9 de abril de 2020

Rodrigo Lacerda fala sobre O fazedor de velhos 5.0

Rodrigo Lacerda retorna à ficção longa com O fazedor de velhos 5.0


Por Felipe Maciel

“A vida mistura nossos desejos e frustrações até uns sumirem nos outros, como faz uma batedeira aos ingredientes da massa de bolo. Impossível escapar de suas pás giratórias e velozes.”

Mais de uma década depois da publicação do premiado romance de formação O fazedor de velhos, Rodrigo Lacerda retoma a história de Pedro em O fazedor de velhos 5.0, ambos publicados pela Companhia das Letras. Se no livro anterior o personagem se vê diante do início da vida adulta e dos desafios enfrentados  nesse período, o protagonista encontra-se, nesta sequência, prestes a completar 50 anos. Boa parte da maturidade já transcorreu e, como acontece a qualquer pessoa, Pedro também já acumula um punhado de tristezas e fracassos.

Seu casamento com Mayumi deixou marcas e feridas e seus três filhos vivem, cada um, seus próprios dilemas e suscitam preocupações. É sobre esta etapa da vida de balanços e reavaliações que o escritor nos propõe, com sensibilidade, refletir em seu retorno à ficção longa. Afinal, como diz o personagem logo nas primeiras páginas do livro “cada indivíduo atrai uma fatalidade específica; cada trajetória é afetada conforme sua necessidade. Conscientes ou não, provocando-o ou não, precisamos viver o que vivemos.”

Residindo atualmente nos Estados Unidos, Rodrigo respondeu por e-mail três perguntas sobre o lançamento e falou de alguns temas que norteiam a obra, como a maturidade, a relação entre pais e filhos e a passagem do tempo em nossas vidas. Confira!

1 – Em O fazedor de velhos 5.0, Pedro, o protagonista do romance, está prestes a completar 50 anos e faz um balanço da maturidade, quando, como diz o próprio personagem, “já acumulamos um punhado de tristezas e fracassos”. Você também chegou recentemente aos 50 anos e há ainda outras semelhanças entre você e seu protagonista, como o fato de ambos serem escritores. A sua avaliação com relação à maturidade se aproxima com a do personagem? Qual o seu ponto de vista com relação a esta etapa da vida?

Acho que o Pedro também tem motivos de orgulho na vida dele. Um novo trabalho, do qual ele gosta, amigos fraternos e, claro, os filhos. Embora seja verdade que ele carrega as cicatrizes naturais de quem chega aos 50 anos, o que ele diz é que, em perspectiva, alegrias e tristezas se misturam numa coisa só, a vida, e se equivalem. Por isso o tom do Pedro de narrar é alegre, apesar das tristezas, o livro é alegre.

No meu caso, sofri menos ao fazer 50 do que 40, e já achei isso um progresso! (hahahaha) Mas acredito, sim, que aprendemos mais com os erros do que com os acertos. É a compensação por tê-los cometido. E, pensando assim, você fica com menos medo de errar, o que é bom também.

2 – Seu novo livro é uma sequência do bem-sucedido O fazedor de velhos, romance de formação que narra a entrada do protagonista na vida adulta. O texto de apresentação da obra, entretanto, sinaliza que a compreensão do novo romance prescinde do anterior. O personagem é outra pessoa, transformada pelo tempo? Somos, cada um de nós, um personagem distinto a cada etapa de nossas vidas? O que há do jovem Pedro, do primeiro romance, que ainda permanece no de agora?

O núcleo de personagens do primeiro livro está, com alterações, presente no segundo. Então, claro que há continuidades para quem ler os dois. Não somos pessoas diferentes no passado, no presente e no futuro, muito pelo contrário, vivemos ao mesmo tempo as três coisas, pois o que fomos influencia o que somos, e as duas coisas estão sempre moldando o que seremos. Tudo isso acontece dentro de nós a cada instante, e é assim com os personagens. Mas o leitor não deixa de entender a história do segundo livro, não fica impossibilitado de se relacionar com o Pedro e a Mayumi, caso não tenha lido o primeiro. Eles podem ser lidos em conjunto, porque têm continuidades, e também podem ser lidos de forma independente.

No caso do Pedro, sem dúvida que ele está transformado pelo tempo. Sofreu, aprendeu, mas viveu e ainda vive coisas boas, tocando a vida com alguma leveza. Assim como o vejo, no primeiro livro ele começava angustiado e terminava mais tranquilo, mais sábio e feliz, enquanto agora acho que ele começa meio duro, com a sabedoria adquirida meio enferrujada, e vai aos poucos reencontrando a antiga flexibilidade, a antiga fluência.

3 – Pedro mantém com cada cada filho relações e inquietações distintas. Poderia falar sobre essa relação entre pais e filhos e o que as diferencia? Somos um pai ou uma mãe diferente para cada filho? Uma das coisas que mais me deixou satisfeito no livro novo é justamente a relação entre o Pedro e os dois filhos menores, Estela, de 19 anos, e André, de 11. Acho que ficou espontânea, muito natural, fluente etc. Mas, para que isso fosse assim, era preciso criar tensões entre eles. Afinal, uma relação entre pai e filho que não tenha algum tipo de tensão pode até existir, embora eu não conheça nenhuma, mas não é verossímil. Então cada filho tem o seu “drama” particular, no qual o pai tenta ajudar até onde pode, e ao qual ele reage da maneira que pode. Sobretudo na relação com Estela, a política é motivo de tensão. Não acho que sejamos um pai diferente para cada filho, não chego a tanto. Eu diria que com cada filho desenvolvemos uma relação específica.


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