8 de março de 2026

35 anos de Agência Riff

Em entrevista exclusiva, Lucia Riff reflete sobre sua trajetória como agente literária e fala sobre pioneirismo, internacionalização e a força das mulheres no mercado editorial


Por Felipe Maciel

Em janeiro de 2026, a Agência Riff completou 35 anos de atuação. À frente da agência desde sua fundação em 1991, Lucia Riff consolidou-se como uma das principais agentes literárias do país. Nesta entrevista especial de 8 de março, ela fala sobre pioneirismo, a transformação do mercado editorial brasileiro, a presença feminina no setor e os desafios da internacionalização da literatura nacional.

Lucia construiu uma trajetória sólida no mercado editorial brasileiro. Nascida em 1954, ela formou-se em psicologia antes de ingressar definitivamente no universo dos livros. Trabalhou nos departamentos editoriais da Nova Fronteira e da José Olympio até dar um passo decisivo: em parceria com a lendária agente espanhola Carmen Balcells, fundou sua própria agência literária.

Com a aposentadoria de Carmen, em 2004, ela assumiu integralmente a sociedade e passou a comandar a Agência Riff ao lado dos filhos, Laura e João Paulo Riff. “Os anos iniciais foram, de fato, muito desafiadores. Havia um forte estranhamento do mercado com relação à figura do agente literário, mas esse não foi o único percalço nem o mais difícil. Navegar durante os tempos de hiperinflação foi uma aventura, além do mais, o trabalho dependia de máquinas de escrever, fax, controles feitos à mão…”, recorda-se.

A Agência Riff atua em duas frentes complementares: como agência primária de autoras e autores brasileiros e como coagente de editoras e agências literárias estrangeiras. No trabalho de coagência, mantém parcerias com clientes em diferentes países, trazendo para o Brasil — e, em alguns casos, também para Portugal — lançamentos e obras de catálogos internacionais. As edições brasileiras de obras estrangeiras, reconhecidas pela qualidade editorial, pelo cuidado gráfico e pela forte recepção do público, são motivo de especial orgulho para a equipe.

No cenário nacional, a agência representa atualmente cerca de 180 autores, reunindo nomes consagrados do cânone literário brasileiro, vozes de destaque da efervescente cena contemporânea e novos talentos que vêm renovando o panorama da literatura. “Sempre sonhei em ter uma agência plural – com grandes nomes, claro, mas que também pudesse abrigar novas vozes, com autoras e autores de diversos cantos do Brasil, variadas origens e estilos.”, avalia.

Lucia não ignora os desafios da profissão e ressalta que não é simples lidar com um elenco tão amplo e diverso, mas busca estar próxima de todos os autores e autoras. O trabalho do agente literário pode ser exigente e, por vezes, solitário. “Ao longo dos anos colecionamos amizades, parcerias duradouras, sucessos e histórias bem bonitas, mas também tivemos nossa cota de decepções.”, confessa.

1. Em 2023, celebrando com Marina Colasanti o Prêmio Machado de Assis na ABL; 2. Em 2005, Lygia Fagundes Telles e Lucia Telles na cerimônia de entrega do Prêmio Camões em Portugal; 3. Lucia Riff, Lygia Fagundes Telles e Margaret Atwood na Flip de 2004; 4. Meados dos anos 2000, com Zuenir Ventura, Isa Pessoa e Luis Fernando Verissimo; 5. Salão LER de 2019, com Mary e Zuenir Ventura, Lucia e LFV; 6.Encontro com Ariano Suassuna e Dona Zélia em Pernambuco nos anos 2000.


Entre as transformações mais marcantes das últimas décadas, Lucia destaca as profundas transformações tecnológicas e o espaço conquistado pelas mulheres no mercado editorial. “A força da literatura escrita por mulheres é inegável e só aumenta. Para quem se lembra da época em que os prêmios eram todos para autores do gênero masculino, os convites e os livros na lista dos mais vendidos também e a literatura escrita por mulheres era vista como um gênero menor, é, sem dúvida, motivo para grandes celebrações!”,

Com 35 anos de Agência Riff, Lucia se permite olhar para trás e reconhecer a consistência do caminho construído, uma história marcada pela discrição, pelo compromisso com os autores e por uma presença firme nos bastidores da literatura brasileira. “A agência me trouxe amigos incríveis, muitas histórias, muitas realizações das quais me orgulho, muitos momentos bacanas, além de um número infinito de contratos, autorizações, acordos, negociações, reuniões, viagens, conversas… O saldo é muito positivo.”, conclui.

