
Autora fala sobre crise climática, escrita para o público jovem e a construção de futuros entre o colapso e a esperança
A escritora Mariana Brecht acaba de lançar Cyber PANC e só Zé: O resgate de um superpoder pifado e outras caraminholas, pela Escarlate, selo juvenil da Companhia das Letras. Voltado a leitores a partir dos nove anos, o livro é uma ficção climática que aborda a crise ambiental com leveza, humor e imaginação, sem abrir mão da complexidade.
Na trama, Zé e seus amigos embarcam em uma aventura digital para resgatar um superpoder perdido, enquanto descobrem as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e reinventam formas de viver, comer e se relacionar com o mundo.
Bióloga e atenta às transformações do clima, Brecht constrói narrativas que recusam tanto o pessimismo absoluto quanto o tecnossolucionismo, propondo futuros possíveis: coletivos, sustentáveis e profundamente humanos.
Confira a entrevista:
1. Em Cyber PANC é Só Zé, você cria uma São Paulo distópica onde as formas de viver e se alimentar foram radicalmente transformadas. O que te atrai em imaginar futuros possíveis, e, muitas vezes, inquietantes? A distopia aparece também no seu trabalho anterior. Existe, para você, um fio condutor entre essas histórias?
A crise climática faz parte do meu projeto literário, de pesquisa, mas também de vida e cotidiano. E isso tem suas raízes ali na minha própria ansiedade climática: esse sentimento de ver, perceber que os eventos climáticos estão cada vez mais frequentes, de que a biodiversidade está sempre se perdendo, de que o clima não se comporta mais como antes. Para dar sentido a esse futuro, que fatalmente será afetado pela crise climática e por seus eventos, eu crio histórias. Mas eu não queria criar histórias que fossem meramente pessimistas ou distópicas. Eu queria criar um futuro no qual as pessoas, como eu, que não são super-heróis, que não são, enfim, excepcionais, pudessem se ver vivas, porque não até felizes. Então, eu penso histórias que superem esse sistema que nos levou até o colapso ambiental e no qual as pessoas vivem em comunidades,no coletivo, que para mim são um dos caminhos de viver entre as ruínas que o colapso climático pode deixar e também superar esse sistema que nos trouxe até aqui. É por isso que nas minhas histórias, tanto no Foi acabar bem na nossa vez (Rocco) quanto no Cyber PANC e Só Zé (Escarlate), eu trato desse futuro no qual as pessoas vivem, se amam e se odeiam. Tudo isso em meio às transformações provocadas pela crise climática,mas que não são cenários completamente distópicos ou completamente utópicos e tecnossolucionistas. Eu quero imaginar uma vida possível dentro da crise climática.
2. Escrever para o público jovem traz desafios e possibilidades próprias. Como foi construir essa narrativa pensando em leitores a partir dos nove anos, especialmente lidando com temas complexos como colapso ambiental e reorganização da vida nas cidades?
Cyber PANC e Só Zé é meu primeiro livro para faixa etária a partir dos nove anos. Eu me encontrei muito escrevendo para esse público, porque acredito que é um tipo de história que permite que você se aprofunde nos temas e os trate com a complexidade que eles pedem. Ao mesmo tempo, você pode escrever com leveza, diversão e irreverência, o que me trouxe muita alegria ao longo do processo. Além disso, poder falar sobre crise climática com irreverência é um privilégio. O tema em si já é tão denso. Eu também venho participando de algumas atividades em escolas, conversando justamente com jovens sobre crise climática, e percebo que eles estão muito atentos a essa questão e conscientes de que isso faz parte do presente e do futuro deles. Eu procuro propor uma abordagem mais gentil e sincera do assunto. Afinal, também não sabemos o que o futuro reserva para a gente, ainda mais em condições tão extremas. É isso que o Cyber PANC propõe, é isso que a minha ficção climática propõe: uma conversa franca sobre o futuro, abordando todos os sentimentos que fazem parte dessas incertezas de projetar um futuro em meio a profundas transformações climáticas.
3. A questão ambiental atravessa o livro de forma muito concreta: no modo como os personagens se relacionam com o alimento, o território e a sobrevivência. Que tipo de reflexão ou sensibilidade você gostaria de despertar nos leitores com essa história?
Minha grande ambição, com o Cyber PANC, mas também com o Foi acabar bem na nossa vez e todo o meu projeto literário, é provocar a imaginação de outros futuros possíveis e, portanto, a prática desses futuros já no presente. Então, como é que a gente imagina um futuro tomado pela crise climática, no qual a gente sobrevive e tem uma vida que pode ser, por que não, alegre? A meu ver, isso passa por formar comunidades, viver em comunidade, ter um contato mais generoso com a Terra, diminuir as nossas relações de consumo, rever a maneira como a gente come. Eu gosto de imaginar futuros no qual tudo isso é colocado em prática, para justamente provocar maneiras distintas de existir no presente.


