
Por Felipe Maciel e Rodrigo Batista
Depois de organizar a antologia Vivo muito vivo: 15 contos inspirados nas canções de Caetano Veloso (José Olympio), a escritora Mateus Baldi retorna ao universo do compositor baiano por outro caminho. Em Transa, novo volume da coleção O livro do disco, da Editora Cobogó, a autora mergulha na história de um dos álbuns mais importantes da música brasileira, lançado em 1972 durante o exílio de Caetano Veloso em Londres.
Partindo de uma pesquisa iniciada no mestrado, Baldi investiga os bastidores da gravação do disco, o contexto político e cultural do exílio, a convivência de Caetano com músicos como Jards Macalé e Angela Ro Ro e a forma como o deslocamento, a língua inglesa e a mistura de referências musicais moldaram canções que se tornaram clássicos, como You Don’t Know Me e Triste Bahia. O ensaio revela como Transa ultrapassa a condição de álbum histórico para permanecer como uma obra viva e continuamente reinterpretada.
Autora de Os anos de vidro (nós), vencedor do Prêmio APCA 2026 na categoria Contos, e de Formigas no paraíso (Faria e Silva), Mateus Baldi vive um momento de reconhecimento em sua trajetória literária. Além do lançamento de Transa, a escritora estreia este ano na programação oficial da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participa da mesa “Nunca crer no que não canta”, ao lado de Leonardo Gandolfi.
Na entrevista a seguir, Mateus Baldi fala sobre a pesquisa que deu origem ao livro, o diálogo entre ficção e ensaio em sua obra e como revisitar Transa transformou também sua maneira de ouvir um dos discos mais emblemáticos da música brasileira.
Confira a seguir a entrevista exclusiva da autora:
1. Você já havia organizado uma antologia de contos inspirada na obra de Caetano Veloso. Em Transa, porém, você deixa a ficção para mergulhar no ensaio. Em que momento percebeu que esse disco merecia uma investigação mais profunda? O que havia em Transa que ainda precisava ser contado?
Essa pesquisa surgiu no mestrado, e Transa, por todo culto ao seu redor, me pareceu um bom objeto de pesquisa. Eu sempre gostei do disco, mas tinha curiosidade em descobrir mais a seu respeito, os bastidores, o clima da gravação. Foi esse desejo que me motivou a pesquisar e a escrever a dissertação que se transformou no livro.
2. Lançado em 1972, Transa é um álbum profundamente influenciado pela experiência do exílio, pela mistura de referências musicais e por um contexto histórico muito específico. Como foi equilibrar a escuta apaixonada de uma admiradora com o olhar analítico exigido por um ensaio? Ao final da pesquisa, sua maneira de ouvir o disco mudou?
Mudou porque, sabendo das histórias e tendo uma visão panorâmica, as canções me pareceram ganhar muito mais em profundidade. Ficaram ainda mais ricas. E acho que essa visão panorâmica guiou a escrita do ensaio, também. Mas claro que é uma força diferente de um conto, por exemplo.
3. No ano passado, você publicou Os anos de vidro, vencedor do Prêmio APCA de 2026, e agora estreia na programação oficial da FLIP. Como você enxerga este momento da sua trajetória literária? De que forma a ficção e a não ficção dialogam dentro do seu projeto como escritora?
É um momento muito bom, fico muito feliz com o reconhecimento da APCA e o convite para a Flip. Acho que a ficção e a não-ficção convivem, até aqui, harmonicamente, são jeitos diferentes de pensar o texto, mas a pessoa que escreve é a mesma, então é como se fosse uma separação que retorna a um ponto de contato muito firme.