21 de julho de 2026

Entre línguas, experimentações e deslocamentos

Em “O lado de lá” e “Quem sabe dançar”, Paloma Vidal investiga as fronteiras entre ficção, memória e experiência, reafirmando uma das vozes mais singulares da literatura brasileira contemporânea

Por Felipe Maciel

Ao longo de sua trajetória, Paloma Vidal construiu uma escrita marcada pelo deslocamento entre países e línguas, a memória e o presente, entre a experiência vivida e sua reinvenção pela literatura. Nascida em Buenos Aires e radicada no Brasil desde a infância, a escritora, tradutora e professora de teoria literária da Universidade Federal de São Paulo transforma essas travessias em matéria narrativa, criando uma obra que transita com naturalidade entre romance, ensaio, diário, memória e ficção.

Na Flip 2026, Paloma apresenta dois novos livros que ampliam esse percurso. Em O lado de lá (Bazar do Tempo), romance publicado originalmente em espanhol e agora lançado no Brasil em tradução da própria autora, uma casa de veraneio em Punta del Este torna-se palco para investigar infância, desigualdade, violência e pertencimento. A partir do olhar de uma menina que vive à margem daquele universo, a narrativa transforma um espaço aparentemente cotidiano em uma poderosa alegoria das relações de poder e das desigualdades latino-americanas.

Já em Quem sabe dançar (7Letras), Paloma reúne textos curtos que transitam livremente entre conto, ensaio, memória, diário, carta e autobiografia. Sem se prender às fronteiras entre os gêneros, o livro faz da interlocução seu princípio de construção. Cada narrativa nasce do desejo de se dirigir a alguém — uma irmã, uma amiga, uma autora admirada, uma amante — e transforma viagens, leituras, traduções, encontros e lembranças em experiências literárias marcadas pelo movimento e pela permanente reinvenção da linguagem.

A autora participa da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde integra a mesa “A saída é a volta”, no sábado, dia 25 de julho, às 10h, ao lado do escritor guatemalteco Eduardo Halfon, com mediação de Gabriela Mayer.


Confira a seguir a entrevista exclusiva da autora:

1. Em O lado de lá, você transforma uma casa de veraneio em Punta del Este em um espaço onde convivem infância, desejo, violência e desigualdade. Escrito originalmente em espanhol e publicado agora em português, o romance parece olhar para o Brasil a partir de certa distância. De que maneira esse deslocamento — entre países, línguas e perspectivas — foi importante para a construção do livro?

Desde que comecei a pensar nesse livro, eu queria que acontecesse no Uruguai, porque esse país, que eu visitei algumas vezes, já é um deslocamento dos meus cenários mais familiares, a Argentina e o Brasil, e ao mesmo tempo sinto em relação a ele também muita proximidade, linguística, cultural, histórica. Além disso, é um espaço geograficamente entre esses outros dois países, o que não deixa de ser interessante e sugestivo, um país territorialmente menor, que teve que se virar para sobreviver entre esses dois países dominantes. Há muitos aspectos, então, que me interessavam nessa escolha por Punta del Este, que, por sua vez, dentro do Uruguai, tem um lugar muito peculiar, por ser um destino turístico tanto para brasileiros como para argentinos, que foi se elitizando muito, sendo transformada numa mistura de Miami com Las Vegas, mas que também resiste a essa colonização.

Essa ideia de resistência me interessava particularmente. É um livro sobre violência e desigualdade, mas é também um livro sobre a revolta, sobre sair do lugar no qual querem nos colocar, resistir ao que querem impor sobre nossos corpos, especialmente no caso das mulheres. Eu sinto então que um dos aspectos mais importantes para mim não era tanto a distância, mas como produzir uma proximidade desses corpos frágeis, o que eu só consegui quando encontrei a menina e o cachorro, e me encantei pela possibilidade de escrever a partir do olhar deles.


2 – O título Quem sabe dançar parece sugerir movimento, como algo em trânsito. Ao longo do livro, as fronteiras entre memória, ensaio, ficção e autobiografia se tornam cada vez mais fluidas. Como esse trânsito entre formas e gêneros foi se impondo durante a escrita?

Diferentemente de O lado de lá, Quem sabe dançar é um livro de textos escritos independentes um do outro, em situações muito diferentes, como em geral acontece com um livro de contos. Desde que escrevi “Ensaio de voo”, publicado primeiro como um pequeno livrinho pela editora Quelônio, em 2017, entendi que esse tipo de texto que se dá a partir de uma situação real e concreta, em geral envolvendo algo que tem a ver com minhas leituras, meu trabalho, meus deslocamentos, me abria muitas portar para a ficção, para sair de mim, para me movimentar, mesmo se continuasse a trabalhar com algumas referências e vivências que me são muito próximas.

Assim, mesmo muito diferentes, eles têm um procedimento comum que tem a ver com escrever como quem está com os leitores e leitoras na sua frente, como se eu dissesse para elas “eu estou aqui, fazendo isso”, dando uma aula, escrevendo num voo, traduzindo um livro, mandando um áudio, que, por outro lado, são todas situações em que a relação com o outro é central. A partir daí se inicia a viagem narrativa, descrevendo essa situação, contando o que sinto, o que imagino, e me deixando levar, me liberando de mim mesma, do que vivi realmente. Eu diria, então, que o que me interessava de saída era mais a busca por um jeito de começar a contar uma história, e esse jeito que encontrei tem como uma de suas consequências essa mistura de formas e gêneros.


3 – Ao longo da sua trajetória, sua escrita foi frequentemente associada ao deslocamento, entre a memória e o presente, entre a experiência vivida e sua reinvenção pela literatura. Como você enxerga esse olhar sobre sua obra? Ainda faz sentido pensar o deslocamento como o centro do seu projeto literário?

Talvez seja possível dizer que o deslocamento é uma condição existencial minha, ser brasileira e argentina, argentino-brasileira, viver entre essas duas línguas, duas culturas muito próximas e, também, em alguns sentidos quase opostas. É uma condição que isso tenha se dado por causa de uma história terrível como a ditadura argentina iniciada há 50 anos. Então não é qualquer deslocamento. É uma situação que tem algumas limitações e muitas possibilidades. Isso foi o que escrever me fez ver. Comecei a escrever por causa dessa condição, mas só entendi realmente o que era isso escrevendo. A literatura surgiu como uma possibilidade de definir um lugar, como quem traça algumas linhas, meio caóticas, movediças, mas que são um guia: aqui me situo, aqui posso viver, sobreviver, me relacionar com as pessoas.

Agora, eu fui experimentando formas de fazer literatura com essa matéria de vida que são novas a cada vez – novas para mim, quero dizer. Cada vez que quero começar um texto, que imagino um livro, aí é preciso voltar a encontrar o sentido, que nunca está dado por um “projeto literário”, que num certo sentido não existe. O que existe é essa condição, e um desejo forte mas também frágil, como a vida mesma, de continuar escrevendo, tendo prazer nisso, querendo me relacionar com o mundo a partir dessa experiência.


Share

Outras Notícias

Entre línguas, experimentações e deslocamentos

Em “O lado de lá” e “Quem sabe dançar”, Paloma Vidal […]

leia mais
Mateus Baldi investiga o legado de Transa, álbum fundamental de Caetano Veloso

Por Felipe Maciel e Rodrigo Batista Depois de organizar a antologia […]

leia mais
Memória, território e mulheres no centro da narrativa

Em seu primeiro romance, Bethânia Pires Amaro entrelaça ficção e história […]

leia mais