trajetória. Neste momento da obra, lê-se, em uma delimitação conclusiva do que é a serenidade da plenitude, em uma auto-definição da personagem:

Meu corpo é uma casa tranquila.

O encontro com Caio se dá a partir de uma entrevista, solicitada pelo jornalista, para que Lu descreva impressões ao ter sobrevivido a um dos atentados terroristas ocorridos em Paris, em 2015, no qual cento e trinta pessoas perderam a vida (“os muros torcidos deixando à mostra ferros, gravetos fumegando sua verticalidade em meio às ruínas de buracos, crateras, o asfalto desfeito em pedras engolidas por túneis repentinos”). Apesar do interesse pelo depoimento, entendemos que a protagonista sequer estava próxima aos locais dos atentados. Seu testemunho da calamidade parte de uma ausência que perpassa o livro, o gosto pela incompletude, um tangenciar de aspectos que levam a personagem a se desvencilhar de amores, tarefas profissionais, tragédias assustadoras ou simplesmente fragmentos de uma memória que atravessa os capítulos, visitas que fazia na infância a casas a serem alugadas, criando enredos fictícios de ocupações que jamais ocorreram.

O livro resgata, por outro lado, a habilidosa capacidade da autora de descrever situações fora do usual, notam-se elaboradas cenas em que aromas, paladares e sensações tácteis são delicadamente construídas, permitindo ao leitor uma experiência de caráter sinestésico, marca da criativa elaboração já presente em obras como O tempo em estado sólido, O vendedor de Judas e o impecável Linha férrea. E a exuberância de vida da personagem, em constante processo de descoberta e iluminação, revela-as ainda mais, levando a pensar no belo texto As águas do mar, de Clarice Lispector, abrigado no pouco estudado volume de contos Onde estivestes de noite, pouco antes da conclusão do volume:

Assim como se deve descobrir a cabeça ao entrar em igrejas – eu solto o cabelo diante do mar. Preciso sentir que parte do meu corpo se prolonga, descontrolada e flexível, e dança, independente do resto.

E a narrativa deixa no leitor um desejo, assim como Lu descortina novos mundos, internos e exteriores, de continuar a desvendar a obra desta notável escritora.

*Moacyr Godoy Moreira é médico e Mestre em Literatura Brasileira (FFLCH/USP). É autor dos livros Lâmina do tempo, República das bicicletas, Ruídos urbanos e Soalho de Tábua, todos publicados pela Ateliê Editorial.


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