Confira a seguir a entrevista exclusiva da agente literária Lucia Riff:

  1. Lucia, quando você começou no início dos anos 1990, o papel do agente literário ainda era pouco conhecido no Brasil. Como foi abrir esse caminho? Em alguns países, como os Estados Unidos e o Reino Unido, a cultura do agenciamento literário é algo consolidado no mercado editorial. E no Brasil? Podemos dizer o mesmo?

Sim, é verdade – nos primeiros tempos da agência, o papel do agente dedicado a autores brasileiros era praticamente desconhecido no Brasil. Havia algumas agências (entre Rio e São Paulo) atuando como representantes de agências ou editoras estrangeiras, mas agente de autor nacional, que eu saiba, havia apenas um outro escritório. Hoje o quadro é um pouco diferente, mas ainda não temos um número significativo de agências para autores brasileiros. Os anos iniciais foram, de fato, muito desafiadores. Havia um forte estranhamento do mercado com relação à figura do agente literário, mas esse não foi o único percalço nem o mais difícil. Navegar durante os tempos de hiperinflação foi uma aventura, além do mais, o trabalho dependia de máquinas de escrever, fax, controles feitos à mão… Não havia internet para ajudar na gestão do negócio, os manuscritos eram datilografados e mandados pelo correio, livros idem. O volume de material que chegava e saía da agência via correio era tão grande, que chegamos a ser a empresa que mais recebia pacotes dos correios de Ipanema (onde a agência estava situada na época), mesmo ocupando apenas uma pequena sala comercial. Confesso que olhando para trás, me surpreendo que tenha sido possível chegar até aqui.

  1. Você pode ser considerada uma das pioneiras do agenciamento literário profissional no país. Sentia esse pioneirismo na prática? A Agência Riff nasceu num momento em que o mercado ainda era mais restrito. O que mudou nesses 35 anos?

Nossa agência foi uma das pioneiras por aqui, e acho que dava, sim, para sentir esse pioneirismo, dado o grau de desconhecimento do mercado. Não me refiro unicamente à falta de outras agências ou à falta de traquejo das editoras em lidar com agentes e não direto com os autores, mas sobretudo ao desrespeito aos direitos autorais, infelizmente, muito comum na época. Hoje o quadro é outro, sem qualquer sombra de dúvida.

  1. A Agência Riff representa cerca de 180 autores e autoras brasileiros. Entre eles, nomes canônicos e contemporâneos. Como você vê essa convivência?

Sempre sonhei em ter uma agência plural – com grandes nomes, claro, mas também com autores mais jovens, ou não necessariamente jovens, mas que começaram a escrever mais tarde, com autores de diversos cantos do Brasil, variadas origens e estilos. Não é simples lidar com um grupo tão diverso e tão grande, mas tentamos estar sempre o mais próximos de todos, sempre disponíveis. Ao longo dos anos colecionamos amizades, parcerias duradouras, sucessos e histórias bem bonitas, mas também tivemos nossa cota de decepções.

  1. Nos últimos dez anos, houve uma ampliação considerável da presença feminina nos catálogos e nas listas de mais vendidos. Como você enxerga esse movimento?

Vejo com alegria e com alívio. Tempos atrás, ouvimos de uma pessoa, durante uma reunião, que esse crescimento da presença feminina no mercado editorial seria uma moda passageira, que as coisas logo voltariam a ser como eram. Foi obviamente um comentário risível (e completamente equivocado), mas acredito que muita gente tenha pensado o mesmo. A força da literatura escrita por mulheres é inegável e só aumenta.

  1. O 8 de março é uma data simbólica. O que significa celebrar essa trajetória nesse contexto?

Para quem se lembra da época em que os prêmios eram todos para autores do gênero masculino, os convites e os livros na lista dos mais vendidos também e a literatura escrita por mulheres era vista como um gênero menor, é, sem dúvida, motivo para grandes celebrações!

