5 de junho de 2020

50 anos de Verissimo


Por Marcelo Dunlop

Pergunte a Luis Fernando Verissimo como e por que ele se tornou um escritor, há 50 anos, e você terá três tipos de resposta: 

A filosófica: “Escrevemos para recordar a verdade. Quando inventamos, é para recordá-la mais exatamente.” 

A psicológica: “Escrever é um modo de organizar meu pensamento. Muitas vezes eu descubro o que penso sobre determinado assunto quanto começo a escrever sobre aquilo. É uma maneira de botar as ideias para fora.” 

A política: “Cada livro, cada frase, cada palavra e eu diria até cada vírgula e cada ponto é um exercício de liberdade.” 

E, claro, a prática: “Um amigo do meu pai me convidou para um teste no jornal ‘Zero Hora’. Fiz de tudo na redação até que o cronista Sergio Jockyman saiu e me convidaram a assinar uma coluna no lugar dele. Depois dos 30 anos, descobri uma vocação. Cronista.” 

Foi assim, portanto, naquele, hoje, histórico 19 de abril de 1969 que o tímido filho de Erico Verissimo começou a pôr para fora ideias, histórias e personagens. A primeira coluna, “Entrando em campo”, falava do time do Internacional de Porto Alegre, e abria com frase profética: “Pues, vamos nós.” Um “vamos nós” que não parou mais, com meio século de crônicas publicadas nos principais jornais e revistas do país.

Com sua capacidade de concisão e o humor ímpar, Luis Fernando entrou para o debate público em plena ditadura militar, passou pela redemocratização e viveu a revolução digital que transformou profundamente a comunicação e o jornalismo. E mantém, até hoje, coluna nos principais diários do país, onde escreve sobre esses nossos tempos (e que tempos!). Hoje, mais de cinquenta anos depois daquele início despretensioso, Verissimo lança, ainda sem pretensões, o seu 87º livro, Verissimo antológico – meio século de crônicas (ou coisa parecida), pela Editora Objetiva.

O subtítulo da antologia, por sinal, remete ao seu primeiro livro, “O Popular – Crônicas, ou coisa parecida”, lançado no ano de 1973. A nova coletânea traz o melhor da ficção de Verissimo, ainda que não inclua seus clássicos personagens. Afinal, a Velhinha de Taubaté, Ed Mort, Dora Avante e o Analista de Bagé merecem uma antologia à parte. 

São 300 crônicas com cara de contos, ou contos com cara de crônicas, com temas recorrentes na obra de LFV, como recriações históricas, passagens bíblicas, relacionamentos amorosos, paródias de tramas policiais, flagrantes do dia a dia, a mística do futebol, o prazer da comida, a linguagem, as palavras e as reflexões sobre a condição humana. Alguns deles, inéditos há mais de 30 anos.


Para o leitor que ficar na dúvida sobre o que caracteriza uma crônica, um conto ou algo parecido, o próprio Verissimo pode vir explicar: 

“A discussão sobre o que é, exatamente, crônica é quase tão antiga quanto àquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos da literatura assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha a zoólogos, geneticistas, historiadores, e (suponho) o galo – mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você”.

Como se lê, a intenção de “Verissimo antológico” é o de resgatar, relembrar e celebrar esse formidável cronista, que nos brinda com sua ironia e talento há cinco décadas, sem parar de nos fazer rir.

Marcelo Dunlop é jornalista e leitor do Verissimo desde os seis anos de idade.


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