
Em seu primeiro romance, Bethânia Pires Amaro entrelaça ficção e história para dar voz a mulheres cujas trajetórias foram marcadas pelas transformações políticas e sociais do Brasil do século 20
Por Rodrigo Batista e Felipe Maciel
Depois de estrear na Editora Record com o premiado livro de contos O ninho — vencedor dos prêmios Sesc de Literatura, APCA e Jabuti —, Bethânia Pires Amaro apresenta seu primeiro romance, Ressalga. Ambientado na antiga Ladeira da Montanha, em Salvador, o livro entrelaça ficção e história para recuperar um território simbólico da cidade e dar protagonismo a mulheres frequentemente apagadas da memória oficial.
Ao acompanhar três gerações da mesma família em meio às transformações políticas e sociais do Brasil de meados do século XX, a autora investiga heranças afetivas, violências silenciosas e os vínculos que atravessam o tempo. Pernambucana radicada em São Paulo, Bethânia retorna, também, às paisagens e às histórias que marcam suas origens familiares na Bahia.
A autora participa da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde integra a mesa “E perdura. Apesar”, na sexta-feira (24), às 17h, ao lado da escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah.
Confira a seguir a entrevista exclusiva da autora:
1 – Em Ressalga, a história recente da Bahia acaba influenciando os rumos das três protagonistas. A trama germinou de algum acontecimento real ou ela foi surgindo e os períodos históricos foram se entrelaçando?
O livro foi sim pensado para ser metaficcional, ou seja, misturar pessoas e acontecimentos reais com aqueles que eram produtos da ficção. Eu queria explorar a geografia e o imaginário da Bahia, além da história da Ladeira da Montanha e suas ruínas, o que necessariamente passava por entender quem eram as mulheres que trabalhavam ali e como elas haviam chegado àqueles cabarés. E compreender o era ser mulher naquela sociedade e naquela época conversa diretamente com o momento político do país. À medida que as histórias de Janaína, Graça e Flora foram me surgindo, os períodos históricos do Brasil — como os anos de chumbo da Ditadura Militar — se entrelaçaram de forma inevitável, porque moldavam a experiência dessas mulheres e as violências que elas sofriam. Para mim ficou claro que a trajetória dessas personagens não poderia ser separada dos traumas e das transformações políticas do nosso país.
2 – Apesar de morar em São Paulo, você morou durante muitos anos em Ilhéus e Salvador. Acredita que ambientar o Ressalga na Bahia é, de certo modo, voltar às suas origens?
Com certeza. A minha família é toda do sertão da Bahia e de Salvador e voltar a esta geografia afetiva tem sido um caminho muito natural para a minha ficção. Acho que ainda há muitas histórias a serem contadas por ali.
3 – Tanto em O ninho quanto em Ressalga, você coloca mulheres complexas no centro da narrativa e investiga as violências que atravessam as relações familiares e as heranças entre gerações. O que mais mobiliza seu projeto literário ao construir essas personagens e essas histórias?
Gosto muito de explorar no meu projeto literário violências que são cometidas entre mulheres de uma mesma família, violências que na maioria das vezes não são vistas assim, que passam como um conselho, um cuidado, uma forma de se ensinar a ser mulher neste mundo. E por isso são violências que se perpetuam ao longo das gerações, passando despercebidas em muitos casos. Em Ressalga especificamente isso se aliou ao fato de que, durante a fase de pesquisa, as mulheres da Ladeira da Montanha constavam apenas nos cantos das biografias de grandes homens, um parágrafo aqui, outro ali, quando elas eram em verdade o coração daquele lugar. Houve um grande apagamento histórico nesse sentido. Por isso fez ainda mais sentido para mim dar voz a essas mulheres e trazê-las para o centro de suas próprias narrativas, sem idealizações ou clichês, mas com a complexidade que têm as mulheres reais, ainda mais as que precisaram desenvolver estratégias de sobrevivência para resistir à violência de seu tempo. O livro não busca trazer propriamente respostas, mas provocar o leitor a levantar perguntas.