7. Com a equipe feminina da Agência Riff celebrando o encerramento de 2025; 8. Um clássico de fim de ano: equipe reunida para celebrar a união; 9. Fechando o ano de 2025, ao lado das agentes literárias Eugênia Ribas-Vieira e Julia Wähmann; 10. Em família: com a mãe Anna Margarida (Maguy), o marido Roberto e os filhos Laura e João Paulo Riff; 11. Agentes literários reunidos na abertura da Bienal do Livro Rio de 2023; 12. zoom com a equipe da Agência Riff em 2020, durante a pandemia.


  1. Como funciona, na prática, o trabalho da agência nas grandes feiras internacionais, como Frankfurt, Bolonha e Londres?

As feiras são grandes oportunidades para encontros presenciais com editores e agências literárias de todo o mundo. Passamos o ano entre e-mails e eventuais reuniões por Zoom: nas feiras os encontros são ao vivo, em reuniões de 30 minutos, marcadas com grande antecedência. É o momento de rever tendências e pensar no que pode interessar para uns e outros. Ouvimos cada editora ou agente e apresentamos nossos catálogos, mas também podemos revisitar livros do backlist. É um momento maravilhoso para abrir novas frentes, conhecer novos colegas e rever os antigos.

  1. A Agência Riff trabalha com diversas editoras e agentes literários internacionais. Como funciona essa dinâmica? Como avalia o diálogo entre o mercado editorial brasileiro e os principais mercados globais?

A Agência Riff funciona em duas frentes principais: como agência literária para autores brasileiros, atuando como agência primária, ou como coagentes de editoras e de agências literárias estrangeiras. Como coagentes, temos clientes em diversas partes do mundo e trazemos para o Brasil (e, em alguns casos, também para Portugal) projetos e lançamentos e catálogos internacionais. As edições brasileiras de livros estrangeiros são muito valorizadas pela qualidade editorial, capas e resposta do público: motivo de muito orgulho para nós.

  1. Muitos autores e autoras brasileiros desejam publicar no exterior. Essa ainda é uma questão delicada? Quais são os principais entraves para a literatura brasileira no exterior?

Nos dedicamos intensamente à venda dos nossos livros no exterior. É um trabalho diário, constante, intenso – e muitas vezes frustrante. Os resultados têm sido bons, cada vez melhores, mas ainda muito aquém do que nossos autores desejam e merecem. Temos coagentes nos ajudando em muitos territórios, participamos de feiras internacionais, preparamos catálogos e newsletters e estamos em contato direto com um número expressivo de editoras estrangeiras e tradutores do português para as mais diversas línguas. Temos as bolsas de tradução para ajudar no processo, e isso é maravilhoso, mas os editais da Biblioteca Nacional acontecem só uma vez por ano. De todo modo, o número de bolsas concedidas tem sido alto. Eu diria que um dos grandes entraves é termos que traduzir todo e qualquer texto enviado para o exterior, exceto Portugal, naturalmente. São raros os editores que leem o português. Por isso, todo o trabalho é feito com material traduzido (capítulos, sinopses, bios, resenhas…), o que é longe do ideal. Uma vez que os livros são lançados lá fora, a dificuldade é conseguirmos que os autores sejam convidados para eventos literários, uma vez que são altos os custos do deslocamento. Muitos contratos são feitos com editoras menores, de nicho, que focam em literatura internacional. São casas ótimas, mas com menos recursos. Em resumo, estamos indo bem, mas ainda temos muito a conquistar.

  1. Recentemente, a Folha de S. Paulo publicou a matéria “Por que a literatura brasileira não deslancha no exterior?”. Como você avalia esse questionamento?

A matéria está muito boa e resume bem a dificuldade de levarmos nossa literatura para fora. Acredito que o aumento do interesse no cinema brasileiro trará um novo olhar para a nossa literatura. É como se o Brasil agora estivesse no mapa, de fato, não apenas pela música e futebol, mas também pela dança, pelo audiovisual, pelas artes plásticas, pelos esportes, de modo geral, pela natureza e também, pouco a pouco, pela literatura.

  1. A agência representa nomes fundamentais da literatura brasileira, como Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Erico Verissimo, Luis Fernando Verissimo, João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna. Num país que pouco valoriza a memória, como manter essas obras vivas?

E ainda citaria Mario Quintana, Manoel de Barros, Moacyr Scliar, Marina Colasanti, Lya Luft, Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu, Millôr Fernandes – entre outros nomes igualmente queridos, um elenco que muito me orgulha, sem a menor dúvida. O trabalho das famílias é fundamental – herdeiros que conhecem bem as obras, que estão bem organizados, que trabalham em parceria com a agência fazem toda a diferença. E, claro, contar com boas editoras, que entendem a importância do legado dos autores, que mantêm as obras vivas, bem divulgadas e disponíveis.

  1. A Agência Riff também tem forte presença na literatura infantil e juvenil. Como está esse mercado no Brasil? Houve grandes transformações também nesse segmento?

É um mercado difícil para as editoras, já que exige investimento pesado em divulgação escolar, vendas para programas de governo, para prefeituras, para bibliotecas – sem contar as livrarias, claro. Mas é também muito gratificante. Temos autores e ilustradores no Brasil excelentes; e muitas editoras, entre grandes e pequenas, fazendo um bonito trabalho. A essa altura, esse comentário já soa meio “velho”, mas podermos trabalhar com arquivos digitais e publicar livros ilustrados a quatro cores sem maiores dramas, foi uma conquista espetacular do setor. Nos nossos primeiros tempos de agência, as imagens viam em fotolitos físicos, imensos, pesados, de difícil manipulação e transporte. Vi muitas editoras limitando o número de cores para que um projeto se tornasse viável.

  1. A equipe da agência conta com 14 pessoas, e a maior parte dos profissionais que atuam diretamente no agenciamento é formada por mulheres. Como você avalia essa presença feminina?

A equipe da agência está equilibrada: somos 8 mulheres e 6 homens. O agenciamento de autores nacionais é feito por um grupo 100% feminino: Eugênia, Julia, Miriam e eu. Já o agenciamento dos clientes estrangeiros, é feito por um grupo misto: Laura e Camila, João Paulo e Roberto. Trocamos mil ideias o tempo todo e nos ajudamos muito internamente. Então, ainda que haja uma certa predominância feminina, o trabalho é de todos, somado aos demais colegas, Claudio, Emídio, Rafael, Célia, Sandra e Nilton. Se olharmos para as agências literárias em atuação no Brasil, sim, a predominância é de mulheres, mas no exterior temos muitas agências tocadas por homens ou times mistos, idem nas editoras (tanto no Brasil, como fora).

  1. Ao completar 35 anos de atuação no mercado editorial, qual balanço você faz da trajetória da Agência Riff? Poderia nos indicar alguns momentos marcantes?

Essa é uma pergunta difícil… a agência me trouxe amigos incríveis, muitas histórias, muitas realizações das quais me orgulho, muitos momentos bacanas, além de um número infinito de contratos, autorizações, acordos, negociações, reuniões, viagens, conversas… O saldo é muito positivo, mas nem todos os projetos foram para frente, nem todos os relacionamentos valeram a pena. Como as bolas de cristal seguem em falta, vou continuar apostando e acreditando nos autores, nas editoras. Sobre os momentos marcantes, eu citaria apenas um: a mudança para nosso escritório próprio, no Centro do Rio (com vista para a Baía da Guanabara), no início de 2009. Trabalhamos todos juntos, somando esforços com a turma da mudança, a vizinha veio nos trazer sanduíches e água… foi uma aventura maravilhosa, e que mudou radicalmente a trajetória da agência.

  1. O que você projeta para o futuro?

Desejo que a agência siga se modernizando, investindo na qualidade do nosso trabalho junto ao mercado editorial. Em um mundo que muda sem parar (em todos os sentidos possíveis), é um desafio se manter relevante e atual a cada momento.

13. Na Feira de Frankfurt de 2019 com os agentes literários Camila Marandino, João Paulo Riff e Laura Riff; 14. Em 2025, na entrega do troféu de Contribuição ao Mercado Editorial da 9ª edição do Prêmio PublishNews; 15. capa do jornal Estadão em 2021 nos 30 anos da Agência Riff; 16. Em meio aos títulos internacionais representados pela Agência Riff; 17. Em 2009, um do marco dos novos tempo da Agência Riff: a mudança para o Centro do Rio; 18. Lucia Riff no antigo escritório da Agência Riff, em Ipanema.


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